Sobre Djessyka Silva

Djessyka Silva é servidora pública, atuando como Educadora Social em Santana do Ipanema. Bailarina e amante de todas as artes. É Assistente Social e graduanda em Ciências Biológicas pela Uneal


Silenciadas pela Quarentena

4 dezembro 2020


Foto: Christopher Ross / Pixabay

Chegamos ao último mês do ano, e que ano! Tantas turbulências, tantas perdas, tantas angústias, que houveram vários momentos de difícil digestão. Fomos surpreendidos dia após dia, com inúmeras notícias, sobre infinitas pautas. Mas, para além do vírus, há uma pauta pouco citada pela mídia, que me incomodou bastante, diria até, que de forma particular. E creio que essa é a sensação da maioria das mulheres.

Fui acompanhando os dados ao longo de alguns meses, e ficando cada vez mais angustiada e incomodada com os resultados. A violência doméstica, e o abuso sexual contra a mulher, cresceu mundialmente nesse período de isolamento social. Se já é complicado o suficiente estarmos expostas em diversas situações corriqueiras, já se pode imaginar o quanto as coisas se obscureceram quando algumas tiveram que ficar isoladas na quarentena com seus agressores/abusadores.

De acordo com a revista Dom Total, em um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre janeiro e junho, foi identificado um recuo nas notificações de lesão corporal dolosa (de 122,9 mil para 110,8 mil), ameaças (de 282,9 mil para 238,1 mil), estupros (de 9,6 mil para 7,4 mil) e estupros de vulneráveis (de 18,9 mil para 14 7 mil), comparadas com o mesmo período de 2019. Seria motivo de comemoração, se o problema não estivesse por trás disso. Pois, a razão dessa queda se deu ao aumento da dificuldade de denunciar. A presença constante do agressor nos lares, fizeram com que as vítimas ficassem constrangidas e silenciadas, ainda mais.

Enquanto isso, segundo à revista ISTOÉ, em uma inspeção feita pelo software SEMrush, no qual foram analisadas pesquisas na internet, a busca no Google por “Lei Maria da Penha” apresentou o estratosférico salto de 238% em Pernambuco, seguido por Rio de Janeiro, com 124%. Certamente esta não se trata de uma busca aleatória na internet, mas talvez, uma possibilidade de pedido de socorro. Infelizmente, muitos pedidos não saem da garganta das incontáveis mulheres que não conseguem pedir ajuda, por uma infinidade de motivos.

Por todo o meu incômodo, por todo o incômodo e nó na garganta de todas as mulheres, e a sensação de incapacidade de solucionar essas dores de todas nós, trago em versos o meu manifesto. Que nossa voz possa ser ouvida, com ou sem isolamento, independente das circunstâncias.

A culpa não é minha, não!

Ah, se ela não andasse
com todo esse quadril,
com todo esse formato
do meu antigo violão.
Se ela não tivesse
esses seios desenhados
de amamentar a criação…
e se não amamentasse na rua
com toda aquela fartura,
eu jamais a desejaria
como um bebê faminto chorão.

Era melhor que nem trabalhasse,
que ficasse lá, a beira do fogão.
E que não estudasse,
pra acabar com essa inteligência
que me causa tesão…
Ah, se ela não postasse
aquelas fotos de biquíni
me causando comichão,
e se não treinasse na academia
eu nem olharia pra ela
na legging apertada da malhação.

Ah, se ela não olhasse
pra todos os lados
ao atravessar a rua,
e se não tivesse toda essa beleza
enquanto anda no calçadão…
Se ela não usasse decote,
ela nem me chamaria a atenção.
E vocês já viram aquela saia?
Tanta perna à mostra
que a mim só resta
arregalar meu olhão!

Ah, se ela não tivesse
todas essas tatuagens
chamando minha atenção…
Se ela não pintasse o cabelo,
se não fizesse as unhas,
eu não repararia nela, não!
Se ela não se maquiasse,
se não andasse toda pintada
como uma tentação,
eu não teria motivos
pra desejá-la não, não!

Se ela não bebesse,
se ela não fumasse,
se ela não dançasse até o chão,
eu jamais teria motivos
pra querer possuir
tudo que há naquele corpão.
Se ela não andasse
toda elegante num saltão,
se ela não tivesse piercings
pra alimentar minha imaginação,
eu nem cogitaria querer ela, não.

Que culpa tenho eu?
Se ela nasceu mulher,
fruto de tentação?
Se ela não sorrisse,
se ela não olhasse,
se ela não andasse,
se ela não respirasse,
se ela não vivesse,
se ela não existisse,
ai sim, eu não teria motivos
pra querer estuprar ela não, não!

Deixo a todas as mulheres o meu abraço, e aos leitores, o meu pedido de consciência. Precisamos começar a “meter a colher” sempre que necessário.

Em caso de denúncia, disque 180. O Disque-Denúncia foi criado pela Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM). A denúncia é anônima e gratuita, disponível 24 horas, em todo o país.

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