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  • Santana do Ipanema, 20/09/2026
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Artigo: Filantropia sem critério distribui privilégios, não oportunidades

Reflexão aborda os riscos de ações filantrópicas sem critérios claros e seus impactos na sociedade.

Foto: Reprodução / Danilo Verpa
Artigo: Filantropia sem critério distribui privilégios, não oportunidades

A filantropia existe para reduzir desigualdades. Seu papel é ampliar oportunidades onde elas foram historicamente negadas, fortalecer organizações que promovem transformação social e financiar soluções para problemas que nem o Estado, nem o mercado, conseguem resolver sozinhos. Se esse é o propósito, a consequência lógica seria que, quanto maior a desigualdade, maior a prioridade do investimento.

Na prática, contudo, a realidade é outra. Boa parte das decisões de financiamento ainda nasce de afinidades, interesses institucionais, preferências pessoais ou estratégias de reputação. Embora não haja problema em apoiar causas relevantes ou organizações competentes, a questão crítica surge quando esses critérios subjetivos substituem o questionamento fundamental: onde este recurso produzirá maior impacto na redução das desigualdades?

Nenhuma política pública séria ignora indicadores para definir prioridades. A saúde baseia-se em dados epidemiológicos; a educação acompanha índices de aprendizagem e evasão; a assistência social identifica territórios de vulnerabilidade. Se essas áreas pautam suas decisões em evidências, por que a filantropia deveria operar de forma diferente?

Proponho chamar essa lógica de "filantropia recreativa": um modelo de investimento social que organiza suas prioridades muito mais pelas preferências de quem financia do que pelos indicadores de desigualdade. É uma prática que gera iniciativas importantes, mas que frequentemente conforta consciências antes de enfrentar estruturas.

O Brasil é um exemplo eloquente dessa contradição. Segundo o IBGE, pessoas pretas e pardas representam cerca de 56% da população brasileira e concentram, historicamente, os maiores índices de pobreza, desemprego, insegurança alimentar, violência e menores rendimentos. Ainda assim, esses marcadores raramente ocupam o centro da definição de prioridades no investimento social.

Essa lógica não se limita à filantropia tradicional, mas reflete também nos mecanismos de incentivo fiscal. O Panorama dos Incentivos Fiscais 2024, elaborado pela Simbi em parceria com o CEDRA, mostra que, entre 2021 e 2024, apenas 3,8% dos projetos aprovados pela Lei Rouanet tinham como foco a igualdade racial ou a valorização de culturas afro-brasileiras e indígenas. Apesar da baixa representatividade no volume total, esses projetos captaram R$ 233,8 milhões e apresentaram uma taxa de execução de 47,3% — superior à média geral de 43,9%.

Os dados revelam uma contradição incontornável: o problema não está na capacidade de execução das iniciativas de equidade racial. Pelo contrário, elas entregam resultados acima da média. A questão reside nos critérios que determinam o acesso aos recursos. Quando projetos voltados à equidade racial demonstram desempenho superior, mas permanecem como uma parcela ínfima do universo financiado, a dúvida deixa de ser a qualidade das iniciativas e passa a ser a falta de prioridade atribuída a elas.

Esse mesmo desafio é apontado pelo estudo "Diagnóstico acerca de filantropia e raça no Brasil: do centro das lutas às margens dos recursos", do Fundo Agbara, que demonstra como organizações negras permanecem sub financiadas, mesmo estando na linha de frente do combate às desigualdades raciais.

Essa constatação provoca uma reflexão incômoda: se conhecemos os indicadores de quem enfrenta as maiores barreiras ao desenvolvimento, por que eles ainda não guiam a distribuição dos recursos filantrópicos? No mundo corporativo, aprendemos a pautar decisões estratégicas em métricas de desempenho, riscos e resultados — seja no campo ambiental ou na governança. Por que, justamente na filantropia, aceitamos que preferências pessoais prevaleçam sobre evidências sociais?

Defender que a raça seja um critério de priorização não significa propor exclusividade nem hierarquizar sofrimentos. Significa reconhecer um fato: no Brasil, a desigualdade possui marcadores objetivos, e a raça é um dos mais determinantes.

Toda decisão de financiamento comunica uma visão de país. Ao escolher quem apoiar, definimos também quais problemas serão enfrentados primeiro e quais continuarão à espera. O Mês da Filantropia Negra deve servir para ampliar esse debate, questionando não apenas o volume investido, mas o critério de decisão.

Enquanto as preferências dos financiadores pesarem mais do que os indicadores produzidos pela sociedade, continuaremos praticando uma filantropia recreativa: generosa nas intenções e eficiente em projetos isolados, mas insuficiente para enfrentar as desigualdades que justificam sua própria existência. O verdadeiro legado da filantropia não será medido pelo volume de recursos distribuídos, mas pela coragem de direcioná-los exatamente para onde o Brasil mais precisa deles.

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