OS EXTERTORES DAS TRADIÇÕES

03 nov 2015 - 09:16

Clerisvaldo B. Chagas, 3 de novembro de 2015

Crônica Nº 1.492

Repentistas Clerisvaldo e Zé  de Almeida na Matriz de Senhora Santana.  (Foto: Clerisvaldo / Arquivo)

Repentistas Clerisvaldo e Zé de Almeida na Matriz de Senhora Santana.
(Foto: Clerisvaldo / Arquivo)

Vamos seguindo feira adentro; olhos perscrutadores nas bancas, no quadro, no povo. Não encontramos folhetos, emboladores, violeiros, vendedores de óleos estranhos para todo tipo de doença. Tudo parece mais escasso e pobre. Vão-se as tradições e surge o novo na continuação da vida, em ciclos de novidades cada vez mais curtos.

Não aparece diante das feiras de Senador Rui Palmeira, Olho d’Água das Flores, Santana do Ipanema, Carneiros, Canapi… Um vate popular que imite, ainda de longe, o cego pedinte e repentista do sítio Travessão, Zequinha Quelé, o gênio das feiras interioranas do sertão alagoano. “Perdoe ceguinho”:

“A bacia do perdoe

Eu deixei no Travessão

Sou homem

Não sou menino

Todo ser é assassino

Só meu padre Ciço não.”

Nem mesmo se encontra mais o violeiro nos bares, tomando uma, cantando repente, devorando temas, assim como fazia o poeta Zezinho da Divisão: “Só vai arrochando tudo”:

“Se a sua mulher não presta

Se o filho é um ladrão

Se o pai é um cornão

Que vive coçando a testa

Se na vida nada resta

Nem trabalho nem estudo

Falta dinheiro graúdo

Nesse seu bolso furado

Se dane a comprar fiado

Só vai arrochando tudo.”

A escassez de atrações nas feiras, entretanto, não faz diminuir a importância desse comércio livre de grande valia para produtores rurais e consumidores, além de amenizar os custos dos produtos comestíveis ofertados por famosos atacadões.

Afinal, a tradição também tem seu Dia de Finados.

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