“Ele acabou com uma família”, diz viúva de santanense morto por pm Viúva de Ramon da Silva Wanderley decidiu falar sobre a morte trágica do seu companheiro.

16 jul 2020 - 00:52


Ramon da Silva era casado e tinha uma filha de 4 anos (Foto: Cortesia / Alagoas na Net)

Onze dias se passaram desde que a professora Elane Cristina e sua filha Rayra, de 4 anos, tiveram o último contato com o marido e pai, respectivamente. Ramon da Silva Wanderley foi assassinado no último dia 25 de junho, em Santana do Ipanema, morto com um tiro, pelo próprio tio, um policial militar.

O crime abalou toda uma família, que decidiu falar com exclusividade ao site Alagoas na Net, em entrevista nesta quarta-feira (15). Ao lado da sogra, irmã do acusado, a viúva estava muito emocionada, mas não se furtou de rememorar cada minuto do dia crime, que ceifou a vida do seu companheiro.

Elane relatou ter conversado com o marido por telefone, horas antes do fatídico episódio. Disse que Ramon queria saber da filha e da mãe, pois estava bebendo. “Ele me ligou uma vez, mas eu estava em uma aula online. Minutos depois ele insistiu, foi aí que percebi que estava bebendo e que queria chegar em casa sem a filha e a mãe o ver. Ramon não gostava que elas o vissem chegando do bar”, afirmou.

Mais alguns minutos se passaram, quando um popular chegou em sua casa e trouxe a notícia de que Ramon havia sido baleado. “Sai de casa correndo e quando cheguei no bar ele estava com a mão na barriga. Passei minha mão em seu rosto, vi que ele estava suando, mas me tiraram dali e os bombeiros o resgataram. No hospital ele perdeu muito sangue e não resistiu após a cirurgia”, contou Elane.

O que a esposa ouviu

A docente relatou o que ouviu de alguns presentes no estabelecimento. Ramon estava no espetinho, quando seu tio chegou e começou a lhe provocar. Em determinado momento, a discussão foi parar em vias de fato. Os dois conseguiram se afastar, quando o militar sacou a arma e Ramon ainda questionou o seu algoz.

“Me disseram que eles caíram no chão, mas quando Ramon se levantou, e viu que o tio puxou a pistola, levantou as mãos para o céu e perguntou: você vai atirar em mim? Aldo disse: vou sim. Daí disparou contra o Ramon”, descreveu a esposa.

Desentendimento antigo

Nossa reportagem questionou a viúva o que ela acha que motivou a briga entre o tio e o sobrinho. Elane respondeu que ambos já não se falavam há muito tempo, devido a problemas antigos envolvendo a posse de uma terra. A professora disse que já precisou procurar o Ministério Público por causa desse assunto.

“O Aldo nunca aceitou que sua irmã deu uma terra da família para o Ramon. Ele sempre implicou por causa disso. Mesmo com a terra já em nome do Ramon, ele chamou a polícia para expulsar meu marido do sítio. Lembro como hoje, quando os policiais chegaram e o Ramon foi explicar. Os pm’s ficaram com vergonha, pois o Aldo não tinha contado a história completa”, disse.

De acordo com a professora, os desentendimentos sobre esse assunto fez a relação do tio e do casal sempre passar por momentos delicados. “Depois desse fato no terreno procuramos a Promotoria para que ele nos deixasse em paz. A promotora perguntou se queríamos processá-lo, mas dissemos que não. Queríamos viver nossa vida, pois o Ramon tinha muitos planos naquele sítio. Ele estava juntando um dinheiro e falava que iria construir um lindo espaço para a nossa filha”.

E foi no momento em que citou a filha, que Elane mais se emocionou. A professora recordou como era bonita a relação da filha com o seu pai e também relatou o exato instante em que teve que contar a notícia sobre a partida do seu genitor. “O Ramon era muito apegado a Rayra, e ela era recíproca a isso. Nossa filha é autista, e demonstra suas emoções de forma muito intensa. Como o Ramon viajava muito, pois trabalhava numa empresa em Sergipe, toda vez que eles se reencontravam era uma festa. Ela não desgrudava dele um só minuto”, disse.

“Quando tive que contar a ela sobre o ocorrido, que o pai dela agora morava no céu, deu pra ver em seu rosto, como ela ficou abalada, mas do jeito dela, retraída. Ainda hoje ela foi na porta, dizendo que vai ver o pai no céu. É muito doloroso ver essa cena. O tio do Ramon acabou com uma família”, desabafou.

Ramon da Silva Wanderley (Foto: Cortesia / Alagoas na Net)

Acompanhando toda a fala de Elane, estava dona Edineuza da Silva, mãe de Ramon. A senhora relembrou um episódio que aconteceu há alguns anos, quando a família ouviu rumores de que o seu irmão estava ameaçando contratar alguém para “dar fim” a vida de Ramon.

“Fui saber dessa história e pedir pela vida do meu filho, para que ele esquecesse essa briga do terreno. O Aldo tirou o chapéu, levantou a mão para o céu e disse que jamais tiraria a vida de uma pessoa, sangue do seu sangue”, balbuciou a irmã do policial.

Perto de terminar a entrevista, a viúva do santanense vitimado ressaltou os motivos que fizeram ela conversar com a nossa reportagem. “Eu precisava deixar público que eu temo pela minha vida, pois não imaginávamos que o Aldo poderia fazer isso com o próprio sobrinho. Mesmo temerosa, busco por justiça. Quero que o Aldo seja preso e condenado pelo que ele fez”, declarou Elane.

Ao final ela também falou sobre comentários que tem ouvido sobre a defesa do autor do crime. A professora reforçou sua satisfação com o trabalho da polícia, agradecendo a presteza do delegado Hugo Leonardo. A autoridade policial anunciou ao site Alagoas na Net, que a Polícia Civil irá indiciar o policial pelo crime de homicídio qualificado.

“Já ouvi alguns comentários tentando justificar o crime, mas nada explica alguém tirar a vida de um pai de família, que não é bandido e nunca se envolveu em nada de errado. Não vou deixar que a imagem do meu marido seja manchada. Ele deixou uma filha, que vai crescer e vai saber que pai dela foi um homem de bem”, finalizou.

Por Lucas Malta / Da Redação

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