Sesau aponta mudanças de hábitos para evitar risco de obesidade infantil Problema é consequência de fatores genéticos, da má alimentação e do sedentarismo; Ministério da Saúde contabiliza 10 mil casos em Alagoas

17 dez 2018 - 23:00

Pais devem privilegiar consumo de frutas e verduras na alimentação das crianças (Fotos: Carla Cleto / Agência Alagoas)

Com índices assustadores no Brasil e em vários outros países, a obesidade já ganhou o status de epidemia mundial, de acordo com especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Agora, problemas de saúde que já foram considerados como doença da idade adulta – como diabetes, hipertensão e colesterol alto – são cada vez mais comuns em crianças.

Segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde (MS), de janeiro a novembro deste ano, 50.906 crianças alagoanas foram avaliadas e, desse total, 10.755 diagnosticadas na faixa de risco para o sobrepeso, a obesidade e a obesidade grave. Um problema que tem afetado o bem-estar dos pequenos não só enquanto condição física, mas também o equilíbrio psicológico e social.

Deste número, 5.431 meninos estão com o aumento da adiposidade corporal, sendo 2.845 com sobrepeso, 1.881 com obesidade e 705 com obesidade grave. Em relação às meninas, 5.324 foram diagnosticadas com excesso de peso; sendo 3.120 com sobrepeso, 1.844 com obesidade e 360 com obesidade grave. No Nordeste, o cenário é hostil, com índices alarmantes e crescentes, onde 569.556 crianças de 0 a 10 anos se submeteram à avaliação, das quais 116.059 foram analisadas com gordura corporal.

A nutricionista da Gerência de Atenção Primária (GAP) da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), Laís Torres Bastos, explicou que os hábitos alimentares e os fatores genéticos dos pais constituem um dos principais fatores relacionados ao aumento da adiposidade nas crianças. Exemplo disso são as dietas desequilibradas à base de alimentos industrializados, como sanduíches, refrigerantes, doces e frituras, assim como o estresse ou o tédio, que podem fazer com que as crianças comam mais do que o normal.

De acordo com ela, a ausência dos pais no ambiente familiar dadas às responsabilidades do mercado de trabalho, contribuiu – e muito – para que as babás e, por sua vez, os avós das crianças, ofereçam a elas alimentos industrializados, além da preferência infantil por “guloseimas”. Vale salientar que, aliado ao avanço tecnológico, veio o sedentarismo, a TV, o celular, o computador e o videogame, os quais estão cada vez mais sendo inseridos como os grandes meios de diversão das crianças, deixando práticas saudáveis, como as atividades físicas, em outro plano.

“As crianças têm sido cada vez mais influenciadas pela publicidade. O fenômeno é uma das causas do crescimento da obesidade infantil. Um dos truques é associar alimentos calóricos com personagens infantis ou brindes, como brinquedos”, disse.

Esse aumento da adiposidade ainda na infância gera uma série de complicações como colesterol alto, hipertensão, doença cardíaca precoce, diabetes tipo 2, problemas ósseos, síndrome metabólica, distúrbio do sono, gordura no fígado, puberdade precoce, depressão, asma e outras doenças respiratórias, condições de pele como brotoejas, infecções fúngicas e acne, baixa autoestima e problemas relacionados ao comportamento.

Segundo a nutricionista da Sesau, as preferências alimentares que adquirimos na infância e mantemos na vida adulta são, em boa parte, um reflexo das escolhas dos pais. “A influência dos pais na alimentação das crianças ocorre pelo exemplo, uma vez que a observação favorece a aceitação de novos alimentos. Daí a importância de caprichar e ser criativo no preparo das refeições dos pequenos”, ponderou.

Ela ressaltou que a criança adquire o paladar até os sete anos de idade e que o sabor doce acaba liberando sensações de prazer no sistema nervoso central, o que acaba criando dependência emocional a certos alimentos. Por isso, há uma regra que deveria ser seguida à risca pelos adultos: adiar a introdução do açúcar na alimentação dos pequenos.

“Normalmente, os pais criam o paladar da criança mediante ao deles. Se eles não gostam de suco de limão ou de chocolate amargo, dificilmente vão ofertar ao filho. Enquanto não provar o sabor doce ou amargo, a criança não terá o parâmetro de comparação e não sentirá falta deles. Pense nisso antes de liberar as guloseimas, especialmente as industrializadas, repletas não apenas de açúcar e gordura, mas também de aditivos como aromatizantes, corantes e conservantes”, destacou.

Avaliação do peso

Em crianças e adolescentes, a avaliação do estado nutricional leva em conta um conjunto maior de parâmetros. Além da análise do Índice de Massa Corpórea (IMC), feita de acordo com a idade, leva-se em conta outros fatores, como as curvas de crescimento, a exemplo da estatura para idade, peso em relação à estatura e o peso em relação à idade. Esses fatores devem ser considerados conforme a faixa etária, assim como ocorre com a tabela de classificação do IMC para esse grupo.

“Porque, às vezes, os nutricionistas atendem uma criança com o IMC alto e, por sua vez, podem pensar que ela está com o sobrepeso. No entanto, ela pode estar com a estatura baixa para a idade. Dessa forma, não podemos trabalhar somente o IMC, mas também as curvas de crescimento”, explicou.

Cardápio

Paciência é a palavra-chave que os pais, avós e escola devem ter para lidar com os choros e as chantagens das crianças quando elas não recebem os doces, salgadinhos, sorvetes e outros alimentos poucos saudáveis que acabaram se acostumando. O cardápio precisa ser personalizado, levando em conta as particularidades de cada criança. Com a ajuda do pediatra ou nutricionista, é possível planejar dia a dia (e com antecedência) todas as refeições dos pequenos.

“Além disso, é possível incluir as crianças na montagem do cardápio, fazendo com que participem dessa nova rotina, opinem e possam fazer escolhas também, tornando uma atividade prazerosa que, além de facilitar a rotina com os pequenos, ainda os ajuda em seu desenvolvimento cognitivo e na criação de hábitos alimentares saudáveis”, recomendou.

Laís Torres aconselha que os responsáveis pelas crianças invistam em frutas, legumes e vegetais, dando preferência aos alimentos integrais, evitando, assim, os biscoitos, bolachas e refeições prontas, pois eles são ricos em açúcar, sódio e gorduras. É preciso também colocar limite quanto ao consumo de bebidas adoçadas, incluindo os sucos industrializados.

“Essas bebidas são muito calóricas e oferecem pouco ou nenhum nutriente. Reduza o número de vezes em que a família vai comer fora, especialmente em restaurantes de comida rápida, pois muitas das opções do cardápio são ricas em gorduras e calorias. E, além disso, sirva porções adequadas, uma vez que as crianças comem bem menos do que os adultos. Se sua filha ou filho não conseguiu comer todo o prato, não o force a terminar”, destacou.

E, se a criança se recusa a comer, seja seguro. É muito importante que os pais fiquem firmes com a criança e exponha a ela os motivos pelos quais deve comer o que eles estão indicando. Ainda mais, se ela pedir no lugar algum alimento que não a fará bem, como trocar a refeição toda por guloseima ou um lanche hipercalórico.

“Os pais não devem ameaçar a criança, forçá-la a comer, e sim explicá-la que o momento é da refeição e, caso ela não aceite, a comida deve ser imediatamente guardada. Quando a criança estiver com fome, dê novamente”, frisou.

E mais: barganhar muitas vezes é uma atitude eficaz, mas nem sempre é a melhor forma de educar uma criança, segundo a nutricionista. “Ao negociar o consumo de vegetais no almoço por uma bela sobremesa, por exemplo, você não ensina o principal, ou seja, a necessidade de saúde na refeição, só faz uma troca sem dar a maturidade para a criança entender o motivo disso. Ou seja, a criança só fará a ação em busca de um ganho, e não porque é o certo”, acrescentou.

Alimentos mais atraentes

Conforme a nutricionista da Sesau, não adianta ofertar alimentos saudáveis, sem que eles pareçam apetitosos. Se a criança tem como lanches favoritos os salgadinhos e as frituras, os pais devem substituí-los por outros itens. Porém, dá para colocar os itens mais saudáveis com uma apresentação mais agradável para a criança. “Picar uma banana, por exemplo, misturá-la com kiwi e tangerina, fazendo uma paisagem tropical, pode ser uma forma de a criança começar a consumir esses alimentos”, ensinou.

O ideal é introduzir os novos alimentos com mais calma, sem fazer muito alarde para a novidade do cardápio. “Mexer com o lúdico no prato da criança também é muito importante, brincando com as cores e montando os pratos mais agradáveis ao olhar. Não precisa de muito esforço, é só fazer o prato, oferecê-lo naturalmente e todo mundo comer junto”, salientou.

Prática de atividade física

Além de queimar calorias, os exercícios também ajudam a fortalecer os ossos e músculos das crianças, melhoram o humor e ajudam no sono. Outro fator importante é que o incentivo à atividade física na infância pode fazer com que a criança mantenha esses hábitos no futuro, evitando a obesidade ao longo da vida. Conforme a nutricionista, as crianças devem fazer pelo menos um tipo de atividade todos os dias, seja ela programada (esportes ou aula de dança) ou não programada (brincadeiras, como pega-pega, esconde-esconde e usar brinquedos de um parque).

“A criança que faz atividade física chega em casa mais cansada e, consequentemente, vai dormir mais cedo. É uma ação que tem uma reação absurda na qualidade de vida desse pequeno. Uma criança que começa uma atividade física desde cedo, ao chegar na fase adulta, dificilmente ela vai largar”, concluiu.

Por Marcel Vital / Agência Alagoas

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