João Neto Felix
Quem foi Manoel Capitulino: padre, construtor, político e governador que emancipou Santana do Ipanema?
Um dos fatos mais intrigantes da história santanense é que se comemora a elevação à Vila como se fosse uma emancipação política de direito, ignorando, por conseguinte, a data oficial. Mas, por que isso acontece até os dias atuais? Há razões que justifiquem? Sim, precisamos compreender a história:
Faz-se mister analisar que a região teve elevado índice de desenvolvimento econômico e financeiro no final do século XIX e início do século XX, lastreado pela produção e beneficiamento de algodão e o comércio de peles;
1 -A economia próspera se refletiu nas construções de casarões neocoloniais na área central e em vários pontos da Vila onde viviam as tradicionais famílias;
2 - Houve organização social e política extraoficial de forma que a coletividade já escolhia seus representantes simbolizados na figura de um intendente(prefeito) e os conselheiros representativos da sede e dos povoados de destaque da região. Os conselheiros - na linguagem atual - eram os vereadores voluntários. Paralelamente a essa estrutura administrativa também já eram cobrados impostos dos moradores;
3 - Constata-se, portanto, que o aglomerado urbano, de fato, já agia como se fosse uma cidade legalmente constituída e economicamente independente, porém sem as participações legais. Essa foi a parte negativa. Nesse período, não haviam estradas e comunicação, por exemplo. Mesmo depois de emancipada oficialmente em 1921, passaram-se 10 anos sem ter direito ao rateio das receitas estaduais, atrasando sobremaneira o avanço de serviços públicos, estradas e infraestrutura básica de uma cidade;
4 - Desde as suas conquistas sociais e políticas extraoficiais que se comemora a data da emancipação em 24 de abril de 1875. Porém, em 2023, o comendador e jornalista Fernando Valões em seu livro “Santana do Ipanema, sua origem”(2023) trouxe nova revelação de que a data correta da elevação à Vila é 21 de janeiro de 1890, de acordo com o Decreto n.º 1, expedido pelo governador Pedro Paulino da Fonseca. Segundo Valões(2023), finalmente a Vila de Sant’Ana da Ribeira do Ipanema conquistou sua emancipação da comarca de Pão de Açúcar, encerrando um período de controle pelos juízes municipais de 1876 a 1890(Valões, p.57, 2023);
5- A Lei anterior se referia a criação da comarca de Pão de Açúcar, abrangendo as Vilas de Pão de Açúcar e Santana do Ipanema em 24 de Abril de 1875;
6 - Por essa e outras razões é justo que se reivindique a comemoração da elevação à Vila como um grande feito da sociedade santanense. Porém, quem foi o governador responsável pelo ato legal da emancipação?
Manoel Capitulino de Carvalho, piaçabuçuense, nasceu em 30.08.1872, filho do casal Antônio Barbosa de Carvalho e Maria da Glória Rocha Carvalho. Estudou no tradicional seminário de Olinda. Foi ordenado em 09.05.1894. Exerceu o vicariato em Alagoas, a atual cidade Marechal Deodoro.

Provavelmente uma das motivações para o padre ter vindo pastorear no sertão foi o fato de que o intendente da época, o coronel Luiz Gonzaga de Souza Góes era seu cunhado. Benquisto na região, o intendente governou a Vila de 1895 a 1914. Dezoito anos ininterruptos no executivo. Segundo o professor, historiador e escritor Clerisvaldo Braga das Chagas em sua importantíssima obra “O Boi, A Bota e a Batina”(2024), registra que a família Gonzaga tinha boa situação econômica, conforme veremos:
A família Gonzaga possuía boa situação econômica e era proprietária de terras e engenhos nas faldas da serra da Camonga à meia légua do centro da Vila. Além disso, o intendente foi dono de loja de tecidos e fábrica de beneficiamento do algodão. Seu primeiro mandato foi curto: apenas dois anos no Executivo. 2.º intendente. Não temos registros de obras físicas. Devido ao seu incontestável prestígio e, naturalmente, sede de poder, o Cel. Luiz Gonzaga foi reeleito em 1896, permanecendo no cargo, não se sabe como, até 1914. Dezoito anos ininterruptos no Executivo, é o maior mandato da história política da terra. Foi o 3º Intendente. (Chagas, p.98, 2024).
O padre Manoel Capitulino é um dos personagens mais emblemáticos da história religiosa e política de Santana do Ipanema, porém é praticamente desconhecido da história. Seu nome não figura em logradouros públicos, nem temos conhecimento de alguma homenagem. O que sabemos dele deve-se à primorosa obra do escritor e historiador santanense/pocense Tobias Medeiros em seu livro “A Freguesia da Ribeira do Panema”(2006) que trouxe à luz seus traços biográficos:
Chegou em Santana do Ipanema em 1898, deixando-a em 26.01.1919, tendo sido auxiliado por outros padres no período. Foi um vigário estimado pelos fiéis, mesmo exercendo cargos políticos. Em 1914, foi eleito intendente - cargo semelhante ao de prefeito - e, com o falecimento do professor Enéas Araújo em 15.01.1915, assumiu a chefia política. Bem relacionado na região sertaneja, elegeu-se senador estadual, cargo que ocupou de 1915 a 1922. No exercício de vice-presidente do Senado, governou o Estado, de 01 de março a 12 de junho de 1921. Sancionou a Lei n.º 893, elevando a Vila de Santana do Ipanema à cidade e a Lei n.º 905, de 09.06.1921, criando a taxa de cem (100) réis por volume exportado por este Estado para as praças nacionais e estrangeiras. O tributo foi a favor da Associação Comercial de Maceió para que edificasse sua sede - o Palácio do Comércio. Hoje, o retrato desse reverendo, em homenagem, encontra-se em uma de suas salas. Em 1934, foi eleito deputado estadual constituinte, e não terminou o mandato por causa do golpe de Getúlio Vargas em 1937(Medeiros, p.111, 2016).

O monsenhor Manoel Capitulino de Carvalho foi vigário em Santana do Ipanema de janeiro de 1898 até 1919, aproximadamente 21 anos.
Sobre sua atuação como intendente(prefeito) há poucas informações. Segundo Chagas(2024) seu período de atuação foi breve.
A gestão do Intendente Pe. Capitulino de Carvalho foi curta. Governou de 1914 a 1915, apenas. Depois, porém, se dedicou à política estadual. Capitulino foi o 4º Intendente. Da sua gestão sabe-se apenas que o comércio foi proibido de funcionar após as 10 horas nos dias 7 de setembro e 15 de novembro, com multa estabelecida em vinte mil réis. Não temos registros de obras físicas (Chagas, p.103, 2024).
Em 21.08.1940, o monsenhor Manoel Capitulino escreveu sua autobiografia relatando seu trabalho na paróquia de Sant’Ana, revelando informações importantíssimas, segundo o escritor e padre José Valter.
Com a retirada do Padre João Pacífico Freire, fui em janeiro de 1897, nomeado vigário da freguesia de Sant’Ana do Ipanema, onde construí a Igreja Matriz e uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Fundei o Apostolado da Oração na Igreja Matriz e em todas as Capelas da freguesia aludida. Na sede da freguesia só existia uma capela com foros de matriz construída pelo missionário padre Francisco José Correia de Albuquerque, quando a cidade de Sant’Ana do Ipanema era uma fazenda de gado de Martinho Vieira Gaia. Com a criação do Bispado de Penedo em janeiro de 1918 vim residir na Capital do Estado de Alagoas(Santos Filho, p.131-132, 1993).
A capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição é a mesma que hoje conhecemos em honra à Nossa Senhora da Assunção. Foi construída em comemoração à passagem do século (1899-1900), e deu origem ao bairro “Monumento”, simbolizando o ponto de partida da expansão urbana.
Chagas(2024), discorre sobre a chegada da imagem proveniente de Portugal que foi entronizada.
Ainda no ano de 1900, chegava à vila de Sant’Ana do Ipanema, a primeira imagem de Nossa Senhora da Assunção. Dizem que a santa veio de navio de Portugal ao Brasil e foi de trem até Viçosa, fim do ramal, naquela época. De Viçosa a Sant’Ana a imagem teria viajado em lombo de burro, tangida a tropa até o Sertão alagoano. Nesses animais também chegou a Sant’Ana, um belo altar de madeira. Na chegada, o comércio fechou para prestigiar a santa que foi recebida por fogos de artifício, quando aberto os caixotes. Com a chegada de Nossa Senhora da Assunção, foram iniciadas as festividades de Ano Novo e século novo. O lugar passou a ser denominado Monumento, depois, bairro Monumento(Chagas, p.98-99, 2024).
É possível que a mudança da consagração a Nossa Senhora da “Conceição” para “Assunção” tenha sido feita pelo Padre Fernando Medeiros (1910-1984), que foi vigário de 1947 a 1951 ou pelo Padre Luiz Cirilo (1915-1982) que foi vigário de 1951 até 1982, visto que não há registros históricos. A imagem atualmente exposta na capela guarda semelhanças com a imagem de Nossa Senhora da Conceição.
A solução definitiva à dúvida está em celebrar as duas festas porque honraria o testamento do Padre Capitulino, que deixou o sentimento religioso como herança de fé ao povo sertanejo. O culto a Nossa Senhora da Assunção está em torno da proclamação do Dogma de Fé da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria elevada aos céus em corpo e alma. O dogma foi proclamado pelo Papa Pio XII em 1950, através da constituição “Munificentissimus Deus”.
Até então não havia registros oficiais de qual vigário teria sido responsável pela construção da Igreja Matriz de Senhora Santana no local onde hoje se encontra, depois da capela construída pelo padre Francisco Correia. Ag




ora, não há mais dúvidas de que o padre Manoel Capitulino de Carvalho foi o protagonista. Outrossim, inexistem registros oficiais de início e conclusão da obra. A única prova documental é a foto da Matriz em construção em 1912.

Em outra fotografia de 1920 já vemos a igreja praticamente concluída. São as fotos mais antigas sobre a (re)construção da igreja matriz. Portanto, leva-se a crer que a construção tenha demorado, aproximadamente, 10 anos, entre 1910 e 1920. Há escritores que registram o início da construção em 1900. As informações são imprecisas e contraditórias. É possível que haja confusão com a capela do monumento dedicada a Nossa Senhora da Assunção que foi inaugurada em 1900.
O padre ocupou outros cargos: Foi membro do Conselho de Administração da Arquidiocese, vigário geral, camareiro secreto de Pio XI e capelão da igreja de São Benedito, em Maceió, onde faleceu, ao pé do altar do Sagrado Coração de Jesus, à noite do dia 22.06.1942, ao incensar o altar, na cerimônia das homenagens do mês consagrado ao Senhor.




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