O amigo, o favor e a onça

20 abril 2013


Inverno em EnschedeColegas de todas as dívidas

Nas últimas vezes que tenho falado com vocês, disse que tenho estado muito ocupado com muitas coisas para resolver, mas o certo é que minha vida está mais para um mar de tulipas do que um mar de problemas. De fato, nos últimos meses tenho trabalhado bastante, mas também tenho dividido minhas atenções com atividades que demandam tempo, atenção e energia, mas permitem alcançar grandes conquistas que compensam todo o esforço despendido.

Todos sabem que família é um pólo permanente de atenções e, como este simples caeté não é exceção à regra, eis que durante o segundo semestre do ano passado me vi no meio de uma maratona digna da grande olimpíada da vida. Primeiro foi minha filha mais nova, Juliana, que se inscreveu num programa do Governo Federal, “Ciência sem fronteiras”, que objetiva o envio de estudantes brasileiros para realizar cursos em universidades de vários países do mundo. Mesmo louvando a iniciativa do governo, enfrentamos um corre-corre danado para providenciar a documentação e cumprir todas as etapas do programa seletivo, tarefa dificultada pela falta de informações, mas, saber que minha filha foi aceita em três universidades holandesas, fez com que tudo tivesse valido a pena.

Enquanto a filha mais nova lutava por um curso de graduação no exterior, a mais velha, Janaína, por sua vez, estava na reta final do seu curso e, ao mesmo tempo, já batalhava por uma vaga num curso de mestrado. O certo é que nos dois primeiros meses do ano tivemos que realizar várias viagens à capital pernambucana, para garantir o embarque de Juliana no tempo devido, assistir a apresentação da monografia de Janaína e embarcá-la lá pras bandas das Minas Gerais para a realização do seu mestrado. A energia necessária para que tudo desse certo foi realmente grande e foi de fato cansativo, mas o gosto da vitória e a sensação de dever cumprido, só posso descrever como indescritível.

Não sei se isso acontece com vocês, mas todas as vezes que me deparo com situações importantes da minha vida, boas ou ruins, sempre me vem à lembrança acontecimentos passados que, de alguma maneira, tem associação com os fatos presentes. Foi revirando o baú da memória, refletindo sobre tudo que conseguimos e todos os fatores e pessoas que contribuíram para a nossa vitória, que me lembrei de um sábio ensinamento recebido de um velho amigo, João Murdido.

João Murdido vocês se lembram, já contei uma história dele aqui nas minhas Saudações. João é um dos caras mais atrapalhados que conheci na vida, mas é, sem dúvida nenhuma, uma boa pessoa e por isso sempre fiz questão de trazê-lo no rol dos meus amigos, mas como todo relacionamento humano tem sempre altos e baixos, houve um tempo em tive que ter muita paciência para que uma velha amizade não tivesse um fim. Certa feita, eu não sei exatamente porque, João Murdido cismou de me pedir dinheiro emprestado. Talvez ele achasse que eu tivesse dinheiro sobrando e eu, tentando administrar a amizade, procurava, na medida do possível, sempre atendê-lo. Quando o pedido era de quantias pequenas o “empréstimo” era concedido na base do “adeus”, já quando se tratava de quantias um pouco maiores, João me deixava um cheque como garantia e, mais ou menos no dia combinado, comparecia com o dinheiro devido e resgatava a dívida. Não poderia jamais dizer que ele um dia me deu calote, isso nunca, mas o que acontece é que, a simples “troca de um cheque” significava um empréstimo sem juros, num tempo em que a taxa de inflação não tinha nada de insignificante.

As trocas dos cheques repetiram-se algumas vezes e eu confesso que já estava me sentindo incomodado, porque para prestar aquele favor, eu muitas vezes tinha que apertar o meu orçamento, mas, um belo dia, João finalmente se superou. Ele, atrapalhado como sempre, parece que andou chegando tarde em casa e sua mulher, como não poderia deixar de ser, ficou braba que só uma onça. Não me perguntem o que se passou entre eles, eu que tive oportunidade nunca perguntei, quanto mais vocês? O certo é que João Murdido chegou aperreado e queria a todo custo “fazer uma média” com a patroa e, para atingir seu intento, o sujeito já tinha a receita exata, iria presenteá-la com um disco de Roberto Carlos. Se fosse nos tempos de hoje, com as facilidades de emissão de cópias de arquivos digitais não haveria problema algum, o que acontece é que ainda vivíamos a era do disco de vinil e, para que sua mulher pudesse ouvir em casa a voz do “Rei Roberto” a conta iria ficar bem salgada, mas o melhor estava por vir, João não queria um empréstimo e sim que eu pagasse a conta da sua malandragem. O sujeito aprontou uma das dele e ainda trouxe a conta para eu pagar. A surpresa foi tão grande que me desconcertou e eu fiquei sem saber como sair da enrascada. No final, terminamos chegando a um acordo, ele compraria o disco em três ou quatro prestações e eu daria o dinheiro equivalente a cada uma delas no seu respectivo vencimento. Sendo assim, o dispêndio financeiro foi aliviado, mas, em compensação, passei a ter a garantia de uma visita de João pelos próximos meses.

A experiência do disco me deixou cabreiro e eu cheguei a conclusão que teria que dar um fim às investidas desse meu amigo… Ou seria melhor dizer: “amigo da onça”? O tempo passou e um belo dia João Murdido me procurou, puxou uma conversa e eu, atento às suas intenções, ouvia tranquilamente com minha resposta pronta. Em determinado ponto da conversa, veio um novo pedido e desta vez a resposta saiu na ponta-da-língua.

– João, a coisa anda meio apertada, dessa vez não dá.

João tentou insistir, mas, após algumas investidas, compreendeu que eu não arredaria o pé, então percebeu que seria melhor sair diplomaticamente. Agradeceu-me bastante, reconheceu como favores os “empréstimos” obtidos e, malandro como sempre foi, fechou a conversa com uma frase quase que profética.

– Meu amigo, sei que tenho uma dívida com você, mas não estou falando de dinheiro, porque o dinheiro um dia a gente paga, mas um favor não se paga nunca.

Isso aconteceu há muitos anos, João saiu e eu voltei às minhas atividades, mas eu nunca esqueci suas palavras.

Caros colegas, é tão bom contar para todos as boas graças alcançadas, mas, ao mesmo tempo em que sinto um saudável orgulho de pai, não consigo tirar da minha mente o tempo em que minhas meninas, ainda usando fraldas, foram a primeira vez à escola. Lembro-me dos seus professores e professoras e agradeço a todos que dividiram com elas os seus conhecimentos. Não consigo deixar de me lembrar da participação que tiveram seus avós, tios e tias, parentes, amigos mais velhos e até mesmo de amiguinhos da mesma idade que, muitas vezes, mesmo de forma indireta, contribuíram com nossa conquista. Lembro-me que enfrentamos dificuldades, mas não posso deixar de me lembrar das diversas portas, janelas e braços que se abriram para nos apoiar. Lembro que quando Janaína foi aprovada no vestibular da UFPE, contei com o inestimável apoio de minha irmã e cunhado que abriram sua casa para recebê-la, dando-lhe um apoio que à época eu não poderia proporcionar e reconheço que sem eles essa vitória teria que ser, no mínimo, adiada. Hoje, olhando para o passado, reconhecendo que essa vitória não é só minha, percebo o quanto tenho de débito com todos aqueles que contribuíram com essa longa caminhada e, sinceramente, me sinto endividado, porque o apoio que recebi, não conseguirei pagar nunca.

Meus amigos, enquanto minha filha mais velha toma um banho de chuva nas ladeiras de Belo Horizonte e minha filha caçula curte o interminável inverno holandês, despeço-me mais uma vez desejando uma boa semana para todos e esperando que, se porventura algum de vocês um dia venha a contrair uma dívida, que não seja financeira, mas daquelas que possam te deixar o gostoso sentimento da gratidão.

Saúde, sabedoria e paz.

Virgílio Agra

As edições anteriores das Saudações Caetés estão no blog saudacoescaetes.blogspot.com

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