Pesquisadores debatem origens, conquistas e avanços sociais de Alagoas Historiados remontam a formação do território alagoano a partir da influência do negro, do indígena e dos europeus

27 dez 2018 - 14:00

Douglas Apratto, Raquel Rocha e Jaime de Altavila apontam influências dos negors, indígenas e europeus na formação do território alagoano (Foto: Adailson Calheiros / Agência Alagoas)

Conhecer a história é buscar no passado informações e conhecimentos necessários para a compreensão do presente e projetar os acontecimentos do futuro. Foram inúmeros personagens que ajudaram a escrever a história do “Estado de Alagoas”: indígenas, negros, europeus e vultos reconhecidos internacionalmente.

Reunidos no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), marco referencial do estado e terceira unidade do Brasil, os historiadores e pesquisadores Jayme de Altavila, Douglas Apratto e Rachel Rocha contam a origem de Alagoas e os destinos do estado, através de dados históricos e dos alagoanos que influenciaram em vários segmentos e conquistas em todo o Brasil.

Contar a história de Alagoas sem ressaltar a origem indígena, segundo Douglas Apratto, não é interessante. Ele aborda o assunto de que antes da colonização europeia, já existia por aqui povos da chamada “Pindorama Alagoana”, como os índios chamavam esta terra. “Quando a gente diz que no dia 22 de abril de 1500, o português Pedro Álvares Cabral ‘pôs os pés’ na costa do Nordeste brasileiro, diz-se que ele descobriu o Brasil. Ora, não se descobre o que já estava descoberto. Os índios que descobriram Cabral e os portugueses, pois já habitavam as nossas terras há muitos séculos”, explica.

Jayme de Altavila traz as teses, baseado em documentos de historiadores estrangeiros que dão a posição exata de atitude e longitude, como o pai. Jaime de Altavila, já falava do avistamento de terras alagoanas pelas três naus que passaram pelo litoral nordestino. “Foi no Nordeste que se iniciou este país”, afirma o historiador.

O índio tem uma herança importante para a formação social do Estado. Jayme conta que no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas existe um acervo maravilhoso, muito rico, dos índios alagoanos. “São peças que contam como era a rotina e a cultura dos povos indígenas que habitavam nossas terras e que habitam até hoje, refletindo em várias esferas da sociedade atual”.

Rachel Rocha entende que a formação do território alagoano é como um link para o que vivemos no presente. Em termos de que consequência que tivemos em função do tipo de colonização que o território de Alagoas teve. A marca da colonização em Alagoas, assim como em várias partes do país, foi uma linguagem do extermínio. A começar pela nossa população autóctone, os índios dessa costa, muito variados e distribuídos ao longo da costa em várias etnias. E que sofreram, com a concessão da terra. A terra era conquistada a palma. Essa violência atingiu os povos indígenas e o nosso patrimônio natural com a devastação das florestas.

“O legado indígena está muito presente na formação social da nossa população. Ele é muito consciente na nossa língua, nos hábitos, de modo a se refletir numa configuração cultural inerente a nossa gente. Inclusive, até hoje, essas tribos reivindicam seu pertencimento e espaço”, argumenta.

A origem do nome do estado de Alagoas gera uma discussão entre os entrevistados. Para Jayme de Altavila, o nome já diz: Lagoas. De acordo com o historiador, existem duas curiosidades sobre o tema. A primeira é que por inexplicável lapso do decreto de 16 de setembro de 1817, foi grafado “Província das Alagoas”, quando ainda éramos Comarca. A segunda, é que em nosso primeiro brasão, dizia “Província das Alagoas”. Foi quando, no segundo brasão, de Dr. Theo Brandao, surgiu a nova Constituição Alagoana, que por um lapso do grafista que datilografou, ao invés de colocar “Estado das Alagoas”, escreveu “Estado de Alagoas”.

“Sempre fomos ‘Das Alagoas’”, argumenta Douglas Apratto. Quando éramos da capitania de Pernambuco e éramos integrante da parte sul, todos falavam “lá das Alagoas”. Pois aqui já se vivia um povo diferente do pernambucano. “A gente já tinha sotaque diferente, já naquela época, uma gente distinta que era um território muito afastado do centro das decisões, já tinha um pertencimento diferente do pernambucano. Como ainda hoje temos a nossa identidade. O certo realmente seria “Estado das Alagoas”, em função das inúmeras lagoas e abundância de peixes que já vinham no próprio brasão com as tainhas”.

Rachel Rocha explica que é tão vibrante a questão das lagoas em nosso nome, que a natureza é sempre presente em obras artísticas daquela época, sempre exaltando as lagoas. Já havia uma imagem autônoma das Alagoas, antes mesmo da sua emancipação política. “Já havia uma configuração, que se torna autodeterminação a partir da emancipação”, diz.

Ela complementa afirmando que as diferenças culturais entre alagoanos e pernambucanos fizeram com que Moreno Brandão desse uma definição psicológica do nosso povo frisando que somos um povo de alarde, somos mais comedidos, mas que isso não se confunda com ser apático. Somos batalhadores, guerreiros e hospitaleiros.

A cana de açúcar vai ditar a questão do processo de colonização, dando início ao lado europeu e africano das nossas raízes. Reconhecer a nossa composição africana na nossa sociedade é importante e deve ser exaltada,e o negro tem uma presença muito importante na nossa formação. Rachel Rocha explica que a cana-de-açúcar também institui ciclos folclóricos em Alagoas. Segundo ela, são folguedos associados aos engenhos, e a presença negra nas manifestações culturais é muito forte e traz a riqueza das nossas tradições.

“Nós temos sangue misturado desde Portugal, e ainda no raciocínio da pedagogia do extermínio, esta prática chega ao povo negro. E suas expressões de resistência e de religiosidade são marcas muito forte na nossa cultura. Hoje vemos uma nova altivez se colocar para o povo negro. As línguas africanas são que modificam o nosso português, um patrimônio introjetado”, ressalta.

Quando se refere a nomes de alagoanos ilustres, Douglas Apratto destaca que Alagoas sempre teve vocação de notícias. Parafaseando Fernando Gurgel “Acerca do glorioso passado de Alagoas, dos muitos vultos alagoanos que tiveram atuação destacada na cultura e na política brasileira, o mais belo testemunho é o da própria história”. Jayme de Altavila lembra que nenhum povo consegue se desenvolver economicamente sem ter senso de pertencimento e marcos referenciais. Como Otávio Brandão, ele relembra: “Alagoas é uma terra de raízes profundas na História do Brasil. É berço de tradições heroicas e imortais, patrióticas e progressivas. É um manancial de poesia lírica e épica”. Por exemplo, Calabar, o mestiço alagoano, não é traidor. Foi uma opção dele pelo modo de como os holandeses e os portugueses trataram ele. “Alagoas é um estado pequeno, mas que tem uma coalescência histórica com a história do brasil. Com inúmeros personagens decisivos na história política, literária, cientifica”

Ambos os entrevistados têm convicção de uma coisa: só temos motivos para nos orgulhar desse estado. Alagoas é um depósito de fatos e acontecimentos nacionais, que transpuseram a história. De diversos vultos que dignificaram a história brasileira, a maior parte deles é alagoana. Sempre estivemos em evidência nacional.

A exemplo de Tavares Bastos, Nise da Silveira, Théo Brandão, Arthur Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Barão de Penedo, Visconde de Sinimbu, Guimarães Passos, Ledo Ivo, Hekel Tavares, Rosalia Sandoval, Hermeto Pascoal, Pontes de Miranda. Também tem nomes contemporâneos como Djavan e Marta. Temos essa diversidade e opulência de nomes expressivos na história do Brasil, em todos os setores. Nós temos muito a nos orgulhar!

Por Teresa Machado / Agência Alagoas

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