Trabalho de Dona Irinéia assina Prêmio dedicado a quem luta contra preconceito Obra da artesã Patrimônio Vivo de Alagoas homenageará personalidades e entidades de destaque na defesa e valorização da cultura negra no Estado.

23 nov 2021 - 08:54

Dona Irinéia com uma das peças que serão entregues aos homenageados na solenidade da quinta edição do Prêmio Tia Marcelina (Foto: Assessoria / Semudh)

O barro avermelhado retirado do Rio Mundaú transforma-se em retratos da história do povo quilombola através da arte carregada de ancestralidade moldada pelas mãos de Irinéia Rosa Nunes da Silva, a Dona Irinéia. Neste ano, as esculturas cerâmicas da Mestra também terão mais outra nobre atribuição: homenagear pessoas e instituições que ganharam destaque na defesa da igualdade racial e na luta contra o preconceito e a discriminação.

Reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas desde 2005 e uma das artesãs mais conhecidas de todo o país, Dona Irinéia assinará o troféu da quinta edição do Prêmio Tia Marcelina, realizado pelo Governo de Alagoas, por meio pela Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh), em parceria com o Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Conepir) e que acontecerá nesta terça-feira (23), às 18h, no Hotel e Resort Jatiúca.

Apesar de toda a representatividade e importância que seu nome carrega, Dona Irinéia fez questão de expor a sua gratidão ao ver seu talento ser lembrado para ilustrar o aspecto mais importante da solenidade. “Eu me sinto muito agradecida e orgulhosa de participar desse prêmio. Quando alguém me convida para qualquer lição dentro do meu serviço, eu faço de tudo para participar”, disse a mestre esbanjando simplicidade.

A secretária de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos, Maria Silva, explica que a escolha da Mestre reflete tudo o que o Prêmio representa. “É uma cerimônia de reconhecimento daqueles que enriquecem a nossa história e a história do Estado de Alagoas através de ações diversas, sejam no campo acadêmico, na cultura, nas políticas públicas, entre outras. É hora de agradecer e retribuir o talento compartilhado e, no mesmo passo, valorizar as nossas raízes”, afirmou.

Uma vida pela arte

Dos seus 74 anos vividos, 42 são dedicados à arte da cerâmica. Foi moldando figuras humanas, cabeças, pés, vasos, panelas e outras formas através do barro pisoteado, amassado, moldado e queimado que Dona Irinéia encontrou sua maneira de contar histórias de lutas, conquistas e dificuldades vivenciadas pelo seu povo e por ela mesma.

Nascida no povoado de Muquém – uma comunidade quilombola próxima à Serra da Barriga, símbolo máximo do Quilombo dos Palmares -, a Mestre teve seu primeiro contato direto com o artesanato por volta de seus vinte anos, quando começou a ajudar sua mãe na confecção de panelas de barro. Posteriormente, foi recebendo encomendas de fiéis que encontravam em suas peças formas para pagarem promessas. E foi assim que Dona Irinéia descobriu a sua arte.

Explorando o barro de formas diferentes ao lado de seu marido, Antonio Nunes, o Toinho, a Mestre chegou a levar a sua arte para o resto do país em exposições em metrópoles como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, e, também, para fora do Brasil. Em 2015, esculturas da artesã foram levadas para a Expo Milão, na Itália, onde se juntaram com obras vindas de 140 países.

Do mesmo jeito que aprendeu com sua mãe, Dona Irinéia repassou a tradição e as técnicas da arte com cerâmica para seus 11 filhos. Atualmente, por conta da idade avançada, eles ajudam a Mestre na produção das peças. Porém, apesar das dificuldades impostas pela alta vivência, a ceramista diz que não pretende parar em breve.

“Não venho bem de saúde, mas venho trabalhando devagarzinho, no empurrão. Eu não tenho vontade de parar agora não”, diz a artesã com determinação.

O Prêmio

A premiação, que terá o contorno artístico marcado pela obra de Dona Irinéia, foi criada em homenagem à Tia Marcelina, uma ex-escrava africana de Janga, Angola, e descendente do Quilombo dos Palmares e de família real africana. Junto a Manoel Gelejú, Mestre Roque, Mestre Aurélio e outros, fundaram os primeiros Xangôs do Brasil, no bairro de Bebedouro, em Maceió. Ela morreu durante o “Quebra de Xangô”, movimento que perseguiu e torturou em 1912 representantes das religiões de matrizes africanas.

Professores, pesquisadores, jornalistas, ativistas, líderes quilombolas, líderes de religiões de matriz africana e instituições são alguns dos que compõem o seleto grupo de premiados nas edições anteriores. A solenidade acontece em alusão ao mês da Consciência Negra.

Por Daniel de Oliveira / Agência Alagoas

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