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  • Santana do Ipanema, 26/10/2026
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Marcelo Ricardo Almeida

Temporada de Opnião

Foto: Magnific
Temporada de Opnião

Três: o número real e perfeito. Lembravam Átropos, Cloto e Láquesis. Elas eram Oxítona, Paroxítona e Proparoxítona. 

Uma parecia representar o nascimento das palavras; outra, determinar a longevidade das palavras; e, por fim, a última, simbolizar o seu desuso e esquecimento.

– O que seria a vida sem as palavras? disse aquela que fiava o fio.

Era um dia frio e chuvoso. O dia lhe foi tumultuado com gritos e aperreios. A alimentação não chegou bem ao estômago. A palavra carregava 

uma doença que ia e voltava de vez em quando. – O que seria um povo sem as palavras? disse aquela que sorteava o fio como um elástico em suas mãos geladas e fina a pele e que se rompia a qualquer momento.

Durante o sono, o estômago reagiu ferozmente para expelir a comida que lhe fazia mal. A acidez percorreu as cavernas corporais e chegou à boca. Foi isto que lhe fez acordar de um salto na cama.

– O que seria o mundo sem as palavras? disse a terceira entre elas. Como se alguém fosse capaz de possuir o que não tinha costume. 

O estômago estava por um fio para cortar o fio das palavras, o que dava vida às palavras, o que as fazia viva. O mal-estar acordou a Semiótica, 

que olhou e viu o que não se conseguia enxergar com facilidade. O sentido parecia borrado. 

Quem não conhece a Oxítona? Ela não podia ver louças limpas: dava um jeito de sujá-las e as amontoava na pia, que estufava de pratos engordurados e talheres grudentos. Eram pilhas e pilhas de panelas com restos de alimentos e tampas engorduradas.

O Sr. Constrangido, pai adotivo, e Reflexão, o filho, na rua do Mei (aquela onde fica o apê no qual residiam a professora Cordélia e o pai,  Lear), abriram a barbearia. Porém, ficaram na porta porque em quase todas as casas havia uma maquininha para fazer cabelo, barba e bigode. 

Outra era a conhecida Proparoxítona que, jogava-se ao sofá, rolava a tela, poemas eram ditos em litros e metros, tarefas e braças:

Opinião é a fingidora:

Finge que não finge,

Chega e desfinge, ora!

Toda esfinge mostrada

Na opinião de ões e ão.

Lê e escreve e opina

Com olhar de Mona Lisa.

O ovo ouve só opinião,

E assim no bate-bate,

O blá-blá-blá desponta.

Opinião termina em Pix,

Nas cordas do corrimão.

Depois da Oxítona e da Paroxítona, a Proparoxítona. Esta se recusava a ver qualquer sujeira na casa, qualquer fiapo no chão. Armada de pá e vassoura, balde com água e sabão, um trapo sobre os móveis, sobre a mesa, sobre a pia, a Proparoxítona concretizava-se ao realizar a limpeza do lar.

A palavra concebeu o movimento à vida, como um manifesto experimental em constante evolução. Foi assim que surgiu a proposta teórica e estética das três – Oxítona, Paroxítona e Proparoxítona – pioneiras em estabelecer uma ponte direta entre as hipóteses da fala e a experimentação das palavras.

– E se fosse o fim da oralidade? disse uma delas. Fim do ritmo puramente pautado no fluxo da fala e no valor simbólico das palavras.

A Territorialidade Semântica não participou do diálogo entre elas.

– E se fosse o fim da sonoridade de termos, ã, cujas palavras mimetizam? disse a outra. 

O Desarranjo Gramatical olhou o Rabisco com um olhar estranho.

– E se fosse o fim da sensibilidade social pelo fim das palavras? perguntou a terceira delas.

As palavras, como se sabe, foram concebidas para ser dinâmicas. E elas não se fixam em um único formato.

O trio observava que as palavras evoluíam gradativamente. Começando a sugerir sons e ritmos baseados na oralidade infantil, antes de se entregar à Vossa Majestade Gramática ao seu relho, aos seus atentos olhos, à sua força nos braços e à rapidez nas pernas.

A Sílaba Tônica foi escanteada por elas ao recusar-se a fazer seu papel. A Última Sílaba tramava com os acentos Circunflexos e Agudo. 

Embora Ditongos não concordassem 100% com o dizer do Realismo Nominal, que surgiu sem ser convidado. 

Paroxítona quis abolir todos os acentos, mas não logrou êxito. Naquele dia, houve uma agitação envolvendo -r, -x, -n, -l, -ps, -om, -on(s), - um(ns), -i(s), -us, -ã(s) e -ão(s). Outro dia, houve o mesmo com Oxítona; envolveram-se nisso -a(s), -e(s), -o(s), -em e -ens, e ainda sobrou a -éi, -éu e -ói, que se apresentaram 

como ditongos abertos. Oxítona deixava as regras frouxas quanto à acentuação.

Choveu, choveu muito, e os caramujos se multiplicaram.

Os caixões das palavras mortas ocupavam as ruas, preenchiam cidades.

A Antepenúltima era a única em quem confiava a Proparoxítona. Esta última, por ser previsível em sua regra absoluta, comungava com a Sintaxe, séria e respeitável, e não confundia com a turma dos acentos. A mais exigente entre elas, como se sabe, era a Paroxítona.

Três palavras que possuíam o domínio sobre todas as palavras. Elas eram apenas três.



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