Marcelo Ricardo Almeida
Cadê a Praça Daqui?
Serra da Camonga: cenário da trágica morte do Papagaio de “Macunaíma”, que abriu as asas e se lançou nos 800 metros de rampas para voo livre, rapel e trilhas fingindo ser uma asa-delta. Acabou esborrachando-se numa cama de pedras.
Sob seu guarda-chuva enferrujado e torto, o Papagaio, de poucas palavras e vendedor de seguros, comia generosas fatias de queijo curado. Grudava-as entre os três dedos do pé e as trazia ao bico, criando coragem pra enfrentar a nova noite insone. Nela, ele fechava os olhos, distante de um sono reparador, e via os boletos atrasados abrindo as asas e sobrevoando sua cabeça.
O Papagaio disfarçava as frustrações com lembranças da sua época escolar. Arriscava-se nuns versinhos, acrescentava-lhes harmonia e melodia, abria o bico e beliscava mais fatias de queijo.
“Sem pressa nas praças,
“Pula de galho o Soim,
“Ri à vontade o Bem-Te-Vi.
“Cidade, cidade, cidade,
“Cadê a praça daqui?” perguntou a Cocota com tantas palavras, adiante, no pátio da escola, diante da sala de aula onde o professor ensinava.
“Aves vivendo de esmolas;
“Em toda a rua se achavam
“Gaiolas e mais gaiolas.
“Praças eram dos pássaros,
“E os céus dos discos voadores.”
– E o presente do indicativo, repetiam aqueles alunos a lição do professor no quadro, numa letra a ser lida somente por alguma capacidade alienígena, pois o presente do indicativo, era o presente do indicativo... – ignorando o que aquelas palavras realmente diziam.
“Segue chofer aplicativo.”
– Praça não havia mais engraxate, professor?
– Mas que Cocota mais...! reclamou o professor que era intimidado pela tagarelice da Cocota no olho da palmeira, reduto do Sabiá.
“Cigarra fazia cada escolha”, escreveu o professor no quadro, exigindo dos alunos a voz ativa. A Cocota respondeu-lhe:
– Cigarra praticava a ação, professor, na voz ativa. E, na voz passiva, cada escolha era feita pela Cigarra. Já na voz reflexiva, professor, Cigarra se fazia cada escolha.
– Nada lhe perguntei, óóóóóóóóóóóóó Cocota! repreendeu-lhe o professor. Vá procurar sua turma.
– Óóóóóóóó formigas carregavam folhas! palreou, lá fora, a Cocota, que se preocupava com suas belas unhas compridas e postiças, que custavam seus olhos e sua língua. Palreava com fala de imperfeitas formas. Uniram-se a ela Caturrita, Riquinha, Catorra, Papo-Branco, Periquito-Argentino. E a Jandaia os observava de perto.
– Verbo, prosseguiu o professor, é a classe de palavras que expressa um estado, uma mudança de estado, uma ação, um fenômeno da natureza...
Uma Bituca puxou conversa com a Cocota. Ela abandonou a aula, e voltou-se à Bituca.
No trajeto entre o ponto de ônibus e o trabalho, o ar soprava a fumaça dos tragos alheios. O cheiro de café requentado, que vinha da cozinha, era nauseante. Nas calçadas, entre a rua principal e a da escola, o chão se via forrado de bitucas. Quem passava na rodagem, sequer imaginava haver vida naquelas ruas, naqueles becos.
– Entre vocês, quem deseja entender as infinitas possibilidades de inferir o texto brincando com as palavras? E não há igualitarismo no estilo na sofisticada metalinguagem.
O texto utilizava-se da estrutura da teoria pra escrever sua escrita, disse o professor, longe da Cocota trepada nas folhas da palmeira. Não fosse como aquela Cocota que esvaziou o afeto à humanidade.
Nisso, o Enredo Alegórico estacionou na porta da sala de aula num bate-papo com a Metalinguagem: um casal brilhante. Ele desmantelava a estrutura da aula presente naquela narrativa do professor.
E naquele momento mágico das aprendências e das ensinências, Conceitos Abstratos passavam no corredor. Falavam a respeito da fábula moderna, sobre o Surrealismo, que voltou a Paris, onde costumava admirar a Cidade Luz do alto da Torre Eiffel.
Estabeleceram um diálogo as Entidades Abstratas personificadas nas aulas do professor.
– De que falavam?
– Das carências.
– Só?
– Não.
– De que mais?
– Do desespero do momento contemporâneo.
– Sabia que não era apenas das carências supridas!
– Por que não tenta barganhar com esse tempo chuvoso, frio, fedorento?
O Papagaio, ante o espelho da desumanização numa poça d’água no vítreo asfalto, quis abdicar da própria vivência como uma questão de opinião nas panelas do feijão. Ele enxergou a arte e a vida perderem a vivência dramática. Viu Burnout ao seu lado e não o reconheceu.
Delírio de Grandeza embarcou no ônibus lotado. E Epifania Absurda ficou reclamando porque não conseguiu subir na vida, nos sonhos, no lotação.
– Vou chegar atrasada, outra vez e outra vez e outra vez, no trabalho. Mais cedo ou mais tarde, serei mandada embora.
Subversão Metalinguística fumava seu último cigarro.
Um, desmantelado pela própria estrutura literária, vendia balas a dois reais no ponto. Mas ninguém as comprava. Outro oferecia uma maquininha de cartão; a insistência era à toa, mesmo com a certeza de que era empreendedor individual e também aceitava Pix de qualquer um.
O Papagaio só queria Anestesia. Preservava sua imagem na carteira.
Mercantilização oferecia cigarro ao Ápice Crítico. E este recusava, porque abandonou o vício há uma semana.
No fundão da sala, Cartilha, que acompanhava um aluno que destoava das modas musicais contemporâneas, tricotava. Cartilha falava da avó, que também já tricotou, assim como a avó da sua avó. Noutra sala, Tabuada pedia silêncio e atenção.
E na caixa misteriosa e mágica da sala de aula, o professor reunia as forças de Hércules e Sansão evitando sancionar os alunos na luta com o ensino do verbo.
Os alunos dominavam, tamborilavam no peito: ao projetarem o antebraço, o indicador e o polegar estalavam; em seguida, traziam o polegar e batiam na caixa torácica, provocando o barulho do bumbo. Riam, apitavam, gargalhavam, piavam e gritavam deixando o grito de Johnny na boca de Tarzan no chinelo.
O professor, com seus verbos, fazia terra entre as águas:
– O verbo aponta o estado.
– Como assim?!
– Como alguém ou alguma coisa se encontra.
– Ainda não entendi.
– “Correr” é um estado?
– Desde quando?
– Como você está não pode ficar.
– Sem essa!
– Vai ventar, vai chover, vai nevar.
– Pirou, foi?
– São verbos. Eles mudam de pele mais do que camaleão.
– Não pira.
– No tempo, ele é presente, passado e futuro. No número, ele pode ser plural? Pode. E também singular. E há com ele várias pessoas.
– E no modo é indicativo, disse Cocota, subjuntivo e imperativo.
O indicador e o polegar mantinham o ritmo na caixa torácica: tloc! clic! toc e tac! O ambiente era uma sala de ressonância onde todos gritavam até perder a voz.
Passava um entortando a cabeça sobre o ombro esquerdo, outro sobre o direito. Ele só sabia andar pulando corda, ela dançando ciranda cirandinha.
Você olhava as pingueiras, porque por dias as nuvens se derramaram num chororô de proporções diluvianas. Não lograva êxito o professor, que reunia as forças de Hércules, Sansão e as carretas de O Incrível Hulk. Entre o corre-corre e o balançar-se na cadeira diante da mesa escolar, ele acabou por estourar-se de costas no frio piso de cimento. E, por fim, acabou esborrachando-se numa cama de pedras o Papagaio de “Macunaíma”, na Serra da Camonga.




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