CAUPOLICAN – 1974

16 março 2014


O menino estava dormindo, abriu os olhos. Nove letras pretas, do tipo bastão, sob um fundo branco. A palavra na lombada do livro: Geografia. Já conhecidas dele, outra vez apresentava-se pra sua retina. Deu-se conta que estava na sala de aula. Permaneceu com a cabeça apoiada na carteira. Um fio de baba escorrera molhando-lhe a bochecha. A professora continuava a aula. O ventilador de teto, preguiçosamente girava a hélice. Duas moscas sobre as cabeças esvoaçavam traçando parábolas no ar. Verão de 1972.

Apoiou a cabeça pondo o queixo por cima das mãos sobrepostas. No alto da parede, próximo a campainha, o quadro com o retrato do general Emílio Garrastazu Médici. A faixa presidencial, o brasão da república sobre o peito. E tudo ficou preto e branco. Terno preto, rosto branco. Moldura negra, fundo branco. Lousa negra, gizes brancos. Birô negro, relógio de parede branco. Blusa da farda e meias brancas. Sapatos e bolsa escolar pretos. O cabelo, todos da sala tinham-nos bem penteados. Untados e cortados ao estilo militar. Por que o chefe da nação brasileira se mostrava tão sério? Seu olhar inquiridor, como se perguntasse: o que mais vocês querem que de mim? Já criei o PIS, o BNH. Estamos construindo a hidrelétrica de Itaipu. Em breve entregarei a ponte Rio-Niterói. Já está em andamento os serviços de construção da rodovia Transamazônica que ligará Santarém a Cuiabá. Pra acabar com o analfabetismo criei o MOBRAL. Os universitários terão oportunidade de explorar o país através do Projeto Rondon.

Ah! Já sei o motivo da insatisfação, talvez seja porque coibi veementemente as manifestações nas universidades. Dissidentes políticos e guerrilhas, reprimidas com mão de ferro. Não me diga que é o Ato Institucional número 05, o motivo da insatisfação? Aceito qualquer crítica, podem dizer que sou radical, em não reconhecer a UNE, e o MST. Porém não me compare a governos extremamente ditadores, como o de meu colega Fidel, ou de meu amigo Pinochet. Muito menos com o que faz Anástasio Somoza na Nicarágua. Quero que saibam duma coisa, todo povo tem o governo que merece. Denúncia de torturas, morte e desaparecimento de presos políticos atribuídos ao nosso governo. Sobre isso, o que tenho a dizer: que, muito do que andam dizendo não é verdade. Assim como Pilatos dou-me o direito de perguntar: mas o que é a verdade?

Monocromática sala de aula. Sentados dois a dois permaneciam os meninos. O silêncio quebrado unicamente pela voz suavemente melodiosa da professora. Ah! Dona Vanda, tão bonita! Como se fora uma fada com sua varinha de condão, o cabelo num rabo de cavalo gracioso, balançava pra um lado e pro outro, toda vez que ela gesticulava, ou apontava a anotação na lousa. Espádua alvíssima, ornada por belo colar de contas brilhantes. Mesmo que não quisesse, confiscava os olhos dos infantes. Ó quão cheiroso colo, de inebriar pobres coraçõezinhos, toda vez que se debruçava para verificar as lições nos cadernos. Vestida num gracioso tubinho que lhe desenhava as curvas. Cruelmente acabava a alguns centímetros a cima dos joelhos. O costureiro, músculo da coxa, sempre requisitado. Flexionava-se retesando o direito, ao tempo que relaxava o esquerdo. Aquela boca, aqueles lábios, aqueles dentes. De repente só havia aquela boca. Os incisivos alvos, cintilantes, como tabletes de chicletes prontos para serem degustados. Indo preencher pupilas intumescidas. Cílios molhados como de alguém que acabara de chorar. A língua sorrateira deslizando por entre duas palavras, indo tocar o lábio superior, tornando discretamente umedecidos… Ai que boca! Que boca professora! Os lábios de baton vermelho carmim. E falava e falava, sobre astros, estrelas, satélites, os nove planetas que compunham o sistema solar. E do céu daquela boca, luas alvíssimas. Lindas e nuas. E o sol? Por que a professora tinha que trazer uma estrela de quinta grandeza pra sala de aula? Ofuscou, esbaforiu, com seu calor sufocante fazendo transpirar por todos os poros. E veio a sede, e a vontade de urinar, tudo ao mesmo tempo. Um jato de adrenalina irrigando entranhas, estonteante doçura. Sonolência.

Dona Vanda continuava e sua aula espacial foi atingida por um asteróide. Caupolican – 1974 teria sido descoberto em 1968, pelo astrônomo Carlos Torres. Achou por bem passar a falar de História: Quem teria sido Caupolican? Perguntou em voz alta. Abrindo um livro amarelado. respondeu ela mesma: “- Caupolican foi um líder indígena chileno, que lutou contra as invasões espanholas, de depois do descobrimento. Após grandes feitos foi preso. Em 1558, foi executado em praça pública por empolamento. Um tipo de morte cruenta onde o condenado era obrigado a sentar-se numa estaca. E sofrer hemorragia pelo reto até morrer.”

Através da janela o menino olhou pra lá fora, um mundo pavorosamente ameaçador se havia. Um céu grotesco. Donde um sol quase apagado, tingia as nuvens de Lilás. E aviões de guerra sobrevoavam, bombardeando as casas. Soldados corriam para se abrigar em trincheiras e barricadas. Não entendia porque a professora, diante de uma situação tão caótica ocorrendo lá fora, permanecia passivamente ministrando sua aula. Como se nada, absolutamente nada estivesse ocorrendo. Isso talvez porque, de lá fora, nada se ouvia. Nenhum som vinha de lá fora, apenas imagens. O que estaria acontecendo?

De repente Aldo, o menino, se deu conta que a professora não mais estava lá. Distraído, em olhar lá pra fora, nem percebeu que toda a turma evadira. Não havia mais professora, nem seus colegas, só ele. Apreensivamente só. Enquanto lá fora, a guerra. Não podia continuar ali, precisava saber pra onde todos tinham ido. E tinha só nove anos. O que um menino como ele poderia fazer em meio a uma guerra. Ao sair pro pátio, encontrou alguns dos seus colegas. Indiferentes a hecatombe ocorrendo logo ali brincavam, de bola de gude, pega-pega, nos balanços. Nem um pouco preocupados, com as bombas, e mísseis que caiam. E provocavam imensa destruição, pavor e morte. Só a alguns metros dali. Os meninos sorriam. E se movimentavam com em câmara lenta. Tudo parecia muito real, exceto por um motivo, não havia som, estrondo das bombas, nada. Só a imagem, desesperadamente lenta.

Outra vez, Aldo Felix acordou. Estava noutra sala de aula, havia penumbra, um data-show, exibia um vídeo. Em questão de segundos, quatro décadas haviam ficado para trás. Instintivamente tocou-se. Temeu se encontrar no corpo de um menino de nove anos, indefeso, assustado diante duma guerra. Professor Aldo, talvez vivesse realmente aquele conflito internamente, lá no fundo no mais íntimo do seu ser. Permanecia tomado de tão forte emoção, de tão presentes recordações. O vídeo que passava pra seus alunos, referia-se ao discurso de uma chefa de estado, cujo partido teria sofrido repressão no período ditatorial do regime militar. Uma presidenta, em cujo país em breve ia ocorrer uma Copa do Mundo. Dizia: “-O que querem que eu faça? Por favor! Não aceito, que venham comparar nosso governo, ao do meu amigo lá da ilha de Cuba.” Sonhos, todos eles devem ter um significado. Por Deus, também este haveria de ter.

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