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  • Santana do Ipanema, 10/09/2026
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SENAI Alagoas leva qualificação profissional a 40 indígenas em Maceió

Curso realizado no SENAI Poço busca fortalecer a autonomia das comunidades indígenas.

Foto: Assessoria
SENAI Alagoas leva qualificação profissional a 40 indígenas em Maceió

O SENAI Alagoas deu um passo importante na educação profissional do estado ao receber, no SENAI Poço, em Maceió, uma turma formada por 40 indígenas para uma capacitação voltada diretamente às necessidades de suas comunidades. Concluído no início de setembro, o curso Operação e Manutenção de Instalações Elétricas, Motobombas e Quadros de Comandos dos Sistemas de Abastecimento de Água integrou o programa de Qualificação Intercultural em Saneamento e Saúde Ambiental Indígena, desenvolvido pelo governo federal, por meio do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alagoas e Sergipe, em parceria com o SENAI Alagoas.

A iniciativa acontece em um momento de expansão da educação profissional no país. Dados do Censo Escolar 2025 mostram que o número de matrículas na Educação Profissional e Tecnológica cresceu 68,4% em cinco anos, passando de 1,89 milhão, em 2021, para 3,18 milhões, em 2025. O indicador revela a importância crescente da formação técnica para a inserção no mundo do trabalho e para o desenvolvimento social e econômico.

Em Alagoas, porém, a experiência realizada no SENAI Poço acrescenta uma dimensão particularmente relevante a esse processo: a inclusão de povos originários em uma estrutura de formação profissional concebida para articular conhecimento técnico, prática e realidade produtiva. Mais do que oferecer um certificado, a instituição abriu suas portas para um público que historicamente enfrenta barreiras de acesso a oportunidades educacionais e profissionais, criando condições para que o conhecimento adquirido retorne às próprias comunidades.

Aplicação do conhecimento

A formação teve 24 horas de duração, distribuídas em três dias, com conteúdos relacionados às áreas de Elétrica e Metalmecânica. O objetivo foi desenvolver competências para a operação, a manutenção e a identificação de problemas em instalações elétricas, motobombas e quadros de comando utilizados nos sistemas de abastecimento de água.

Para os Agentes Indígenas de Saneamento (Aisan), esse conhecimento tem aplicação direta. De acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde, esses profissionais atuam na vigilância e no saneamento ambiental, incluindo a operação e manutenção dos sistemas de abastecimento de água, a preservação de mananciais, a destinação de resíduos e ações de orientação e educação ambiental e em saúde.

A atuação dos Aisan também ganha importância diante da crescente utilização de informações sobre saneamento, qualidade da água e condições ambientais para o planejamento das ações de saúde indígena. Em agosto, o Ministério da Saúde realizou uma qualificação nacional para agentes indígenas de saneamento voltada ao uso da Plataforma de Vigilância Ambiental e Saúde Indígena (Vigiambsi), ferramenta que reúne dados ambientais dos territórios indígenas, integrando-os às informações de saúde.

Nesse contexto, a formação oferecida pelo SENAI amplia a capacidade técnica de profissionais que já atuam diretamente nos territórios. É uma lógica em que educação profissional e política pública de saúde se encontram para fortalecer a autonomia das comunidades.

Para o gerente do SENAI Poço, Welton Barbosa, a experiência também representa uma oportunidade de aprendizado. “Essa formação foi muito importante não apenas para os alunos, mas para nós, enquanto instituição. Receber essa turma nos permitiu compreender novas perspectivas, adaptar práticas pedagógicas e ampliar a experiência dos nossos docentes”, observa.

Nas aldeias, a teoria na prática

Entre os alunos do curso estava Gerlaine Gomes da Silva, da etnia Jeripankó, de Pariconha, no sertão alagoano. Agente Indígena de Saneamento, ela encontrou nas aulas as ferramentas necessárias ao aperfeiçoamento do trabalho que já desenvolve na comunidade. “Eu faço o acompanhamento do carro-pipa, o trabalho relativo à qualidade da água, tratamento, vistoria. Nas visitas domiciliares, atuo com orientações de prevenção e promoção de saúde, prevenção de doenças. Tudo relacionado ao consumo da água e também à parte de esgoto, de lixo”, explicou.


Para Gerlaine, a principal contribuição do curso foi transformar aquilo que muitas vezes permanecia apenas no campo teórico em conhecimento prático. “Vai ser muito importante para mim, porque estou obtendo um amplo conhecimento sobre algo que antes eu só via na teoria. Como operar um sistema de abastecimento? O que fazer quando tem um problema na parte elétrica, na bomba? Esse curso vai agregar muito”, avaliou.

A experiência também mudou sua percepção sobre a própria formação profissional. “Gostei muito. E espero fazer novos cursos aqui no SENAI”, afirmou. Sobre a estrutura do SENAI Poço, Gerlaine era pura empolgação: “A infraestrutura é top”. E completou: “Estou melhorando a saúde do meu povo, que é isso que importa”.

A dimensão comunitária da formação

A dimensão comunitária da iniciativa também foi destacada por Celso Celestino da Silva, pajé da etnia Chukuru-Kariri, de Palmeira dos Índios. Com experiência como um dos primeiros agentes indígenas de saneamento de sua comunidade, Celso sabe da importância de formar profissionais que pertençam aos próprios territórios. “Eu agradeço pela parceria do SENAI com a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), SESAI local, SESAI Brasília. Porque é de extrema importância manter os indígenas que trabalham como agentes de saneamento dentro das suas bases”, pontuou.


Segundo ele, o conhecimento técnico precisa estar associado ao conhecimento sobre o território. “O agente de saneamento tem que morar dentro da comunidade. Ele tem que ser de lá, porque conhece o território, conhece o povo, conhece a cultura. Não vai adiantar colocar alguém que não conhece”.

A experiência no SENAI, acrescentou, mostrou aos participantes que ocupar espaços de formação técnica também é uma forma de ampliar horizontes. “A gente tem que estar envolvido e ocupando os espaços. Tem que ocupar. Tem indígenas enfermeiros, técnicos, médicos… Várias funções. Por que não?”, questionou.

Para os 40 indígenas que concluíram a capacitação, o certificado representa uma competência a mais para enfrentar desafios concretos nos territórios onde vivem. Para suas comunidades, significa contar com profissionais mais preparados para cuidar da água, do saneamento e, consequentemente, da saúde de seus povos.

E, para o SENAI Alagoas, a experiência deixa uma marca que vai além de uma primeira turma. Ela reafirma o papel da instituição como agente de transformação social e mostra que a educação profissional pode chegar a novos públicos sem perder sua excelência; ao contrário, pode tornar-se ainda mais relevante ao colocar conhecimento, tecnologia e cidadania a serviço de quem mais precisa.

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