DONDE VAIS ESCREVEDEIRA DE GARGANTA PRETA?

23 junho 2014


João Baptista, e André Soares constituíam-se amigos. João Baptista morava na Quinta da Vinha. Província de Vieira do Minho, proximidades da cidade de Braga, norte de Portugal. O outro, era brasileiro, nascera no nordeste brasileiro, porem desde muito jovem morava no Rio de Janeiro. O que os unira, o fato de serem ambos naturalistas. Em plena selva amazônica, num congresso sobre fauna e flora tropical, conheceram-se.

Milhares de quilômetros de céu marinho, debaixo de águas oceânicas separavam-nos. Um pequeno obstáculo geográfico, talvez fosse só um detalhe. Não se constituindo jamais empecilho pro amigos. Mantinham portanto constante correspondência. E a cada dia, lá ia o funcionário do correio, vermelho e verde na farda, uma estrada, uma casa de pedras. O frio madrugador se dissipando sob o sol. E os galináceos em sua variada linhagem jamais indiferentes os intempérie da friagem, cumpriam sua missão de acordar o dia. De ciscar o terreiro de além açores, de alçarem vôos até pelo menos dois infinitos. Em todo seu esplendor de luz e calor, de dar vida ao mediterrâneo. Enquanto ia o sol predestinado, espreguiçando-se sobre a Europa. De tanto se esticar em luminosidade, acabava vindo esbarrar na América. Só quem via e sentia, sabia o quão era bom, ter a posse de tudo aquilo. De acordar todos os dias, e ter diante de sua existência, montanhas deslumbrantes, recoberta pela plumagem da floresta arbustiva. E o céu de Deus vinha vindo, e descia sobre o céu dos homens, num constante indo e vindo. O rio Ave, a ponte. A ponto de não mais distinguir-se o que era cenário, ou se cenáculo. Enquanto bovinos lá longe, biscuits estáticos, a gramearem grama verdinha, verdejante somente muito longe. E aquele, tinha o propósito de vir ao Brasil num monomotor, do tempo da segunda guerra mundial.

“E o Senhor me perguntou: “O que você está vendo, Amós?” “Um prumo”, respondi. Então disse o Senhor: “Veja! Estou pondo um prumo no meio de Israel, o meu povo; não vou poupá-lo mais. Amós 7-8”

João Baptista, do vale do Cávado, de origem camponesa. Estudou na Universidade Católica Portuguesa na “cidade da juventude”. O Centro de Cooperação Cultural possuía diversos albergues, o que tinha de velha, vibrava na população universitária tão jovem. Assim era Braga. E no mês de maio tinha a tradicional festa do “Enterro da Gata” por três dias os jovens vivenciavam competições de rua, ralis nas cercanias da cidade, corridas de bicicletas, nas estradas rupestres, pelas ruas, o ponto máximo era a escolha da rainha da festa, a premiação dos competidores campeões. Desde o tempo de ensino médio interessou-se pelo trabalho de Lineu e Darwin, formou-se biólogo. Pretendia um dia fazer o caminho do Beagle, só que uma viagem aérea. Do Brasil iria a Patagônia, a ilha de Fernando de Noronha e Gálapos. Amava o campo e o cultivo agrícola a criação pastoril. Seus avós e pais contavam histórias de como haviam chegado à região, de serem ancestrais provenientes do povo Celta, duma linhagem chamada “Castros” que travaram lutas contra os “Bácaros” do qual originaria o nome da cidade. Num tempo ainda mais antigo que estavam vivendo,quando da fundação do vilarejo, os romanos teriam invadido a província e forçado a população a descer o vale. A sua descendência vinha dali. Daqueles que foram expulsos pros campos.

“Acaso correm os cavalos sobre rochedos? Poderá alguém ará-los com bois? Mas vocês transformaram o direito em veneno, e o fruto da justiça em amargura. Amós 6-12”

Bom mesmo era quando chegava o mês de junho, quando o povo comemorava na frente das igrejas Santa Sé de São Pedro, em Bom Jesus, Sameiro e falperra, santa Maria Madalena e santa Marta das Cortiças, reunidos se confraternizavam. Não havia entre eles a tradição das fogueiras. Armavam-se imensas mesas com muita comida e bebida, vinhos produzidos nas redondezas, todos tinha adegas em casa e pães enormes. Queijos de fabrico artesanal, e vinho muito vinho. Jovens casais executavam a “Dança do Rei Davi”, embora sendo bem mais modesta, lembrava as danças na corte imperial do século iluminista. As lavradeiras faziam em casa velas de parafinas e cera. Ficariam conhecidas como velas votivas de Braga, as camponesas levavam pra missa para serem consagradas, após a celebração eucarística, benzidas. De tanto viver este ritual, virou tradição, os turistas tomando posse da lenda, passariam a comprar pra levarem de lembrança. Maria Ondina de Braga tinha devoção com a alma da irmã Maria Estrela Divina, que dera sua vida na guerra dos mouros e visigodos na tomada da cidade, seu corpo martirizado, fora sepultado na Santa Sé. Quando chegava o mês de junho era costume depositar uma coroa de flores, amarrar diversas fitas coloridas no gradil da igreja e acender pelo menos três velas, para venerar o antepassado. Em junho era verão, e as aves estavam na fase de reprodução, em abril e maio do acasalamento e logo se davam as ninhadas, como nasciam. Escrevedeira de garganta preta multiplicavam de sons e cores os céus lusitanos, as árvores, o outono, as eiras e beiras, as entrâncias e reentrâncias das chaminés das casas da vila de Braga de Portugal.

“Quando acabará a lua nova para que vendamos o cereal? E quando terminará o sábado para que comercializemos o trigo, diminuindo a medida, aumentando o preço(29), enganando com balanças desonestas e comprando o pobre com prata e o necessitado com um par de sandálias vendendo até palha com o trigo?. Amós 8-5,6”

No lado de baixo do equador era verão. O carteiro trajado num camisão cáqui cheio de bolsos, na cabeça um boné bufante, e calças dotadas de suspensórios. Com sua imensa sacola a tiracolo, percorria a Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristovão. Buscaria a residência de André Soares. Arvoredos e muito verde entremeados de imponentes construções do período imperial enchia de graça seu espírito. A paz e o encanto proporcionado remetiam ao tempo que a família imperial portuguesa habitou ali. A bela casa da marquesa de Santos, de linhas neoclássicas, a casa do Barão Drummond que depois de uma viagem a França, inspirou-se a construir o Jardim Zoológico. Para arrecadar fundos criou a loteria dos bichos, todos os dias, um animal de médio porte era colocado numa jaula coberta com um pano. Os visitantes mediante o pagamento de uma pequena taxa de entrada no jardim apostavam que bicho estaria dentro da gaiola misteriosa. No fim do dia revelava-se e os acertadores recebiam um espólio do rateio. Estava criado o “jogo do bicho”.

“Respondeu a Amazias: Eu não sou profeta nem pertenço a nenhum grupo de profetas(26), apenas cuido do gado e faço colheita de figos silvestres. Amós 7-14.”

André Soares acordou por volta das sete horas, seguia pela alameda das sapucaias, respirando ares da nobreza. Imaginava que a qualquer momento fosse encontrar o imperador Pedro segundo, a brincar. Sorriu ao imaginar um menino de longa barba, a correr pelo parque. A poucos metros do Paço Imperial. Ali nascera a princesa Isabel. Eternizada no nome da vila. Admirava o magnífico projeto do arquiteto francês Glaziou. As aves perpetuadas, trazidas do antigo Campo de Santana, atual Praça da República, palco da proclamação. De repente viu um pequeno pássaro nu alto de um oitizeiro, percebeu nele as características duma escrevedira de garganta preta, ora mas aquela espécie só existia lá no Trás-Montes, terra do amigo João. Sim! Sem dúvida era a ave!

Serelepe buscou um fotógrafo lambe-lambe, tinha que captar aquela imagem. Enquanto isso um teco-teco monomotor sobrevoava a enseada de Botafogo, e o Cristo Redentor, até então taciturno, fez menção de sorrir.

Fabio Campos

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