Marcelo Ricardo Almeida
"Criei a palavra 'Produto"
Foto: MagnificEra tarde e a noite era de chuva. Cansado do barulho, da bagunça, da desatenção, do salário mirrado e atrasado, da falta de respeito, da ausência de limites, dos horários apertados, da carga horária pesada, do comum desvio de função etc. O Personagem na crônica tentou dormir; não conseguiu. Mas o sol da manhã o tirou da cama com a certeza de que ele havia criado a palavra produto.
“Criei uma palavra?” perguntava-se, incrédulo. “Criei a palavra ‘produto.’”
A primeira coisa, antes mesmo de se levantar da cama, foi mandar um áudio. Disse à colega Apresentação que desistiria do cenário da época, e que abandonaria as personagens principais.
Em seguida, foi a vez de Complicação. O Personagem escreveu essa sua novidade também ao Desenvolvimento, comunicando que aboliria o conflito, considerando que não haveria problema e, por isso, não haveria quebra do equilíbrio. Resolveu falar com o Clímax, a quem disse que era o fim da emoção e de qualquer tensão na história.
Esperou do Clímax um ponto de virada, que não veio. Aguardou o conflito, que não veio. Exigiu dele uma definição, que também não veio. Falou o que quis ao Desfecho, que perdeu a conclusão do conflito, cujos problemas deixaram de se resolver.
“Tô livre!” disse, por fim. Reforçou: “Criei a palavra ‘produto.’”
Apertou-lhe a fome. O Personagem entrou no mercado do casal Enredo e Trama, donos dos acontecimentos na história; os eventos cabiam aos donos do mercado. E foi, fartamente, alimentado por ser o pai da palavra produto.
Então, veio-lhe o sono. O Personagem bateu à porta do Narrador, que era a voz da história, e dono do ponto de vista, além dos fatos, que se colocavam um degrau abaixo das versões do fato. E o sono foi reparador.
Porém, veio-lhe o frio. O Personagem recorreu ao Tempo.
– Por que eu lhe ajudaria? disse o Tempo.
– Porque eu criei a palavra “produto.”
– Você criou a palavra produto? Mas ela sempre existiu.
– Mas eu a criei.
– Ela está nos dicionários, nas enciclopédias, nos livros de História. Quer vê-la?
– Mesmo assim não me convencerá, Tempo. Eu sou o pai da palavra.
– Não se exalte.
– E tenho frio.
O Personagem convenceu o Tempo e sua carência foi suprimida. Logo veio-lhe outra carência. Como pagaria aluguel, contas atrasadas e cartões de crédito? Ele fez reivindicações ao Tempo – que era dono da época em que os fatos transitavam, e pai do Tempo Cronológico e do Tempo Psicológico. Mas não obteve êxito. O Personagem foi buscar ajuda na casa do Espaço e lá encontrou o Cenário.
– Eu criei uma palavra.
– Criou? perguntou o Cenário. Qual?
– Produto.
– Produto? Achei que já existisse.
– Existia.
– Então...
– Existia porque eu criei.
O Espaço chegou ao local onde a crônica se tecia. O Personagem influenciou o pensamento do Cenário e começou a argumentar e a reivindicar ricos privilégios ao Espaço, dizendo-lhe:
– Criei a palavra “produto.”
– ?




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