O Sinal e A Cruz (Parte 2)

1 setembro 2014


Serra do Gavião, um colosso de lombo verde, sempre que agosto. A casa de Seu Antonio Tenório ficava no resvalo, do sopé. Ao bem da verdade, a casa, não passava de um ponto insignificante, diante daquele esplendor de cena. Um céu ameaçador, profuso, de nuvens carregadas. Angustiosamente carente de luz. E raramente, talvez, inimagináveis fios de relampejo rasgassem o tudo, que se lhe cobria de cinzento. Cá de baixo, facilmente assustaria qualquer menino. A imaginar ferocíssimo lobo gigante. Cuja cabeça estaria voltada pro poente. A qualquer momento poderia injetar horrendo par de olhos fosforescentes naquela direção. Enquanto de sua boca aberta, viscosa baba a verter dos caninos.

Telhas coloniais de barro vermelho cozido. O pouco de musgo que havia, a dizer que tão velho não seria o casarão. Quatro caídas d’água de alpendres guarnecida. Sapata alta, faltando pouco pra igualar-se em altura, a um homem mediano. A área coberta tinha parapeito de cobongós ornado de trepadeiras, acessível por espaçosos degraus. As paredes entremeadas de janelas e caqueiras ora fixas, ora suspensas. Bancos, cadeiras de vime, de rendinha e cipó entrançado. A dar-se a convite ao descanso, a uma rede de renda do Ceará. Peças do arreio de um cavalo sobejavam nos armadores, e pelos cantos. No terreiro um coqueiral rodeava todo alpendre. O terreiro forrado com imensas folhas maduras, e frutos púrpura de um pé de Castanhola. A raiz, feito jibóia emergira do solo, a não mais ameaçar a fundação da construção. O lado leste da casa era virado pra serra. Ali, era o lugar de pensar, de Seu Antonio. Já ia quase uma semana que o homem, não se arredava de lá. Só saindo dali pra fazer as refeições e recolher-se, quando o gigantesco lobo verde se cobria com um manto negro. Dando a perceber-se somente pelo contraste com o esfumaçamento do céu, pinicado de estrelas se oferecia. Não tirava o olho de lá da serra, o velho Antonio. Como que em transe hipinótica, ou como se de lá subitamente fosse sair a resposta pra sua inquietação: -Quem estaria interessado em matá-lo? De vez em quando abria um pequeno baú de umburana envernizada, com uma trinca dourada. Todo trabalhado, em pedras semi-preciosas. Donde tirava, empunhava. Mirava e atirava a ermo, com um revólver Taurus, calibre38.

Seu Domício convidou Enéas pra trabalhar no balcão, da loja de tecido, na Rua do Comércio. Logo no primeiro dia, foi encarregado de levar uma compra feita por Seu Antonio, que nunca mais aparecera. Depois do que passara o homem mal saía de casa. Evitava expor-se desnecessariamente. Aos domingos ia igreja. Tinha fé em Deus que por mais perverso fosse o assassino, talvez não fosse capaz, de atentar contra um homem dentro do templo santo. A serra, naquela tarde ganhou outro admirador. Agora dois a contemplá-la. Macambúzio Enéas disse, mais consigo mesmo que para o amigo: “-O sinal do apocalipse está aí, pra todo mundo ver. Não adianta a gente querer se enganar. Ainda semana passada, a rua ficou sabendo que o negro Bento, que morava no Sítio Caititu, amanheceu injuriado. Tomou vários litros de cachaça. Deu uma surra na mulher. Estuprou a filha de doze anos. Dum tiro de “soca tempero” matou o cavalo. Tacou fogo num silo de milho. Foi até um pé de jaqueira que tinha detrás de casa, e se enforcou. Tudo que fazia, aos gritos ia repetindo: “-Estou cumprindo minha promessa! Está satisfeito?” Seu Antonio continuava pensativo. Revirava e remoia o passado, tentando encontrar onde tinha deixado um inimigo, capaz de quer vê-lo morto.

E outros e mais outros acontecimentos do povo da vila contou Enéas amigo. Duma briga, que envolvera Chico de Ernesto e Júlia Honorato. Chico era metido a seresteiro. Sempre em alto estado de embriaguez, não parava de cantar. Tinha verdadeira devoção por uma das modas de Francisco Alves e Horácio Campos, “A Voz do Violão” que dizia: “Não queiras meu amor saber da mágoa/que sinto quando a relembrar-te estou/ atestam-te os meus olhos rasos d’água/ no espinho de tão negra solidão/ a dor que a tua ausência me causou/ porém nesse abandono interminável/ eu tenho um companheiro inseparável/ na voz do meu plangente violão.”

O porquê da briga, foi assim, vinha ele cantando no meio da feira. Parou diante de Júlia “Bêba” que além de alcoólatra, era muda e surda. Nada ouvia, porém entendia muito bem os sinais do povo. E percebeu que todos riam. Estavam rindo dela, e era por causa daquele bêbado idiota gesticulando em sua direção. Não deu outra, tacou o maior sopapo nas fuças do ébrio metido a cantor. A briga só terminaria na prisão. Contou duma burra que se assustou com um enxame de abelha que ia passando partiu em disparada derrubou um monte de bancas dos mascates. Cuminho, tempero e colorau, foram parar dentro da saca de farinha. Gás óleo, e creolina derramou-se nos atavios, candeeiros de pavios, cangalhas de capim, chapéus de couro cru e chocalhos tudo perdido.

Não podiam deixar de falar do assassinato do governador João Pessoa à poucos dias ocorrido. A triste notícia Enéas ouviu no rádio de Seu Domício, lá na loja. Jamais esqueceria com que palavras o locutor, da Rádio Cruzeiro S/A: “O senhor presidente da Parahyba que chegou hoje a capital de Pernambuco. Em plena confeitaria Glória, a rua Nova foi assassinado pelo senhor João Duarte Dantas seu desaffecto, e chefe político de Teixeira, Estado da Parahyba. Seu corpo fora embalsamado no Recife e transportado para a capital paraibana de trem. Aguardado por uma multidão, o corpo chegou ao meio-dia do dia 28 de julho. Ficou exposto à visitação pública na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, até o dia 01 de agosto. Dali foi transportado ao Porto de Cabedelo para ser sepultado no Rio de Janeiro.” De repente um estouros como tiros, Seu Antonio instintivamente sacou o revólver. Os estouros vinha de muito longe. Deram-se conta que era meio-dia, eram fogos de artifícios nos céus da vila. Foguetes em louvor da novena de Nossa Senhora Assunção.

Mergulhando no vasto lago do tempo, Seu Antonio foi esbarrar em Águas Belas, a época que ainda rapaz. 30 anos voltados no profundo poço do rei Chronos, rei tempo. Afoito e destemido sempre fora. Perdera a conta das inúmeras brigas e contendas as quais se envolvera junto à peãozada. Pobre que fora no passado, ia pras frentes de serviço de plantio das lavouras de feijão, milho, algodão dos senhores donatários. Nas limpas de lotes de palma, de ricos fazendeiros da região ribeirinha. No corpo ainda guardava cicatrizes, facadas. Também furou bucho dum monte de negro, e tirou sangue de outro tantos arruaceiros. Nos festejos de fim de semana, nos forrós, nas peladas de futebol de várzea. A maioria, brigas banais, motivadas por embriaguez. Lembrou-se de uma, que poderia considerar um caso mais sério. Era o mês de dezembro, na Fazenda São José. Comemorava-se a festa de Nossa Senhora Conceição Aparecida. Havia uma moça, muito bonita que atendia pelo nome de Divina Engracia, trabalhava na cozinha da casa grande do coronel Pedrosa, irmão do capitão Bezerra, um dos que buscava com sua volante, acabar com Lampião e sua raça.

Engracia se engraçou pelo jovem Antonio, que lhe correspondeu o amor. Desse relacionamento, nasceu-lhes um filho. Porem Antonio só viria saber dezesseis anos depois. O rapaz a par dessas informações foi ao encontro do pai, mas não foi aceito, Antonio, então casado, não reconheceu aquela paternidade. A mãe do rapaz teve muito desgosto, portadora de moléstia séria, morreu. 30 anos agora separavam aquele, dos dias da novena. Antonio continuava olhando pra serra. A noite vinha chegando, por um momento a montanha pareceu dotar-se de ameaçador par de olhos de lobo. Pasmados os homens viram Rasgar a cortina negra da noite um terrível uivo.

Fabio Campos

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