Marcelo Ricardo Almeida
Retalhos so Cine Alvorada
Foto: ReproduçãoAqui, por essas ruas,
meus passos diários
demarcam territórios
na memória imagética
onde surgem imagens
entre folhas de livros
os dias aferrolham-se
no crepúsculo das casas
elas encerram as portas
as ruas cheias
logo tão vazias
amanhã ao amanhecer
os meus passos voltam
outra vez e outra vez
e tudo recomeça
por essas ruas antigas.
A igreja, a praça, o cinema. As imagens nas paredes da caixa mágica eram as fotografias feitas com as tintas do cotidiano. Efusivos gritos assustam o pássaro na tela viva, que agita as asas e ei-lo ritmo frenético da Sétima Arte.
PADRE PIAU
Primo delegado Severo Açoite,
Eu lia nessas folhas de jornal
As notícias que me chegavam
Aqui em Conceição do Roçado.
DELEGADO SEVERO AÇOITE
Me arrependo não ter estudado
Pra ser padre assim que nem tu.
PADRE PIAU
Por que delegado Severo Açoite?
DELEGADO SEVERO AÇOITE
Na delegacia, tudo o que faço: peleja
E dar conselhos que nem tu, na igreja.
PADRE PIAU
E veio aqui com que propósito?
Se não possui o que fazer agora,
Eu vou lhe dar serviço e aposto,
Se não fizer o que eu lhe ordenar,
Eu vou lhe aplicar um belo castigo.
É melhor à delegacia você voltar.
DELEGADO SEVERO AÇOITE
Na igreja, o primo não grita fraco.
Na igreja, expulsa os vendilhões
E ainda o primo quebra barraco?
PADRE PIAU
Que barulho é esse lá fora?
Logo, daqui eu vou embora.
Na caixa de projeção , a fita quebra-se. A realidade iluminada. O povo à espera que as luzes mortas ressuscitem. Volta o filme, a fita quebra. A plateia, impaciente, exige aos brados o retorno da fita; reivindicações manifestam-se em voos de palavras ásperas. As luzes cedem ao escuro, o silêncio volta; o facho de luz percorre o espaço vazio, a magia recomeça.
No primeiro dia de aula, a professora Maria recebeu os alunos na porta da sala com bem-vindos, fez a chamada, apresentou-se e os alunos apresentaram-se. O tempo comunicava-se por ondas, ela disse, e os alunos ficaram atentos porque a professora escrevia aulas quais histórias cinematográficas; essas ondas representadas por sons e imagens, cores, lembranças, inferências perceptíveis pelo tato. Ciências, História, Geografia, Língua Portuguesa, Matemática eram gravações no quadro, sons do giz existentes nas vibrações do tempo. A professora Maria era quem socorria a escola.
Nesse instante, a fita para. Os protestos, insistentes, agitam, recomeçam na mágica sala, nos acentos de madeira. Interrogação explodia:
Quero meu dinheiro de volta!
E a Exclamação argumentava com a Vírgula:
O ingresso foi bem pago.
Essa cena está no cartaz.
O escuro, no piscar do repente, regressava. A Narrativa que esteve por terras distantes, ilhas de tesouros, mundos de Oz, grandes silêncios, à volta de estradas da violência, artes marciais, faroestes spaghetti, mortes de facínoras, grandes sertões, vidas secas, desertos sem fim, pistoleiros arrastando caixões na lama, vampiros em tabernas com olhos fixos ao nada, personagens niilistas... A magia narrativa estava de volta. A telona mostrou ao público de Santana:
Canta o galo a manhã a Esculápio
lembra às vezes nas quais se cura
às vezes em que também se adoece
deve haver algo nas brumas escuras
algo que acorde o dia e amanhece
feito a linha que salva o herói
no labirinto de Creta
Ariadne sacrifica-se pelo amor
como se sacrifica Medeia
Julieta também se sacrificou
Esmeralda que adoece
o coração de Quasímodo
e Dulcineia de Dom Quixote
se fosse enumerar todos sem sorte
(cantou o galo cantor na manhã ao Dr. Esculápio)
às vezes em que de amor se adoece
todas noites no mundo não caberiam
ou mesmo noites todas dum universo
porque nada agora o coração silencia
às vezes em que de amor se adoece.
No letreiro e no cartaz do Cine Alvorada estavam em letras garrafais:
A rua do poeta é a rua
de Santana do Ipanema.
Onde o gafanhoto se apaixona
pelas vastíssimas plantações,
e o passarinho apaixona-se
pelo ninho da passarinha.
Onde a lavadeira
apaixona-se pelo sabão,
e o beija-flor
apaixona-se pela flor.
Se o vira-lata
apaixona-se pela lata,
se o pirilampo
apaixona-se pela lâmpada;
mas a primavera nem chegou.
Mas o caranguejo apaixonou-se
pelo espelho. E as formigas
apaixonaram-se pelo formigueiro.
É na rua do poeta
onde as mulheres vêm sentir
arroubos de taquicardia.
É nos cabelos da vizinha
que o poeta constrói escada
e vai pelo carretel de linha.
De tão doce a paixão
quem se apaixonou
acabou-se no que era doce.
A flor do beija-flor se despetalou,
a lâmpada do pirilampo explodiu,
o espelho do caranguejo se quebrou,
o milharal do gafanhoto definhou,
o ninho do passarinho ficou feio,
o formigueiro fora atacado pelo tamanduá,
a lata do vira-lata se foi no caminhão,
e o sabão da lavadeira se acabou.
Influenciados pela caixa mágica, as crianças aprenderam a colecionar retalhos das fitas nacionais e estrangeiras. Os cortes feitos na área de projeção eram descartados, os descartes circulavam de mão em mão. Alunos do Grupo Escolar Padre Francisco Correia comercializavam a distribuição dessa imaginativa arte. Numa caixa de papelão, um vidro d'água dentro, uma luz improvisada, e ei-lo cinema doméstico muito mais mágico. Os pequenos cineastas recriam, com retalhos do Cine Alvorada, nova arte cinematográfica.




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