Trabalho Infantil: A escravidão do nosso século

20 abril 2013


Prof-Marcus OliveiraMarcus Eduardo de Oliveira (*)

Um sistema econômico que faz uso de trabalho infantil desumanizando as relações econômicas em troca do lucro rápido só pode ser classificado como tacanho. Esse modelo econômico não tem limites e se reproduz soberbamente em várias partes do mundo. Lojas de tapetes na Índia, no Nepal e no Paquistão usam quase um milhão de crianças na linha de produção. São vários os casos de crianças que atingiram a cegueira devido ao longo tempo em que passaram costurando.

Casas de prostituição tailandesas, indianas e birmanesas usam meninas de 11 anos de idade numa submissão sexual inadimissível. De igual maneira, em várias cidades das regiões Norte e Nordeste do Brasil, “programas sexuais” com adolescentes menores de 15 anos de idade são “vendidos” antecipadamente a estrangeiros pela internet.

No Oriente Médio, nas famosas corridas de camelo, os jóqueis são meninos entre 12 e 15 anos “comprados” por comerciantes e tratados com brutalidade, da mesma forma como também são tratados os camelos.

No Camboja, a indústria de tijolos e telhas faz uso de meninos descalços e sem nenhuma proteção básica para o transporte desse produto; por isso, muitas crianças aparecem com braços, pernas e dedos cortados pelo manuseio de pesados tijolos.

A poderosa fabricante de calçados esportivos Nike, enquanto enche os cofres (somente no primeiro trimestre de 2013 seu lucro foi de US$ 662 milhões) e torra fortunas em publicidade, continua usando trabalho infantil em Banten, na Indonésia. Nessa localidade, entre os anos de 2009 a 2011, a Nike deixou de pagar mais de 590 mil horas extras a 4500 funcionários.

No estado de Tamil Nadu (sul da Índia) quase 400 mil meninos e meninas trabalham manualmente produzindo cigarros da marca “Beddies” vendidos exclusivamente a elevado preço no mercado local. O “salário” dessas crianças não ultrapassa US$ 30 centavos/hora.

Os brinquedos distribuídos junto aos lanches das famosas redes alimentícias Mc Donald´s, Bobs e Burger King, em mais de 140 países, são feitos também por crianças menores de 15 anos em galpões sem nenhuma ventilação localizados em Taiwan. Muitas dessas crianças apresentam queimaduras nas mãos e nos braços em decorrência do uso de componentes químicos.

Na China, a maior exportadora de brinquedos do mundo, estimativas indicam que 70 milhões de crianças e adolescentes trabalham nas quase seis mil fábricas situadas na maior parte na província de Guangdong (sudeste do país).

Também a Mattel, a fabricante das bonecas “Barbie”, recebe denúncias apontando uso de mão-de-obra infantil nessas fábricas chinesas, cujo trabalho é remunerado a US$13 centavos/hora, numa jornada de trabalho de 14 horas/dia.

Esses fatos evidenciam e mostram a face da escravidão do nosso século: uso de trabalho infantil gerando riqueza para alguns grupos corporativos.

Em 2007, o lucro da Mattel atingiu US$ 379,6 milhões. Em 2008, somente a rede Mc Donald´s anunciou um lucro recorde de US$ 4,3 bilhões, valor esse que saltou para US$ 5,5 bilhões em 2011.

No Brasil, apesar da lei estabelecer a idade mínima de 16 anos para o ingresso no mercado de trabalho, segundo o IBGE são mais de cinco milhões de crianças e jovens entre 7 e 15 anos que trabalham em geral na agricultura.

De acordo com dados elaborados em 2008 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC), existem no mundo cerca de 350 milhões de crianças entre 5 e 16 anos envolvidas em alguma atividade produtiva.

Entre elas, cerca de 250 milhões são submetidas a condições consideradas de exploração, o que equivale a uma criança em cada seis no mundo. Destas, 170 milhões trabalham em condições perigosas e 76 milhões têm idade inferior a 10 anos. A maior parte deste “exército de mini-trabalhadores” vive na Ásia (127 milhões) e na África e Oriente Médio (61 milhões). Na América Latina e Caribe são 17,4 milhões. Os países industrializados e o leste europeu abrigam pelo menos cinco milhões de crianças trabalhando. Diante disso tudo resta indagar: até quando ocorrerá essa insanidade econômica, social e moral?

(*) Economista. Especialista em Política Internacional – Universidade de Havana

prof.marcuseduardo@bol.com.br

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