ENTRE A SERPENTE E A ESTRELA (Parte Dois)

23 novembro 2014


O céu escureceu, e como seria bom se fosse apenas ilusão. O mundo vertiginosamente rodopiava. Quem dera fosse redemoinho de vento. Alucinadamente girava de lembranças vendavais. E tudo era dura constatação. Certas coisas deviam nunca acontecer, melhor nunca terem acontecido. Infelizmente nunca se sabe qual vai ser a reação diante do inesperado. O susto, a arma branca, não era aquele o momento. Uma longa história precisava ser revelada. Arriscar a vida em defesa dum grotão ameaçado. Em missão estava. Era praticamente uma obrigação sua. Morrer de golpes de faca. Se tivesse que ser assim morreria. Aquele medo não era da morte, era da faca. Com seu inexorável poder. Diante da fraqueza de José Ivan, o rapaz do departamento Seu Pedro esmoreceu. Tocado de terna dó do moço. Disposto a abrir a guarda, desarmar-se ainda que espiritualmente. A faca na cintura do camponês. Zé Ivan paralisado. A folha de metal exercendo sua ação maléfica sobre sua alma. Entender o porquê era preciso. Tinha certeza, aquilo vinha de longe. De lá trás pra onde agora mesmo ele acabara de ir.

“Há um brilho de faca

Onde o amor vier

E ninguém tem o mapa

Da alma da mulher

Ninguém sai sem o coração sem sangrar

Ao tentar revelar

Um ser maravilhoso

Entre a serpente e a estrela”

Vinte e poucos anos e Zé Ivan parecia ser bem mais jovem. Rosto alvo, espinhas avermelhando-lhe as faces. Cabelos revoltos, dum jeito de que tomava banho, e não via pente. Proeminente dentição incisiva sob lábios finos. Os óculos, de aros arredondados dando-lhe cara dum John Lennon, sertanejo. Calça jeans, tênis de cadarços brancos, desalinhados, descomportados. Bolsa de couro a tiracolo, camiseta com uma estampa maneira, o que o tornava ainda mais esguio. Tinha, a um só tempo, cara de anjo – decaído, mas anjo – e universitário calouro. Não era fácil captar – muito embora houvesse – bem lá no fundo do olhar, uma rebeldia doce, quase ingênua. De um menino que curtiu Kurt Cobain, chorou e chorou quando ele morreu de overdose. Passaria três dias, trancado dentro do quarto, sem querer ver ninguém. As portas do guarda-roupa – pelo lado de dentro, o espelho – cheio de adesivos do Iron Maiden, Sepultura, Nirvana, Charles Brown Jr e Renato Russo. Quando estava de bem com a vida, pegava o violão, num domingo bem cedinho, se afastava da cidade. Ia sozinho curtir a natureza, cantar Sting para os lírios orvalhados dos campos. Tinha saudade das conversas que não teve com seu pai. Quem sabe perguntar como fora pra ele viver duas gerações antes de ser seu pai. Ele que vira nascer o rock’in roll comportado de Elvis Presley. Esbarrado nos anos oitenta, tempos da eletrizante geração Coca-Cola, de Rita Lee e Cazuza.

“Um grande amor do passado

Se transforma em aversão

E os dois lado a lado

Corroem o coração

Não existe saudade mais cortante

Que a de um grande amor ausente

Dura feito diamante

Corta a ilusão da gente”

Zé Ivan morava numa República com mais três amigos, na Rua Nossa Senhora de Fátima, num primeiro andar. Estudava Geografia em Belo Jardim. Nas noites quentes de verão ia pra Pracinha Dom Fernando Medeiros tomar cerveja com os amigos. Foi naquela praça que conhecera Dayane. Não sabiam, mas viveria os dois, um amor intenso. Como uma maçã cortada que encontra a outra metade. “Apple” a marca do seu headphone era também nome da Banda da qual seu pai era fã. Guardara dele, um disco compacto, que tinha na capa metade da fruta cortada. Com caneta a nankim alguém havia escrito na capa: “Were a British psychedelic rock band. The band was founded in Cardiff in 1968 by Rob Ingram on Guitar and Jaff Harradon bass. They released single LP in 1969, titled “An Apple a Day” E vinham as lembranças, com nitidez de por gosto de sangue na boca. De sua infância, da casa onde morava, próximo a Praça do Pirulito, em Maceió. Com impressionante nitidez a ouvir o barulho do trem. A abalar os alicerces, a tremerem as panelas, no tripé lá na cozinha. O barulho enorme, de dar a sensação que tudo ia desabar. Essa rotina repetida mais de quatro vezes por dia. E o braço da radiola que sequer terminava uma faixa do Long Play que seu pai colocava pra tocar retornava pro início e começava tudo de novo. Ainda menino deitado na cama, Zé Ivan cansou de imaginar o trem, como um gigantesco imbuá de ferro, doidamente derrubando as casas e que a invadir seu quarto. Tantas foram as vezes que adormecera e sonhara esse sonho. A noite caída, uma vermelhidão vinda do tabuleiro, se misturava com o negro do firmamento, trazia o cheiro de tiborna. E a fuligem da palha de cana-de-açúcar queimada enchia os móveis, os quadros da parede duma camada fina e preta. De agosto a dezembro, na entre safra, era sempre assim crianças adoeciam com frequência de constipações e o ambulatório do Sanatório, ficava abarrotado de criança e idosos com problemas respiratórios. Zé Ivan era levado por sua mãe primeiramente no Posto de Saúde ali do bairro, próximo a sua casa. Um médico com cara de alemão nazista. Como que saído daquelas velhas revista Seleções, ou da revista o Cruzeiro, duma matéria do jornalista de guerra Davi Nasser que cobria os conflitos no golfo pérsico, no Vietnã, e estivera na Itália na segunda guerra mundial. Talvez dali se tivesse materializado. Saído duma página de jornal, guardado por seu pai lá no sótão. O médico bastante irritado punha a culpa nos pais pelas doenças dos filhos. E esbravejava, dizia imprecações contra o governo, o descaso com a saúde pública. Num daqueles domingos em que levava a família à praia. Lembrou-se de sua mãe preparando sanduíches e bolinhos de arroz pra levar. Iam à praia de Pajuçara, e tiravam fotos com uma geringonça chamada de Polaroid que produzia fotografias instantâneas. A roupinha de marinheiro, o calção listrado, o maiô comportado os sorrisos de gente feliz. Uma delas flagrou o velho Gogó da Ema, o famoso coqueiro com esse formato.

“Toco a vida pra frente

Fingindo não sofrer

Mas o peito dormente

Espera um bem querer

E sei que não será surpresa

Se o futuro me trouxer

O passado de volta

Num semblante de mulher

Olegário Martins o pai de Zé Ivan, fora funcionário do DNER nos anos sessenta. Um belo dia acabaria transferido pro sertão. Recrutado pra fazer parte da equipe que iria construir a ponte General Tubino, em Santana do Ipanema, obra sobre o rio intermitente do sertão. A redenção para melhorar o fluxo de acesso a Bacia Leiteira de Batalha e Major Isidoro. Aos sábados Seu Olegário levava o menino pro Mercado da Produção. Ia comprar verdura e carne. Um dia, vinham os dois voltando pra casa. Como sempre passavam na feira do passarinho, na banca de revista comprava o jornal. Na tabacaria cigarrilhas. Pro menino, churros um caminhão de madeira branquinha pintado com corante azul e vermelho. Ao embrenharem-se por aqueles corredores escuros e mal-cheirosos um negro mal encarado vindo ao encontro deles empurrou Seu Olegário pra um canto, e anunciou o assalto. Como um raio uma faca peixeira brilhou em sua mão. Seu pai sequer demonstrou qualquer reação, porém recebeu: uma, duas, três vezes… a lâmina cravou-se em seu abdômen. Rapidamente o ladrão rebuscou-lhe os bolsos, e saiu correndo. O menino, estático, em choque. Vendo o pai cair lentamente ao chão, logo uma poça de sangue contornando-lhe o corpo. Cada vez mais aumentando de tamanho. E o mundo rodopiou. E o céu ficou vermelho. Pra onde foi a luz? O céu escureceu. Por que estava acontecendo aquilo? Seria bom se fosse apenas ilusão. O mundo vertiginosamente rodopiando. Quem dera fosse redemoinho de vendavais que dava, no caminho de volta da escola. Alucinadamente o céu não parava de girar. E a realidade era uma dura constatação. Certas coisas deviam nunca acontecer. Deus. Melhor nunca terem acontecido.

Fabio Campos

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