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  • Santana do Ipanema, 09/07/2026
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Marcelo Ricardo Almeida

Letra letrando letramento

Foto: Freepik
Letra letrando letramento

Domínio Gramatical levantou a sobrancelha esquerda. Ele costumava ter esse hábito ao ver professores na sala. Persuasão rabiscava um papel. Clareza coloria uma folha de caderno.

Cadê a adequação à norma padrão?

Ela foi ao banheiro, profe!

E os diferentes contextos sociais, turma?

Não vieram hoje, profe.

Decodificadores de palavras ficaram atentos como há muito não ficavam.

A condição humana olhava o sol pela janela.

Literatura, sentada lá atrás, sonhava com uma rede entre dois coqueiros à frente da Ponta Verde, quando a Ponta Verde era Ponta Verde. Olhava o teto da sala como se fruísse as metáforas do Letramento, as subjetividades jogando conversa fora e o Texto.

Os gêneros textuais estavam em polvorosa, parecia uma nuvem de poeira na sala de aula. Entraram os professores. O tumulto dos alunos se ouvia do outro lado da rua.

Que rebuliço é esse! disse Azáfama em meio a bagunça.

A comunicação presente no ambiente escolar deve muito ao Letramento em Língua Portuguesa. A isto estão ligados os tipos textuais, disse a professora ao professor.

Na sala de aula, os alunos observavam. Foi quando Narração falou com voz de violino:

Eu sou das sucessões de acontecimentos. Todos, ultimamente, têm meu nome na ponta da língua.

O que é uma vergonha! alguém falou, no fundo da sala, mas não foi identificado até agora.

Narração prosseguiu:

Sou dos fatos reais e fictícios. Mais para aqueles e menos para estes. Eu determino o tempo! mostrou-se orgulhoso. Eu determino o espaço! encheu o peito. Sou rodeado por personagens. Não acredita? Pergunte a Shakespeare, pergunte a Lobato, indague a Dona Política, que não sai das casas, das ruas, dos palácios, das praças. Eu determino o tempo de cada situação e de cada ato, como ensina o método Teatro-Feijão-Com-Arroz.

Em seguida, o aluno Descrição disse:

Não seja por isso, Narração. Quem lhe ensinou a caracterizar tudo isso aí fui eu. Quem caracteriza os objetos? Esta pessoinha aqui. E quem caracteriza a pessoa e o lugar? Eu. Óbvio. Quem caracteriza as sensações senão eu mesma? sorriu Descrição. Eu crio imagens na cabeça das pessoas, Narração. Eu mostro a realidade tão objetiva quanto a própria realidade, mas também posso mostrar as impressões de cada qual, tão subjetivas quanto a subjetividade pode ser.

Então, na primeira fila, disse Dissertação:

Eu não vou dizer que sei quando sei, ou que não sei quando não sei. E o que sei é que estou presente sempre nas discussões, porque sou eu que apresento as ideias, sou eu que sugiro as opiniões. Ou alguém tem dúvida disso? Se tem, fale; ou cale-se para sempre. Amém. Tenho dito. Data venia. Eu possuo duas personalidades, vocês sabem. Um lado meu é o Argumentativo, e o outro lado é o Expositivo; por isso, gente, quando falo pelo lado argumentativo, sou a favor de um ponto da conversa e, para isso, apresento os argumentos mais variados; e, quando o lado expositivo fala mais alto, eu mostro um tema sem pretensão de convencer ninguém, apenas o exponho.

Falou Exposição, atrapalhando Dissertação:

Mas eu não vou ficar calado de jeito nenhum! gritou no meio da sala. Pois eu, pessoal, nasci para transmitir informações. Sabiam? Informação. Sabe o que é isso? Eu trago sempre, de maneira objetiva, de maneira clara, um assunto; não faço juízo de valor sobre o assunto, não apresento nenhuma opinião. Vocês sabem disso; só quero reforçar. Desculpe, gente, se me excedi.

Argumentativo sentava-se ao lado de Dissertativo. Eram chamados pelos colegas de Argumentativo-Dissertativo. A amizade entre eles era levada muito a sério.

Após um século e meio de silêncio diante dos professores que iniciaram o bate-papo sobre letramento em língua portuguesa e literatura, disse Injunção:

Posso falar? Eu sou acusado de usar "para" em lugar de "pra", igualzinho aos colegas da sala, mas... não vou me estender mais do que o necessário. Aliás, eu sou tímido, prefiro assim... falar em letrinhas miúdas. Gente, é o seguinte... É o seguinte, gente: eu nasci para orientar. Desculpe a falsa modéstia. Também instruo. Vocês sabem disso há mais de um milênio. Eu sou amigo dos verbos imperativos. Costumo, por força do hábito, determinar uma ação.

Letramento derreteu-se em poesias, estendeu-se por romances, foi à toca de contos e crônicas. Nesse momento, a Língua Portuguesa foi prática e puxou a atenção do colega; disse-lhe não haver nada melhor se comparado ao sol e ao dia de luz e calor, coeso com toda a sua objetividade solar. Literatura, porém, polemizou; e Polissemia tomou o partido de Literatura, levantou o tom de voz, e a Língua Portuguesa disse-se ofendidíssima. Polissemia desculpou-se dizendo que Literatura é do lado do sentido figurado. A Criatividade quis apresentar umas conversas, mas se conteve no último instante. A amiga da Criatividade, que não sabia viver sem ela, Subjetividade, defendeu Literatura.

A sala ficou em silêncio quando a professora e o professor começaram a falar:

Santana ainda não ouviu falar que a Profa. Coerência morreu?

O mundo nunca se fartava de violência? era a pergunta da professora.

A tarde se aproximava da noite. Dentro da noite, no mês de julho em Santana, descia a poeira de nuvens cósmicas que tornava a paisagem fosca nas ruas, nas casas tomadas de frio. Ela apostava nas variações climáticas; o marido dela, nos vapores da terra.

O mundo estava farto de violência! era a resposta dele.

A professora Coerência morreu. Após semanas, foi encontrado o corpo, graças aos abelhudos atraídos pela quantidade de urubus que sobrevoavam o telhado da casa dela. Ultimamente, a falecida vivia só. Era casada com o professor Coesão, que fugiu de casa ao trocar a lâmpada velha por uma lâmpada nova.

Antes do pai, o primeiro a deixar a casa dos pais foi Gerundismo, o filho do meio, o que fazia a professora Coerência chorar todos os dias. O pai, o professor Coesão, tranquilizava a mãe com promessas de procurá-lo mundo afora.

Os dois sentavam-se em cadeiras de balanço, na porta de casa, e mediam-se o sabor, o gosto e a maciez do tempo apressado. Na vida, nem tudo era dialético.

Não se preocupe à toa, ele dizia. Éticos eram os diálogos magnéticos. Quase sempre, as coisas entre nós nos deixavam anéticos.

Eles, no fim da tarde, acompanhavam o povo que passava em direção ao centro da cidade. Santana, nessa época do ano, estava em festa. Havia parque de diversões e fogos de artifício.

Como podia alguém beber tanto perfume? ela comentava. Beber em cachoeira, deixar o corpo mole e tonto, e não se embriagar?

Essa gente um dia era criança; no próximo, era adulta e envelhecia. Ela sabia que o fim estava próximo. Ele, que gastou muito tempo e conseguiu juntar o que tinha, recusava-se a perder tudo com a morte. Ambos, na varanda de casa, observavam as pessoas que se dirigiam à igreja.

Fechou os olhos e lembrou-se. Chegavam-lhe as músicas no último volume. Na porta da rua, o casal ouvia. Se não era “Wake up little Susie”, era “All I have to do is dream”. Repetia-se por horas o country rock do The Everly Brothers, a agulha na faixa “Bye, bye love.”

O carrossel girava, girava. A festa pagã de julho ocorria na frente da igreja. Subia cada vez mais alto o barco no vaivém. De um lado, a professora Coerência; do outro, era o professor Coesão a equilibrar-se. Em torno do parque de diversões, as pessoas iam e as mesmas voltavam. Qualquer moeda pagava a metamorfose de gente em fera, entre as lonas coloridas com pinturas estranhas. O mesmo disco no alto-falante: lado A, lado B viajavam noite adentro.

Estouravam fogos de artifício. A pirotecnia do fogueteiro, feita de pólvora, cola, arame, papel e inventividade, cruzava a praça principal. Fim da celebração. Caía, presa a um arame, a imagem da santa enrolada igual a um papiro. Aplausos. Caminhavam pessoas de roupa nova de um lado a outro da praça.

À procura de quê estas pessoas estão? perguntava-se. Era o prazer de mostrar-se.

Na porta da sorveteria, casais sentados. Nas mesas, diferentes sorvetes. No bar, a Pitu já havia levado alguém ao chão.

Não se esqueça: enquanto aponta o alvo, feche um olho e deixe o outro bem aberto.

Uma setinha de metal presa a um chumaço colorido era disparada por pressão e errava, outra vez, o alvo.

Ela passou a vida toda agachada ao lado da cadeira: catava feijão. Escolhia o que era de comer-se e o que era de jogar-se fora da concha da mão onde os escolhia.

A noite era de chuva. A escola era um prédio alto, cheio de janelas e castigos. As provas eram cheias de surpresas e notas baixas. Aproximavam-se as novenas de Senhora Santana. Ela e ele em cadeiras de balanço. Ambos viajavam sem sair da frente de casa.

Devia ter ficado sozinho! ele disse.

Sozinho? ela duvidou. Como assim?

Talvez por causa dessa decisão definitiva de Gerundismo em deixar a casa dos pais. Coisa que deixou de existir, pois os filhos ficavam na casa dos pais e iam permanecendo por um período cada vez mais elástico. Envelheciam com os pais como se estes fossem inválidos, como se não tivessem vida própria, como se eles não quisessem ter vida própria nem independência, trocando a democracia pela tutela do pai e pela mão de ferro da mãe, a professora Coerência, que sempre fora opressora.

Não devia ter-me casado! ele voltou ao assunto.

Tava arrependido? a professora esticou a corda, levou o professor às cordas.

Se tivesse ficado só...! professor Coesão não se intimidou ao ser encostado na parede pela Coerência com quem era casado desde a época de Santa Maria, Pinta e Niña. Se estivesse só, repetiu, envelhecia esquecido.

Só?!

Em paz.

Por quê?

Nasci só, não foi?

Foi!

Sem ninguém pra te fazer um chá?

Sem ninguém pra me fazer um chá.

Ela parou. Mudou o argumento de parágrafo com a habilidade de ceramista na roda de oleiro:

Antonico, o meu cunhado, teu irmão, se jogou pra São Paulo a contragosto dos pais, meus sogros; não demorou, foi vomitado do Sul. As taxas de juros cuidaram do Antonico. Ao chegar em São Paulo, teu irmão viu a realidade que desindustrializou e privatizou: fim do emprego em metalúrgica, e viu que era verdade: as montadoras de automóveis fecharam.

Voltou Antonico à vida em Santana com o rabo entre as pernas!

Levantou-se da cama o professor Coesão. Deixou a professora Coerência, que não parava de argumentar que boa romaria faz quem em sua casa está em paz.

Tu sabes! a professora Coerência sabia comunicar-se.

Eu?

Não demorou, foi a vez dos rompantes de Totonho, filho de Antonico. Totonho, nosso sobrinho e afilhado, atirou-se pra ser devorado também por São Paulo. Que ia fazer em São Paulo, meu filho? Atrás de trabalhar, sabia-se lá em quê! Quis ser patrão de si mesmo, e foi. Este era outro cujo traseiro a realidade chutou, e foi gol de placa.

Vivia o pai do professor Coesão nas mesas de sinuca, em Santana. Copo de cerveja esquentava na borda da mesa, giz no taco, e dizia fazer dinheiro.

E escrevi um livro

Com duas braças

Com tantas folhas vencidas

Voo das páginas lidas tanto

Avoava a gastura

Era o povo que lia

Imagética, a escola dialógica

Letras puras, dias de farturas

E era um livro desses

Com braças de altura! cantarolava a professora Coerência nos corredores do velho casarão, que prometeu abrigar um hospital em Santana, e optou em ser quartel na caça ao cangaceirismo, quando a cidade provocou a fúria vingativa de Lampião. E virou o prédio Ginásio Santana, à época na qual existia ginásio no sistema de ensino, substituído no ensino-aprendizagem por Anos Finais:

E um livro assim foi escrito

Com duas fortes braçadas.

Certo dia, a professora Coerência acordou sem encontrar mais ninguém na casa. Ao ficar só, a professora trouxe um gato à cama, e evitava quase sempre dormir sozinha.

Eles constituíram família em Santana, ela dizia à outra professora. Apesar dos filhos que tiveram, ninguém restou na casa de dois pisos dos professores Coesão e Coerência.

Hiperônimo, filho mais velho do casal Coerência e Coesão, não demorou a meter-se no mundo. Seguiu os passos do pai.

Inferência, filha caçula, depois que deixou a cidade, concluiu que nunca mais voltaria a Santana. Ligava, era verdade; pedia à mãe créditos no celular, pedia Pix, e depois se calava, esquecia-se da mãe, do pai, dos irmãos. A professora Coerência tolerava. Fazer o quê! ela dizia. Quando estava em casa, Inferência vivia trancada no quarto.

Apólogo, um dos filhos da professora Coerência e do professor Coesão, havia se afastado do município ainda na época do serviço militar.

Hipônimo, outro dos filhos do casal, foi ser garçom em São Paulo, e apareceu nos noticiários policiais como assaltante de bancos. O assunto correu em Santana.

Epílogo, filho dos professores separados, foi morar sozinho em Aracaju. Vendia redes, na praia.

Anáfora, foi estudar língua estrangeira, porque desejava ser feliz. Pensava nos lugares desejados e inalcançáveis. Último cartão-postal que chegou no endereço dos pais, em Santana, veio de Salzburgo.

Os gêmeos Apóstrofe e Apóstrofo abriram um bar em Cacimbinhas. Viviam de sonhos com o turismo em torno do futebol feminino.

Catáfora, que morava numa cidade do Norte, onde chegou e chamava a todos de queridos, voltou a Maceió. Por causa do uso indiscriminado de queridos, por pouco não acabou em maus lençóis. Um tempo depois, desceu a Salvador. Mudou-se; vivia de vender uiui de mercado a mercado, em BH. E ela foi vista esses dias nas águas de enchente, agarrada a uma caixa de tomates, como mostrou a reportagem.

Diacrônico, um dos filhos mais novos de Coerência e Coesão, era dentista no Recife desde que concluiu a faculdade de Odontologia. Outros santanenses diziam encontrar-se, às vezes, com ele em Boa Viagem.

Quatro das filhas dos professores Coesão e Coerência não se separavam nem quando iam ao banheiro. Sinonímia era a mais sapeca; Hiperonimia, a serelepe. De tão impulsiva e fraca de saúde – como se soubesse que viveria pouco –, esta era a mais protegida pelo grupo. Depois havia Antonímia, tímida, talvez por ser a mais feia entre elas. Por fim, Hiponímia, que era sonhadora e inventiva. E, uma manhã, aquele quarteto deixou Santana; foi a pé a Juazeiro, onde recomeçou nova etapa com a inauguração de uma igreja.

O professor Coesão, depois de velho, começou a bicar fora de casa, puxar uma asa e bateu voo. Foi reclamar de medidas de exceção que motivaram o seu desligamento da professora Coerência, acusada de ter adotado um regime autoritário.

Homófona quis ficar com os pais em Santana. Desistiu. A filha ralhava com eles porque não ficaram na roça, lugar do qual nunca deveriam ter saído. Trocou a vida com os pais por uma aventura transitória em Belém. Passou a trabalhar com perfumes no Ver-o-Peso.

E nenhum dos filhos do casal Coesão e Coerência ficou em casa quando a professora Coerência ficou só. Talvez esta geração fosse aquela que romperia o acordo tácito de cuidar dos pais; as próximas não se preocupariam, seria cada qual por si.

O orgulho da professora Coerência [ajustado de Conveniência para manter o nexo] demonstrava-se ferido sempre que se tocava no assunto de ela ter ficado sozinha naquela casa de dois pisos. Abandonada pelo professor Coesão, a professora se saía com a narrativa de que o marido se fora porque não tinha papas na língua, e, em toda parte, as câmeras registravam minúcias dos comentários que ele fazia, os quais, em seguida, eram espelhados nas redes em busca de views. Nem ela nem ele aprovavam que o sistema ganhasse visualizações e fosse monetizado segundo os algoritmos.

A professora Coerência comentava sempre com as amigas sobre o professor Coesão ter ganhado dois cães numa certa época do casamento. A um, ele chamou de Senso Comum e ao outro, Senso Crítico. Este morreu de raiva; aquele, não. Ao professor, apesar da febre dos pets, os animais de estimação não atraíam.

Conversar com o professor Coesão era a certeza de que no assunto não ficaria faltando pedaço, tampouco haveria falta de entendimento. Ele sabia conversar.

No travesseiro, o casal de professores, cujo piso mal e mal mantinha as finanças da família, reclamava de ter levado à risca Gênesis 1,28.

E vivíamos assim! a professora disse ao professor. Aqui, de uns tempos desses para cá, nunca mais veio nenhum dos nossos; não esperava que viessem também os netos.

Vamos escrever um inventário sobre isso? propôs o professor à professora.

Em nossas vidas, ela dizia, tudo passava como um clarão feito de cortes, na internet.

O bate-papo entre eles varava a madrugada. Santana ficava em absoluto silêncio. Às vezes, muito raramente, o ronco de um motociclista cortava a conversa dos professores na escuridão do quarto.

O ruim de envelhecer era acompanhar a morte dos nossos! ele dizia, inquieto.

Um dia, acontecerá isso comigo também!

Acontecerá? ele queria saber dela.

Acontecerá, ela reforçava, porque ninguém vira lajedo. Você cerca-se de gente e, num piscar, está sozinho. Só vaso ruim não quebra!

Antes do quarto, o casal esteve na porta e via as pessoas indo e voltando. Eram longas as tardes; as tardes eram perfumadas. Na avenida, o tempo bebia por entre as gretas o dia a dia. Muitos perfumes se espalhavam pela casa.

Coesão costumava intercalar as conversas com expressões como: outrossim, desde já, portanto, diante desse quadro, além disso, antes de tudo o que foi dito, em vista disso, em suma, enquanto isso, logo após, com o fim de... E todos compreendiam facilmente o professor Coesão.

Pessoas que não moravam na cidade não conheciam a professora Coerência. Esta foi quem deu o pontapé inicial na poesia na escola. Ela defendia uma escola de poesia. Quis realizar em Santana o 1º Festival Literário de Sonetos.

Antes do quarto, o casal esteve na porta e via as pessoas indo e voltando. Eram longas as tardes; as tardes eram perfumadas. Na avenida, o tempo bebia por entre as gretas o dia a dia. Muitos perfumes se espalhavam pela casa.

Coesão costumava intercalar as conversas com expressões como: outrossim, desde já, portanto, diante desse quadro, além disso, antes de tudo o que foi dito, em vista disso, em suma, enquanto isso, logo após, com o fim de... E todos compreendiam facilmente o professor Coesão.

Pessoas que não moravam na cidade não conheciam a professora Coerência. Esta foi quem deu o pontapé inicial na poesia na escola. Ela defendia uma escola de poesia. Quis realizar em Santana o 1º Festival Literário de Sonetos.

Em casa, Coesão era quem interligava a família. Sem a presença dele, não havia entrelaçamento. Era ele quem dava sequência ao bate-papo no café da manhã, no almoço, no jantar. Coesão sabia o momento exato da transição das ideias durante o futebol na TV ou a telenovela.

Quase não havia harmonia sem a presença do professor Coesão. Era ele quem fazia todo o sentido em casa. Existia muita gente sem lógica; não era o caso dele, pois Coesão era um cara lógico. Mesmo quando havia alguma omissão durante o bate-papo, Coesão estava ali e remia as velhas ideias com novas palavras. A verdade era que a casa sem Coesão empobreceu; as paredes ficaram úmidas como se chorassem.

Em toda parte, via-se Coesão! disse a professora ao espelho no quarto. Foi só ele sair de casa que se perdeu toda e qualquer conexão com a realidade.

As melhores amigas da professora Coerência eram a professora Semântica, a merendeira Sintática, a diretora Pragmática e a vizinha Estilística, que ganhava a vida com artesanatos de motivos semiáridos. Estilística juntou-se a um poeta e mudou-se para fazer artesanatos de motivos semiáridos em Olho D’Água das Flores. E havia amigas inseparáveis da época do Ginásio Santana: Genética e Temática; esta morava no Rio, aquela faleceu no ano passado.

Apesar daqueles mais de 46.000 habitantes, demorou-se muito até que se percebesse a morte da professora Coerência. A polícia prometia aos noticiários investigar a causa da morte.

E a agulha sulcava a faixa, no lado B, que repetia “Bye, bye love.” Era a voz de um intérprete local que estreava, impedido pela gravadora de usar o nome de batismo.

Assim era e assim foi. Mais uma casa vazia na cidade. O professor Coesão havia partido e a professora Coerência estava morta.



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