Marcelo Ricardo Almeida
Como Localizar o verbo?
O Sr. Verbo de Elocução observava o domingo chegar à praça que ali havia antes da pergunta: "Cadê a praça daqui?"
– Como sofreu essa senhora! – disse durante o trabalho do engraxate, que lhe corria as escovas, logo em seguida a flanela. O Sr. Verbo de Elocução passava a vista nas opiniões sem fatos correndo em uma fila interminável nas redes entre seus polegares. Caçava nos bolsos as últimas moedinhas que comprassem o tempo de quem estava por trás da caixa de trabalho. As moedinhas reclamavam, porque não queriam deixar as algibeiras do Sr. Verbo de Elocução.
Na sala de aula, o riso dela era uma expressão de nojo. Uma careta, uma inclinação de cabeça, um puxão no canto da boca, um comentário azedo:
– Naquela praça estavam Onde, Aonde e o Relativo Universal; este veio à praça, na manhã de domingo, em lugar do cansado Pronome Relativo, Que Não Sei das Quantas. Onde não sabia se ficava, Aonde não sabia como ir e o Relativo Universal comia tapioca com coalho. O relógio da Matriz os observava com a paciência do tempo, e os números em algarismos romanos davam o tempero. Os segundos tropeçavam nos minutos e as horas não viam o tempo mandá-los embora.
– Bora, bora! – insistiam Onde e Aonde, mas o Relativo Universal não se desgrudava da pedra quente da tapioca.
O grilo subiu numa caixa de tomates vazia e disse:
– Cri-cri-cri! Quem sou? Cri-cri-cri!
Uma abelha sentou-se numa pétala de rosa e disse:
– Bzzzzz! De ondezzzz euzzzz vim? Zuuummmm...!
Andava por ali uma mosca que, impaciente, pousou sobre uma casca de banana em decomposição e disse:
– Zzzzzz...! Pra ondezzzz vouzzzzz depoiszzzz daqui? Zzzzz...!
O Verbo, na plateia, acompanhava a mosca, o grilo e a abelha.
O povo lia os lábios à procura da ação ou do estado. E fazia a pergunta:
– Quem?
Insistia
– O quê?
Alguém se adiantou:
– E se mudar o Verbo?
Outro alguém:
– O Sujeito muda na mudez da mudança. Chegou o alerta pela voz de Aretê:
– Todo cuidado com a Sra. Preposição ainda é pouco por causa do seu pipoco e por causa do seu papaco.
– Papaco?!
– Papaco é o núcleo.
– Que núcleo?
– Do Sujeito.
– Como!
– Como em, de, a, para. Porque estas preposições, até hoje, ousaram não preceder o núcleo do Sujeito. Sendo ele simples, sua fala se dá pela palavra principal, com só um núcleo; se composto, terá dois ou mais papacos. Sendo oculto, ou elíptico, é porque está se escondendo. Quando indeterminado, fica na terceira pessoa. Inexistente é a oração na voz do Sujeito com verbos impessoais:
Trovejou, mas não granizou!”
– E o que o Verbo tem a ver com isso?
– Na oração, ele pulsa e brilha. Um neon no escuro.
Passavam dois passantes em miúdas passadas na passagem entre as três calçadas, na rua de tênues prédios de apês onde ainda se abrigam nossa professora Cordélia e seu pai, Lear. O bate-papo:
– Não vejo receber favorecimentos quem abriga a feiura.
– Pois vejo não receber favorecimentos quem abriga a beleza.
– Ouça o sabiá-laranjeira. Já amanhece
– É um terrível engano ter favorecimentos da ludibriante beleza.
– O sabiá-laranjeira já anuncia setembro.
– A velocidade borra as imagens. Só há tranquilidade na lentidão.
– A feiura e a beleza não são apenas pontos de vista opostos.
– Isso é o que mais me espanta.
– Não vejo espanto.
– Não?
– Essa falsa coragem.
– Falsa?
– Em opinar sobre todos e tudo.
– Não se pode confiar na dissimulação.
– Por quê?
– Porque já amanhece.
– Já amanhece?
– No entanto, já amanhece.
– A beleza tá longe de ser uma máquina divina que transforma a realidade. Onde cabe a feiura, nem sempre cabe a beleza
– A beleza é uma ilusão numa placa de nome de rua.
Era um Título no bate-papo, com a Introdução ao lado dos amigos Desenvolvimento e Conclusão. O Título, provocativo, chamava a atenção dos amigos. A Introdução, cada vez que ia apresentar seu ponto de vista, era atropelada ao abrir a boca.
O Desenvolvimento não concordava com o acaloramento do bate-blá-blá e mostrava aos outros o prédio no qual residia a histórica Família Parágrafos; mas ninguém demonstrava interesse nas opiniões, nos argumentos, nos fatos e nos dados do amigo Desenvolvimento.
A Conclusão pediu silêncio:
– Respeito.
– Respeito por quê?
– Esta era a rua da professora Cordélia e do seu pai, Lear.
Argumentação e Persuasão vinham do lado contrário. Ambos falavam em convencer, mas a ágora agora estava sendo construída. E os dois falaram numa única voz:
– Ninguém vai se convencer mesmo!
– Eu digo.
– Ouve?
– Fale na terceira pessoa.
– Por que não na primeira?
– Seja impessoal.
– E, afinal, qual é o tema da atualidade?
– Na última vez, o Sujeito perdeu-se na Rua da Frase.
– O Sujeito ainda sofre a ação. Precisamos encontrá-lo.
Pairou o Silêncio entre Argumentação e Persuasão. E um passarinho soltou um barro na camisa nova da Persuasão, que reclamou da pasta cinza e quente descendo pelas curvas do pescoço.
– Vamos ter que encontrar o Sujeito.
– Ele ainda se esconde nas orações?
Na rua da professora Cordélia e do seu pai, Lear, seguiram Argumentação e Persuasão.
– Se a gente encontrasse primeiro o Verbo, na Rua da Frase?
– Como encontrá-lo?
– Ali adiante.
Vinham do lado oposto as pessoas da feira conversando com seus seres animados. As cargas eram pesadas no lombo dos burros, porém as pessoas não se importavam, por não ser em seu próprio lombo.
– Quem é que disse o que disse ao dizer o que disse?
A rua foi tomada de coisas, de conceitos. Veio-lhes a voz:
– O que é que quando...?
– Não sabia quem é o Sujeito? É ele.
E entenderam, por fim, que a resposta à pergunta levava direto à casa do Sujeito.
– O Verbo!
– Que tem o Verbo?
– Ele vai estalar onde o outro estalar.
– Por essas e outras, a exaustão humana é inevitável!
Dentro do apê de raras mobílias, Cordélia falava com seu pai, Lear:
– A maior virtude desse nosso povo, nessa rua, é transformar conceitos abstratos em personagens e cenários cotidianos. Joga fora a estrutura comum e a reconstrói com uma inteligência raríssima. A excelência no controle absoluto. Cria a cria altamente intelectualizada sem perder o ritmo, não vira um bate-papo de boteco, e entrega o humor ácido no momento certo. O controle dele sobre o absurdo é impecável. O maravilhoso é aquilo que causa espanto, que faz a gente parar, reler e pensar: "Como ele teve a audácia de dizer o que disse sem ter dito como se diz?". E aí vem o final abrupto com o ponto de interrogação ("– ?") e a sensibilidade de misturar a conversa de esquina com viagens espaciais e um frio na barriga extraordiná
Lear tomava café e não se importava muito com o que ouvia. Ele estava sempre dividido entre a tela, a tevê, o jornal, o rádio e os pensamentos abstratos.
E, lá embaixo, Persuasão e Argumentação procuravam o Sujeito ao longo daquela rua coalhada de prédios baixos de apartamentos, construídos na década de oitenta à beira da rodovia. E saber que, para além daquela rua, havia vidas.
– Onde diabo se meteu esse Sujeito!
Por fim, chegou o papagaio. Ele ficou por ali, como quem não queria, querendo. Usou todos os tempos verbais, bebeu da oratóra dos que o antecederam sobre a caixa de tomates, a pétala da rosa e a casca de banana em putrefação, e começou sua narrativa:
– Crrácrrác! – Esperou o Sr. Aplauso, que não veio. Insistiu: – Kiuuk-qui-qui-kiuuuk! – disse olhando de um lado a outro, como se procurasse provação. No intuito de chamar a atenção do Sujeito, prosseguiu: – Crrácrrác! Kiuuk-qui-qui-kiuuuk!
Arequê ficou de olho no falastrão e com os ouvidos atentos às suas onomatopeias. Aretê suspirou dentro desta paráfrase:
No centro da sala de aula habitava um grito
Habitava um grito no centro da sala de aula
Um grito no seio a aula persistia ao infinito
Rachava o grito os continentes acordando vulcões e tsunamis.
Jamais meus tímpanos conseguem se libertar do grito
No coração da sala
Desesperado grito atravessava a ponte
Nem Munch nem ninguém se livrava do apavorante grito.
Aretê parou o suspiro ao ver, no chão da praça, passarinhos tomando banho de areia. Além de Arequê, observava da esquina o Sr. Verbo de Elocução.
O núcleo do sujeito nunca é precedido de preposição:
– Como em...
– De...
– A...
– Para..
O sujeito Simples pediu a palavra.
– Deixemo-lo.
E o sujeito Simples disse:
– Eu, Excelências Leitores, possuo apenas um núcleo.
– Um núcleo, senhor sujeito Simples?
– Uma palavra principal – reforçou.
– E o sujeito Composto?
– São dois ou mais núcleos – respondeu o sujeito Composto.
– E o que nos diz o sujeito Oculto? Oculto ou Elíptico, como se sabe.
– Não aparece na frase – disse o sujeito Oculto. – É identificado...
– Como?
– Pela desinência.
– Que desinência é essa?
– Do Verbo.
– E o que diz o sujeito Indeterminado?
– Eu, Excelências Leitores?
– Tu... tu mesmo! – na plateia, gritou alguém que não foi identificado pelas câmeras.
– Com a palavra...
– Eu?
– Na audiência há outro sujeito Indeterminado?
– Como vou saber?
– E nossa plateia sabe que o sujeito Indeterminado é liso que nem jundiá.
Ele pouco se revela.
– E como ele consegue isso?
– Com a ajuda dos verbos na terceira pessoa do singular com o "se", ou na terceira pessoa do plural sem contexto. E daqui vamos ao sujeito Inexistente.
Todos voltaram-se para a oração sem sujeito.
– Chegou a minha vez, foi?
– Use a palavra, sujeito Inexistente, como melhor lhe aprouver.
– Quero dizer que eu apareço, geralmente, com verbos impessoais...
– Não falei, não falei?
– Espere, espere. Deixe-o concluir.
– ...Apareço com fenômenos da natureza...
– É um cínico!
– Aposto como ele não termina.
– Deixe-o concluir.
– Posso?
– Pode.
– ...Apareço também com o verbo "haver" no sentido de existir.




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