Do Sertão às grandes maratonas: conheça a história da esportista Vaniclea Moura dos Santos
Natural de São José da Tapera, município do Médio Sertão de Alagoas, Vanicleia Moura dos Santos, de 27 anos, carrega na própria história as marcas da resistência sertaneja.
Campeã da 21 km de João pessoa 2025 Natural de São José da Tapera, município do Médio Sertão de Alagoas, Vaniclea Moura dos Santos, de 27 anos, carrega na própria história as marcas da resistência sertaneja. Filha mais velha de quatro irmãos e criada apenas pela mãe, ela cresceu em meio a muitas dificuldades, mas nunca abriu mão de suas raízes, valores e do desejo de seguir em frente.
Criada no povoado Malhada Bonita, Vanicleia mudou-se ainda jovem para a cidade. Aos 13 anos, começou a trabalhar. Para ela, crescer no Sertão alagoano é sinônimo de simplicidade, força e garra. “Venho de uma família humilde, mas que sempre batalhou para viver melhor. Tenho muito orgulho de ser sertaneja”, afirma.
A corrida entrou em sua vida no final de 2017, quando trabalhava como doméstica, morava de aluguel e cursava a faculdade de Pedagogia. Sem nunca ter participado de uma prova, aceitou o convite da patroa para correr 9 km, mesmo sem material adequado ou treinamento. O resultado surpreendeu: terceiro lugar e um prêmio de R$ 50. “Ali percebi que a corrida poderia me ajudar como renda extra para pagar as contas de casa e a faculdade”, relembra.
O início foi marcado pelo improviso. Vanicleia conta que correu sua primeira prova usando chuteira de futebol society e uniforme de time. Sem experiência e sem compreender o processo de formação de um atleta de alto rendimento, enfrentou dores e dificuldades físicas. Ainda assim, aquele momento representou uma virada de chave. A partir dali, passou a treinar e competir com mais frequência.

Conciliar trabalho doméstico, estudos e treinamentos foi um dos períodos mais difíceis de sua trajetória. Além disso, treinava sozinha e enfrentava a falta de apoio, especialmente por ser mulher. Mesmo diante desses obstáculos, nunca desistiu dos estudos. Após concluir o ensino médio, iniciou a faculdade de Pedagogia, formação que, segundo ela, mudou sua forma de pensar e enxergar o mundo.
Hoje, formada em Pedagogia e cursando o Bacharelado em Educação Física, Vanicleia destaca que a educação foi fundamental para sua evolução pessoal e esportiva. “A formação acadêmica me trouxe disciplina, foco e mentalidade. Para ter desempenho, é preciso disciplina, e isso é essencial para conquistar sonhos”, afirma.
Projeto social
Em 2019, Vaniclea passou a integrar um projeto social chamado Caiçara, experiência que foi fundamental para sua formação esportiva. No projeto, ela começou a compreender melhor o que era a corrida de rua, teve a oportunidade de participar de mais provas na região e, sobretudo, passou a se identificar e gostar ainda mais da modalidade, fortalecendo sua permanência no esporte.
Focou no esporte
Em 2023, tomou uma das decisões mais difíceis da carreira: deixou o trabalho para se dedicar integralmente ao atletismo e buscar a profissionalização. Apesar das dúvidas e inseguranças, considera que foi a escolha certa. Atualmente, passa períodos fora do estado, especialmente em Salvador, onde encontra melhores condições de treinamento, maior proximidade com o treinador e mais estabilidade para evoluir.
Mesmo com o crescimento no esporte, os desafios permanecem. A maior dificuldade hoje é financeira. Sem bolsa ou patrocínio fixo, Vanicleia precisa competir com frequência para custear viagens, inscrições, equipamentos e treinamentos. “A dificuldade não é chegar ao alto rendimento, é se manter nele”, destaca.
Ainda assim, ela segue acreditando no processo, no trabalho diário e na construção passo a passo de sua trajetória.
Provas e trajetória
Uma das suas primeiras corridas da atleta foi em 2019, a Meia Maratona de Tiradentes, em Maceió. Ela lembrou também de um pódio na Meia Maratona da Fruticultura (21 km), resultado importante no seu processo de adaptação às distâncias maiores.
Vanicleia destacou corridas importantes, como a Meia Maratona de Salvador, em 2024. "Uma das provas mais fortes do ano. Fiquei em 6º lugar na elite, alcançando minha melhor marca pessoal nos 21 km". Teve ainda a Maratona Internacional de Porto Alegre (42 km), que para ela foi sua “estrelinha” na distância, com o tempo de 2h49min09s, um marco em sua carreira.

Mais um registro é a Maratona do Brasil, em 2024, e a Maratona Internacional de Porto Alegre, 2025, prova em que alcançou sua melhor marca, passando a ocupar a 7ª posição no ranking brasileiro da maratona. Ela também foi campeã em João Pessoa (2025), vitória que reforçou sua regularidade e evolução na meia maratona.
Corrida Internacional de São Silvestre
A realização de um sonho. Vanicleia encerrou o ano com orgulho do caminho percorrido, resultado que, segundo ela, a consagrou como a melhor atleta alagoana nas distâncias de 5 km, 10 km, 21 km e 42 km, confirmando que todo o esforço tem valido a pena.

Ao olhar para sua própria história, Vanicleia deixa uma mensagem direta para quem sonha em mudar de vida por meio do esporte: não desistir, acreditar no processo, insistir e confiar no trabalho. Para ela, dedicação, disciplina e coragem são essenciais para alcançar sonhos e transformar realidades.
A trajetória de Vanicleia Moura é construída com passos firmes e sem atalhos, levando o nome de São José da Tapera e do Médio Sertão de Alagoas às maiores provas do atletismo brasileiro, sem perder a essência de onde tudo começou.







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