RAQUEL

7 outubro 2014


De repente lá estava a vila. Dois cordões de casas, separados por um tapete de paralelos de pedras. Mosaicados de sol sempiterno. Esteira bruta, de mãos cascudas brotada. A lápis cinzel e marreta assimetricamente escrevinhada. Como cri-cri de grilos contumazes, no aço e no granito forjado. Tudo, tudo, escrito a suor e sangue de um povo bravio, forte, campesino. Sendo deles mesmos aquela história. Apesar da noite, dava pra ver tudo, tudo mesmo. Casas, e almas viventes. Estrada de barro, carro de boi. Gradiente de um tenor ofuscado de luz. Corda, couro, chocalho. Cocão cantador, idílio de cachorro doido.

O ônibus devagar foi chegando, parando ao lado do portão da Escola. Abraçando com a luz amarelada de seus faróis os que lá estavam. Estudantes, fardados, mambembes, brincalhões avançavam. Mochila às costas, guerrilheiros indo pra uma batalha que travavam contra eles mesmos, dali a pouco. Sempre haveria de ter a serra. A dizer prefiro que se esqueçam de mim, esqueçam que existo, cuidem das suas vidas (impossível imaginar a vila sem ela!). Cuidem das vidas das criaturas que Deus pôs no mundo. A muito, desde a criação. E tanto já se havia passado que o leito do riacho secou. Ninguém jamais iria pra um lugar tão desolador apenas pra admirar o por do sol. Da progenia de Adão rebelados. Da filogenia de Caim expulsos do paraíso. Expurgados da presença do Senhor. Indo parar ali eis por que se haviam. Vagaram vagabundos, pelo mundo.

Quando Raquel nasceu dona mãezinha, a parteira tomou-se de espanto ao ver aquele pingo de gente do cabelinho cor de ouro. Alvinha! De pele da cor do leite que sugava do peito da mãe uma cabocla mestiça. No seio daquela família já cinco irmãs a esperava: Leopoldina, Isabel, Antonieta, Joaquina, e Tereza Cristina. Um pai chamado Pedro, uma mãe Maria Francisca. Desde pequena demonstrara ser uma criatura diferente. Com seis meses já queria dizer palavras, e engatinhava a casa toda. Agarrando-se nas coisas firmava-se em pé, raramente chorava se levava tombos por mais contundente fosse. A avó Amélia, por parte de mãe, também vivia naquela casa, e dizia: “-Você já prestaram atenção? Que essa menina olha por baixo?” Pra velha senhora aquilo tinha um significado não lá muito bom. Pessoas que serravam os olhos, e endureciam o sobrolho pra olhar. Pra ela, essas pessoas tinham encosto o que não era bom. Raquel passou mais de dois anos pra ser batizada. Seu Benedito do Óleo, um velho benzedor, cansou de dar conselhos a comadre Francisca pra batizá-la, o quanto antes. Porque um atraso de vida era a casa que abrigava um pagão. As coisas (quando davam certo) vinham com muita dificuldade. Menino pagão adoecia com facilidade medonha. Tinha os peitos abertos. E as espinhelas caíam de palmo em palmo. Não adiantava reza, galho de arruda, banho com Samba Caitá, sal grosso, alfazema. Profetizava: “-Que Deus a livre! Se passar um vento cai de moléstia incurável, morre cedo.” (-Pagão não vai pro céu!) O que aconteceu com o único varão nascido de dona Francisca devia ter servido de exemplo.

Foi assim, dona Francisca achou de ir uma novena no Sítio Vertedouro lá pras banda de Fazenda Nova. O bucho já estava pela boca. E dona Chica bebeu pinga, muito vinho de jurubeba, fumou cigarro branco. Na euforia, dançou e dançou. Deu de sentir uns desejos. Desejou comer xin-xim de galinha, barro de louça e o fruto do mandacaru. Pedro teve que ir fachear o fruto caatinga noite à dentro. Encontrou uma caninana que não tinha mais tamanho, devorando um cururu. Levou uma carreira duma raposa choca. Ralou-se todinho numa touceira de facheiro. Pra completar quando rumaram pelo caminho de casa, um fogo corredor lá na várzea do baixio foi botá-lo no terreiro de casa. A lua cheia ia pelas alturas e dona Francisca fez uma coisa que não devia. Apontou pra lua. Era coisa que todos sabiam mulheres grávidas não podiam apontar pra lua cheia! Se nascesse vivo, o menino corria o risco de ter seis dedos nas mãos ou nos pés. Além do que sinha Chica havia pendurado a chave de casa no pescoço, outra coisa que jamais devia ter feito, o menino fatalmente nasceria com o lábio fendido, até uma das narinas. Não deu outra, a criança, um menino nasceu de sete meses. O cordão umbilical preso ao pescoço selou seu destino. Pedro nem chegou a vê-lo foi enterrado pelos padrinhos na cova da família do pai. O último a ser enterrado lá havia sido dona Genoveva, a mãe de Pedro. As crianças que acompanharam o cortejo jogaram flores e terra até cobrir o pequeno caixão. Criam que os anjos de Deus vendo que por mãos de inocentes fora enterrado viriam buscá-lo. Levariam pro lugar onde tinha um campo verde, uma relva baixa, onde podia deitar e sonhar e brincar, debaixo dum céu azul da cor do caixãozinho. Ali ficaria até o dia do julgamento.

Raquel era uma menina diferente, mesmo crescendo-lhes os peitos e adquirindo pêlos no púbis continuava tomando banho apenas de calcinha, junto com suas irmãs no riacho assoreado que lhes cobriam apenas as coxas. Os meninos danavam-se a espiar, de longe se masturbavam amoitados. Dos fundos da casa de Raquel dava pra ver o cemitério, lá a margem da estrada invadindo o prado, parecia uma manada de Nelore pastando. O muro baixo branquinho! Branquinho! Quando as coisas dentro de casa ficavam muito pesadas, brigas entre seus pais, agressões verbais e físicas. Então ia até lá. A desfrutar do silêncio, dos malmequeres, das andorinhas, beija-flores e pardais. Cruzes e flores caladas, datadas e nomeadas tristemente mal pintadas, catacumbas e covas cuscuz. Punha-se a observar as formigas que excursionavam sobre o túmulo da vó Genoveva. Tinha em conta que (a terra já tivesse consumido o corpo dela) Fabiano seu irmãozinho que não vingara, estaria debaixo do chão, correndo dentro de túneis brincando com os ossos de vó Genoveva. Quando se deu conta o dia tinha ido embora. Resolveu voltar, vez em quando olhando pra trás, como que dando adeus ao irmãozinho. Naquela noite foi pra escola muito triste. Sem vontade de assistir as aulas. No banheiro feminino encontrou Rita de Cássia. Rita percebeu que ela chorava. Perguntou-lhe o que tinha. Disse que estava triste, era seu aniversário e ninguém na sua casa se lembrou da data. De repente Raquel segurou a amiga pelo rosto e beijou-lhe na boca. Ar de espanto a menina desvencilhou-se ao tempo que limpava a boca com as costas da mão. Pediu desculpas, pôs-se de cócoras e chorou.

Uma viatura do Pelotão de choque na porta da sua casa, ao retornar da escola. As luzes vermelhas piscando sob o teto. Tingiam de sangue as paredes das fachadas das casinhas acanhadas, a luz rodava e rodava, transformando a rua num baile macabro e mudo. A qual não fora convidada, ficou de longe olhando. Um turbilhão de sentimentos a invadir-lhe. Sisudo o pai surgiu na porta, os pulsos unidos por uma algema. Abrindo caminho entre os curiosos, foi conduzido ao camburão por um policial. Humilhante ver o pai naquela situação. Queria que fosse um pesadelo do qual pudesse acordar a qualquer momento. Não era.

Pedro fora preso porque uns assaltantes de banco, pego pela polícia o denunciaram, pela venda de armas pra o crime. Enquanto via seu pai sendo conduzido até a viatura, tantas coisas vieram a mente. Pensou que teriam sido as brigas com sua mãe. Quiçá denunciaram-no pelo consumo e venda de drogas, ele fumava maconha. Ou uma de suas irmãs, pelos abusos sexuais? Até então só não havia tentado a ela, talvez a respeitasse. Perdera a conta das vezes que fora dormir com uma faca debaixo do travesseiro. Ai dele se inventasse de importuná-la.

Raquel resolveu ir embora. O ônibus escolar se afastando do povoado, se ia, levando uma garota com uma mochila cheia de sonhos, o fone no ouvido a impedia de ouvir o adeus de Fabiano na porta do cemitério. Seu destino: Maceió, morar na casa duma tia no Canaã. O ônibus avançando na poeira, deixando pra trás uma mãe, cinco irmãs, uma escola, uma serra, um riacho. Se lançasse um último olhar, veria uma menina de cabelos loiros segurando uma boneca, acenando da porta de casa.

Fabio Campos

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