Um navio, o rei, o país do monumento

17 novembro 2012


Era uma vez um gigante. Não um gigante como aquele da história de João e o pé de feijão. Porque pra eles existirem, só dependem do ponto de vista de quem vê. Pra nós, meninos moradores da Praça do Monumento, do início da década de setenta, Zé Reis se nos aparentava um gigante. Tronco minotáurico, braços colossais. A cabeça como que implantada em cima duma montanha de músculos, e um rosto talhado na pedra. Os olhos enterrados rente as espessas sobrancelhas, e a bocarra como que cortada a faca. Assim era Zé Reis.

O Rei Teria surgido no Condado do Monumento, assim de um jeito muito semelhante à Gulliver quando surgiu na ilha de Lillipute. De uma terra distante, sem experimentar o naufrágio, em seu navio, teria chegado. Alvissareiros, os ventos noroeste fizeram com que conseguisse aportar com certa tranquilidade, no país do Monumento. Porque pra aqueles moleques, a Praça do Monumento, era um país. Menor que o Principado de Mônaco, porém igualmente rico. Tanto quanto o Vaticano. Não tinha ali a Capela Cistina, porém ao centro ostentava-se a Igreja de Nossa Senhora Assunção. O ouro espalhado no leito do Largo, pra quem quisesse pegar, era só estender a mão e tocá-lo. Sentir seu calor, sua luz, incandescente chegado do Leste nas primeiras horas, o sol se derramando. À esquina a casa de Seu Artur e a bodega de Seu Ozéias, delimitava o Norte do mais novo reinado que já se vira. A fileira de casas recuada por trás do quiosque “O Pinguim”, o limite a Nordeste. O consultório odontológico de Dr. Adelson olhando pro Grupo Escolar Padre Francisco Correia acessava o Leste. Ao mesmo quarteirão, ficava o oitão do velho educandário, o Ginásio Santana, juntamente com o Tênis Club Santanense apontavam e delimitavam o Sul do menor país do mundo. Seus citadinos, os moleques da praça, exerciam sua cidadania digladiando-se em constantes guerras. Havia quase todas as noites a Batalha pelas Bandeiras. Os meninos e suas clãs a tudo disputavam. Pela conquista das bandeiras, azul e encarnada se sucediam infinitos combates. A batalha com caroço de mamonas e a batalha das balas de barro de louça. Seguidores do Ipiranga e do Ipanema. A busca ao ouro (Ourobusca). A conquista do garrafão. A Revolta dos Queimados.

O Navio Aportado à praça era o símbolo da conquista do território ocupado: o País do Monumento. A nau concebida e construída das mãos do rei, com esmero a fez. De madeira nobre seu casco revestido, em latão e zinco hermeticamente calafetado. Azul de colbato, branco e vermelho carmim, em cores vivas, luzidia a couraça do monstro náutico. Imponência culminando a bandeira dizia “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” no alto do mastro a observar o horizonte. Escotilhas blindadas com acabamento de vitrais. Botes salva-vidas, encordoamento de arremesso. Possante timão envernizado, adiante do painel de controle a casa de máquinas. Antenas e sonares, radares e campainha de alarme. Um soldado de chumbo fixado à proa e mais dois guardiães das pás da hélice arrematando a popa. A estibordo e a bombordo, gradil e parapeito caprichosamente arrematado por boias salva-vidas. Admoestação a lua, ofuscando a noite opulência de luzes da nave nauta. Afronta inconcebível! Se ia o monarca a outros países, singrava os ares a imensa nau, pelo próprio rei timoneada. Os moleques do país do Monumento jamais aceitariam pacificamente aquela ocupação. Um decreto foi baixado “ninguém podia aproximar-se do navio, salvo exceções se na companhia do imperador”. Decerto nisso residia os segredos da conquista territorial. As mentes febris dos meninos maquinavam e maquinavam planos. O rei invasor não perdia por esperar.

O País O dia sete de setembro. Parada militar pra marcar o dia da Independência do país. Mas que independência? Se ainda havia o rei mandando no povo? Zé Reis punha vestes de fuzileiro naval para passar em vista as tropas de guerrilheiros da Corte. Fazia uma trança com o cabelo, ficava parecendo um cavalheiro de infantaria, da guarda do palácio da condessa Beatriz. O rei também garbosamente desfilava. Constituía-se de arcos medievais a entrada do Palace Hotel da Condessa Beatriz uma pequena saleta, o hall. Adiante do lado direito os quartos dos hóspedes. Do lado oposto as janelas. Indo adiante a cozinha, ornada de belas mesas, naturezas mortas nas paredes, compostas de avelãs, uvas, damascos, vinho tinto em garrafões de palhinha trançada, obras por Zezinho assinaladas. A hospedaria de esquina acessava a Alameda Rotary que acessava outro país, a ilha de Liliputas. Ali liliputanos viviam sob o regime da anarquia. Vida aventureira, cassinos: jogos de cartas, gamão, xadrez. Libertinagem, mulheres. Dada início a década de sessenta, os liliputianos santanenses que já haviam crescido se organizaram e criaram “Os I Jogos de Inverno” que ganhou o simpático de apelido de Festa da Juventude.

O Combate Os meninos se organizaram “Fora o Rei com seu Navio!”. Era o grito de ordem. Bombas de cordão atiradas a Arca, na campanha de São João. A Companhia de Jesus apoiava a Corte. O ataque não surtira o efeito desejado. Permanecia o reinado. Os negros que levavam os dejetos dos senhores feudais pra lugares ermos, estavam do lado dos meninos, e na calada da noite catapultaram fezes a nau. Duro golpe! A fedentina emporcalhou o país, mesmo assim o monarca resistiu bravamente. Numa tarde que o rei saiu a passear, os meninos colocaram um pé de fícus sobre o navio para que seus galhos ferissem o casco. Lançaram mão de sua âncora pondo a deriva, no leito da rua. Acionaram-lhe a campainha de alerta, provocando alarido. Foi golpe fatal. Finalmente o rei combalido. Dando-se por vencido abandonou o país.

O Reencontro Quase metade de século já havia se passado. Fui encontrar o rei deportado, no degredo. Cumprimentei-o. Humilde prestava serviços na prisão de Alcatraz. Na terra dos Cavalos inteligentes, que faz fronteira com o país das Liliputas. Apenas contemplei seu rosto e encheu-se de um sorriso, reconheceu-me. Apertou-me a mão, e o coração. A pronúncia de Seu nome José Paulo Soares Morais e deu-se em água meus olhos. Decidi seguir minha jornada, intencionava encontrar-me com o rei. Não havia mais rei, nem gigante era mais.

Por Fábio Campos

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