Bancada Indígena 2026 leva força dos territórios para as eleições
Campanha apresenta 56 candidaturas indicadas por organizações regionais indígenas da APIB, articuladas em torno do projeto Nosso Território, Nossa Vida.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), junto com suas organizações regionais de base, apresenta nesta quarta-feira, 19 de agosto, a Bancada Indígena 2026. São 56 candidaturas reunidas pela Campanha Indígena para fortalecer a presença dos povos nos espaços de decisão e levar para as eleições uma proposta política construída a partir dos territórios.
A Bancada reúne candidaturas de 39 povos indígenas, distribuídas por 19 estados e conectadas às diferentes regiões e biomas de abrangência das organizações regionais da APIB. Essa diversidade territorial expressa a presença dos povos na disputa eleitoral de 2026. Do total de 56 candidaturas, 27 são de mulheres. São 33 candidaturas a deputado estadual, 19 a deputado federal, duas ao Senado, uma ao governo estadual e uma à segunda suplência do Senado.
A apresentação das 56 candidaturas acontece em um cenário histórico de crescimento da participação indígena na política institucional. Levantamento da Campanha Indígena atualizado em 17 de agosto identificou 191 candidaturas de pessoas que se declararam indígenas nas eleições de 2026. É o maior número registrado em eleições gerais desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a reunir informações de cor e raça das candidaturas, em 2014. Naquele ano foram registradas 85 candidaturas indígenas. O número chegou a 133 em 2018 e a 186 em 2022. Em 2026, são 191 registros.
Cargos que a Bancada Indígena concorre em 2026:
33 candidaturas a deputado estadual
19 candidaturas a deputado federal
2 candidaturas ao Senado
1 candidatura ao governo estadual
1 candidatura à segunda suplência do Senado
A escolha começa nos territórios
“A Bancada Indígena é um recorte político construído a partir das indicações das organizações regionais de base da APIB, fortalecendo uma articulação que parte dos territórios”, afirma Alana Manchineri, coordenadora da Campanha Indígena.
A composição da Bancada parte do conhecimento que cada organização regional possui sobre as candidaturas e sobre a realidade política onde atua. Desde a preparação da Campanha Indígena 2026, as organizações de base assumiram um papel central na indicação dos nomes que integram essa construção.
Durante a organização da campanha, o grupo de trabalho da APIB adotou como referências o compromisso com os direitos dos povos indígenas e com os direitos humanos. A relação das candidaturas com as lutas sociais também orientou esse processo.
Essa metodologia dá sentido político à Bancada ao conectar as candidaturas às organizações de base e às pautas construídas pelo movimento indígena. É a partir dessa relação entre territórios e disputa eleitoral que Nosso Território, Nossa Vida chega às eleições de 2026.
Nosso Território, Nossa Vida
A Campanha Indígena leva para o processo eleitoral uma proposta de país construída a partir das experiências e das lutas dos povos indígenas. Nosso Território, Nossa Vida coloca os territórios no centro das decisões sobre o futuro do Brasil e orienta o diálogo político das candidaturas que integram a Bancada.
As candidaturas são chamadas a incorporar essas propostas em suas campanhas e levá-las ao debate com a sociedade. Dessa forma, a presença indígena nas eleições se conecta a uma construção política que nasce dos povos e busca incidir sobre as decisões tomadas nos espaços institucionais.
Nosso Território, Nossa Vida afirma a demarcação e a proteção das Terras Indígenas como parte da soberania do país. A proposta também defende a participação dos povos nas decisões públicas e reconhece a proteção dos territórios como parte central das respostas à crise climática.
“A Bancada Indígena que estamos apresentando nasce das organizações de base e leva para as eleições um projeto construído pelo movimento indígena. A Bancada marca um novo momento da caminhada para aldear a política, fortalecendo candidaturas construídas a partir dos territórios e colocando as propostas do movimento indígena no debate sobre o futuro do Brasil. Nosso Território, Nossa Vida coloca os territórios no centro do futuro do Brasil e chama as candidaturas a incorporarem essas propostas em suas campanhas. Aldear a política significa levar as propostas dos nossos povos para os espaços onde as decisões sobre o país são tomadas”, afirma Dinamam Tuxá, coordenador executivo da APIB.
Uma caminhada construída antes das urnas
A presença dos povos indígenas na política institucional brasileira atravessa décadas. Em 1969, Manoel dos Santos, conhecido como Seu Coco, do povo Karipuna, foi eleito vereador em Oiapoque, no Amapá. Em 1976, Cacique Ângelo Kretã, do povo Kaingang, conquistou uma vaga de vereador em Mangueirinha, no Paraná, durante a ditadura militar. Seis anos depois, Mário Juruna, do povo Xavante, tornou-se o primeiro deputado federal indígena da história do Brasil.
A presença indígena também avançou nos governos municipais. Em 1990, Iracy Cassiano, do povo Potiguara, foi eleita prefeita de Baía da Traição, na Paraíba. Em 1996, João Neves, do povo Galibi-Marworno, chegou à prefeitura de Oiapoque, no Amapá.
A partir de 2014, essa trajetória passou a ser acompanhada com mais precisão nas estatísticas eleitorais, quando o TSE incluiu os dados de cor e raça no registro das candidaturas. Um levantamento do pesquisador Luís Roberto de Paula estima que pelo menos 448 indígenas foram eleitos no Brasil entre 1976 e 2012.
Em 2017, a APIB publicou o manifesto “Por um Parlamento cada vez mais indígena”, colocando de forma pública a necessidade de ampliar a presença dos povos indígenas nos espaços de decisão. A eleição seguinte marcou outro momento dessa caminhada. Em 2018, Joenia Wapichana tornou-se a primeira mulher indígena eleita deputada federal, enquanto Sonia Guajajara integrou uma chapa presidencial e levou a presença indígena para o centro do debate político nacional.
Essa trajetória ganhou uma articulação nacional própria em 2020, com a criação da Campanha Indígena pela APIB e suas organizações regionais de base. Naquele ano, 2.212 indígenas registraram candidaturas nas eleições municipais, crescimento de 27% em relação a 2016. Foram eleitos 236 indígenas, representando 71 povos em diferentes regiões do país.
Em 2022, a Campanha Indígena organizou a Bancada Indígena com 30 candidaturas indicadas pelas organizações regionais da APIB. As candidaturas mobilizaram cerca de 500 mil votos. Sonia Guajajara, por São Paulo, e Célia Xakriabá, por Minas Gerais, foram eleitas deputadas federais. Naquele ano, 186 pessoas indígenas registraram candidaturas nas eleições gerais, mais que o dobro das 85 registradas em 2014.
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