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  • Santana do Ipanema, 10/01/2026
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João Neto Felix

O sino das cinzas das horas

Nos últimos anos, o sino das horas repousa em silêncio, como se aguardasse o momento certo para despertar de novo.


O sino das cinzas das horas Foto: Imagem gerada por IA

Aqueles que são atentos percebem que há mistérios escondidos nas badaladas dos sinos. Há quem diga que eles não apenas marcam o tempo: convocam. Chamam para o instante presente, para o compromisso com a vida, para as mudanças silenciosas que os novos tempos exigem de cada um de nós. Cada toque, por mais breve que seja, carrega uma mensagem única, quase íntima, destinada apenas a quem se permite ouvir.

Nos últimos anos, o sino das horas repousa em silêncio, como se aguardasse o momento certo para despertar de novo. Talvez esteja apenas à espera de que o povo também desperte. Talvez esteja guardando fôlego para anunciar algo maior.

E é por isso que, às vésperas das comemorações dos 190 anos da paróquia de Senhora Sant’Ana e São Joaquim, meu desejo é simples e profundo: que o sino volte a soar. Que rompa o silêncio acumulado, que faça vibrar o ar todas as horas, todos os dias, até que cada morador sinta o chamado que ele carrega.

Que suas badaladas lembrem que nenhuma cidade se constrói sozinha. Que a solidariedade não é um gesto isolado, mas uma prática cotidiana. Que compartilhar oportunidades, recursos, talentos e cuidados é a forma mais concreta de transformar um lugar comum em uma comunidade viva.

Há quem diga que os sinos guardam memórias. Cada toque ecoa histórias de batizados, casamentos, despedidas, promessas feitas às pressas e agradecimentos murmurados em silêncio. Talvez por isso seu som nos alcance tão fundo: ele nos devolve ao que fomos e nos empurra para o que ainda podemos ser. Quando um sino toca, ele não fala apenas do presente; ele convoca o passado e o futuro para caminharem juntos.

E, no entanto, o silêncio também fala. O silêncio do sino das horas tem sido um lembrete discreto de que algo se perdeu no caminho: a pressa tomou o lugar da convivência, o individualismo abafou o espírito comunitário e a rotina engoliu o encanto das pequenas gentilezas. Mas o silêncio não precisa ser definitivo. Ele pode ser apenas o intervalo antes de uma nova melodia.

Imagino o dia em que o sino volte a soar e, com ele, renasça o hábito de olhar ao redor. Que cada badalada desperte a vontade de estender a mão, de perguntar pelo vizinho, de dividir o que se tem mesmo que seja pouco. Que o som metálico, atravessando ruas e telhados, lembre que a cidade só floresce quando o coração de cada morador pulsa junto.

Talvez seja esse o verdadeiro milagre que os sinos anunciam: não o extraordinário que cai do céu, mas o ordinário que se transforma quando vivido com cuidado. A partilha do pão, o abraço oferecido sem pressa, o tempo dedicado a quem precisa e o gesto simples que acende esperança.

Se o sino voltar a tocar, talvez ele nos lembre que o tempo não é apenas aquilo que passa, mas aquilo que fazemos passar. E que, entre as cinzas das horas, ainda há brasas suficientes para reacender o espírito coletivo que fez nascer esta paróquia quase dois séculos atrás.

Que o sino toque. E que nós despertemos com ele porque os símbolos nos ajudam a compreender o que, muitas vezes, as palavras silenciam e o correr da vida atropela. O sino do relógio é comunicação, espiritualidade e marcação do tempo que nos escapa entre os dedos.



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