Vestibulada

25 novembro 2012


Colegas de todas as lembranças

Ilustração do colega Roberto Alves

Ao longo da minha vida, tive a oportunidade de morar em várias cidades e esse negócio de mudar de um lugar para o outro, com certeza, gerou alguns desconfortos, mas se tem uma coisa que essa trajetória de vida me proporcionou e que eu acho muito bom, são boas lembranças de todos os lugares em que vivi. Quando eu tinha apenas dez anos de idade fui morar em Recife, isso eu já contei. Morei na capital pernambucana os dez anos seguintes e seria ingênuo da parte de qualquer um sugerir que tão demorada estada não deixasse grandes marcas. Eu saí de uma cidadezinha do interior de Alagoas e fui estudar numa das maiores cidades do Brasil. As diferenças urbanísticas, tecnológicas e culturais com certeza me impressionaram profundamente, mas, dentre as melhores lembranças que trago daquele tempo, se destaca as amizades que firmei ao longo de sete anos estudando no Colégio Nóbrega, bem ali na Boa Vista, entre a Rua Oliveira Lima e a Rua do Príncipe, tendo como vizinho, do outro lado desta rua, a Universidade Católica de Pernambuco.

No meu primeiro dia de aula, mamãe me levou para o colégio segurando minha mão. Identificou qual a minha sala e lá me deixou, não sem antes se assegurar que eu sabia fazer o caminho de volta pra casa, tarefa por demais fácil, afinal de contas morávamos num apartamento a poucos quarteirões da escola, difícil foi mamãe se sentir tranquila, sabendo que eu tinha que atravessar algumas ruas movimentadas sem a sua presença sempre diligente. Assisti às primeiras aulas e, na hora do recreio, me misturei à criançada no pátio do colégio tentando entender a sistemática daquele novo mundo. Confesso que achei muito estranho ver a meninada se acotovelando no balcão da cantina num verdadeiro emaranhado de braços, cada um tentando ser o primeiro a ser atendido. Nesse momento me senti confortável por ter trazido um bom lanche que mamãe me fizera antes de sair de casa. Enquanto comia, vi passar dois meninos que eu identifiquei como membros da minha turma. Cheguei perto, puxei conversa e a aceitação daqueles garotos foi o marco do primeiro vínculo de amizade que firmei nas terras pernambucanas. Seus nomes: Geraldo e Jaime.

Expressar uma convivência de sete anos no mesmo colégio e na mesma turma seria uma ousadia que eu não me atrevo a tentar. Ao longo deste tempo às vezes a gente brincava e algumas vezes a gente brigava, mas jamais algo sério, só coisa de criança. Seguimos nossa vida estudando, tirando onda com a cara de um e de outro e fazendo planos para o futuro. Geraldo foi um dos caras mais talentosos que conheci na vida. Bom estudante, inteligente, dotado de uma perspicácia fenomenal. Estudava no Conservatório Pernambucano de Música e tocava violão magistralmente. Eu não tenho qualquer formação musical, mas confesso que, dos músicos que conheci pessoalmente, Geraldo foi o melhor violonista que tive oportunidade de ouvir. Jaime já era mais comedido, característica que conserva até os dias de hoje. Praticante dedicado de caratê absorveu desta arte marcial não apenas os movimentos e golpes, mas acima de tudo os seus ensinamentos de respeito, disciplina, compaixão e ética, dentre outros.

Os anos foram passando e o meu círculo de amizades só aumentou, até que chegou o ano de 1979, o nosso último ano no Nóbrega. Deixar o colégio e ingressar na universidade era o grande objetivo de todos, mas essa tão desejada conquista significava também a perda do nosso saudável convívio e foi exatamente a combinação dos sentimentos de conquista e perda que gerou na Turma A um forte laço de união, o que fez o ano de 1979, um dos melhores anos da minha vida. Visando a aprovação no exame vestibular, estudávamos com afinco, pois naquela ocasião não se tratava apenas de aprovação no ano letivo, mas sim a obtenção de conhecimentos fundamentais na disputa pelas poucas vagas nas universidades pernambucanas. Mas, apesar da nossa dedicação, sempre que sobrava um tempinho aproveitávamos para nos confraternizar. Excetuando-se os finais de semana que antecediam as semanas de prova, tornou-se comum naquele ano, nos encontrarmos aos sábados ou domingos sob as mais diferentes desculpas. Às vezes era o aniversário de um, outras vezes era um almoço oferecido por um pai de algum colega e quando esse encontro se dava nas noites de sábado a nossa diversão era tomar uma bebida e ouvir Geraldo tocar violão.

Naquele tempo ainda vivíamos o período do regime militar e as músicas que estavam em moda eram as músicas de protesto, expressão brasileira do movimento mundial de folk music. Chico Buarque de Holanda era o mais conhecido artista deste estilo musical, mas as suas músicas refinadas exigiam dos seus seguidores técnica apurada para a sua execução e Geraldo as tocava como ninguém. Mas não era apenas nos finais de semana que nosso colega se tornava o centro das atenções. Nos dias de aula, na hora do intervalo, Geraldo com seu humor inteligente aglutinava os colegas ao seu redor com a garantia de boas risadas. Sempre tirando onda com a cara de alguém, trazia na mente um repertório infindável de piadas e histórias engraçadas e, dessa maneira, ele se tornou “O Cara” da Turma A. No auge desse período Geraldo surpreendeu a turma com uma genial poesia ao estilo das emboladas, estilo musical típico do nordeste brasileiro.

A embolada é uma arte caracterizada pela cantoria de músicas improvisadas de métrica perfeita, sendo cantada por dois cantadores que fazem versos de improviso. É comum neste estilo, como em outras modalidades musicais do nordeste, a disputa entre os poetas, onde cada um procura se mostrar melhor que o outro. Mas também é comum que estes usem suas habilidades para exaltar um personagem ou mesmo contar uma história. Ao contrário dos repentistas, os emboladores não usam a viola e sim o pandeiro para marcar o ritmo frenético de suas cantorias. Estilo musical praticado por artistas anônimos em praças e lugares públicos, a embolada atravessou as fronteiras regionais, de modo que também pode ser encontrada em algumas cidades de outras regiões, particularmente aquelas que têm uma representativa comunidade de origem nordestina. Apesar do seu aspecto de arte de rua, sem espaço nas grandes mídias, em 1993 a embolada emplacou um sucesso nacional com a música “Ladrão besta e o sabido”, obra da grande dupla de emboladores recifenses Caju e Castanha.

Pois bem, foi exatamente inspirado nessa arte popular que Geraldo compôs a primeira e provavelmente a única, “embolada de breque” da história. Ao estilo do samba-de-breque, sua declamação incluía, em determinados pontos da obra, pequenas frases que fugiam à cadência da embolada, mas dava-lhe uma graça e um charme bastante peculiar. Em alusão ao exame vestibular que se aproximava, Geraldo denominou-a de “Vestibulada” e sempre que a declamava os risos eram inevitáveis. O sucesso da “Vestibulada” foi tamanho que a turma se mobilizou e conseguiu imprimir a poesia no mesmo formato dos folhetos da literatura de cordel.

Há uns dias, remexendo numas coisas velhas, encontrei muito bem preservado o meu exemplar da “Vestibulada”. Peguei o velho folheto, reli suas páginas de um papel que já começa a amarelar, dei boas risadas e me lembrei dos meus tempos de colégio, da minha adolescência, me lembrei de Recife e dos meus velhos amigos e que saudade boa me deu. Lembrei-me de Geraldo que soube, formou-se em Direito e hoje é um conceituado professor das Ciências Jurídicas. No próximo dia 01 de dezembro irei novamente às terras mamelucas da “Veneza Brasileira”, vou participar do encontro anual dos colegas da Turma A. Lá vou encontrar Arnaldo, Bilu, Jonas, Maguila, Otaviano, Pontual e Riba que já confirmaram presença. Geraldo nunca compareceu, coisas do jogo da vida, mas eu continuo apostando que um dia vou reencontrá-lo, porque se “a vida também é um jogo”, “o bom jogador não se deixa abater”. Quem também confirmou presença foi Jaime que se dedicou com sucesso à atividade comercial e, de quebra, presenteia a todos nós com belos exemplos de cidadania e amor ao próximo, mas isso é outra história… Uma bela história.

Sempre que escrevo acalento o desejo de poder reencontrar cada um daqueles que tive a oportunidade de conhecer e conviver nas mais diversas paragens desse grande país. Aqui me despeço mandando a todos um grande abraço, aguardando a oportunidade de poder reencontrá-los e poder ouvir de cada um sua própria história.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

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