“Vamos dar uma volta no curre”

18 março 2013


Foto: Cláudio Humberto

Foto: Cláudio Humberto

Estes últimos meses estão sendo tão atribulados que este simples caeté está tendo dificuldade até mesmo de mandar notícias para os amigos. Tem mais de um mês que comecei a escrever esta carta e ainda não tenho a certeza que vou concluí-la no dia de hoje. Natal já passou, carnaval já virou cinzas e eu estou aqui tentando contar como foi uma conversa que tive com uns amigos e parentes no final do ano passado. Mas, como diria Odorico Paraguaçu, “deixemos os entretanto e vamos pros finalmente”.

Eis que no último dia 08 de dezembro, sob a benção de Nossa Senhora da Conceição, fiz uma breve visita à pequenina Poço das Trincheiras, terra de metade da minha família, para uma reunião do Centro Cultural do Sertão na qual o tema era “O natal”. Cidade do interior vocês sabem como é, em qualquer roda de conversa as pessoas ou são parentes, ou amigos de infância, ou as duas coisas e foi nesse clima que a conversa rolou solta com muitas lembranças sobre os antigos natais lá na beira do Panema, no sertão de Alagoas.

Como todo mundo sabe, o natal é uma das principais festas da cristandade e os desbravadores europeus introduziram esta tradição quando da sua chegada aos mais diversos rincões deste país. Mas, no Poço das Trincheiras, lá no sertão alagoano, estes festejos adquiriram uma particularidade, qual seja, que a Festa de Reis passou a ter uma dimensão maior do que a própria noite de natal, de modo que os ditos festejos natalinos começavam na véspera do natal, passavam pela Festa de Ano e finalmente atingiam seu ápice na véspera do dia de Reis, 06 de janeiro.

Hoje em dia, o início dos festejos natalinos é fortemente marcado por anúncios comerciais, numa verdadeira exaltação a uma festa de consumo com a apresentação de novidades, oferecimento de crédito fácil e a promessa de que feliz é aquele que gasta. Num lugar e num tempo em que não havia esse negócio de mídia, marketing, merchandising e outras invenções do gênero, eram os sinais da natureza que anunciavam o início dos diversos ciclos anuais. No sertão nordestino existe uma espécie de ipê-amarelo (Tabebuia caraiba) conhecida na região pelo nome de caraibeira. Contrariando aqueles que dizem que no sertão não existe primavera, nesta estação do ano as caraibeiras exibem uma floração amarela que pode ser vista a quilômetros de distância e “Cicinha”, uma amiga de anos e anos, lembrou que quando as caraibeiras floravam, a comunidade entendia como um sinal de que se aproximava o período de natal e, enquanto mais exuberante fosse a floração, mais animado o sertanejo ficava.

Finalmente chegava o mês de dezembro e iniciavam-se os preparativos para a festa. A igreja era lavada e devidamente ornamentada e, do lado de fora, era armado um parque de diversões. No entanto, como a igreja fora construída numa elevação, a instalação do parque dava-se no outro extremo da rua do povoado porque a faixa que beirava o rio Ipanema era mais plana e facilitava a montagem, de modo que o largo da igreja ficava desocupado.

Na década de 40, lá no sertão, os parques eram bem diferentes dos de hoje em dia. O principal material usado na sua montagem era a madeira, matéria prima farta naqueles tempos. Os brinquedos eram muito simples e movidos normalmente pela força humana. Vovô Gaspar tinha uma bodega que funcionava num dos cômodos da sua casa e, pensando em aumentar o faturamento durante a festa, fez uma sociedade com Manoel de Sulia para construir um carrossel. Alias, por aquelas bandas esse brinquedo era conhecido pelo nome de “curre”, termo talvez originado da palavra francesa “courir” que traduzida para o português significa “correr”. É possível que a ideia de movimento contida na palavra francesa tenha influído no surgimento desta expressão regional, mas acho que somente estudos mais aprofundados poderiam confirmar tal hipótese, ou não. O certo é que, por ser Manoel de Sulia um exímio marceneiro, vovô propôs-lhe sociedade na qual ele forneceria a madeira para a construção de um “curre” e Seu Manoel entraria com a mão-de-obra. Não vou me dar ao trabalho de descrever aqui um carrossel, mas o certo é que naquele tempo não tinha motor e os passageiros rodavam no brinquedo sentados em cadeiras, nas quais podiam sentar até duas pessoas, um deleite para os namorados da época. Para fazer o carrossel girar, eram contratados dois ou três cabras bons para fazer força e, para animar a festa e distrair os passageiros, um dos seus assentos duplos era ocupado por um sanfoneiro e um tocador de pandeiro para alegrar a brincadeira no “Curre de Gaspar”.

Outro brinquedo que tinha presença garantida na festa eram as barcas, uma geringonça que eu ainda tive oportunidade de conhecer e que era acionada pelo próprio “passageiro” que tinha que ficar puxando uma corda de maneira cadenciada para a geringonça balançar. No final daquela década foram surgindo novas opções, como o “curre” de cavalinhos de Seu Manoelzinho das Areias que substituiu alternadamente algumas fileiras de assentos duplos por um par de cavalinhos de madeira, um atrativo a mais.

Um belo dia surgiu uma novidade no parque de diversões que foi a “onda” de Seu Liberalino que era outra espécie de carrossel que ao girar, balançava de modo que, às vezes o passageiro estava a poucos centímetros do chão e no instante seguinte estava a mais de um metro de altura descendo em seguida num ciclo contínuo. Teve também outro empreendedor que tinha uma “ondia”, como assim pronunciavam os matutos, que foi o Seu Zé Marcelino, lá das bandas da Serra do Poço. Conversando com seu filho José Marcelino Neto, “Dezinho”, soube que Seu Zé Marcelino chegou a fazer festa até em Tacaratu, no vizinho estado de Pernambuco, uma viagem de mais de cem quilômetros, transportando a engenhoca em carros-de-bois.

Mas a montagem do parque não garantia participação na festa para ninguém. Minha prima Onélia contou que o pai dela só deixava brincar na festa se ela fosse aprovada na escola e aí todo final de ano era o maior corre-corre. Ela sabia da importância de estudar, mas o mais importante na sua cabeça de mocinha era poder brincar na festa do Poço. No tempo em que os professores iam para a sala de aula com giz, apagador e palmatória, eu fico só imaginando o sufoco.

Já na década de 50, o Padre Fernando Medeiros, irmão da minha avó, era pároco em Penedo, lá no baixo São Francisco. Mamãe conta que, sempre ao final de cada ano, ele ganhava uma peça de tecido de uma fábrica que ficava em Neópolis, do outro lado do rio, no estado de Sergipe. “Tio Padre” mandava a peça de tecido para a família e com ele minha avó fazia uma roupa nova para cada um dos filhos. Cada roupa tinha o seu corte específico, mas na noite da festa tinha um monte de meninos, meninas, rapazes e moças usando uma roupa de tecido igualzinho e ninguém ficava chateado ou envergonhado por este detalhe, o importante para todos era participar da festa.

Hoje em dia os brinquedos dos parques de diversões são sofisticados e o preço para sentir sua emoção é também significativo, mas naquele tempo lá no sertão, uma volta no “curre” ou na “onda” só custava alguns tostões e todos podiam se divertir. De várias localidades vinham pessoas para vender comidas e bebidas ou para instalar bancas de jogos e bingos. Dentre as novidades que eram vendidas na festa, Tio Zé de Arimateia lembra bem do cheiro do abacaxi que, apesar de não ser uma fruta desconhecida dos matuto, não havia uma produção local, de modo que a movimentação por conta da festa atraia gente do agreste alagoano para comercializar a fruta que era tão apreciada.

A “festa de largo” movimentava a localidade e atraía gente de toda a região, mas por ser uma festa religiosa a presença das famílias à missa era um compromisso maior. À meia-noite os brinquedos paravam, os vendedores de abacaxis e as bancas de jogos e bingos interrompiam suas atividades e todos dirigiam-se para a igreja. A missa era campal e era rezada à meia-noite. Naquele tempo o vigário era o Padre Bulhões, mas a tradição foi mantida com Padre Cirilo e posteriormente pelo Padre Alberto, que garantiu sua continuidade até o fim da sua atividade sacerdotal em 1980. Após a celebração, a festa então continuava até certas horas.

Apesar do natal ser uma festa tão mercantilizada hoje em dia, desde aqueles tempos a tradição de presentear já fazia parte da festa e mamãe conta que todos, na medida das suas posses, procuravam dar sempre um presentinho para seus filhos. Na noite de natal, antes de dormir, a meninada colocava os sapatos “nos pés da cama” para receber aquele presente que Papai Noel ia trazer. A manhã do dia 25 de dezembro era de alegria para as crianças que podiam conferir a passagem do bom velhinho e ninguém ficava “traumatizado” por ter recebido “apenas um presente”.

Com o passar dos anos a festa foi se modernizando, surgiram brinquedos novos, a música que agora toca é elétrica, eletrônica e similar. Surgiram os veículos de comunicação de massa, levando a uma nova interpretação desta significativa data. Sinal dos tempos? Acho que não. Acredito que é assim a evolução, novas tecnologias, novos habitante e novos costumes que um dia também serão história, mas essa eu vou deixar para outros contarem.

Bem, colegas. Mais uma vez estou dando notícias minhas, nesse meu jeito de contador de histórias, aquelas que vem na lembrança enquanto tenho memória e saúde para contar. Espero que todos estejam bem e, considerando-se a irregularidade com que consigo escrever, acho melhor ir desejando a todos uma boa páscoa, antes que chegue o São João. Desejo a todos sucesso, felicidade e forças para enfrentar as agruras da vida.

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