Marcelo Ricardo Almeida
Indisciplina Escolar como Engrenagem pra Retroagir o Tempo
Os gatilhos da indisciplina são os da contemporaneidade. E os vetores dela nunca são pontuais, e sim globais no espaço da aula, um tabuleiro que pede a parceria dos responsáveis e das vítimas – disse Pedagogia à sua parceira Didática, que esboçou um riso amarelo.
Além dos atores da indisciplina escolar serem sempre os mesmos, eles arregimentam novos atores ao seu grupo barulhento, agressivo, disruptivo e excludente, incômodo e contraproducente ao avanço escolar. Nesse teatro do barulho, a peça contribui pra retroagir os alunos indisciplinados à condição de não-conhecer.
No palco, a violência simbólica e física escala, domina a turma, a escola, ganha a rua.
Os Senhores Descritores reúnem-se em torno da mesa e põem-se à moda dos Cavaleiros da Távola.
Trava-se a contenda de verbos e substantivos; as conjunções são ignoradas e os pronomes atropelados; as interjeições são as que mais gritam.
Ah, como o Adjetivo é loquaz! Munido com seu balde de cal e broxa pra pintura de postes e de meios-fios.
Alguém grita, dita regras. Une-se à Vírgula usada à vontade, a torto e direito com sua presença ostensiva, autoritária. Ela mete-se em toda conversa, e em cada linha essa senhora quer estar.
Vírgula, Vírgula... Reticências tão indecisa, tamborila com a ponta dos dedos sobre a tampa da mesa. Exclamação picota papel entre as folhas do caderno. Interrogação rói as unhas e disfarça se sentando sobre as mãos.
Ponto Final cochila. Dois Pontos fazem caras e bocas. Ponto e Vírgula correm na sala. Vírgula persegue as palavras pra que essas não façam sentido. O relógio derrete o tempo. As Aspas competem fazendo dobraduras.
Os parênteses correm pra abraçar os colchetes. O Acento Grave pede a palavra. Por uma questão de ordem. "Voto com o relator."
Divirjo quanto ao título desse gênero e desse estilo, a iniciar pelo quê da indisciplina como engrenagem pra retroagir o tempo.
Há divergências?
As chaves agrupam-se em torno dos textos. Asterisco de olho. Num canto da sala, vê-se, com a cara enfiada num livro, o Parágrafo: não passa de engodo (dentro do livro ele esconde seu objeto de desejo).
O Hífen ria à vontade, cantarolava como se transmitisse vozes do além. Apóstrofo achou aquilo estranho por demais, e foi lá fora fumar.
Cedilha empurrou a porta e entrou. Chegou suada, atrasada como sempre. Cumprimentou sem retribuição, fez um ar de riso e o ar quase se tornou tempestade. Til foi o único que, apesar da amiga retardatária, retribuiu a solidariedade da Cedilha - velhinha; vivia ali desde o milênio passado.
Nessa escola havia um ipê, comentou a Vírgula, ele mudava de cor.
É da natureza dele.
Havia também um girassol.
Havia?
Ele costumava acompanhar o sol.
Travessão abriu à palavra. Silêncio no recinto falou alto feito um susto ou admiração, que acordou Interrogação do enésimo cochilo.
A palavra está aberta.
Blá...
Blá, blá, blá.
Blá?
Blá!
Meteram-se o Hífen e a Exclamação:
Blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá!
Sintaxe bateu com a mão espalmada sobre a mesa. Calaram-se todos os sinais de pontuação.
Mas veio o ruído.
Surgiu o resumindo. As conversas paralelas não cessavam nunca.
Vamos ou não vamos falar sobre a indisciplina escolar como engrenagem pra retroagir o tempo?
Blá.
Blá-blá-blá.
E, de repente, a explosão:
Blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá...!




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