“Vítima às vezes não percebe o crime”, diz cons. tutelar sobre abuso de menores

27 jan 2020 - 16:34

Foto: Alexas_Fotos / Pixabay

Acostumada a lidar com diversas denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, a psicóloga e conselheira tutelar de Santana do Ipanema, Michele Rodrigues afirma que em muitos casos as vítimas desses crime não percebem que estão sofrendo abusos.

A fala da profissional ocorre após questionamento do site Alagoas na Net sobre o assunto, que nesta segunda-feira (27), se tornou manchete após um caso ocorrido em Ouro Branco. O pastor de uma igreja foi flagrado convivendo com uma menor de 12 anos. CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS.

Michele relata que já acompanhou diversos casos em que crianças e adolescentes foram encontrados em situação semelhante: convivendo maritalmente com um adulto, com a anuência da família. Enfatiza ainda que esses casos são a maioria, mas as pessoas não denunciam porque acreditam que o suposto consentimento da adolescente e de sua família é suficiente para invalidar o crime.

“Eu não posso falar sobre esse caso em específico, mas garanto que vi muitos parecidos, no qual a adolescente sequer entendia que estava sendo abusada. Para ela, era normal esse convívio com o adulto a quem ela se referia como ‘namorado’, e o pior, é que muitas famílias sabem disso, mas não denunciam”, diz Michele.

A conselheira explica que em alguns casos, o abuso é acobertado pela família justamente por não entenderem que aquela relação não é romântica e sim abusiva. “Já atendemos casos onde o acusado foi procurar a família pra dizer que ia casar com a menor. Ao invés de denunciar, eles aceitam a proposta, alegando que também se casaram novas”, completou.

Abusos sem penetração

A conselheira tutelar santanense ainda chama a atenção para alguns casos de violência sexual contra menores, em que muitas vezes não há comprovação de que houve conjunção carnal (penetração). 

“Tive a oportunidade de atender alguns casos onde o fato de não ter sido comprovado a conjunção carnal, o abuso foi minimizado e a palavra da criança colocada em dúvida. Acontece que boa parte do crime não incluem penetração, são toques indevidos, carícias, beijos, masturbação. O exame indica apenas se houve ou não rompimento do hímem (membrana que cobre a entrada da vagina em mulheres que nunca tiveram relação sexual)”, explica.

De acordo com a psicóloga, quando o exame aponta que não houve conjunção carnal, que a criança ou adolescente permanece “virgem”, por exemplo, a fala da criança tende a ser desacreditada, já que não existe “prova” de que ela está dizendo a verdade. 

“Precisamos ampliar o debate sobre violência sexual e desnaturalizar essas relações abusivas entre adultos e menores. Envolver crianças e adolescentes em atividades sexuais configura violência sexual. Menores de 14 anos de idade não podem consentir com uma relação sexual. Se algum adulto se envolver com menores nessa faixa etária comete crime e deve ser responsabilizado”, alerta a profissional.

Por Lucas Malta / Da Redação

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