OS PÉS DE JULIETA

11 junho 2014


A história de que mentira tem pernas curtas, quem somos nós pra refutar tal adágio. Podemos sim arvorar-nos na premissa, que a dita cuja talvez tenha sim, quanto ao mentiroso, nem sempre. Consideremos a existência de variado tipo de mentiroso. Existindo inclusive aquele que não convence nem a si próprio. Caso engendre-se nossa história de fantasiosas lucubrações. Deixaremos a cargo de quem lê-nos os auspícios das próprias conclusões.

O matuto verdadeiro. O homem do sertão com suas particularidades. Em essência é aquele que vive matutando. Se entre um colóquio e outro dá de falar de alguém que já passou dessa pra melhor, costuma dizer “-Que Deus tape as “oiças” lá onde ela estiver, pra não ouvir o que hei de dizer a seu respeito!” Julieta tinha nela dois defeitos. Pernas curtas e tortas, por conta de uma poliomielite, e mentia que era uma beleza. Num tempo que a gente haveria de chamar tempos idos. A ilustre figura, juntamente com sua família, fora vizinha de minha vó materna. Julieta era assim, cabocla, criada com leite de cabra. Nascida nas brenhas do sertão de Belém do Cabrobó. Trazendo no sangue linhagem Iatê-Tapuio. Da calada da noite tirou a cor dos cabelos, da casca do angico tirou a morenês da pele. Apesar do nome de personagem do clássico literário inglês uma Tiêta agrestina. Aliás, depois de saída da infância, assim que se entendeu de gente, Julieta dedicou-se com ferocidade de animal predador, a caçar o seu Romeu. Arremedo de pavão, bonita somente dos pés pra cima, ao atingir maturidade, buscou com sagacidade um homem pra chamar de companheiro. Desde a infância tornou-se amiga dos familiares de minha vó. Vizinho naquele tempo era adjetivado de “parede e meia”. Os matutos do mato, aos poucos iam se chegando a urbanidade. Atraídos pela concentração de luzes dos quixós, quando a copa da noite dava a cobrir o vilarejo. E as casinhas de taipa iam sendo construídas umas encostadas nas outras, pareciam meninos buchudos quando iam pra feira. Tímidas se espremiam na barra da saia da cidade.

Animado, igual pinto no lixo, assim se apresentava o sertão naquele ano. As promissoras trovoadas vieram no tempo certo. E o dezenove de março chegou encimado na carroceria dum caminhão Ford. E lá foram pra procissão, e a última noite do novenário das festas de São José da Tapera. Dona Amância, sentada na calçada da comadre Aurélia botava cuidado nas meninas. Os corrupios eram como chamavam o carrossel. Uma sombrinha gigante girando alucinadamente. Um engenho de cana adaptado, movido a tração humana, remetia no ar meia dúzia de moleques afoitos sentados em cadeirinhas. Nos apoios das mãos, patinhas grosseiramente pintada. Uma ruma de gente regozijava só de olhar. Jamais se atreveria a tal aventura! Melhor era mesmo olhar! Lá vinha o Mateu, mais enfeitado que santa cruz de beira de estrada. Estalando um relho, assoprando álcool, num apito de caçar “Fogo-pagô” enchia o oco da noite de lúgubre silvo. Jovens casais tentavam a sorte num Laça-laça enganoso. Tacos de madeira que não se deixavam laçar facilmente exibiam cédulas tentadoras. Uma estranha pescaria, peixinhos feitos de lata de óleo, enterrados num tacho cheio de areia. Se pescados a cauda exibia um número que indicava o prêmio ganho: um sabonete “Alma de Flores”, uma calunga de pano, uma carteira de cigarro Astoria, Chesterfield, Continental.

Depois de muita correria, os meninos dirigiam-se pras barracas de comidas, iam recuperar o gasto energético. E das algibeiras de seus calções tiravam suas tão bem guardadas moedas. A menina antes de sair de casa, praticamente implorara: “-Ô mãe! A senhora não tem tanto dinheiro! Me dê uma moeda!” E se fartariam de pão doce com suco composto de mel, groselha ou caldo de cana, rolete de cana num gancho de catingueira, a desbotar os dentes. A luz dos caandeiros alumiava as prendas do leilão: uma ancoreta de cachaça, frangos fritos, vários perus na pena. Um luzeiro mais potente, abastecido com óleo diesel, garantia claridade pra imagem do santo e pro altar. A missa campal elevava aos céus, hinos de louvores ao santo padroeiro. O cântico glorioso se diluía na fumaça dos estrondosos estampidos dos bacamarteiros. E os foguetes subiam deixando pra trás um rabo de fogo. E o fedor de pólvora esturricava nas ventas do trio de zabumbeiros.

Julieta era irmã de Zefinha costureira. Na noite da festa do padroeiro, as meninas conheceram um rapaz que ficou interessado por uma delas, que infelizmente não fora nossa personagem. Então ela armou seu laço de língua. Teria dito à irmã, que sua amiga tinha arranjado um noivo na festa e que ela providenciasse a confecção de um vestido bem bonito para um próximo encontro, que haveria entre eles. O tecido foi providenciado, o cochicho correu solto. O nome do suposto namorado também foi inventado, um padeiro da panificação São José, sem nada saber entrou na história de cochicho de mulher mexeriqueira. Numa tarde em que estavam brincando Julieta confidenciou à amiga: “-Minha amiga! Como você tem pés tão bonitos! Já os meus…” Doeu até hoje, nada podia fazer.

E o sol depois de um dia de trabalho. Cansado e enfadado, começou a escorregar por detrás das telhas dos quixózinhos, dos cristãos, cristãozinhos! Daquela terra de Deus, meu Deuzinho! Zé Costa chegava por ali, se constava na beira do fogão de lenha de minha vó. Davam de iniciar uma prosa morna, cheirando a milho assado. E iam molhando as palavras com café quente. E falaram de Mariazinha coitada que tinha asma. E estudavam: Mariazinha, Julieta, a sua melhor amiga, e uns meninos dos Abreus, outros do Gavião e do Pedrão. Um dia chegou uma professora nova, pra conhecer seus alunos inquiriu-os. Dirigindo-se a um deles perguntou: “Qual é a sua graça?” Todos riram. Não sabiam o que significava “Sua graça”. Mariazinha cansada, cansada: na hora de soletrar, soletrava: “C-a: cá, c-é: cé, c-ó: c-ó…Ô Julieta? Como é essa aqui pertinho do cú? Zé Costa e minha vó riam, e riam, a balançar a pança como fazia padrinho Pizeca.”

“- Ô Zé! Por acaso, tu soube da história que lá no grotão, no olho d’água, depois que anoitece, deu de aparecer aos homens, uma mulher nua, que vai tomar banho? Dizem que o cabelo é tão grande, mas tão grande, que passa das suas partes! Mas ninguém consegue se aproximar, ela simplesmente some.” Não sabia dessa história. Sabia de outra mais interessante: “-Tá correndo por aí uma história de, Ave Maria! Ave Maria! (se benzia) De Lampião. Mês passado, o bando do cangaceiro andou por aqui perto, passou no Capim e teve no barraco de Zé Banca, se abasteceu de um tudo. O bandido deixou o homem quebrado. Foi embora, mas deixou um recado, que o vendilhão, não dissesse (não “dixésse”, era assim que pronunciava) pra ninguém que ele tinha passado ali. Mas foi só o bando sair do seu terreiro. Correu Zé Banca, foi dizer ao delegado. Ah! Minha filha! Lampião quando soube, voltou lá no Capim, e praticou miséria. Zé Banca coitado foi amarrado num pé de babão. Deram uma pisa de urtiga no cabra, nu. Pra encurtar a história cortaram a língua do desinfeliz, e enfiaram no fiofó do miserável!” -Vixe Maria! “

Julieta ficou velha. Também velha tornou-se sua melhor amiga. Um dia, velhinhas tornaram a se encontrar. Na casa da viuvez da amiga, se encontraram. Aquela que arranjou namorado na festa de São José. Namorado de mentira que se tornou verdade. Agora tudo era motivo de risos. Com aquele, a amiga constituiu família, tiveram filhos. E tornaram a ri, riram, e riram lembrando de Mariazinha, que era doente de asma, que não sabia soletrar o c-a: cá! Mariazinha que já morrera. E padrinho Pizeca que ria tanto a balançar a pança. E se despediram, sem saber Julieta que era a última vez que via a melhor amiga.

Fabio Campos

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