DÁ-ME DE BEBER!

3 abril 2014


Igreja matriz de Senhora Santana. Dali a alguns dias viveria a páscoa. Um pequeno andaime no interior indicava algum tipo de reforma. Diversas latas de tintas, esmaltes, pincéis num copo. Um pintor sentado sobre um tablado. De costas para a nave, concentrado no seu trabalho, pintava. Um céu intenso de luz, de um sol cádmio. Palmeiras, damascos, pinheirais diziam até onde iam os horizontes. Um lajedo compunha o relevo. Ciprestes afloravam do chão, somente aonde permitiam as pedras do solo. Os olhos do observador requisitados pelas duas figuras humana da cena, Jesus ao lado de uma mulher. Semblante sereno, sentado numa pedra. O filho de Deus tinha a face voltada para a madona, que se encontrava sentada no chão, apoiada numa cânfora. O epicentro da paisagem, um poço que havia ali.

Voltando no tempo, pelo menos umas duas décadas. Recordei que antes havia uma pia batismal naquele lugar. A paisagem, de antes, naquela parede representava o batismo de Jesus. João Batista, as margens do Jordão, de pé, muito sério, com cara de dissidente político, cabelo grande, barba cerrada, escura, trajado em peles de animais. Uma das mãos segurava um cajado, e com a outra despejava a água contida numa concha, sobre a cabeça de Jesus. Cabelos e barba castanha, envolto num manto, cor púrpura, a cabeça quase abaixada, os olhos serrados. Enquanto isso lá no céu azul claro, ornado de nuvens estufadas, uma pomba pairada no ar. De suas asas, o espírito santo descia sob a forma de luz. Aquela imagem, retida na mente desde a infância. Jamais esqueceria.

Jerusalém era aqui. Em Santana do Ipanema, tudo se parecia com a terra santa. Nas suas ruas estreitas, no sobe e desce dos becos escuros. Na tendas dos mercadores. Nos trajes coloridos, no sol, no clima semi-árido. Na escassez de chuva, na vegetação rústica, adaptada a esta temperatura. Nos chamados dias grandes, os sertanejos seguiam em romaria, pelos sertões. Em penitência por expiação dos pecados, peregrinavam a lugares altos, aonde houvesse um cruzeiro, iam rezando a ladainha, o santo ofício, a via sacra. A cada estação, as súplicas por misericórdia. Pedidos de perdão a Deus pelas atrocidades da humanidade inteira. Deles que carregam ex-votos, e deixavam-nos na primeira capela que encontrassem. Haveria quem carregasse por todo o percurso uma pesada pedra na cabeça, isso porque um dia uma graça teria sido alcançada, ou um pedido havia sido feito e esperava-se o benefício divino. Mães que vestiam seus filhos pequenos com trajes de frade franciscano. Imagens do padre Cícero Romão Batista, e do Frei Damião de Bozzano conduzidas sob sobrinhas coloridas. Um homem que padecera de um mal por muito tempo, uma vez curado, cumpria sua promessa, uma cruz de tamanho e peso da de Cristo carregaria até o Juazeiro do Cariri. Cheia de fitinhas coloridas presas ao madeiro, por aqueles que almejavam alcançar graças, por aonde o cortejo ia passando.

Verão bravo e ia o vento assobiando na caatinga, imitando o canto da fogo-apagô. Lá no alto o Cruzeiro, remetendo-nos ao Gólgota, lugar da caveira, ali ocorreria à encenação do calvário. Os vendilhões na porta da igreja e do mercado comercializavam os produtos mais procurados na época da quaresma. As iguarias para o feitio da ceia de páscoa, expostos no leito da rua. Coco seco pro preparo do peixe. Os compradores experientes com uma moeda batiam na casca dura, no tilintar do metal, descobriam se o produto estaria saudável. Rosários de coco ouriciri, umbu pra fazer a umbuzada. O olfato ofendido, e a presença de muitos cachorros vira-latas acusavam a proximidade das barracas de peixes. A balbúrdia, a barganha, os ânimos exaltados. O facão, a peixeira toque-toque aparando barbatanas extirpando vísceras. Pilhas de jacas e de melancias, frutas fartas de polpa pra depois do almoço da semana santa. O homem do campo sabedor da necessidade do jejum se abastecia de frutos e iguarias típicos da quaresma. Quem não observasse os preceitos religiosos, amplamente arraigados, eram taxados de Judas. Nos chamados dias grandes, vivenciam-se os preceitos do Livro de Levítico. A mulher deveria evitar as relações sexuais, antes, durante, e depois da menstruação. O homem que deitasse com meretriz, ou que houvesse contraído gonorréia seria considerado impuro, e jamais deveria aproximar-se do altar, até que estivesse limpo. As crianças de até um ano deveriam ser levadas pra serem circuncidadas. As meninas em idade púbere, mantidas dentro de casa. Não podiam banhar os cabelos, nem aparar os pêlos. Ou ainda usar cosméticos, nos lábios e unhas, nem ornar a cabeça com diademas, nem usar colares e brincos nas orelhas. Afazeres domésticos só depois do por do sol, a portas fechadas. A poeira do piso deveria ser varrida para detrás da porta, nunca jogada fora. Os animais não exerceriam serviço algum no campo. O leite ordenhado da vacaria deveria ser distribuído entre os pobres da vizinhança. O cavalo, considerado um animal impuro, podia ser usado como transporte, apenas em caso de necessidade.

“Por volta de 1000 a.C. os israelitas viviam nas terras altas situadas a oeste do rio Jordão. Onde atualmente fica o território da Jordânia. Segundo os Livros Sagrados os israelitas dividiam-se em doze tribos, que viviam em constante rivalidade umas com as outras. Estas tribos teriam sido unificadas pelo rei Saul, que foi sucedido pelo rei Davi, que por sua vez foi sucedido pelo seu filho Salomão. Depois da morte de Salomão, dez tribos do norte se separaram e formaram o reino de Israel, também conhecido como reino da Samaria. A principal festa dos samaritanos é a páscoa, como manda a tradição, o sacrifício do cordeiro, seguindo as normas consignadas no capítulo 12 do Livro do Êxodo, são seguidores até hoje, do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia.”

Santana do Ipanema, assim como a Samaria nasceu de doze tribos, que se desenvolveram a partir de três necessidades básicas: os mananciais de água, o cultivo da terra e a atividade pastoril. Seis delas: Pão de Açúcar, Olho d’Água das Flores, Poço das Trincheiras, Riacho Grande, Dois Riachos e Santana do Ipanema, se iniciariam às margens de cursos d’água. São José da Tapera, Olivença e Ouro Branco, a partir do cultivo de feijão, milho e algodão. Carneiros, Maravilha e Palestina, da criação de gado bovino, muares e caprinos. Apesar de unificadas, acabariam um dia tendo que se separar. Dentre as 12, Três dessas tribos, possuem evidências de serem herança da tribo de Judá(a.C.): A cidade surgida as margens do rio Ipanema, sobre a égide de Senhora Santa Ana, avó de Jesus Cristo, a cidade de Tapera, seria do pai terreno do Filho de Deus, São José. E Dois Riachos, ainda hoje sob o auspício da sua Santíssima Mãe, Nossa Senhora da Saúde. A presença de Jesus, por estas paragens, estaria evidenciada nesta narrativa.

“Assim, chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José. Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isto se deu por volta do meio-dia. Nisso veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: “Dê-me um pouco de água”. (Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.) A mulher samaritana lhe perguntou: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?” (Pois os judeus não se dão bem com os samaritanos.) Jesus lhe respondeu: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem está pedindo água, você lhe teria pedido e dele receberia água viva”. Disse a mulher: “O senhor não tem com que tirar água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva? Acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado?” Jesus respondeu: “Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. A mulher lhe disse: “Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água”. Jo 4, 5-15.”

Fabio Campos

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