PONI

29 maio 2013


Fruta de palmaColegas de todos os cortejos fúnebres

No meu tempo de menino, lá em Santana do Ipanema, as crianças eram criadas tendo obrigações a cumprir. Lá em casa minhas irmãs ajudavam minha mãe nas tarefas domésticas e a mim, que era o único filho homem, além de forrar minha cama, cabia a tarefa de fazer mandados, atividade que envolvia a ação de levar recados, fazer pequenas compras nas mercearias da cidade, levar encomendas nas casas dos parentes e toda sorte de trabalho que envolvesse o salutar hábito de subir e descer as ladeiras de Santana. No cumprimento das minhas atribuições diárias, muitas vezes tinha que ir ao comércio e esta frequência me permitiu conhecer vários personagens do centro da cidade. Eram comerciantes, comerciários, bancários, motoristas, carregadores, serralheiros, pessoas que frequentavam a loja de meu pai e me dispensavam atenção, tiravam uma brincadeira, faziam um afago, essas coisas que toda criança gosta. No entanto, havia um personagem com o qual eu jamais troquei uma só palavra e sequer passei perto dele, mas que lembro muito bem, seu nome era Poni.

Lá pelo final do século XIX e começo do século XX, instalou-se na cidade um comerciante do ramo dos tecidos, o Coronel Manoel Rodrigues da Rocha. Coronel sem armas nem capangas era o homem de referência do lugar, tanto pelo seu sucesso financeiro quanto pelo seu comportamento exemplar. Sua esposa era conhecida como Sinhá Rodrigues. Após a morte do marido, deu a mais perfeita continuidade aos negócios da família e pelo seu caráter e credibilidade merece ser considerada como uma das matriarcas da cidade. Próximo à casa do Coronel, bem em frente à igreja matriz, veio morar uma sobrinha sua chamada Hermínia. O laço de parentesco poderia nos levar a pensar que ela estivesse fadada a uma vida despreocupada e com muitas facilidades, mas não foi o que aconteceu. Dona Hermínia Rocha casou-se com Seu Antides Feitosa tendo com ele quatro filhos. Os três primeiros: Agissé, Berenice (Bebé) e Poni eram completamente loucos. A chegada da quarta filha, Labibe, dotada de sanidade, não foi suficiente para garantir a estabilidade daquela desventurada família. Seu Antides, que já tinha saído de casa uma vez, novamente foi embora deixando para Dona Hermínia o ônus de manter a casa e criar os filhos sozinha.

Naquele tempo, como parte da formação para se tornarem esposas, as mulheres aprendiam artes manuais como bordados, rendas, flores, quitutes etc. Abandonada pelo marido e precisando sustentar os filhos, Dona Hermínia, prendada como era, passou a dedicar-se ao artesanato com especialidade em artigos para funerais. Apesar da cidade ser pequena, naquele tempo a mortalidade era alta, principalmente de criancinhas, anjinhos como eram chamados, de modo que nunca lhe faltava encomendas. Ela fazia flores artificiais, coroas de flores, mortalhas e grinaldas. A grinalda era um símbolo de pureza e por isso eram usadas tanto nos casamentos como também nos enterros de anjinhos e de virgens. Assim, garantiu seu sustento e dos seus filhos, de modo que sua filha caçula, Labibe, casou-se e foi morar no Rio de Janeiro, antiga capital federal, mas os outros três nunca puderam dispensar os cuidados maternos.

A influência que o trio Agissé, Bebé e Poni teve na vida da pequena cidade foi tal que em 1944, um neto do Coronel Manoel Rodrigues, Breno Acioly, filho do Dr. Acioly, o primeiro juiz de direito da cidade, escreveu o livro “João Urso”. Escrito sob a inspiração nos primos loucos, o livro recebeu os prêmios Graça Aranha e Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras e seu autor passou a ser conhecido pela crítica literária como “o contista da loucura”, título adquirido considerando-se toda sua obra. Novamente, em 1963 o trio voltou às páginas da literatura com a publicação do livro de crônicas “Fruta de palma”, de Oscar Silva outro escritor santanense que, abraçando a carreira de coletor federal, mudou-se para Toledo lá pras bandas do Paraná, cidade onde morou até o dia da sua morte em 1991. Eu não tive oportunidade de conhecer Breno nem Oscar, mas lembro-me que várias vezes vi Poni andando na rua, vestido num pijama daqueles que são de calça e camisa de manga comprida. Apesar de viver no mundo paralelo da loucura, Poni era um indivíduo pacífico, mas na minha visão de criança seu aspecto me dava medo e por isso eu me contentava em olha-lo, apenas de longe.

Agissé, Poni e Bebé, nas suas loucuras não apenas inspiraram escritores como Breno Acioly e Oscar Silva, mas também deixaram gravadas na memória popular muitas histórias em que eles mesmos foram os protagonistas. Contam os mais velhos que, quando Dona Hermínia ainda era viva, Agissé, o mais velho dos irmãos, morreu. Santana do Ipanema cultiva uma tradição de realização de cortejos fúnebres a pé. Quer seja rico ou pobre, o falecido é levado à sua última morada pelas mãos dos seus conterrâneos. Com Agissé não se deu de outra maneira, o fato de ser louco não seria motivo para o rompimento desta antiga tradição. Após a encomenda do corpo um grupo de homens, comerciantes, bancários, funcionários públicos, profissionais liberais e toda uma sorte de amigos da família pegando nas alças do caixão, começaram o percurso revezando-se na caminhada que não era curta. O momento era solene, mas não impedia que a imaginação dos presentes arquitetasse alguma presepada. Em dado momento, um grupo de amigos combinou que iriam colocar Poni para segurar numa das alças e os demais não fariam o revezamento com ele. Ora essa, eu tenho experiência de pegar em alça de caixão e sei que, se tem uma coisa pesada nesse mundo é defunto. O coitado do Poni pegou na alça do meio e, quando se sentiu cansado falou:

– Companheiro, companheiro!

Os gaiatos formaram um verdadeiro cordão de isolamento e todos faziam de conta que nada ouviam. Alguns minutos depois o coitado apelou mais uma vez:

– Companheiro, companheiro pegue aqui!

Mais uma vez ninguém se habilitou a livrá-lo do peso. O tempo foi passando e o coitado do Poni se agoniando até que, já não mais aguentando, gritou a plenos pulmões:

– Ô vocês pegam essa peste ou eu largo aqui mesmo!

Ai todos caíram na gargalhada e finalmente um substituto apareceu, terminando o funeral sem outros incidentes.

Os anos passaram, um dia Dona Hermínia morreu e chegou a vez dela receber coroas de flores, vestir mortalha e ser levada em cortejo ao cemitério da cidade. Na falta da sua mãe, os irmãos remanescentes Poni e Bebé foram internados na Casa de São Vicente de Paula instituição histórica que abriga a mais de 50 anos idosos e desvalidos da região da Ribeira do Panema. Lá foram recebidos e, na medida das limitações de uma instituição de caridade, foram bem tratados. Eu lembro que quando eu era menino minha mãe nos levava um domingo a cada mês para visitar os velhinhos da Casa de São Vicente. Até hoje, várias pessoas ainda mantém este hábito humano e solidário. Tia Ana Agra contou que nas suas visitas ao abrigo sempre conversava com Poni e Bebé. Numa dessas conversas, Poni começando a perceber o aspecto transitório da vida, vendo que Bebé já havia partido e sua vez um dia chegaria, falou:

– Tá vendo Ana? Quando morre um rico sempre tem um bocado de gente no enterro, mas quando morre um pobre, você vê assim, vai bem pouquinho de gente.

Falou que o caixão de defunto pobre era de má qualidade, a mortalha era feita com tecido barato, tinha pouca ou nenhuma flor e concluindo disse:

– Olhe Ana! No dia que eu morrer eu não quero enterro de pobre. Eu quero ter um enterro de rico.

O tempo passou e o dia de Poni chegou. A notícia do seu falecimento espalhou-se na cidade e, de uma maneira quase que instantânea a comunidade se mobilizou para garantir-lhe um enterro digno. Mesmo com as limitações da sua loucura, ele fez parte da vida de muitas pessoas, foi amigo de infância de muitos homens hoje bem sucedidos nas suas profissões ou no comércio. As brincadeiras desde o tempo de menino até a idade madura não poderiam ser esquecidas, ali estava mais um amigo que partia para a eternidade e seus amigos compareceram para a despedida. Um bom caixão foi comprado, uma roupa boa e flores. Percebendo que, devido a distância, os velhinhos da Casa de São Vicente não podiam acompanhar o cortejo, Tia Ana falou com várias pessoas e conseguiu carros para garantir a presença de todos os internos.

– Só não foram aqueles que por motivo de saúde não podiam sair da casa. Todos os que puderam foram ao enterro de Poni, um enterro de rico com tudo que tem direito.

E assim o último filho de Dona Hermínia partiu ao encontro da sua mãe.

Caros colegas, considerando que eu não estou conseguindo escrever com a frequência que gostaria, é admissível alguma defasagem de calendário. Apesar de já ter passado o dia das mães e antes que o mês de maio acabe, eu gostaria de prestar aqui uma homenagem a todas as mães que, no cuidado com seus filhos amam, são companheiras, sofrem, brincam e que, como Dona Hermínia, nunca abandonam seus filhos.

Meus amigos, é bom poder contar com os recursos da grande rede para manter contato com todos vocês, mas bem que eu gostaria de poder encontrá-los pessoalmente e poder sentir os seus abraços. Poderia ser um encontro marcado ou casual, poderia ser em casa, na rua, na praça, num bar, poderia ser em qualquer lugar, mas, se por um acaso do destino, venhamos a nos encontrar em um velório, espero que não seja o meu. Um grande abraço a todos.

Saúde, sabedoria e paz.

Virgílio Agra

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