João Neto Felix
Luz e escuridão (Aos iluminados acendedores de lampiões e ideias)
No sertão, quando caia a noite tudo era escuridão. No meio do breu, aquele homem anônimo com o seu facho de luz reluzente e a sua lata de óleo de baleia, iniciava seu ofício de acendedor de lampiões das ruas. Solitário, caminhava com passos firmes e, aqui acolá, tropeçava no calçamento irregular de pedras “pé-de-moleque”. Ele estava ciente da urgência do seu trabalho e, sem distrações, seguia incansavelmente noite adentro...
A energia elétrica foi inaugurada em Santana do Ipanema no mês de novembro de 1922. A primeira empresa de luz elétrica da cidade foi da iniciativa privada, fundada pelos empresários Benigno Rodrigues Lins de Albuquerque e Tertuliano Vieira Nepomuceno. No momento da inauguração, o sistema contava com apenas 32 postes com foco de luz distribuídos pela cidade. Tempos depois da inauguração privada, a gestão do serviço de iluminação foi transferida para o controle da prefeitura municipal.
Segundo o escritor, professor e historiador Clerisvaldo B. Chagas em sua obra O Boi, A Bota e a Batina(2007), registrou o momento histórico:
Foi aprovada pelo Conselho a lei Nº. 2 de 1921, em 16 de junho de 1922, que autorizava o contrato para fornecimento de luz elétrica. De fundamental importância para o desenvolvimento da cidade, foi a maior realização do Intendente Manoel dos Santos Leite.
A empresa de Força e Luz, inicialmente privada e depois pública municipal, no início funcionou em um prédio de esquina na rua, hoje, Barão do Rio Branco, perto do Ipanema. A mudança para o local definitivo, só aconteceria entre 1956-1960.
Até aquele momento, Santana era iluminada com os chamados lampiões que funcionavam nos postes com óleo de baleia ou óleo de mamona ou carbureto.
A luz elétrica, agora gerada por um grande motor alemão, deixava a cidade às claras das 18 às 24 horas. Faltando 15 minutos para a meia-noite, piscava três vezes avisando a proximidade do desligamento.
Santana iniciava assim a sua vida de cidade em grande estilo, aposentando os velhos lampiões de óleo de baleia, iluminando-se garbosamente para o futuro. O Capitão Manoel dos Santos Leite chegava ao final da sua gestão com chave de ouro(Chagas,2007,p.124-125).
No início da década de 1950, o então prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, construiu a nova sede da Empresa Municipal de Força e Luz na Rua Nossa Senhora de Fátima, onde atualmente funciona a Câmara Municipal.

| Início dos anos 1950. Atualmente funciona a Câmara Municipal. |
Entretanto, o caos voltou a assombrar o povo santanense quando, em 1959, segundo o historiador Chagas(2007), o motor que fornecia energia elétrica chegou à exaustão, deixando a cidade às escuras por longos 4 anos, sem nenhuma perspectiva política de solução.
Porém, nenhuma força se equipara à luta de um povo por seus direitos. Muitas vezes, aqueles que recebem o mandato de representação não cumprem sua obrigação de forma eficiente e eficaz, restando ao povo tomar à frente. Segundo a jornalista Isis Regina de Araújo Malta, em seu trabalho de conclusão pela Universidade Federal de Alagoas-UFAL, em 2019, sob o título "Histórico Jornalístico da Empresa Maltanet: Registros sobre o Primeiro Portal de Notícias do Sertão Alagoano", faz a contextualização da comunicação no Sertão.
A primeira rádio da cidade surgiu em 1962, em meados de maio, com funcionamento clandestino, denominada Rádio Candeeiro. A ideia da criação surgiu de uma conversa entre os jovens Isnaldo Bulhões e Nestor Noya, este último filho do senhor Darras Noya, que tinha em casa um pequeno transmissor utilizado no sistema de alto-falantes. Na época, apenas quatro locais contavam com energia elétrica na cidade: o Colégio Ginásio Santana, a Sorveteria Pinguim, a casa do dentista Dr. Adelson Isaac de Miranda e o Tênis Club Santanense, clube que se tornou a primeira sede da Rádio Candeeiro (BARROS, 2018).
Os jovens não desejavam apenas colocar uma rádio para funcionar, e sim causar um impacto social. A Rádio Candeeiro nasceu como uma grande ferramenta para a reivindicação e a posterior conquista da chegada da energia elétrica na cidade. Isnaldo e Nestor passaram a contar com o apoio do irmão de Isnaldo, Eraldo Bulhões, então presidente do Tênis Club Santanense, que passou a redigir os textos da campanha denominada “Ou luz ou votaremos em branco”.
A programação da rádio tinha o intuito de articular o movimento, marcar as passeatas – em que todos participavam com candeeiros nas mãos – e incitar as pessoas a votarem em branco em forma de protesto. “Estávamos com uma força tão grande com o eleitorado que o governador do estado se deslocou até Santana para fazer uma reunião e explicar como estava o processo de encaminhamento da energia elétrica para Santana” (BARROS, 2018). De acordo com Isnaldo, o governador da época, Luiz Cavalcante, reuniu as lideranças no Tênis Club Santanense, onde todas as festividades e recepções aconteciam, para falar sobre o projeto.
Após manifestações populares e cobranças por melhorias no abastecimento elétrico local, o governador de Alagoas, Major Luiz Cavalcanti, esteve na cidade e se comprometeu a resolver o problema.
A iluminação só viria depois da eleição, não havia condição de ser antes. Então foi designado para ir à Chesf, no Rio de Janeiro, através de eleição, um jovem para acompanhar o governador e constatar tudo em uma reunião que haveria sobre a energia de Santana. O designado foi Geraldo Bulhões, acadêmico de Direito. Os presentes votaram, Geraldo fez sua exposição e então houve a desmobilização, e o povo ficou liberado para votar. A energia chegou um ano depois (BARROS, 2018).
Em 1963, as obras conduzidas pela recém-criada Companhia Energética de Alagoas (CEAL) foram concluídas, levando a eletricidade de forma definitiva para o município com a chegada da energia vinda da Companhia Hidroelétrica do São Francisco-CHESF.
No dia 28/08/1963, a cidade estava em festa, pronta para comemorar uma das suas maiores mobilizações com pompa e circunstância. O ponto alto foi o desfile cívico das instituições de ensino que recepcionou o governador, autoridades e a população reunidas no palanque (onde se destaca o letreiro do estabelecimento "Toca do Pato") acompanhando o ato oficial de inauguração.

| Cerimônia de inauguração com a presença do gov. Luiz Cavalcante no dia 28/08/1963 |
Após 63 anos, esse evento marca uma das maiores conquistas do povo santanense. Olhando em perspectiva a trajetória da iluminação em Santana do Ipanema confunde-se com a própria identidade do seu povo. Dos 32 modestos postes de 1922 ao desligamento definitivo das sombras em 1963, a cidade provou que a dignidade não se negocia no escuro.

| Desfile cívico na inauguração da energia elétrica da Chesf pelas ruas da cidade |
Assim, a história da iluminação em Santana do Ipanema revela que nenhuma conquista social se ergue sem a força coletiva de seu povo. Do acendedor de lampiões solitário ao movimento vibrante da Rádio Candeeiro, cada gesto de participação popular reafirma que o progresso não é obra exclusiva das gestões públicas, mas fruto da união e da voz ativa da sociedade.
Hoje, em meio às múltiplas formas de comunicação e às urgências que ainda se acumulam, permanece viva a lição de que somente quando o povo se mobiliza, exige e participa, a cidade se transforma de fato. É essa chama ética e cidadã, tantas vezes relegada ao segundo plano, que precisa ser reacendida para que o futuro se ilumine com justiça, dignidade e respeito às necessidades coletivas.
Aos anônimos acendedores de lampiões das ruas

O acendedor de lampiões (Jorge de Lima)
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões de rua!




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