Quitéria Souza
Política, Sociedade Civil e Inclusão: Caminhos para a Garantia dos Direitos das Pessoas Autistas
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação e na interação social, associadas à presença de padrões de comportamento, interesses ou atividades repetitivas e restritas. O autismo apresenta diferentes manifestações e níveis de necessidade de suporte, fazendo com que cada pessoa vivencie a condição de maneira singular. Por essa razão, o acompanhamento multiprofissional e a construção de políticas públicas que considerem as necessidades individuais e familiares são fundamentais para garantir o desenvolvimento, a autonomia, a inclusão social e a qualidade de vida das pessoas com TEA.
A Em Santana do Ipanema, no estado de Alagoas, a crescente presença de crianças e adolescentes com diagnóstico ou necessidades relacionadas ao espectro autista tem provocado mudanças importantes na organização da assistência e na construção de respostas do poder público. Essa realidade não surgiu apenas a partir das estruturas institucionais existentes, mas também foi impulsionada pela mobilização das próprias famílias, especialmente das mães de crianças autistas, que passaram a compartilhar experiências, dificuldades e necessidades em busca de atendimento especializado.

Um dos marcos desse processo foi a criação de um grupo de WhatsApp formado por mães de crianças autistas do município. Inicialmente, a rede social funcionava como um espaço de comunicação, troca de informações, acolhimento e compartilhamento das experiências vivenciadas pelas famílias. Entretanto, com o passar do tempo, as conversas revelaram uma demanda que ultrapassava os limites de um grupo virtual. Eram famílias que buscavam acesso a terapias, profissionais especializados, acompanhamento médico, orientações e, sobretudo, uma estrutura de cuidado capaz de atender às necessidades das crianças e dos adolescentes e também de suas famílias.
A mobilização dessas mães contribuiu para que uma demanda que antes estava restrita ao espaço privado e às redes de apoio informal passasse a ocupar o espaço das políticas públicas. O movimento ganhou força e colaborou para a construção de uma assistência organizada no município, representada atualmente pelo Centro de Terapias Especializadas do Autista (CETEA). Nesse sentido, a trajetória do CETEA evidencia como a participação social pode contribuir para revelar necessidades coletivas e provocar transformações na organização dos serviços públicos.
O CETEA constitui um espaço de atendimento especializado às crianças e aos adolescentes com TEA, oferecendo acompanhamento terapêutico de acordo com as necessidades apresentadas por cada usuário. O atendimento envolve diferentes áreas profissionais, possibilitando uma abordagem multiprofissional, aspecto importante diante da diversidade de manifestações do autismo. Além das terapias, as crianças também contam com acompanhamento psiquiátrico realizado periodicamente, permitindo o acompanhamento especializado de aspectos relacionados ao desenvolvimento e às necessidades específicas de cada usuário.
Entretanto, quando se observa a realidade das famílias de pessoas com autismo, percebe-se que o cuidado não pode estar direcionado exclusivamente à criança ou ao adolescente. Por trás de cada atendimento existe uma família que também precisa ser acolhida. Nesse contexto, destaca-se o Projeto Acolher, desenvolvido para oferecer suporte aos pais e, de maneira especial, às mães, que frequentemente assumem grande parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado dos filhos.
A rotina dessas mães é marcada por inúmeras demandas. Muitas precisam acompanhar consultas, terapias, atividades escolares e demais necessidades dos filhos, ao mesmo tempo em que precisam trabalhar para garantir a renda familiar. Em algumas situações, as famílias contam com benefícios destinados à pessoa com deficiência; em outras, esse recurso não está disponível ou não é suficiente para atender às necessidades existentes. Assim, muitas mães precisam conciliar o trabalho fora de casa com uma rotina intensa de cuidados, reduzindo significativamente o tempo destinado ao próprio bem-estar.
É nesse cenário que o Projeto Acolher assume uma dimensão que ultrapassa o atendimento convencional. Uma vez por mês, é realizado um encontro destinado às mães, no qual os terapeutas desenvolvem dinâmicas e rodas de conversa sobre temas relacionados ao autocuidado, à saúde emocional, às dificuldades da maternidade atípica e às estratégias para enfrentar os desafios cotidianos. O espaço permite que essas mulheres tenham um momento para falar, ouvir, compartilhar experiências e perceber que não estão sozinhas diante das dificuldades.
O encontro também representa uma oportunidade de resgatar uma dimensão frequentemente esquecida na rotina dessas famílias,a própria mulher. Ao dedicar grande parte do seu tempo aos filhos, algumas mães acabam deixando de lado necessidades pessoais, relações sociais, momentos de descanso e cuidados com a própria saúde. Dessa maneira, o Projeto Acolher procura criar um espaço de escuta e convivência, reconhecendo que cuidar de quem cuida também deve fazer parte das políticas públicas.
A experiência de Santana do Ipanema demonstra, portanto, que uma política pública voltada ao autismo não deve se limitar à oferta de terapias para crianças e adolescentes. É necessário compreender o usuário dentro de seu contexto familiar e social. A criança com TEA precisa de atendimento especializado, mas sua família também necessita de orientação, acolhimento, acompanhamento psicológico, acesso à informação e garantia de direitos.
A trajetória que levou da criação de um simples grupo de WhatsApp de mães à construção de uma estrutura de atendimento público revela ainda a importância da participação popular na formulação das políticas públicas. As mães, inicialmente reunidas para compartilhar suas experiências e encontrar apoio umas nas outras, passaram a dar visibilidade a uma realidade que precisava ser reconhecida pelo poder público. A transformação dessa mobilização em ações institucionais demonstra que as políticas públicas podem nascer também da escuta das comunidades e da capacidade dos próprios usuários e familiares de reivindicar seus direitos.
Atualmente, Santana do Ipanema apresenta uma demanda expressiva de crianças e adolescentes com autismo, o que torna indispensável a continuidade e o fortalecimento das ações desenvolvidas. O crescimento dessa demanda exige serviços estruturados, profissionais capacitados, acompanhamento multiprofissional, acesso à saúde mental e estratégias que contemplem não apenas o desenvolvimento da pessoa com TEA, mas também as condições de vida de seus familiares.
Nesse sentido, a experiência do CETEA e do Projeto Acolher pode ser compreendida como uma importante expressão da construção de uma rede de cuidado no município. Mais do que oferecer terapias, essa política representa o reconhecimento de que o autismo envolve a pessoa, sua família e a comunidade. O atendimento às crianças e aos adolescentes, o acompanhamento psiquiátrico periódico, as ações de acolhimento às mães e os atendimentos psicológicos coletivos e individuais constituem diferentes dimensões de uma mesma proposta de cuidado integral.
Inclusão em Campo JP : futebol e inclusão de crianças atípicas na Paraíba

No estado da Paraíba, destaca-se o Projeto Inclusão em Campo, idealizado por Sinuê Zardo, gaúcho de Porto Alegre, 58 anos, atualmente residente em João Pessoa, Paraíba.
Formado em Educação Física, com pós-graduação em Treinamento Esportivo de Futebol e Futsal e mestrado em Educação, Sinuê Zardo possui uma trajetória marcada pelo futebol profissional e pela formação esportiva. Foi jogador profissional do Grêmio FBPA, de Porto Alegre, onde iniciou sua trajetória aos 12 anos, na escola de futebol, permanecendo no clube até os 22 anos. Durante esse período, conquistou títulos nas categorias de base e dois títulos profissionais: o Campeonato Gaúcho de 1987 e a primeira edição da Copa do Brasil, em 1989.
Ao longo de sua carreira como atleta, atuou em cinco países, além de passar por três estados brasileiros e diversas cidades. Em 2004, iniciou sua trajetória como treinador das categorias de base do Grêmio FBPA. Posteriormente, também trabalhou como treinador em outros três países: Coreia do Sul, nos anos de 2009, 2010 e 2012; Itália, em 2013; e Estados Unidos, de 2014 a 2024, onde permaneceu por dez anos.
Foi durante sua experiência profissional em Miami, nos Estados Unidos, que Sinuê teve contato mais próximo com o futebol voltado para crianças autistas. Atuando como diretor internacional de um programa de futebol para pessoas com autismo, encantou-se com a possibilidade de utilizar o esporte como instrumento de desenvolvimento, socialização e inclusão de crianças atípicas.
Ao retornar ao Brasil, trouxe essa experiência para João Pessoa e criou o Projeto Inclusão em Campo, uma proposta voltada para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Trissomia do 21 (T21).O projeto nasceu da experiência prática de Sinuê Zardo e foi desenvolvido em conjunto com Bruna Araruna a metodologia FUTTEA , unindo conhecimentos e experiências voltados ao desenvolvimento infantil e à inclusão. A metodologia foi construída para atender às necessidades específicas de crianças neurodivergentes, permitindo que cada participante desenvolva seu potencial por meio do movimento, do brincar e da prática esportiva.
O FUTTEA conta com o apoio do Instituto Result, organização da sociedade civil que desenvolve projetos voltados ao terceiro setor e promove iniciativas de impacto social. O Instituto oferece suporte técnico, institucional e estratégico para o fortalecimento da metodologia, contribuindo para sua expansão e para que um número cada vez maior de crianças e famílias tenha acesso ao projeto.
Além do atendimento às crianças, o FUTTEA também contribui para ampliar o debate sobre inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças, fortalecendo iniciativas que promovam mais oportunidades para pessoas com deficiência e incentivem a construção de uma sociedade mais inclusiva.
A proposta é expandir o projeto por meio de parcerias com órgãos públicos, instituições privadas e organizações da sociedade civil, levando a metodologia a um número cada vez maior de crianças e famílias que buscam inclusão, desenvolvimento e qualidade de vida.
Sobre o FUTTEA
O FUTTEA é uma metodologia criada por Sinuê Zardo, em coautoria com Bruna Araruna, que utiliza o futebol como instrumento de desenvolvimento humano para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências. O programa alia prática esportiva, inclusão e estratégias de desenvolvimento infantil para promover ganhos motores, cognitivos, emocionais e sociais, sempre respeitando a individualidade de cada criança.
O projeto conta com o apoio do Instituto Result, organização da sociedade civil dedicada ao desenvolvimento de projetos de impacto social e ao fortalecimento de iniciativas do terceiro setor, oferecendo suporte técnico, institucional e estratégico para ampliar o alcance e os resultados da metodologia
O projeto desenvolve uma metodologia inspirada na experiência do futebol profissional, modalidade na qual Sinuê construiu sua trajetória desde a infância, mas adaptada às necessidades e aos objetivos das crianças atípicas. Os conteúdos e exercícios utilizados nos treinamentos são contextualizados para que as atividades tenham caráter recreativo, lúdico e inclusivo, respeitando as características e o ritmo de cada criança.
Cada encontro é organizado como um verdadeiro plano de treino, inspirado na estrutura do futebol profissional. A aula contempla momentos de aquecimento, atividades físicas, exercícios técnicos e um momento de jogo coletivo. Ao final, a experiência é complementada por momentos simbólicos que aproximam os pequenos atletas do universo do futebol profissional, como a sessão de autógrafos, as fotografias com a “torcida”, formada pelos familiares, e a participação das famílias como uma verdadeira torcida organizada dos demais “atletinhas”.
Os resultados têm sido bastante positivos. O projeto vem recebendo um retorno significativo por parte dos pais e dos próprios “atletinhas”. Em apenas três meses de funcionamento, o Inclusão em Campo já conta com 15 atletas frequentando regularmente as atividades e outros 15 aguardando na lista de espera.
Mais do que ensinar futebol, a iniciativa demonstra como o esporte pode ser utilizado como uma poderosa ferramenta de inclusão, desenvolvimento, convivência social, autonomia e fortalecimento dos vínculos entre crianças, famílias e comunidade.
As experiências apresentadas em Santana do Ipanema e em João Pessoa evidenciam que a inclusão das pessoas autistas e de outras pessoas com deficiência depende de uma atuação articulada entre poder público, sociedade civil, famílias, profissionais e comunidade. Seja por meio da construção de serviços especializados, do acolhimento às famílias ou da utilização do esporte como instrumento de inclusão, essas iniciativas demonstram que garantir direitos exige mais do que reconhecer a existência das diferenças ,exige criar oportunidades concretas de participação, desenvolvimento, autonomia e pertencimento social.




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