Sobre Sérgio Campos

Sérgio Soares de Campos, nasceu em 11 de novembro de 1961, em Santana do Ipanema, Alagoas. Possui crônicas publicadas em sites e livros como: À Sombra do Umbuzeiro e À Sombra do Juazeiro. É membro idealizador e cofundador da Associação Guardiões do Rio Ipanema (Agripa). Criou o projeto musical Canteiro da Cultura, lançado dia 14 de dezembro de 2019.


Papai Noel Me Salvou

22 dezembro 2020


Foto: Reprodução / Internet / Sensacionalista

Hoje levantei cedo e bastante animado, afinal, trata-se de um dia muito especial. Os primeiros raios do sol acabaram de dar os ares da graça, avisando que aquele seria um dia cheio de luz, com bastante prosperidade.

Olhei ao redor, minha mulher dormia um sono profundo – com certeza estava sonhando com os anjos – seu corpo se encontrava encoberto apenas com parte de um fino lençol, já que estávamos no início do verão, mostrando claramente os contornos sensuais daquela bela fêmea, que tantos prazeres já tinha me proporcionado. Meus pensamentos quiseram me trair, mas quando olhei o relógio, percebi que a hora avançava ao compromisso.

Mesmo sendo véspera de Natal eu tinha compromisso com minhas atividades corriqueiras do trabalho.

Me dirigi à garagem e conduzi meu possante veículo até a minha empresa, que durante todo o ano foi de grande sucesso financeiro.

Durante o trajeto, pude ver o número de crianças e adolescentes que corriam nos semáforos em busca de uma ajuda financeira. Observei que, um deles se trajava de Papai Noel. Daí eu imaginei, e agucei a minha vaidade – mas como assim? até onde eu sei, Papai Noel dá presentes, ao invés de mendigar – e saí meio que com a cara de deboche.

Fui para o trabalho com a cabeça martelando aquela imagem e contaria tudo o que eu tinha visto até então, aos meus funcionários, apenas com o intuito de relaxar.

Ao entrar no prédio da minha empresa, tive a grata surpresa de ser recepcionado com música, balões enfeitados, presentes e abraços apertados.

Pelo capricho dos meus colegas, vi o quanto me queriam agradar. Papai e Mamãe Noel tinham um bolo de quase um metro de altura; vinhos dos mais sofisticados, bebidas e comidas de várias espécies me esperavam e aguçavam meus olhares mais desejosos.

Pela manhã, até cheguei a pensar em não ir ao trabalho neste dia, mas imaginei que alguns compromissos mais sérios me aguardavam, mesmo às véspera da data simbólica do nascimento do Mestre Jesus Cristo.

Antes porém, já havia me preparado para, à noite, me reunir com alguns colegas empresários, além dos meus familiares mais próximos, a fim de poder se deliciar de tão importante data.

As comemorações continuaram, o clima de trabalho, como eu já esperava, acabou não acontecendo e assim nos envolvemos entre bebidas e deliciosas guloseimas, além de uma conversa relaxante, onde as gargalhadas ecoavam durante todo o encontro.

Envolvido com as paparicagens e o volume de presentes, a tarde passou e noite chegou, sem que eu percebesse que tinha um compromisso marcado. Alheio a quantidade do serviço que me aguardava, tinha certeza que no final do dia estaríamos juntos e felizes para compensar qualquer tipo de perda nas vendas.

Depois de abusar de bebidas e comidas em fartura, decidi me despedir dos trabalhadores que ajudaram em meu crescimento financeiro, durante todo o ano, sem ao menos informar para onde eu iria mais tarde.

Durante a volta para casa, fui imaginando o quando a gente é bajulado, dependendo do valor financeiro que construímos, ainda que em prejuízo a outros.

Devido a quantidade de bebida alcoólica que ingeri, acabei perdendo um pouco o reflexo. E, mesmo assim, não dei a devida atenção ao trânsito, que naquele momento estava em alta, imaginando que, devido ao meu grande patrimônio financeiro, todos deveriam me respeitar e, por mais de uma vez, ultrapassei o semáforo fechado.

Mas de repente, sem nada ter visto, senti uma pancada na traseira do meu carro. Diante deste imprevisto, não tenho ideia de quantas vezes ele veio a capotar, já que tudo aconteceu em questão de segundos.

Quando eu despertei, a cena que me ficou marcada para sempre, foi a do Papai Noel me segurando nos braços e me consolando, enquanto eu nada entendia do que estava acontecendo. Naquele momento, eu não sentia nenhum dos membros do meu corpo. Apenas ouvia aquela bela criatura dizer – tenha calma meu irmão que tudo vai dar certo, a ambulância está chegando, já ligamos, acredite que Deus há de te salvar.

Mesmo sem muita noção do que estava acontecendo, eu pude reconhecer aquela pessoa fantasiada de Papai Noel, que mais cedo mendigava no semáforo, um pouco de recurso para alimentar a sua família.

Também me veio à mente a imagem de uma criança de aproximadamente seis anos de idade, que me abordou, enquanto eu aguardava o sinal abrir, pela manhã quando me deslocava à empresa: “tio me dá um real, é pra comprar um pastel”. Meu pensamento fissurado na minha amada, bem como no sistema financeiro, não dava para prestar muita atenção na necessidade daquele garoto, que agora me vem à tona: raquítico, mal vestido e de olhar desolado.

Apesar dos pesares, naquele marcante dia eu pude estar com a minha família e, assim, poder, de verdade, comemorar o dia do nascimento do nosso Mestre Jesus Cristo, o maior exemplo de amor que já esteve aqui na Terra.

Ao final da noite as dores ainda teimavam em assolar o meu corpo, mas diante da solidariedade e dos carinhos recebidos na rua, no momento do trágico acidente, de forma espontânea, bem como os recebidos no lar, pelos meus queridos familiares, por fim me serviram de exemplo para tomar um melhor e mais útil rumo na vida, e assim se utilizar das minhas boas energias para dividir com o meu próximo aquilo que tenho ganhado, onde apenas achava por bem acumular, pois, em minha mente o que mais está presente neste momento é a real obrigação em realizar a caridade, onde, quem a prática ainda é mais beneficiado do que quem a recebe.

Assim, desejo a todos um dia saudável e de reflexão quanto ao nosso papel aqui na Terra, local em que o Pai celestial nos enviou para praticar o bem. Feliz Natal!

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