Saúde mental: por que jovens ainda evitam pedir ajuda?
Barreiras emocionais e sociais podem dificultar a busca por apoio psicológico.
Reconhecer que algo não vai bem e pedir ajuda é um passo importante para a melhora da saúde mental. Na adolescência e juventude, porém, esse caminho, que já não é simples, fica ainda mais tortuoso. Criar condições para que o jovem se sinta seguro para falar sobre o que está vivendo e buscar apoio é uma responsabilidade da sociedade e não apenas da família.
Entre os 10 e os 19 anos, mudanças físicas, emocionais e sociais acontecem ao mesmo tempo em que se constroem identidade, autonomia, relações e perspectivas para o futuro. Nesse período, fatores como pobreza, violência e abuso, pressão de amigos e colegas, influência das mídias e questões relacionadas à identidade podem aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento psíquico.
Globalmente, um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos apresenta algum transtorno mental. No Brasil, o cenário é semelhante, chegando a quase um em cada seis jovens nessa faixa etária. Depressão, ansiedade e transtornos comportamentais estão entre as principais causas de adoecimento e incapacidade nessa fase da vida.
Diante desse cenário, o que faz com que tantos jovens ainda tenham dificuldade para buscar ajuda, falar sobre o que sentem, acessar o cuidado e chegar ao tratamento?
O estigma em torno da saúde mental é considerado um problema universal, presente tanto entre os mais novos quanto entre os adultos que os cercam. Estudos mostram que menos de um terço daqueles que enfrentam dificuldades de saúde mental busca tratamento.
O medo de que os pais não compreendam, de ser julgado pelos amigos ou tratado de forma diferente na escola pode dificultar ainda mais falar sobre o que está acontecendo, seja por vergonha, receio de rejeição ou medo de não se encaixar. Quando o jovem sente que não será compreendido ou levado a sério, o silêncio pode parecer uma opção mais segura. Por isso, simplesmente dizer ao adolescente que ele deve procurar ajuda não é suficiente.
A OMS recomenda que as estratégias de promoção e prevenção alcancem os diferentes espaços da vida nessa fase, incluindo escolas, comunidades, serviços de saúde e assistência social, além dos ambientes digitais.
Mesmo quando o jovem consegue dar esse primeiro passo, nem sempre sabe o que fazer depois. Muitas vezes, é um adulto que percebe mudanças e entende que aquela situação merece atenção. Por isso, a família e outras pessoas próximas têm um papel importante para que os sinais não sejam ignorados e o acesso a um profissional aconteça quando necessário.
Para quem está próximo, pode ser complicado compreender o significado de uma mudança de comportamento ou de um sintoma. Nem todo sinal de sofrimento significa que existe um transtorno. A avaliação de um profissional especializado permite observar e/ou identificar há quanto tempo as mudanças ou os sintomas estão acontecendo, com que intensidade e o quanto interferem no dia a dia, nos estudos, nas relações e em outras atividades. ⁶ É essa avaliação mais completa que ajuda a orientar um diagnóstico adequado e o cuidado mais indicado para cada caso.
E, quando essa avaliação indica a necessidade de apoio, cuidados e tratamento, o tempo também importa. Estudos mostram, por exemplo, que passar mais tempo com os sintomas depressivos sem tratamento está associado ao agravamento da saúde mental.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “por que ainda é tão difícil buscar ajuda e tratamento?”, mas também “o que podemos fazer para facilitar esse caminho?”. Parte da resposta está em fortalecer espaços nos quais os jovens possam falar sobre o que estão vivendo com segurança, ser ouvidos sem julgamentos e, quando necessário, ter acesso a profissionais preparados para avaliar seus sintomas e compreender o contexto em que eles aparecem.
Transformar essa realidade exige que o jovem não precise percorrer sozinho o caminho até o cuidado. Família, escola, amigos, comunidade e serviços de saúde podem contribuir para reconhecer quando algo não vai bem e facilitar o acesso ao apoio adequado. Assim, pedir ajuda deixa de ser uma responsabilidade apenas de quem está sofrendo e passa a ser um compromisso de todos nós.





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