O psiquiatra de Caruaru: “Homofobia é veadagem enrustida”

17 Maio 2013 - 20:05


Caruaru

Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

Caruaru é a maior cidade do interior de Pernambuco, conhecida como Capital do Agreste, terra da feira que “faz gosto a gente vê, de tudo que há no mundo, nela tem pra vendê”, conforme cantava Luiz Gonzaga. Mas o que pouca gente sabe é que em Caruaru também tem pelo menos um psiquiatra bageguiano ― adepto dos métodos gauchescos do analista de Bagé, com adaptações aos costumes nordestinos. Ele recebe a clientela trajado de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em vez de divã, tem uma rede rosa-shocking instalada no consultório, na qual os pacientes se deitam, desfiam queixumes e resenham seus pecados.

Outro dia, o filho de respeitado coronel midiático entrou no consultório aparentemente avexado, com as mãos nos bolsos, talvez para dissimular o nervosismo. Mas não passou despercebido pelo tarimbado terapeuta.

― Que foi que aconteceu, cabra? Parece que viu lobisomem!

― Não é nada não, doutor. Já faz muito tempo que eu queria falar com o senhor… Mas tava evitando, porque dizem que só vem aqui quem tá com o miolo mole…

― Nada disso, meu jovem. O que mais atendo aqui é cabeça-dura.

― Apois eu quero me consultar.

― Então, deite aí na rede e desembuche.

― Deitar?! Precisa isso?!

―Sim, que é pra você relaxar e liberar a alma do cabresto.

O rapaz deitou-se, mas manteve as mãos nos bolsos.

― Por que não tira as mãos dos bolsos?

― É que o ar condicionado tá fazendo muito frio…

― Acho que você tá é com medo de desmunhecar na minha frente.

― Hein?!

― Deixa pra lá. Vamos ao que interessa. O que foi que trouxe você aqui? Que bicho te mordeu?

― Num é nada demais não, doutor. É que ando cismado comigo mesmo… ― ficou meio alheado, olhando para o teto.

― Continue.

― De repente, perdi o interesse por quase tudo: parei de andar com os amigos de sempre, larguei a namorada e até deixei de assistir televisão, coisa que eu gostava muito… ― continuou com olhar fixo no teto.

― Bom, parar de andar com amigos e largar a namorada, a gente até que entende, não parece coisa tão grave. Mas deixar de assistir televisão é um tanto esquisito, preocupante. Isso, sim, pode indicar um comportamento anormal. Tem alguma ideia dos motivos que levarem você e se comportar assim?

― Sei não, doutor, sei não… ― pensou um pouco e concluiu: ― Acho que deve ser por causa dessa campanha toda que tão fazendo contra nós…

― Nós, quem?! De que campanha você tá falando?

O jovem mexeu-se inquieto, e a rede balançou suave.

― Dessa que diz que ninguém pode mais nem dar umas porradas num boiola. Toda hora tem alguém na tevê dizendo que a gente tem que parar com o preconceito, com a violência contra os gays, essas coisas. Isso aperreia a gente.

― Peraí! Na verdade, isso quer dizer que você é homofóbico.

― Chame como quiser. Só sei que não gosto de baitola. Tenho raiva de pirobo.

― Nesse caso, você procurou a pessoa certa. Homofobia é doença, precisa ser tratada. Aliás, qualquer fobia é sinal de neurose e pode evoluir para uma psicose.

― Num é nada disso, doutor! Doença mesmo é boiolice. Doente é quem queima a rosca.

― Mas homofobia é veadagem enrustida, cabra!

― Como assim?! O senhor tá me chamando de viado?

― Não, porque acho que você ainda não deu… Entende?

― Nem dei nem pretendo dar.

― Aí é que tá o problema: você reprime o seu impulso homossexual, não tem coragem de se revelar, por isso descarrega nas pessoas assumidas. Inveja dos ânus libérrimos. Sacou?

O terapeuta se levantou, foi até a estante, pegou uma garrafa contendo uma beberagem, encheu uma caneca e se aproximou do paciente.

―Isso aqui é uma garrafada que inventei com ervas da caatinga, uma verdadeira panaceia: amansa corno brabo, mulher arengueira e biriteiro valentão, entre outras serventias. Só não cura político corrupto, que esse aí não tem mais jeito. Acho que vai resolver seu problema. Tome.

O rapaz ficou meio cabreiro, mas pegou a caneca e bebeu devagar. Fechou os olhos, parecendo meditar. Súbito, saltou da rede, agarrou o psiquiatra de Caruaru pelo guarda-peito do gibão, sacudiu o homem violentamente, fazendo o chapéu de couro voar longe, e gritou histérico:

― Agora me bate! Me cospe! Me joga na parede! Me chama de lagartixa!

Empurrou o terapeuta cabra da peste, que se estatelou no chão. Saiu disparado. Na porta, ouviu o psiquiatra lhe perguntar:

― Não vai pagar a consulta?

― Pagar?! Que pagar que nada, eu vou é processar você e pedir indenização por danos morais.

― Como assim? Baseado em quê?

O ex-machão pôs as mãos nos quadris, respirou fundo, sacudiu a cabeça para os lados e respondeu:

― É proibido tratar bichice como doença, e você tratou um homofóbico, que, como você mesmo diz, é um viado enrustido. Agora liberei de vez. Morou?!

Por Fernando Soares Campos

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