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  • Santana do Ipanema, 08/09/2026
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Marcelo Ricardo Almeida

"Criei a palavra 'Produto"


Foto: Magnific

Era tarde e a noite era de chuva. Cansado do barulho, da bagunça, da desatenção, do salário mirrado e atrasado, da falta de respeito, da ausência de limites, dos horários apertados, da carga horária pesada, do comum desvio de função etc. O Personagem na crônica tentou dormir; não conseguiu. Mas o sol da manhã o tirou da cama com a certeza de que ele havia criado a palavra produto.

“Criei uma palavra?” perguntava-se, incrédulo. “Criei a palavra ‘produto.’”

A primeira coisa, antes mesmo de se levantar da cama, foi mandar um áudio. Disse à colega Apresentação que desistiria do cenário da época, e que abandonaria as personagens principais.

Em seguida, foi a vez de Complicação. O Personagem escreveu essa sua novidade também ao Desenvolvimento, comunicando que aboliria o conflito, considerando que não haveria problema e, por isso, não haveria quebra do equilíbrio. Resolveu falar com o Clímax, a quem disse que era o fim da emoção e de qualquer tensão na história.

Esperou do Clímax um ponto de virada, que não veio. Aguardou o conflito, que não veio. Exigiu dele uma definição, que também não veio. Falou o que quis ao Desfecho, que perdeu a conclusão do conflito, cujos problemas deixaram de se resolver.

“Tô livre!” disse, por fim. Reforçou: “Criei a palavra ‘produto.’”

Apertou-lhe a fome. O Personagem entrou no mercado do casal Enredo e Trama, donos dos acontecimentos na história; os eventos cabiam aos donos do mercado. E foi, fartamente, alimentado por ser o pai da palavra produto.

Então, veio-lhe o sono. O Personagem bateu à porta do Narrador, que era a voz da história, e dono do ponto de vista, além dos fatos, que se colocavam um degrau abaixo das versões do fato. E o sono foi reparador.

Porém, veio-lhe o frio. O Personagem recorreu ao Tempo.

– Por que eu lhe ajudaria? disse o Tempo.

– Porque eu criei a palavra “produto.”

– Você criou a palavra produto? Mas ela sempre existiu.

– Mas eu a criei.

– Ela está nos dicionários, nas enciclopédias, nos livros de História. Quer vê-la?

– Mesmo assim não me convencerá, Tempo. Eu sou o pai da palavra.

– Não se exalte.

– E tenho frio.

O Personagem convenceu o Tempo e sua carência foi suprimida. Logo veio-lhe outra carência. Como pagaria aluguel, contas atrasadas e cartões de crédito? Ele fez reivindicações ao Tempo – que era dono da época em que os fatos transitavam, e pai do Tempo Cronológico e do Tempo Psicológico. Mas não obteve êxito. O Personagem foi buscar ajuda na casa do Espaço e lá encontrou o Cenário.

– Eu criei uma palavra.

– Criou? perguntou o Cenário. Qual?

– Produto.

– Produto? Achei que já existisse.

– Existia.

– Então...

– Existia porque eu criei.

O Espaço chegou ao local onde a crônica se tecia. O Personagem influenciou o pensamento do Cenário e começou a argumentar e a reivindicar ricos privilégios ao Espaço, dizendo-lhe:

– Criei a palavra “produto.”

– ?



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