João Neto Felix
A catingueira tem cheiro de infância
Entre ciência, cultura e lembranças, arbusto típico da Caatinga traduz a força e a poesia do semiárido brasileiro
No coração da Caatinga, onde o sol parece arder sem piedade e a terra se veste de poeira, viceja a catingueira; arbusto de tronco cinza-claro, folhas bipinadas e flores amarelas com pingos vermelhos que lembram brasas acesas. É uma árvore que sabe o segredo da sobrevivência: recolhe-se na seca, despindo-se de folhas, mas nunca se entrega. E quando a chuva chega, renasce em floradas que iluminam o sertão como bandeiras vivas do Brasil.
“Catingueira” deriva da palavra “caatinga”, bioma onde a planta é nativa, associado ao cheiro (“catinga”) que suas folhas exalam. O termo “catinga” em tupi significa “mata branca”, referência à vegetação seca e esbranquiçada da região. O sufixo “-eira” indica planta ou árvore, formando “catingueira”=“árvore da catinga” ou “árvore de cheiro forte”. De rápido crescimento, com flores amarelas, amplamente usada na medicina popular, forragem, apicultura e produção de madeira.
Para mim, o arbusto tem um cheiro de infância. Seu aroma é mais que agradável: é profundo, é memória, é catarse. Quem já se deteve diante de um exemplar florido sabe que não se trata de simples essência odorífera, mas de uma experiência sensorial que transcende o corpo e toca a alma. É como se o semiárido inteiro respirasse através dela, oferecendo ao viajante um instante de êxtase em meio à aridez.
A catingueira é, sem dúvida, a melhor representante do semiárido brasileiro. Traduz em forma vegetal a alma sertaneja: resistente, forte, mas também perfumada e colorida. Suas flores e aromas se destacam à distância, lembrando que mesmo na terra seca há vida, há esperança e poesia.
Encontrá-la é mergulhar no perfume agreste que desperta lembranças e nos guia às raízes do sertão. É voz de infância, é canto de luta, é beleza escondida sob a aspereza da terra. É o Brasil profundo, indomável, que resiste às caricaturas e se afirma em silêncio. A catingueira não é apenas planta: é verso que se respira, memória que floresce, eternidade que se entranha no pó e na luz do sertão.
Nos anos 1970, quando ainda não havia a expansão da oferta dos ovos de granja no sertão, predominava nas feiras livres a venda de ovos de galinha de capoeira dos criadores de fundo de quintal, em sua grande maioria instalados na zona rural.
O transporte do alimento para a cidade era feito em caçuás nos lombos dos jumentos. Para aliviar o sacolejo da viagem, a delicada carga era acolchoada com as folhas da catingueira fresca que lançavam de si o aroma na via pública. No meio do alvoroço dos transeuntes todo o estoque era vendido. Inesquecível. No final da feira os caçuás retornavam forrados da folhagem com os mantimentos da semana.
Caminhando pela estrada sempre que encontro um exemplar do arbusto eu paro, reverencio e sigo renovado por lembranças, aromas, significados e pegadas que deixei pelo caminho.
Perguntam se tenho saudade do Sertão. Respondo: não. Porque não se trata de ausência. O Sertão não saiu de mim. Ele renasce a todo instante com todas as suas potencialidades independente do lugar em que eu esteja. Que este testemunho seja um convite para você desfrutar da experiência de conhecer esta planta símbolo presente às margens das estradas de todo o sertão alagoano.




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