Uma história de geradores e de gerações

7 janeiro 2013


Colegas de todas as origens e de todas as profissões

Há algumas semanas estava este simples caeté assistindo um telejornal e eis que o apresentador anunciou a presença de um conhecido crítico de cinema comentando o filme “GONZAGA de pai pra filho”. O assunto imediatamente me interessou e seria de estranhar se ocorresse o contrário. Juro para vocês que ouvi com muito cuidado cada palavra do crítico e fiquei deveras curioso com aquilo que ouvi. O cidadão, no primeiro momento, foi logo dizendo que o filme era ruim, prosseguiu com comentários que detratavam a figura do personagem principal do filme e, ao final do comentário, procurando amenizar, optou por dizer que o ano não teve boas produções e que “Gonzaga” foi apenas o menos ruim, num ano de filmes ruins. Confesso que fiquei intrigado e, se apenas o título do filme já me motivaria a assistir, as palavras do crítico praticamente me empurraram em direção ao cinema, porque essa eu tinha que conferir.

Final de semana, tranquilidade, aconchego familiar e eis que este simples caeté resolveu ir com a esposa assistir o filme num cinema desses que funcionam em shopping centers. Comprei o ingresso com antecedência porque eu achava que tinha um bocado de gente querendo assistir a fita e essa providência se mostrou acertada porque, de fato, na hora de começar o cinema estava lotado. Do meu lado já estava sentado um senhor idoso segurando sua bengala. Começou o filme e quando eu vi as primeiras imagens e o som da música, senti logo um arrepio pelo corpo, um nó na garganta e uma emoção danada.

Não posso dizer que sou um profundo conhecedor da história de vida de Luiz Gonzaga, mas eu sabia de vários episódios e achei fantástico que a cada etapa do filme tudo aquilo que eu já sabia ia fazendo nexo. Senti muito ao ver retratado o seu drama familiar e fiquei entusiasmado ao ver as cenas em que o mesmo se embrenhava de Brasil adentro, dirigindo uma Rural e levando a música nordestina a todos os recantos do Brasil. Foi nessa parte que, num relance, me lembrei de uma história que aconteceu lá pras bandas de Paulo Afonso, no sertão da Bahia.

Na década de 50, a região da Cachoeira de Paulo Afonso foi invadida por um mar de trabalhadores provenientes das mais diversas partes do mundo. Estava em curso a construção da obra que seria o divisor de águas da história do nordeste brasileiro, a Usina Hidro Elétrica de Paulo Afonso. No meio dessa gente toda, havia técnicos graduados do sul do Brasil e do exterior que procuravam a região em busca de melhores salários e das vantagens que a recém criada Companhia Hidro Elétrica do São Francisco oferecia, mas a grande maioria era composta de trabalhadores braçais de todo o sertão nordestino que, cansados da fome, da seca e do atraso econômico e social da região, buscavam através do trabalho conquistar uma vida melhor e mais digna, os denominados “cassacos”. Alguns desses trabalhadores vinham com suas famílias de modo que, dentro de poucos meses um lugar inicialmente ermo e desabitado passou a conter uma população de milhares de pessoas. Para garantir as condições mínimas para essa grande massa humana a CHESF instalou inicialmente um acampamento de barracas de lona que foram gradualmente suprimidas, conforme as casas de alvenaria iam sendo construídas. No acampamento tinha iluminação pública, escolas, hospital, ruas calçadas, cooperativa de consumo e até clubes para o lazer dos operários, um verdadeiro luxo por aquelas bandas. As casas todas tinham energia elétrica e água encanada, tudo fornecido de graça pela Companhia.

No meio dessa leva de trabalhadores estava Seu Joaquim Brito lá das bandas de Triunfo, a cidade de maior altitude do estado de Pernambuco, bem na linha de fronteira com a Paraíba. Filho de uma família de agricultores, desde cedo desenvolveu habilidade no trato da madeira tornando-se assim um hábil carpinteiro. Quando começaram as obras de Paulo Afonso, a notícia se espalhou por todo o sertão e, vislumbrando uma boa oportunidade na obra, Seu Joaquim partiu das serras de Triunfo e rapidamente encontrou colocação no setor de Carpintaria da CHESF. Apesar de não ser um homem letrado, sua competência e disposição para o trabalho foi de fundamental importância para que logo lhe fosse concedida uma casa, onde pôde se instalar com sua mulher Dina e os filhos. Um deles, Isaú Brito, que tive oportunidade de conhecer, aproveitou o acesso às boas escolas e formou-se em contabilidade, exercendo com louvor este ofício durante muitos anos, prestando seus serviços a diversas empresas. Em casa, a energia elétrica permitia não apenas o usufruto da iluminação, mas também a utilização de equipamentos como geladeira, ferro elétrico, liquidificador e o acesso ao maior veículo de comunicação de massas da época, o rádio.

Hoje em dia, depois que inventaram antena parabólica, a gente encontra televisão em qualquer lugar do Brasil, mas naquele tempo o rádio era a ponta de lança da comunicação. Era através do rádio que o sertanejo passava a ter acesso de maneira bastante rápida às notícias do país, ouvia músicas e até aos pronunciamentos do presidente da república. Dentre os cantores mais apreciados pela matutada encontrava-se um jovem pernambucano chamado Luiz Gonzaga. Dono de uma voz forte, tocando sanfona e cantando temas que tocavam bem no coração do povo do sertão, Luiz era sem sombra de dúvidas o mais apreciado dos cantores do rádio. Mas, naqueles tempos em que não existia televisão, os rostos das pessoas ilustres só eram acessíveis através de fotografias de revistas e como apenas uma parte da população tinha acesso à leitura, muitos artistas e até mesmo políticos eram conhecidos apenas pela sua voz.

A construção da Usina de Paulo Afonso caminhava em ritmo frenético e, finalmente, após 5 anos de muita luta e sofrimentos a primeira usina estava pronta, de modo que no dia primeiro de dezembro de 1954, o engenheiro Otávio Marcondes Ferraz em Recife acionou o primeiro circuito da CHESF iluminando a capital pernambucana e testando assim o sistema. A inauguração, por sua vez, foi marcada para o dia 15 de janeiro de 1955.

No dia da inauguração as ruas da localidade de Paulo Afonso estavam tomadas de gente vinda de toda a região, todos queriam ver a festa que contava com a presença garantida das duas maiores autoridades do país, o Presidente da República, Café Filho e o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. No campo de futebol do Clube Operário Paulo Afonso foi montado um palanque para os pronunciamentos das autoridades e para a grande atração musical. O povo se aglomerava para ver essas pessoas ilustres, uma pelo poder em que estava investido e a outra pelo encanto da sua arte.

Sabendo que Dona Dina adorava ouvir Luiz Gonzaga, Seu Isaú resolveu que a levaria para ver o grande astro da música do nordeste. Esta, por sua vez, aprontou-se e, toda feliz, acompanhada do seu filho, juntou-se a multidão para assistir o show. Como a absoluta maioria dos presentes, ela nunca tinha visto o Rei do Baião. Encantada com suas músicas ela naturalmente idealizou a imagem de um sujeito galante, bem afeiçoado, mas o seu rosto ela nunca vira. Na abertura teve o tradicional falatório das autoridades até que finalmente chegou a hora do show começar. O povo se admirava e a satisfação era total, mas Dina olhava, olhava de novo, olhava mais uma vez e sem se aguentar perguntou:

– Isaú?

– Que foi mãe?

– E você me trouxe de casa pra eu ver um nego cantar?

– Mãe! Esse é Luiz Gonzaga.

Imaginem o tamanho do susto que a coitada levou?

Essa história me foi contada por minha amiga Adalva, bisneta de Mãe Dina. Disse-me que passado o choque do primeiro contato, sua bisavó continuou ouvindo as músicas de Gonzagão e que ela própria, quando contava essa história, ria de si mesma. Luiz Gonzaga por sua vez está presente até hoje no coração de todo o povo nordestino, graças a sua arte que tão bem representou a vida deste povo. Sua presença percebe-se no dia-a-dia, como o caso da própria mãe de Adalva que embalava sua filha cantando uma das tantas músicas compostas por Luiz e Zé Dantas, “A letra I”.

A arte de Luiz Gonzaga até hoje encanta multidões, é passada de pais para filhos, de avós para netos, de geração a geração. Mais de vinte anos após sua morte mais de 1 milhão de pessoas foi assistir o filme que conta sua história. Lembram-se daquele senhor que estava no cinema, sentado ao meu lado, com uma bengala na mão? Durante o filme ele cantarolou todas as músicas. Eu tentei fazer a mesma coisa, mas, emocionado, confesso que não consegui. Nos dias que se seguiram, conversando com amigos e colegas de trabalho, todos diziam ter gostado do filme, mas eu não sei se suas opiniões, e a minha também, servem de parâmetro para classificar a obra, afinal de contas, nenhum de nós é crítico de cinema… Ainda bem.

Meus amigos, faz algumas semanas que não escrevo para vocês, se eu disser que isso se deve apenas ao trabalho estaria cometendo uma injustiça, na verdade eu tive uma pequena contusão no meu ombro esquerdo, razão pela qual, além de uma injeção e uma tipóia, recebi recomendação médica de não digitar nada. Passados alguns dias e já me sentindo melhor, resolvi voltar ao teclado para desejar a todos um feliz natal e um ano novo de muito sucesso, alegrias e boas emoções para todos, porque manter esse contato com vocês faz um bem danado para mim.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

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