O rio Ipanema ainda vive. Viva o rio Ipanema!

24 abr 2018 - 03:00

Rio Ipanema é um dos patrimônios de Santana (Foto: Lucas Malta / Alagoas na Net)

A cidade que hoje chamamos de Santana do Ipanema completa, nesta terça-feira (24) 143 anos de emancipação política.  Porém, antes de batizada com este nome, ela foi chamada de Ribeira do Panema, uma referência ao rio que banha suas terras e, desde tempos remotos, até bem recente, oferecia água fresca das cacimbas e farta pescaria aos seus primeiros habitantes, os índios.

Em 1787 chega o padre Francisco José Correia de Albuquerque. Um missionário natural de Penedo, devoto de Nossa Senhora Sant’Ana, primeiro pároco da cidade, sendo seu pai originário da pernambucana cidade de Bezerros. A partir daí, a localidade passou a se chamar Sant’Ana da Ribeira do Panema.

Em 24 de Abril de 1875, Santana tornou-se vila, desmembrando-se do território de Traipu. Ela ganhou estrutura político-administrativa própria, com poderes para arrecadar tributos, prestar contas ao erário estadual, eleger intendentes – atuais prefeitos – e conselheiros – atuais vereadores. Esta data é base para que se considere Santana emancipada, visto que o Brasil Império mantinha as normas estabelecidas desde os tempos de domínio da Coroa Portuguesa sobre seu território, permitindo esta autonomia às localidades que recebessem a denominação de vila.

Portanto, percebemos que, antes de adotar Senhora Santana como padroeira, a localidade já havia recebido o nome do rio Ipanema, então “Panema”, uma homenagem do povo ribeirinho ao curso d’água que lhe provia das necessidades básicas: a utilização da água para beber, o peixe para comer, o banho para higiene e lazer; além disso, o rio sempre forneceu (ainda fornece) areia para a construção dos seus prédios comerciais e residenciais.

Também às suas margens, foram instaladas olarias, que produziam telhas, tijolos e tantos outros objetos e peças de cerâmica,  aproveitando a argila e a água em abundância, seja esta de forma corrente ou represada em poços naturais.

Com o passar do tempo, o rio foi perdendo sua atratividade e importância relacionada com as atividades econômicas dos habitantes de Santana do Ipanema. Não se vê mais banhistas ao longo do seu leito. Os pescadores são cada vez mais raros, em vista das poucas espécies de pescado que ainda se encontram nas águas do Ipanema. Desde a chegada da água encanada, em 1969, vinda do rio São Francisco, a partir de uma adutora na cidade de Belo Monte, a água do rio Ipanema já não serve para saciar a sede dos seus habitantes.

Aos poucos, começamos a despejar tudo que não presta no rio. Na barragem apenas os restos inaproveitáveis de um “inofensivo” abatedouro de animais. Depois, passaram a descarregar em seu leito os dejetos das fossas sépticas. Até mesmo o antigo hospital usava o rio como depósito de excrementos produzidos naquela unidade de tratamento.

Fomos, gradativamente, perdendo a sensibilidade e o carinho por aquele curso d’água natural que empresta o seu nome à principal cidade do Sertão de Alagoas.

Santana é a única cidade que carrega o nome do rio que nasce em Pesqueira/PE e, em tempos de cheia, percorre 220 km até chegar no povoado Barra do Panema, onde deságua no Velho Chico.

De forma justa, a nossa padroeira Senhora Santana recebe, todos os anos, em julho, nove noites de festejos e glórias ao Pai.

No entanto, o rio que dá seu nome à cidade parece esquecido, pouco valorizado pelos seus moradores e, principalmente, pelas autoridades nos diversos âmbitos das administrações púbicas (municipal, estadual e federal), que teriam obrigação de criar recursos para revitalização do Velho Panema, este que se sacrificou para que um dia o progresso chegasse e o abandonassem.

Porém, apesar dos pesares, o rio Ipanema ainda vive. Viva o rio Ipanema!

Por Sergio Soares de Campos / colaboração

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