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  • Santana do Ipanema, 29/10/2026
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Fábio Leite

Sertão em chamas: Tenente Aragão revela por que tantos incêndios estão acontecendo na nossa região

Em entrevista ao Podcast AgroAmbiental, o comandante de socorro do Corpo de Bombeiros de Santana do Ipanema explica as principais causas dos incêndios, os desafios enfrentados pelas equipes de combate e os riscos para a população e as propriedades rurais.

Foto: PodCast Agroambiental
Sertão em chamas: Tenente Aragão revela por que tantos incêndios estão acontecendo na nossa região

Quem mora em Santana do Ipanema ou em qualquer outro município do Sertão alagoano provavelmente já viu, especialmente nos meses mais secos, aquelas colunas de fumaça surgindo no meio da vegetação. Às vezes, tudo começa com uma pequena queima de folhas ou restos de vegetação. Mas, dependendo do vento, da umidade e das condições do terreno, o que parecia simples pode se transformar em um incêndio de grandes proporções.

Foi justamente para conversar sobre essa realidade que recebi, no quarto episódio do Podcast AgroAmbiental, o Tenente Aragão, comandante de socorro do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas em Santana do Ipanema. Falamos sobre prevenção, combate aos incêndios, os danos à Caatinga e, principalmente, sobre as pessoas que enfrentam as chamas para proteger a nossa população.

O bate-papo foi cheio de histórias e esclarecimentos. Quero compartilhar aqui alguns dos momentos que mais me chamaram atenção.

Quem é o tenente Aragão?

Antes de entrar no assunto das queimadas, quis conhecer a história do nosso convidado. Natural de Propriá, em Sergipe, Aragão contou que ingressou no Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas em 2002, aos 21 anos. Curiosamente, sua ideia inicial era prestar concurso para a Polícia Militar, mas mudou de decisão na hora da inscrição.

Começou como soldado, passou por diversas graduações e, depois de concluir o curso de habilitação de oficiais em 2024, tornou-se Tenente. São 24 anos de dedicação à corporação.

Hoje, como comandante de socorro, participa do planejamento e da coordenação das respostas às emergências. Ele explicou que a estrutura de Santana do Ipanema, com apoio de postos avançados em Delmiro Gouveia e Piranhas, atende uma extensa região do Sertão. E não cuida apenas de incêndios: também atua em resgates, acidentes e outras ocorrências.

Por que estamos vendo tantos incêndios no Sertão?

Perguntei ao tenente se o aumento dos focos de incêndio que venho observando na região também estava sendo percebido pelo Corpo de Bombeiros. Ele confirmou essa preocupação e contou que a corporação se prepara especialmente para os meses em que as ocorrências em vegetação se tornam mais frequentes.

A Caatinga tem características muito próprias. Na estiagem, muitas plantas perdem suas folhas, e o material seco acumulado pode facilitar a propagação das chamas. Temperaturas elevadas, baixa umidade e ventos também influenciam bastante.

Mas há um ponto que não podemos ignorar: muitos incêndios têm início em ações humanas. Um fogo usado para limpar um terreno pode escapar do controle e atingir grandes áreas. E é por isso que a prevenção precisa começar antes de aparecer a primeira chama.

Uma simples queima de folhas pode se transformar em tragédia

Aragão lembrou uma prática ainda comum em comunidades rurais: juntar folhas e restos vegetais e colocar fogo para limpar o terreno. A intenção pode parecer inofensiva, mas basta uma mudança nas condições do vento para surgir uma situação muito perigosa.

Conversamos sobre a diferença entre fogo sob controle e incêndio, quando as chamas fogem ao controle e ameaçam pessoas, bens e o ambiente. Falamos também sobre a importância dos aceiros, faixas destinadas a reduzir a continuidade do material combustível, que podem integrar um planejamento preventivo.

É importante fazer uma ressalva: queima controlada não é sinônimo de queima livre. O uso do fogo na vegetação está sujeito às exigências e autorizações ambientais aplicáveis. Quem pretende realizar alguma intervenção deve buscar orientação técnica e consultar o órgão competente. E técnicas de combate com fogo devem ficar a cargo de equipes capacitadas.

Como os bombeiros combatem incêndios nas nossas serras?

Um dos trechos que mais me impressionaram foi a explicação sobre os desafios do combate em áreas de difícil acesso. É fácil imaginar um caminhão vermelho chegando e apagando as chamas. Mas e quando o incêndio acontece no alto de uma serra, onde não entra caminhão, trator nem outro veículo?

O tenente contou que o relevo acidentado é uma das maiores dificuldades da região. Em determinadas ocorrências, as equipes precisam avançar a pé, transportar equipamentos e agir estrategicamente para proteger casas, pessoas e animais. Ele recordou incêndios marcantes em áreas de serra, com muitas horas de trabalho.

Falamos sobre caminhões de combate, bombas costais, abafadores e a necessidade de apoio logístico. Também sobre a colaboração das prefeituras e da Defesa Civil quando é preciso disponibilizar água ou outros recursos. O planejamento e a segurança dos bombeiros vêm sempre em primeiro lugar.

Drones: tecnologia a serviço da segurança

Como profissional da área ambiental, gosto muito de conversar sobre o uso de drones. E fiquei curioso quando Aragão explicou que esse equipamento já faz parte da rotina de diversas unidades do Corpo de Bombeiros.

Os drones ajudam a visualizar a extensão da área atingida, a direção da propagação e os pontos que exigem maior atenção. Para quem está comandando uma ocorrência, enxergar o incêndio do alto pode fazer uma enorme diferença na escolha das estratégias e na proteção das equipes.

É uma demonstração de como a tecnologia, quando usada por profissionais preparados, pode contribuir diretamente para a proteção das pessoas e do meio ambiente.

O que o fogo deixa para trás na Caatinga?

Perguntei ao tenente o que mais o impressiona depois que um incêndio é controlado. Ele resumiu em uma palavra: devastação. Relatou situações em que encontrou animais mortos, feridos ou tentando fugir das chamas, incluindo cobras e saguis.

Isso nos faz lembrar que a vegetação não é apenas uma paisagem. É o abrigo, a fonte de alimento e o espaço de reprodução de muitos seres vivos. Um incêndio pode destruir em poucas horas estruturas naturais que levaram anos para se desenvolver.

Além das perdas para a fauna e a flora, a retirada repentina da cobertura vegetal pode tornar o solo mais vulnerável à erosão e dificultar a recuperação ambiental. Na Caatinga, essa preocupação merece atenção especial.

E os animais que conseguem escapar?

Quando o habitat é atingido pelas chamas, alguns animais acabam procurando abrigo perto de casas e áreas urbanas. Aragão explicou que o Corpo de Bombeiros também realiza capturas e resgates, utilizando equipamentos apropriados, e que pode articular o atendimento com outras instituições conforme a situação.

Na conversa, mencionei o trabalho do SOS Caatinga, de São José da Tapera, que também atua com resgate de fauna. É um serviço importante para a nossa região.

Vale o alerta: não tente capturar cobras ou outros animais silvestres por conta própria. Mantenha distância e procure profissionais capacitados. Isso protege tanto as pessoas quanto os animais.

A fumaça também coloca a saúde em risco

Uma ocorrência não precisa alcançar uma casa para prejudicar seus moradores. A fumaça pode atingir comunidades e agravar problemas respiratórios, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças pré-existentes.

Também conversamos sobre propriedades que perdem pastagens, plantações, cercas, animais e, em casos extremos, residências inteiras. Por trás desses prejuízos estão histórias de famílias que trabalharam muitos anos para construir o que têm.

Por isso, incêndios na vegetação não são apenas um problema ambiental. São também uma questão de saúde, segurança e economia.

Parcerias e educação: combater começa antes da emergência

O tenente ressaltou a importância do trabalho conjunto entre Bombeiros, prefeituras, Defesa Civil, escolas e associações rurais. Ele explicou que a corporação está aberta a visitas, orientações e atividades de aproximação com a população.

Esse é um caminho que considero essencial. Informações sobre prevenção, riscos e como acionar corretamente o socorro precisam chegar às propriedades e às comunidades antes do período mais crítico.

Também discutimos que apurar a causa de um incêndio na vegetação nem sempre é simples: a direção do vento e a dinâmica das chamas podem dificultar a identificação da origem. Casos que exigem responsabilização devem ser investigados pelas autoridades competentes.

O que fazer diante de um incêndio?

Essa orientação merece destaque: não coloque sua vida em risco tentando enfrentar um incêndio na vegetação sem treinamento e equipamentos adequados. O vento pode mudar de direção, e o fogo pode se espalhar muito rapidamente.

Se perceber um incêndio, afaste-se para um local seguro, alerte as pessoas que possam estar em perigo e ligue para o Corpo de Bombeiros pelo número 193. Informe a localização com a maior precisão possível e siga as orientações recebidas.

Não espere o fogo chegar à residência ou ao curral para pedir ajuda. Comunicar cedo pode fazer muita diferença.

Por trás da farda existe uma história

Nem só de incêndios foi feita a conversa. Aragão contou experiências da carreira, falou da preparação física, técnica e psicológica e lembrou ocorrências de enchentes em Santana do Ipanema. O trabalho do Corpo de Bombeiros envolve riscos e exige confiança entre os integrantes de cada equipe.

Esse lado humano da entrevista também me marcou. Compartilhei minha admiração pela corporação desde a infância e contei sobre a visita que fiz com meu filho Caio ao quartel de Santana. Ele é apaixonado pelos carros e equipamentos dos bombeiros e foi recebido com muito carinho.

É bonito ver como essa aproximação pode despertar respeito pelo trabalho da instituição e inspirar crianças e jovens.

O que ficou dessa conversa?

Como engenheiro agrônomo e profissional da área ambiental, conheço os danos que o fogo pode provocar no solo, na vegetação e na fauna. Mas ouvir os relatos de quem entra nessas ocorrências traz uma dimensão muito mais humana para o problema.

Por trás de cada área queimada pode existir uma família que perdeu sua produção, um animal que não conseguiu escapar ou uma equipe que passou horas enfrentando condições difíceis. Prevenir é uma responsabilidade de todos nós: proprietários rurais, moradores, instituições e poder público.

A Caatinga faz parte da nossa identidade e da riqueza natural do Sertão. Cuidar dela é cuidar das pessoas que vivem aqui e do futuro da nossa região.

Foi para promover conversas assim que criamos o Podcast AgroAmbiental: um espaço para ouvir quem conhece a realidade do campo e do meio ambiente, compartilhar experiências e levar informação útil à população.

Assista ao episódio completo

Se você é agricultor, pecuarista, proprietário rural, estudante, profissional da área ambiental ou simplesmente se preocupa com a nossa região, recomendo assistir à entrevista completa com o tenente Aragão.

4º episódio do Podcast AgroAmbiental — Tenente Aragão: assista à entrevista no YouTube.

Aproveite para se inscrever no canal do Podcast AgroAmbiental e acompanhar nosso Instagram @podcastagroambiental. Temos novos encontros às terças-feiras, às 20h.

Até o próximo bate-papo!



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