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  • Santana do Ipanema, 06/04/2026
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Marcelo Ricardo Almeida

Haicais para alunos do quarto ano do ensino fundamental

Proposta pedagógica destaca o uso de versos curtos e imagens da natureza para introduzir alunos ao universo da poesia

Foto: Assesoria
Haicais para alunos do quarto ano do ensino fundamental

Ensinar poesia no quarto ano do Ensino Fundamental, antes de ensinar cordel, ensinar haicai. Trazer à sala de aula, como laboratório da Pedagogia, a realidade desmontável e remontável, e a literatura como disciplina no Ensino Fundamental cujo início é com a poesia na escola. 

Para existir, poesia não depende do poema. Este depende daquela quase sempre. Poesia é linguagem lírica. Poema é gênero literário.

Encontra-se no livro “Poética” de Aristóteles o que se sabe sobre gêneros lírico (a subjetividade do eu em versos), épico (o narrativo) e o drama (para teatro por meio de diálogos).

Há diferentes tipos no gênero literário poesia, a exemplo de haicai.

Soneto é um tipo de poema fixo, cordel, balada, trova, versos livres, sátira, ode, elegia, acróstico, poesia concreta, caligrama, epigrama, écloga, vilanela, gazal, cinética cujas palavras ganham cor e formas, poema-processo, tipograma entre outros. Escrevi “O jazz não tolera o jaz” como exemplo de poesia gráfica ou visual.

Haicai, como se sabe, é um dos gêneros de poema japonês que registra imagens 3X4 por palavras em três versos (linhas) com rigor métrico (5-7-5: primeiro com cinco sílabas poéticas, sete no segundo e cinco no último) escrito em 17 sílabas, embora haja também haicai que não obedece a ordem métrica.

Esse gênero de poema (5-7-5) se caracteriza por ser conciso, objetivo, sem rimas e, simplesmente, registra uma das quatro estações. Fotografa o inverno, o verão, a primavera ou o outono, e sem título:

Velho poço d’água

Mergulha um balde vazio

Enche a lembrança.

Como demonstrado no terceto onde estão presentes (hai) brincadeira e (kai) harmonia, com dois versos em redondilha menor, e o segundo é redondilha maior. Cordel utiliza-se da sílaba poética maior (heptassílabos) por óbvio, oração em sextilhas, de fácil memorização, a exemplo do segundo verso no haicai.

Um quadro de haicai encadeado: 

Uma manjedoura

Dezembro ilumina-se

Há luz no estábulo

Pinheiro plantado

No Natal dá presentes

O ano inteiro.


O grilo na palha

Falou ao ver Jesus nascer:

Crucificam Deus.

Como contar as sílabas poéticas? Conta-se até a última tônica. Escansão do primeiro haicai:

U-ma-man-je-dou-ra (5) – A sílaba "dou" é a tônica, portanto a contagem encerra nela.

De-zem-bro-i-lu-mi-na-se (7) – Sinalefa: união da vogal final de uma palavra com a vogal inicial da palavra seguinte formando uma única sílaba poética – a vogal final de "dezembro" se funde com a vogal inicial de "ilumina" em um único som, e este "o" de dezembro e o "i" de ilumina se fundem (elisão: apagamento da vogal final átona de uma palavra quando a palavra seguinte se inicia com vogal). União de "bro" + "i" em uma sílaba sonora. A última sílaba é fraca, e a contagem interrompe a contagem na tônica "-na-" forte desse verso.

Há-luz-no-es-tá-bu-lo (5) – Este "o" de no e este "e" de estábulo se fundem formando sinérese (união de vogais de um hiato dentro de uma palavra) ou elisão (supressão da vogal final átona de uma palavra antes da vogal inicial da palavra seguinte).

Considerando que a contagem de sílabas poéticas difere da silabação gramatical, ou divisão de palavras em sílabas de acordo com a fonética e regras gramaticais, por seguir o som e o ritmo do verso. Escansão do segundo:

Pi-nhei-ro-plan-ta-do (5)

No-Na-tal-dá-pre-sen-tes (7) – A sílaba tônica da palavra "presentes" é sen, e a contagem para em sem, e a sílaba final "tes" é descartada na métrica poética.

O-a-no-in-tei-ro (5) – O "o" de ano e o "i" de inteiro se fundem por elisão, pois ambas são vogais átonas ficando noin.

Escansão do terceiro haicai:

O-gri-lo-na-pa-lha (5)

Fa-lou-ao-ver-Je-sus-nas-cer (7) – A contagem termina na última sílaba tônica do verso “cer” e, sendo a última palavra oxítona, conta-se até a sílaba final. Nesse verso ocorre uma elisão: o encontro da vogal final de "falou" com a inicial de "ao" forma um único som – elisão ou junção de sons vocálicos entre palavras vizinhas.

Cru-ci-fi-cam-Deus (5).

Esse gênero chega ao Brasil nos primeiros anos do século XX, e se torna conhecido com Guilherme de Almeida. Considera-se o século XVII do hacaísta japonês Matsuo Bashō, e é por sua arte que há a influência do haicai. As sílabas poéticas (escansão) deste outro haicai autoral aludem ao nome do poeta (nos primeiros versos) e do significado no último:

Folha andarilha

O mato subiu e baixou

Vento brincalhão. 

Fo-lha_an-da-ri-lha (cinco sílabas): ocorre uma elisão (fusão) entre "folha" e "andarilha". A última sílaba tônica é "ri". O-ma-to-su-biu-e-bai-xou (sete sílabas): a última sílaba tônica é "xou". Ven-to-brin-ca-lhão (cinco sílabas): a última sílaba tônica é "lhão".

Como, pedagogicamente, apresentar aos alunos do quarto ano do Ensino Fundamental o haicai senão com a leitura dos versos: “Folha andarilha/O mato subiu e baixou/Vento brincalhão.” ou de outro poema. Sugerindo que os alunos desenhem a “folha andarilha.” Mostre-lhes talvez a escansão do haicai tradicional (5-7-5) demonstrando com palmas a contagem das sílabas poéticas; interrompe-as na sílaba forte.

Versos breves, lúdicos, visuais, fáceis de memorização. Prossegue-se a aula com questões sobre as imagens para além das linhas (versos). É possível estabelecer um círculo de bate-papo sobre um haicai.

Trabalha-se pedagogicamente a interpretação das imagens. Desenha-se o poço do haicai “Velho poço d’água/Mergulha um balde vazio/Enche a lembrança.”

            Ao ouvir esse poema, você viu um lugar, sentiu algum cheiro, ouviu o som de alguma coisa? Inclui-se no Círculo de Aprendizagem:

a) O que o balde trouxe do poço?

b) Água ou memórias havia no poço?

c) Quais memórias você encontraria no poço?

d) Por que o poço é velho?

e) Como você imagina o formato do balde?

f) Onde ficava o poço?

g) O poço já existia?

h) Quem trouxe o balde ao poço?

i) O poço tem dono?

j) Em que época do ano o balde foi ao poço?

Convida-se a turma do quarto ano do Ensino Fundamental a sair da sala, revisitar lugares na escola acompanhada pela aprendizagem desse novo gênero de poema. Motiva-se à sala a ser caçadora dos instantes, fazer retratos 3X4 da natureza no entorno da escola.

O encadeamento dos haicais “Estações.”

Novos tempos

Caem as folhas

Arrasta o vento.


Frio na árvore

Nunca permite

Dormir a casa.


Acasalamento

Dançam flores

Louva-a-deus.


E haja zumbido

Nesse silêncio

Velho mosquito.

Nesse encadeamento estão presentes o outono, o inverno, a primavera, o verão. Apresenta-se aos alunos, no Círculo de Aprendizagem, como observar o momento, a luz, a vida presente na natureza.

Cada momento observado gera uma linha, diferente da prosa escrita em parágrafos, um verso curto, sem metáfora. Escreve no caderno mais dois versos.

A exemplo do cordel, os alunos ilustram o haicai com xilogravura. Bandeja de isopor (ao invés de madeira), folhas A6, tinta e pincel, desenha-se uma folha carregada por uma formiga, por exemplo; na folha de isopor extraída da bandeja, escreve-se alguma informação com uma caneta sem perfurá-la, os contornos na folha definidos recebe a tinta na cor escolhida, cria-se a matriz para impressão.

Com haicais ilustrados, os alunos do quarto ano do Ensino Fundamental experimentam unir estes dois gêneros: oriental (haicai) e ocidental (cordel). Cria-se a sequência didática organizada em torno do gênero textual poesia.

Propõe-se a exposição do resultado da aprendizagem com os haicais em cordéis, distribuídos nos espaços escolares. Considera-se avaliação processual.

a) Qual é a estrutura do haicai?

b) como resumir uma imagem da natureza em três versos?

A imagem no haicai indica o que é concreto. Como a formiga, a folha, uma árvore, um poço, um balde. Espera-se do aluno que poetize o cotidiano. Não se espera que obedeça à métrica no início, porque a aprendizagem é sempre lenta e gradual, heterogênea e dialógica.

Para compor hai-kai,

Hein, Dr. Filólogo,

Usa-se kai ou cai?


O drama humano

É tipo circo romano:

Bem tragicômico.


Tilintar moedas

Em ouvidos avarentos

Corrói firmamento.


Classes prosaicas

Vão legiões ao teatro

Juntar talvez cacos.


Pobre lavadeira

Bate as roupas na pedra,

Sai som de ameba.


No mato o caçador:

Pouh! Pouh! atira a esmo;

Cai disco voador.


As damas de copas

Traem reis de espada com

Valetes de paus.


Dona Gramática,

E na escola ignoram

A Matemática?


Chuá! faz a chuva...

Olha a enchente aí, gente!

Não. água na telha.


Olhem na vidraça,

Que lá fora anda a vida

Repleta de graxa.






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