11 out

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Saquear caminhão de água… o que mais falta pra chamar sua atenção doutor?

Rapaz, o negócio tá feio pra bandas do sertão alagoano; se é que pode ficar pior. A longa estiagem, associada às constantes danificações das bombas que abastecem as cidades sertanejas, pela Companhia de Abastecimento e Saneamento de Água de Alagoas (Casal), durantes alguns dias levaram moradores de uma comunidade de Santana do Ipanema a uma atitude de extremo desespero.

Munidos de baldes e bacias, homens e mulheres, adultos e adolescentes cercaram um caminhão pipa, que levava água para uma escola da comunidade, que já sofria a falta de água a cerca de três dias, e exigiram que o motorista parasse o veículo e liberasse o “precioso líquido”

Sem outra alternativa, o condutor do caminhão foi obrigado a liberar a água, que em questão se minutos já não tinha um pingo sequer no tanque do veículo.

O chefe da Defesa Civil de Santana do Ipanema, Edmilson Idelbrando “Tuca Maia”, chegou a ir ao local, a fim de acalmar a população, mas quando chegou o veículo já estava vazio.

“Nunca tinha visto tanta gente junta, com baldes e panelas; parecia um formigueiro; de longe quase não se via o carro”, disse Tuca Maia, que ainda afirmou que não tem sido fácil lidar com o problema da falta de água no município; tanto na zona urbana quanto rural.

A estória se transforma em verdade

Esse fato me fez recordar um causo em que os antepassado contam em forma de piada. A realidade é que foi bem parecido com esse episódio ocorrido esta semana.

Conforme a estória (agora tenho minhas dúvidas se realmente não aconteceu) quando começou a chegar os primeiros carros pras bandas da caatinga, uns até corriam com medo sem saber que tipo de “bicho” era aquele. Com o costume perdeu-se o medo e se ficou sabendo como funcionava a tal engrenagem.

Certa feita, um fazendeiro se deslocava da cidade para sua fazenda, em seu Jippe, quando foi surpreendido por alguns sertanejos municiados e foices e facões, que o ordenavam que descesse daquela “coisa”.

Assustado, o proprietário disse que não fizessem nada com ele; que poderiam levar o carro, mas que o deixassem vivo.

– Doutor – disse o líder dos esqueléticos sertanejos – não queremos fazer mal ao senhor, é que soubemos que isso ai carrega algo que estamos a necessitando urgentemente”.

– Pois fiquem à vontade, afirmou o fazendeiro.

Conforme conta a história, os sertanejos abriram o caput o carro e foram direto no radiador, de onde retiram toda a água e saíram em disparada.

Pelo sim pelo não, o sertanejo há anos sobre com a promessa de acabarem com a seca; quando sabemos que os governantes já poderiam, sem muitas delongas, ser verdadeiros e trabalhar na intenção de conviver com ela.

Cisternas, poços artesianos, irrigação e preservação da caatinga já para o sertanejo.

Blog do Sérgio Campos

06 out

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Combater a violência: qual a solução?

Guerras

1ª imagem – Guerra entre gregos e persas – 2ª imagem – Mortes por luta no campo – 3ª imagem – Protesto por assassinatos em Alagoas (Foto montagem Blog do Sérgio Campos)

Desde os primórdios da humanidade que se tem notícia de que há uma incessante tentativa de domínio de uma classe sobre a outra.

No Brasil, por exemplo, os primeiros colonizadores já chegaram impondo a mais antiga forma de violência: a escravidão. Primeiro com os índios e em seguida com os negros, dessa forma se constitui a sociedade brasileira.

A soma do trabalho escavo e a colonização mercantilista resultou no surgimento do coronelismo e das oligarquias, com seus grandes latifúndios e concentrações de renda.

Em relação ao Nordeste, a violência esteve marcada com maior evidência no campo, onde famílias tradicionais disputavam uma hegemonia territorial e política. Com isso criavam suas milícias, os conhecidos capangas; e o pequeno produtor, no fogo cruzado, não tinha muita escolha na disputa; ou se aliava a uma das oligarquias, ou fugia ou entrava na espingarda.

Os tempos mudaram; se modernizaram; a população anteriormente forte migrou para a zona urbana de forma rápida, onde ocorreu o chamado êxodo rural. Quem veio em busca de soluções só encontrou mais problemas, entre eles as mais diversas formas de violência.

Ao invés de crescerem; desenvolverem, as cidades incharam e as favelas são uma realidade em todo o Brasil, onde o que não falta são problemas.

Ao longo dos mais de quinhentos anos de existência, os governos oligárquicos brasileiros, com o aval das grandes potências internacionais, foram incapazes de mudar o quadro de miséria -por maldade ou incompetência – que por si só já é uma forma brutal de violência.

Diante deste quadro caótico em que nos meteram, resta-nos perguntar: “decidiremos nos unir em busca de soluções, das quais já tivemos promessas de reis, marechais e salvadores da pátria, ou vamos continuar numa acomodada inércia e achando que um dia, como num passe de mágica, vamos dormir e acordar no paraíso?”

Por fim, a pergunta principal do momento: “combater a violência, qual a solução?”

Para alguns a resposta está na ponta da língua: “mata esse infeliz, porque bandido bom é bandido morto”.

Como costumo dizer por aqui: “desde que me entendo de gente que se mata “bandido” e a cada dia só tenho visto aumentar o número de pessoas que são assassinadas em decorrência da violência. Isso se referindo apenas a violência relacionada ao banditismo, onde a droga está cada vez mais presente”.

Mas, se formos relacionar esses crimes as violências domésticas, sexuais, de fome, de desemprego, de alcoolismo, preconceito ou de corrupção, com certeza entraremos num labirinto onde acabaremos nos enrolando cada vez mais.

Nesta cidade em que nasci e vivo: Santana do Ipanema, no Sertão alagoano, onde convivemos pouco mais de 45 mil habitantes, há alguns anos atrás não se imaginava que se matasse tanto por aqui, e que o crime se tornasse tão banal.

Não é necessário ter números exatos para saber que o índice de violência em nosso município é altíssimo.

Em contrapartida os índices sociais são baixíssimos. Temos um déficit habitacional muito alto; muitas pessoas vivem na linha da miséria; temos pouquíssimas creches; nenhuma escola de tempo integral; zero de políticas públicas para esportes e cultura, além do alto índice de desemprego.

Vemos entrar e sair governante e nenhuma atitude ser tomada de forma impactante, a fim de que a violência diminua no município como um todo.

Já passou da hora de se unir, sociedade civil organizada, associações comunitárias, religiões, clubes de serviços, estudantes e poderes constituídos: Executivo, Legislativo e Judiciário, num pacto de combate à violência, a curto e longo prazo.

Todos somos responsáveis. Resta saber se teremos coragem de assumir a responsabilidade sobre o problema, onde cada um renuncie a algo ou se doe, em prol de nós mesmos; ou estaremos fadados a se perpetuar em constantes reclamações, onde será sempre mais simples apontar o dedo para o outro.

 Blog do Sérgio Campos

04 out

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Em Alagoas, ratos causam devastação e grilos pagam a conta

Foto: Divulgação

Vários meios de comunicação de Alagoas destacaram durante esta semana a enorme infestação de grilos que vem acontecendo em algumas cidades do interior do Estado, especialmente no sertão.

 

Escolher os grilos ou os ratos?

Apesar do incômodo, os grilos são inofensivos aos seres humanos, diferente dos ratos. Além do mais, os insetos em questão, relacionados aos gafanhotos, passam pouco tempo do ano criando algum tipo de indisposição a população, além do mais se resume a uma determinada região.

Enquanto que os ratos se proliferam por todas as partes e regiões e passam o ano inteiro causando enormes prejuízos a todos, principalmente aos mais pobres.

Em Alagoas, por exemplo, os ratos são vistos a qualquer hora e lugar. Apesar de os grilos, também, serem vistos pelo dia, a sua maior incidência acontece durante o período noturno.

Semelhança

Talvez a única semelhança entre o grilo e rato seja um tipo de alimento. Isso mesmo, os dois se alimentam de folhas.

Mas aí você poderá estranhar essa minha afirmação, de que ratos comem folhas.

Pelo menos os de Alagoas são especialistas em folha, assim como alguns pelo Brasil. Não as que alimentam algumas espécies de grilos, mas as folhas de pagamento; nesse quesito eles são imbatíveis e insaciáveis.

O último caso de consumo insaciável de folha, por parte dos roedores famintos da terra dos marechais, se deu na Assembleia Legislativa. A Casa Tavares Bastos, localizada no Centro de Maceió tem se tornado ponto de consumo dessa espécie de mamífero.

No entanto, o que não falta em Alagoas são “fast-food” para ratos catitas e cabirus. Além da capital, que oferece um sem número de locais, as cidades, grandes e pequenas do interior também têm locais convidativos onde oferecem o mais diversificado cardápio aos ratinhos e ratões; enquanto os ratos engordam sem serem perturbados, os grilinhos comem pouco e ainda têm que ficar em seus buraquinhos apenas fazendo cricri e tentando se livrar de uma sapatada.

Blog do Sérgio Campos

01 out

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Momento de prosa de um sertanejo com Deus

MISSA

(Foto: divulgação)

Meu Deus, lá se foi o mês de Santana, passou-se agosto e setembro, tamos em outubro. Mais um ano de seca e agonia pra nós aqui no sertão. Num chove já faz é tempo! E o verão tá só mostrando a cara.

Olho pro céu e tento tirar um dedinho de prosa com Vossa Divina Justiça. Mas tenho cá minhas dúvida se, em suas ocupação, Vosmecê vai encontrar um tempinho pra um simples lavrador que o mundo nem sabe se existe. Mesmo assim teimo e Lhe dirijo essas palavra. Dessa vez num é rogatório, não. Também num é lamentação à toa. É só pra tirar uma dúvida, e bem sei que o Senhor não é desses que se ofende até com pergunta.

Apois me responda: que mal tão feroz eu cometi, meu Senhor, pra merecer tanto castigo? Até quando vamos ter que aguentar tanta provação?

No ano passado, eu, minha mulher e meus filho roçamo o pedaço de terra que ainda nos resta e plantamos um pouco de feijão e milho. Isso porque recebemos um pouco de semente que o governo distribuiu lá na cidade. Ficamos sabendo, pela rádio, que ia ser feita a tal distribuição, e os que não têm apareio de rádio suberam nas conversa de pé de uvido.

Tivemos que ir inté lá, pois, cuma num era época de eleição, eles não andam por essas capoeira. Chegamos cedo, pois o Senhor sabe que o matuto madruga, pra dar conta da labuta, e, nesse caso, pra garantir uma vaga na festa do benefício.

Lá na praça da cidade, onde estava as arrumação para a entrega das doação, vi muita gente bem vestida, vi tudo muito bem arrumado. Logo começou os falatório, cada um mais bonito que a outro; palavras que eu não entendia, mas imaginava que era coisa séria; pois esse povo que fala bonito é tudo gente séria, né? Promessa pro home do campo num fartaro. Teve inté um que chorou que nem minino! O Senhor sabe, o povo da cidade derrama lágrima só de pensar no mal que alguém tá fazendo com o povo…

Eu confesso, meu Deus, que num gostei de uma coisa, no meio de outras que também num me agradaram. Foi quando terminaram a cerimônia, na hora da saída, ouvi quando um daqueles home bem trajado, usando paletó e gravata, falou baixinho pro seu colega do lado: “Não sei o que é que essa gente aí quer mais, pois recebe bolsa família, salário maternidade, máquina forrageira, sementes de graça… O governo dá de tudo, mas nunca estão satisfeitos, a vida é reclamar”.

Já humilhado pela esmola que tinha acabado de receber, escondi ainda mais a cara, aproveitando o pequeno saco de sementes que tinha acabado de receber.

Agora meu Deus, o que mais me doeu, foi ouvir a resposta do outro cidadão, justamente o que tinha chorado na hora da fala. Ele disse: “Pois é, por isso que não encontramos mais quem queria trabalhar na roça. Ganham na moleza, e aí acabam viciados, esse povo não tem jeito”.

E o outro, pra confundir ainda mais a minha cabeça, emendou com essa: “E você tá reclamando de quê? Bom mesmo é ver que essas mixarias que o governo tá dando ainda é pouco, e a gente pode continuar viciando esses infelizes, esses vagabundos, em esmolas que dão votos. Pior será se os filhos e netos deles se formarem nas escolas técnicas, nas faculdades…”. Aí o outro botou as mãos na cabeça e saiu quase gritando: “Nem me fale! Nem me fale! Educação, não! Educação, não!”

Saí dali ainda mais humilhado do que quando cheguei. Ser chamado de vagabundo foi demais, meu Deus. Mas as lágrimas não escorreram pelo meu rosto, não, meu Senhor. E não foi por orgulho. Foi porque o sertanejo adulto, aqui das brenhas da caatinga, não tem mais lágrima. Tudo que a gente tinha de chorar já chorou, derna a infância, quando a fome, a sede e o abandono bateram na nossa porta e entraram sem pedir licença.

Mas eu estou aqui, meu Senhor, conformado, junto com a minha família, me preparando para enfrentar mais uma estiagem.

Esse ano, meu Deus, eu já decidi que vou deixar minha mulher cuidando dos nossos filho e vou arribar pro sul, cortar cana. Lá, pelo menos, se eu sair vivo, garanto o alimento e umas roupinhas pra eles. Além disso, trabalhando, eu tou me distraindo e não tenho tempo pra pensar besteira; pois, se não fosse a fé que tenho no Senhor, não sei se eu ainda tava vivo pra contar um pouco do meu sofrimento.

Na semana que vem, o ônibus da usina passa aqui em frente ao meu rancho, e, durante uma boa temporada, eu vou tá trabalhando e rezando pra que um dia eu possa voltar pro aconchego dos meus.

Mas pode crer, meu Senhor, jamais quero perder a esperança de um dia ver o meu sertão produzir alimentos em abundância e os meus filhos estudando em escolas decentes.

Ouvi dizer que tem um povo estrangeiro que costuma falar o seguinte: “Deus abençoe azamérica”. Num sei bem o que isso quer dizer, mas eu vou tomar a liberdade de pedir que o Senhor abençoe toda a humanidade.

01 out

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Educação e Segurança unidos podem vencer a violência

Charge

Nesta terça-feira (1º) o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL), deverá instalar duas comissões especiais para analisar soluções para o financiamento de medidas de estímulo à Educação e à Segurança.

Apesar de pastas distintas, educação, quando unida à segurança dá um resultado positivo surpreendente. Pena que poucos gestores e gestoras não enxerguem essa positiva parceria.

De acordo com Calheiros, o estudo é importante diante da perspectiva de mais recursos para o setor, graças à decisão do Senado em relação aos royalties do Petróleo, os quais, de acordo com o texto aprovado, 75% que cabe ao governo federal, serão destinados à educação.

Estudos preliminares mostram que o valor pode chegar a R$ 112 bilhões a mais para financiar os setores de educação e saúde, nos próximos dez anos.

Na teoria, isso quer dizer que teremos mais creches, mais escolas de tempo integral, mais escolas de música e dança, maior incentivo ao esporte nas suas várias modalidades, melhores salários e qualificações para os educadores e profissionais em educação, transporte escolar gratuito, mais faculdades, laboratórios equipados e tantos outros benefícios que a educação pode proporcionar as crianças e jovens das periferias abandonadas nas milhares cidades brasileiras.

Em relação à violência, o tráfico de drogas, que leva ao uso indiscriminado de usuários cada vez mais sedento, tem sido uma das maiores causas de mortes prematuras de jovens e crianças; algo comparando a uma hecatombe no planeta.

Em Santana do Ipanema, uma pequena cidade do Sertão nordestino, as mortes causadas por grupos que disputam os pontos pela venda das drogas, tem levado gangues rivais a se digladiarem, com resultados fatais onde parece que nunca acaba de morrer adolescentes, tornando-se assim algo banal para a sociedade, que já nem sabe a quem recorrer.

E pouco, pra não dizer nada, tem sido feito para mudar esse quadro caótico. Onde famílias são destruídas; sejam de usuários, traficantes e até de com pessoas que não estão envolvidas.

Como as soluções por parte dos governos têm sido ineficazes, as soluções, por parte da sociedade, vem em forma de desespero.

Há quem defenda o fim da violência usando a mesma tática; ou seja, o uso da força. Para esses o extermínio indiscriminado seria a solução imediata. Quem nunca ouviu a frase, “bandido bom é bandido morto”?

A pergunta seria: a quem delegar o poder de exercer a Lei de Talião, “Dente por dente, olho por olho”?

Uma prova cabal de que isso não funciona está em uma ação lançada em 1986, em relação ao combate ao tráfico de drogas, pelo presidente da maior potência bélica do planeta. Ronald Reagan, quando tomou por base a ideia defendida por outro presidente norte-americano, Richard Nixon, há quatro décadas, que lançou a chamada “guerra contra as drogas”, baseada na repressão e na perseguição policial e militar.

De acordo com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em seu livro “Os Filhos dos Dias”, em relação a esta atitude de repressão: “A partir de então, aumentaram seus lucros os narcotraficantes e os grandes bancos que lavam seus dinheiros; as drogas, mais concentradas, matam o dobro de gente que antes matavam; a cada semana se inaugura uma nova prisão nos Estados Unidos, porque os drogados se multiplicam na nação que mais drogados tem.” (p.339).

Por tanto está provado que repressão nunca foi a solução para o combate às drogas; prevenção sim.

“Eduquem as crianças e não será necessário castigar os homens.”, Pitágoras.

 Tem um ditado popular que diz “Mente vazia, oficina do diabo”.

Será tão difícil imaginar que a frase dita por Pitágoras, há quase 500 anos/a.C. tem um sentido lógico e prático?

Tendo a criança, hoje abandonada em bolsões de miséria, a chance de nos seus primeiros anos de vida frequentar uma creche bem equipada; com educadores qualificados, merenda e material didático de qualidade, onde possa ser bem tratada e praticar os seus primeiros exercícios físicos e mentais, não teria enorme chance de, ao invés de ingressar no mundo das drogas, tomar o rumo da educação, da medicina ou do esporte?

Conforme, nota do Senado, a comissão tem até o dia 16 de dezembro para debater e propor soluções que viabilizem a alocação de mais recursos financeiros para o sistema educacional brasileiro. O grupo está formado por dez senadores, incluindo a presidente e o relator; é esperar e torcer que esses recursos cheguem e sejam realmente aplicados em favor de nossos crianças e jovens.

24 jul

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Mais um forrozeiro pra animar as festas juninas do céu

Foto:

Ilustração: Genildo

Neste dia, 23 de julho, o Brasil, em especial o Nordeste, se despede de um dos maiores ídolos musicais. José Domingos de Moraes, o Dominguinhos, que faz a grande “viagem”.

A palavra nesse momento é saudade. No entanto também se reflete em alegria; alegria pelo seu legado.

Dominguinhos foi uma daquelas figuras em que Deus nos enviou para, em muitos momentos, nos tirar das tristezas. Com a sua música inconfundível, ele levou o contentamento a milhões de corações mundo a fora.

Falar em morte nesse instante é desconhecer a vida; é ignorar que suas melodias e seu sorriso revigoraram tantas almas e acalentou muitos espíritos.

Dominguinhos se junta no céu, neste momento, ao seu mestre na Terra, Luiz Gonzaga, o maior de todos os artistas; aquele que lhe orientou a tomar o rumo dar alegria ao seu povo. E como um bom discípulo Dominguinhos seguiu direitinho o seu Mestre, mesmo buscando a sua própria identidade artística.

Entre tantas boas composições, eu poderia citar, por exemplo: “Quem Me Levará Sou Eu”, “Isso Aqui Tá Bom Demais”, “Abri a Porta” (parceria com Gilberto Gil), “Eu Só Quero um Xodó” (parceira com Anastácia), mas a música que mais me marcou, do eterno Dominguinhos, foi composta com Nando Cordel, “De Volta Pro Aconchego”. Nesta composição Dominguinhos junta bela melodia com letra inteligente.

Certa feita assisti ele disse que tinha feito esta música numa mesa de bar de São Paulo. Num momento de angustia, em que sentia saudades de casa. Pegou um guardanapo e rascunhou umas palavras e passou pra Nando, e ai surgiu uma das mais belas músicas do artista que hoje completa sua missão aqui na Terra.

Tive a satisfação de assistir Dominguinhos se apresentar em Santana do Ipanema, no Largo do Maracanã.

Quem sabe um dia poderei ter a permissão de puxar um banquinho e assistir a um show do dueto Dominguinhos/Gonzagão, se apresentando pra Antônio, João e Pedro, no arraiá do céu. E ainda ter como participações especiais: Jackson do Pandeiro, Sivuca, Lindu e Zinho.

Que Deus receba de volta esse seu filho que disseminou, por onde andou, a paz através da musicalidade.

10 jan

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Urubus e carcarás aguardam o momento certo para o bote

(Foto: Arquivo Google)

Tem sido comum e quase uma praxe observar as figuras chamadas “carimbadas”, as quais se acham oniscientes e parecem onipresentes, pois aparecem em todas as administrações, como num passe de mágica.

Não importa quem essa figura tenha defendido nas últimas eleições, mas ao final lá está ela, novamente, se lambuzando nas benesses do poder, com a velha desculpa de que: “agora o palanque acabou”.

São verdadeiros artistas, na arte de representar, daqueles de causar inveja aos grandes protagonistas das novelas globais, quiçá Christopher Lee, o eterno intérprete de o Conde Drácula.

Muito se comenta sobre a cara de pau dos políticos, no entanto se esquece dos eleitores sem pudor. E da mesma forma que certos políticos acabam convencendo os eleitores de que não foi bem aquilo que ele quis dizer durante o período eleitoral, esses eleitores acabam usando da mesma artimanha para convencer e persuadir os políticos eleitos.

Não é preciso muita sapiência para identificar esses apaniguados “urubus e carcarás administrativos”. Em geral são puxa-sacos, dedos-duros e traidores. No momento em que seu chefe passa à condição de ex essa desprezível figura é a primeira a pular fora, tipo aquela velha história dos ratos, os primeiros a abandonarem o convés no momento do naufrágio.

Os urubus e carcarás administrativos são, em sua maioria de classes mais abastadas, entre a média e a alta, apesar de existirem os de menor poder aquisitivo. Quando estão desempenhado funções de baixo escalão os seus chefes são semideuses e pessoas hiper-competentes. Entre muitos exemplos de bajulações, esses nauseabundos chegam a fazer as compras dos seus comandados mesmo sem ser a sua função, escolher os seus perfumes e até a trocar as fraudas de seus filhos.

Quando o carcará se encontra numa função de destaque, é comum trocar as pessoas competentes pelas bajuladoras, além de pisotear e humilhar as de menos poder aquisitivo.

Ao longo da história política mundial se verificou que poucos governantes deram uma maior atenção a esse fato, no entanto poucos sobreviveram por muito tempo quando agiram de forma a beneficiar mais os adversários do que os aliados, mesmo admitindo que existam aliados traidores. E nesse caso não pode haver maior aliado de um governante posto pelo povo do que o próprio povo.

Santana do Ipanema tem demonstrado possuir um histórico de resistência política, ainda que desorganizada. Revelando assim ter uma célula de independência. Nas vezes em que agiu dessa forma teve uma maciça participação popular. E mesmo quando os governantes não atenderam aos seus anseios, a classe popular desta cidade sertaneja voltou a agir contra a opressão e a ostentação de poder, demonstrando a sua insatisfação.

Toda revolução requer tempo, paciência, além de trazer bastante sofrimento para a população, especialmente a mais pobre. Pois ela tem consciência da sua importância na hora de eleger e defender o seu administrador, e continua acreditando que agindo dessa forma, um dia, algo vai mudar para melhor.

Por outro lado, a classe dominante, em menor número, acaba abarcando a maior fatia do bolo.

A Revolução Francesa ainda pode ser vista como um dos maiores exemplos de insatisfação popular de todos os tempos, onde rei, rainha e vassalos foram guilhotinados. O problema foi que, durante muitos anos, após a revolução, a burguesia, que tinha um maior poderio aquisitivo, acabou não beneficiando os trabalhadores, os quais tiveram que continuar lutando e adquirindo as suas conquistas.

Exemplo ainda maior do que o da Revolução Francesa aconteceu na pequena ilha de Cuba. A poucos quilômetros do país mais poderoso do mundo, Cuba deu exemplo ao mundo de como o povo unido pode vencer os seus opressores, por mais poderosos que pareçam. Onde um grupo de pouco mais de oitenta guerrilheiros conseguiu derrubar um governo corrupto e tirano.

Mas, numa análise mais profunda vamos verificar que, para que isso desse certo o líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, contou com o apoio do povo oprimido, que de uma forma ou de outra lhe deu ampla ajuda, e depois desta importante conquista os cubanos contaram com o apoio da então União Soviética, dando-lhe suporte para evitar uma possível invasão dos Estados Unidos.

A pergunta é: por que ainda hoje, mesmo sendo um país pobre, o povo cubano reverencia e dá apoio aos seus heróis, liderados por Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara?

Para conquistar o apoio popular, os guerrilheiros que lutaram pela liberdade de Cuba prometeram, durante a campanha, que fariam uma ampla reforma agrária, que o povo teria educação e saúde de qualidade, além de outros benefícios, desfrutados apenas naquele momento por uma minoria. A resposta é simples: a promessa foi cumprida e o povo beneficiado, mesmo com uma das mais covardes atitudes imposta a um país, que é o bloqueio econômico liderado pelos Estados Unidos, que ainda hoje vigora.

Sem luta não há vitória e sem participação popular não há conquista verdadeira e o que resta é a opressão.

Como sugestão de reflexão segue abaixo a música Capim Guiné, de Raul Seixas. Dá pra ter uma ideia do que seja lutar pelo social e depois se ver obrigado a ser atropelado pelos urubus e carcarás.

Capim Guiné

 

Plantei um sítio

No sertão de Piritiba

Dois pés de guataiba

Caju, manga e cajá

 

Peguei na enxada

Como pega um catingueiro

Fiz acero, botei fogo

“Vá ver como é que tá”

 

Tem abacate, jenipapo

E bananeira

Milho verde, macaxeira

Como diz no Ceará

 

Cebola, coentro

Andu, feijão-de-corda

Vinte porco na engorda

Até o gado no currá

 

Com muita raça

Fiz tudo aqui sozinho

Nem um pé de passarinho

Veio a terra semeá

 

Agora veja

Cumpadi, a safadeza

Cumeçô a marvadeza

Todo bicho vem prá cá

 

Num planto capim-guiné

Pra boi abaná rabo

Eu tô virado no diabo

Eu tô retado cum você

 

Tá vendo tudo

E fica aí parado

Cum cara de viado

Que viu caxinguelê

 

Suçuarana só fez perversidade

Pardal foi pra cidade

Piruá minha saqüé

Qüé! Qüé!

 

Dona raposa

Só vive na mardade

Me faça a caridade

Se vire e dê no pé

 

Sagüi trepado

No pé da goiabeira

Sariguê na macaxeira

Tem inté tamanduá…

 

Minhas galinha

Já num fica mais parada

E o galo de madrugada

Tem medo de cantá.

20 dez

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Onde você vai passar o dia do fim do mundo?

Essa foi a pergunta que me fez um amigo meu nesta quinta-feira, dia 20 de dezembro de 2012. Um dia antes de acontecer o tão badalado “fim do mundo”, divulgado pela mídia mundial [pense como dá Ibope esse tipo de notícia, ainda que a maioria das pessoas não admita que acreditem], durante todo este ano de 2012.

Como já era um assunto muito mastigado, não tive muita dúvida na hora de responder. No instante me veio de relance, à memória, uma música do cantor e compositor pernambucano, o qual já teve o seu “fim do mundo”, no momento em que faleceu, Zé Castor.

“Meu fim do mundo pretendo passar na terra em que nasci, me criei e vivo até hoje. No Sertão nordestino. Junto dos meus amigos, familiares e desafetos. Pois foi nessa terra que criei minhas raízes, meus costumes, meus gostos, defeitos e manias. Aqui aprendi a conviver com pessoas. A gostar das tradições, da cultura e da vasta culinária. Eita sertão da gota serena de bom. É nele que pretendo viver até o fim do mundo”, respondi sem pestanejar.

Vendo que eu estava falando “sério”, o meu amigo, que demonstrava querer brincar comigo, por um instante franziu a testa, olhou para mim como se estivesse entre o temor e a surpresa e indagou: “mas você acredita mesmo que o mundo vai se acabar amanhã?”.

– Na verdade – respondi – li alguma coisa sobre o assunto, mas, confesso que, não o bastante para responder que estou a par sobre o assunto.

Ainda surpreso, ele insistiu na pergunta, demonstrando estar preocupado sobre o assunto, como se estivesse acreditando que realmente o que a mídia mundial vinha comentando sobre o fim do mundo para o dia 21 de dezembro de 2012, fosse realmente a única e soberana verdade.

– Bem – disse calmamente a meu amigo – primeiro é preciso respeitar a opinião de cada um. Eu acredito que o mundo se acaba no momento em que você “bate a caçoleta”, “toma da tarraqueta”, “bate as botas”, ou, num português culto, morre.

Depois de minha resposta ainda continuei a lhe encarar, e logo percebi que não tinha lhe convencido. Mas como essa não era a minha intenção, ignorei e tentei mudar de assunto.

Mas o cabra é do tipo renitente, não se contenta com qualquer resposta, e logo retornou ao assunto.

– Rapaz acho que você ta querendo me enrolar – me respondeu.

– Me responda se você acredita ou não que o mundo vai se acabar?

– Vamos lá – disse eu.

Foi quando lhe falei da música de Zé Castor – lembram?.

– Veja bem, – disse com bastante paciência [mas doido pra mandar ele tomar no fim do mundo] – lembre-se que falei que gosto do lugar em que nasci e vivo. Que gosto da cultura daqui, e uma delas é a musicalidade nordestina. Rica em sabedoria. Sou fã incondicional do maior artista do mundo, Luiz Gonzaga, o qual tive a grata satisfação de assistir uma apresentação em minha cidade.

Percebendo sua atenção, continuei.

– Nesse Nordeste, conheci muita gente boa. Artesãos, cantores, donas de casa, palhaços, pedreiros, médicos, garis professores, donos de cabarés músicos e tantos outros que me orgulharam até este dia 20 de ter nascido nesse lugar maravilhoso. Entre eles quero destacar, com grata satisfação, o fato de ter conhecido e assistido um cabra da peste de bom, chamado Zé Castor.

Já demonstrando impaciência, ele me interrompe e pergunta.

– E o que tudo isso tem a ver com a minha pergunta?

– Bem, estou tentando lhe dizer que já vivi o bastante para suportar o que vier daqui pra frente. Já tive tanto lucro, que não será um fimdemunduzinho qualquer que irá me abalar.

– Por isso meu amigo – respondi com convicção – que ainda hoje ligo meu som e ouço Zé Castor cantar: “eu tenho pena de morrer e deixar o mundo. Quando eu morrer o mundo pode se acabar”.

Link da música de Zé Castor “Quando eu morrer o mundo pode se acabar”

13 dez

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Luiz Gonzaga: O homem que cantou, encantou e defendeu o Brasil

(Autor: José Ronilvo “Roninho”)

Não conheço um artista nesse imenso território chamado Brasil, que tenha retratado tão bem o seu país, o seu povo e suas tradições folclóricas, como o pernambucano filho de Januário e Santana, Luiz Gonzaga do Nascimento (1912/1989).

Entre tantos requisitos, Luiz Gonzaga, ou Mestre Lua, ou ainda Lula Gonzaga, ou simplesmente Gonzagão, foi compositor, cantor, músico, humorista, além de criador de estilos, como por exemplo, o baião. Sem falar que foi o maior divulgador e defensor do forró, do xaxado, do coco do xote, entre outros ritmos brasileiros.

O Mestre Lua, (apelido dado pelo ator Paulo Gracindo, devido ao seu rosto redondo), cantou a riqueza e a pobreza, a alegria e a tristeza, a cidade e o campo, a fauna e a flora. Toda a cultura brasileira foi reverenciada pelo Rei do Baião.

Como ninguém é rei sozinho, Luiz Gonzaga contou com grandes parceiros, ao longo de sua brilhante carreira. Entre eles estão os compositores Zé Dantas, Humberto Teixeira, Patativa do Assaré e João Silva.

Inspirados em seu trabalho Gonzaga revelaria ao mundo da música, artistas, que se consagraram no Brasil e no mundo, como Marinez, Abdias, Dominguinhos, Fagner, Gilberto Gil, Raul Seixas, Elba Ramalho, Alcimar Monteiro, só para citar alguns.

Em defesa da natureza

(Arquivo internet_

Considerado um dos hinos da música popular brasileira, “Asa Branca” (1947) se tornou uma das mais conhecidas e queridas músicas de Luiz Gonzaga, além de ser a mais gravada por tantos artistas. Composta em parceria com Humberto Teixeira, foi eleita em 1997, pela Academia Brasileira de Letras, como sendo a segunda canção brasileira mais marcante do século XX. Nela os autores retratam o sofrimento e a fuga do povo nordestino para outras paragens, devido às longas estiagens, “que braseiro que fornaia, nem um pé de prantação. Por Falta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão”. Vejam que há séculos os autores já retratavam o que ainda hoje vem causado a milhares de sertanejos: sede, fome e morte, deixando um rastro de miséria, humilhação e opressão.

Mais de sessenta anos se passaram, desde que Asa Branca foi gravada, e ainda presenciamos o sofrimento da falta d’água, que mata o gado e causa sede aos sertanejos.

Outro ícone da música popular brasileira, “Assum Preto” foi mais uma das grandes parcerias com Humberto Teixeira. Nesta canção o mestre muda o foco e denuncia o mau trato por parte de passarinheiros, especialmente no Nordeste, com uma ave comum da região (assum preto). Eles [os criadores de passarinhos] achavam que furando os olhos da ave ela cantava melhor na gaiola. Através da melodia ele sai em defesa da ave, quando em um trecho diz: “Talvez por ignorânça, ou maldade das pió, furaro os óio do assum preto, pra ele assim, ai, cantá mio”.

Através de “Xote Ecológico”, Luiz Gonzaga chama a atenção em relação ao desrespeito do qual o ser humano vem, há anos, tratando a natureza, quando ele diz, “Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu. E o peixe que é do mar? Poluição comeu. E o verde onde é que está? Poluição comeu, nem o Chico Mendes sobreviveu”, Nela Gonzaga chamando à responsabilidade todos nós para o cuidado com o meio ambiente, afinal somos parte dele, além de denunciar a morte do seringueiro, sindicalista e ecologista acreano Chico Mendes, morto por fazendeiros em 1988, por defender a natureza.

Humor aguçado

(Arquivo internet)

Com um tom aguçado de humor, em muitas músicas, Gonzagão brinca e conta causos que se passam no cotidiano no povo brasileiro, especialmente no Nordeste. Na música “Dezessete e Setecentos”, ele fala de um certo cara “esperto”, que tenta tirar proveito de uma situação, tentando enganar o dono de um comercio com um troco. “Eu lhe dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos. Você tem que me voltar dezessete e setecentos”.

Acostuma a contar causos, o sertanejo é tido com um dos povos mais bem humorados do mundo. É capaz de tirar piada de qualquer situação. “Lorota Boa”, foi mais grande sacada da parceria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, onde podemos perceber, de acordo com os autores, que “o cabra” mente mais do que a peste, veja o porquê: “Dei uma carreira num cabra que mexeu com a Maroquinha, começou na Mata Grande e acabou na Lagonhia”. Vejam só “que mentira, que lorota boa”, pois a distância entre essas duas cidades, uma em Alagoas e a outro no Piauí, é de aproximadamente 822 km, sem dizer que na música ele diz que correu com um balaio cheio de galinha na cabeça. E pra não deixar dúvida de que a lorota é boa, ele continua, “vou contar agora um caso qui astor dia assucedeu, minha sogra ta de prova qui tal fato aconteceu. Uma cobra venenosa vu a veia e mordeu, mais inveis da minha sogra, foi a cobra que morreu”, essa é sem comentário.

Devoção e Religiosidade

Pela sua devoção, Gonzaga sempre destacou a religiosidade em suas músicas. Na composição “Ave Maria Sertaneja”, de Julio Ricardo e O. de Oliveira, ele trás à tona a enorme devoção do sertanejo pela hora da Ave Maria, onde o povo dessa região, às 18 horas, ao final de mais um dia de trabalho, costuma parar e refletir sobre este momento, considerado sagrado. “Quando batem às seis horas, de joelho sobre o cão, o sertanejo reza a sua oração…”

Ao Padre Cícero Romão Batista, considerado o santo dos nordestinos, entre outras homenagens, Gonzaga, em parceria com João Silva, compôs “Viva Meu Padim”, onde mais uma vez destaca a devoção dos nordestinos, que costumam, até os dias de hoje, através das constantes romarias reverenciá-lo, “Eu todos os anos, setembro e novembro vou ao Juazeiro alegre e contente. Cantando na frente sou mais um romeiro”.

Outro que costumava levar milhares de católicos em romarias, que também mereceu a homenagem de Gonzagão foi o frade capuchinho “Frei Damião”, nascido na Itália, foi bastante reverenciado através dos seus sermões pelo interior do Nordeste, “Frei Damião, onde andará Frei Damião. Deu-lhe o destino, viver nordestino, é hoje o nosso irmão”.

Tive oportunidade de ir a algumas missões de frei Damião, onde pude sentir o quanto os sertanejos o respeitavam. E Gonzaga que nunca foi besta, sabia cantar o que o povo gostava, compôs Frei Damião, onde canta: “Pé que pisa a terra, sem caminhos erra, este beco testa-nos e a gente está nas missões. Quer saber do inverno, quer fugir do inferno, quem tem devoção com Frei Damião não tem provação”.

Acredito que um dos maiores momentos na carreira de Luiz Gonzaga aconteceu quando o papa João Paulo II esteve no Brasil pela primeira vez, em 1980. Naquela oportunidade O Rei do Baião cantou “Obrigado, João Paulo”, música que fez especialmente para esta oportunidade, em parceria com o padre Gothardo Lemos. Luiz Gonzaga foi um dos artistas escolhidos para se apresentar ao pontífice, na cidade de Fortaleza. Como numa bênção, foi justamente nesse ano em que Gonzaga iniciou uma turnê pelo País, depois de uma vida conturbada, formando uma parceria com o seu filho Gozaguinha, que ficaria conhecida como “Vida de Viajante”, a partir daí ele adotou o nome de Gonzagão.

Reivindicações, denúncias e lamentos

O maior mestre da música brasileira aproveitou suas muitas relíquias para chamar a atenção da população como um todo, e não apenas dos governantes, para os problemas que sempre assolaram nosso país

Um exemplo clássico disso está descrito na música “Comício do Mato” de autoria de Joaquim Augusto e Nelson Barbalho. Esta ainda é uma das muitas músicas de Gonzaga desconhecidas até hoje por fãs mais devotos, gravada em 1957. “Eu voto por muito pouco, digo agora pro senhor. Grito inté ficar rouco, já ganhou, já ganhou. Quero roupa, quero sapato. Paletó lascado atrás, camisa fina de fato. Tarei pedindo demais? Tarei? Tô não”. Naquela época ele já chamava a atenção em relação aos políticos acostumados apenas a fazer promessas vãs, bem como ao candidato que acabava engolindo a balela do malandro, algo ainda muito comum nos dias de hoje.

(J. Borges)

Assim como Asa Branca, acredito que “A Triste Partida” (1964), de Patativa do Assaré, um dos maiores poetas brasileiros, é uma das mais importantes músicas de Luiz Gonzaga. Da poesia do gênio cearense, Gonzaga conseguiu comover o Brasil, principalmente os retirantes nordestinos que se aventuravam pras bandas do Sul e Sudeste do Brasil. Ouvir é uma coisa, mas só de imaginar o sofrimento de alguém que é obrigado a fugir de sua terra natal, em busca da sobrevivência, somente uma pessoa sem alma para não se sensibilizar de tamanho sofrimento cantado por Luiz Gonzaga, “Em caminhão ele joga a famía, chegou o triste dia já vai viajar. Meu Deus, meu Deus. A seca terrivi, que tudo devora. Ai, lhe bota pra fora da terra natal”.

Durante muitos anos chegou a se pensar que o Nordeste estava fadado à desgraça. Quando não era a seca terrível que afugentavam os nativos eram as enchentes que matava com água. Se em Triste Partida o cancioneiro mostra o sertanejo fugindo da seca, em “Súplica Cearense”, dos compositores Gordorinha e Nelinho, ele retrata a triste sena das enchentes que deixaram milhares de mortos e desabrigados nesta região ao longo do tempo. “Oh Deus perdoe este pobre coitado. Que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem papar. E em outro trecho ele suplica, “Desculpe eu pedir a toda hora para o inverno. Desculpe eu pedir para acabar com inferno, que sempre queimou o meu Ceará”.

Lampião e o chapéu de couro

Uma das maiores características de Gonzaga era sem dúvida a audácia. Ele não demonstrava medo em ser ridicularizado pelos críticos. Com coragem e sabedoria “O cara” incorporou como ninguém o povo nordestino em suas canções e entrevistas. Com seus costumes, vestimentas e forma de se expressar, jamais negou suas raízes. Gonzaga adotou o chapéu de couro, a partir do ano de 1947, semelhante ao usado por Lampião, do qual o Rei do Baião tinha grande admiração. Esse fato lhe causou alguns transtornos, no início da carreira, como por exemplo, ser impedido de cantar na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro com trajes de cangaceiro.

Na música “Lampião falou”, ele, de certa forma, sai em defesa do mais famosa cangaceiro nordestino, “Eu não sei porque cheguei. Mas sei tudo quanto fiz, maltratei fui maltratado. Não fui bom, não fui feliz. Não fiz tudo quanto falam, não sou o que o povo diz”. E completa, “O cangaço continua. De gravata e jaquetão. Sem usar chapéu de couro. Sem bacamarte na mão. E matando muito mais, ta cheio de lampião”.

Localidades

Por fim o Rei do Baião homenageou várias localidades, nesse Brasil de meu Deus. Ao Rio de Janeiro, onde tudo começou ele compôs com Zé Dantas “Adeus Rio de Janeiro”. Na canção ele lamenta deixar tantas belezas, mas promete volta em breve, “Quando eu me alembro de deixar Copacabana, e as morenas que eu tenho visto por cá. Eu fico triste, sinto frio sinto medo. Fico achando tudo azedo, com vontade de chorar”.

Ao nosso estado de Alagoas Gonzaga também falou das suas belezas, como na música “Pedaço de Alagoas”, de Edu Maia. “Tomar banho na bica da pedra. Rever a Pria do Francês e a Barra de São Miguel. Em Conchinha voltar outra vez. Coruripe tem prais tão lindas, que se confundem com mar”. De Lourival Passos ele gravou “Maceió”, na qual também exalta a beleza inconfundível da capital mais bonita do Brasil, “Ai, ai, qua saudade, ai que dó. Viver longe de Maceió”.

O nosso torrão natal, Santana do Ipanema, também não ficou de fora de uma das maelas discografias brasileiras, e foi para nós um grande orgulho ouvir o Rei do Baião cantar “Acordo as Quatro”, de autoria de Marcondes Costa. Nela Gonzagão discorre detalhes da lida diária do homem do campo, no sertão alagoano, “Acordo as quatro, tomo meu café, dou um cheiro da muié e nas crianças também. Vou pro trabáio com o céu ainda escuro, respirando aquele ar puro, que só minha terra tem. Levo comigo uma foice e uma enxada, vou seguindo pela estrada, vou pro campo trabaiá. Vou ouvindo o cantá dos passarinhos, vou andando sozinho, tenho Deus pra me ajudar”.

Entre outras homenagens ele ainda cantou: “Paraíba”, “A Feira de Caruaru”, “Pra Frente Goiás”, “Macapá”, e muito mais.

A discografia do Mestre Luiz Gonzaga é invejável e inexata. Fala-se em quase 200 títulos lançados, entre discos de 78 rotações, elepês e compactos, 1000 músicas, muitas histórias e parceiros desde 1941.

Dedico este texto, assim como fiz em 2008, com o artigo Gonzagão, simplesmente o melhor,  ao homem que escolheu a música para expressar todo seu amor ao Brasil e ao seu povo, “Luiz do Brasil”. Que, se vivo estivesse, completaria 100 anos nesta quinta-feira, 13 de dezembro de 2012. A moldura acima foi pintada pelo artista plástico José Ronilvo Soares Ribeiro “Roninho”, o qual, a meu pedido, retratou de forma belíssima a evolução humana, revelando assim aquele que foi o maior ícone da musica popular brasileira.

Como reflexão fica uma frase de Ganzagão, na música “O Urubu é um Triste”: Se a coruja um dia chegasse a ser beija-flor, naturalmente eu teria dinheiro, paz e amor”.

02 dez

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10 curiosidades da história política de Santana do Ipanema

Foto: Montagem / Alagoas na Net

Para tanto, além do que já tinha guardado em mente, recorri a pesquisas na biblioteca pública municipal Breno Accioly, localizada provisoriamente no Centro de nossa cidade. De qual momento quero deixar o meu apreço pela atenção dedicada pelas bibliotecárias, Cícera e Letícia.

A identidade de um povo é a sua história. O retrato que vemos hoje é o reflexo do que fizerem os nossos antepassados, bem como o nosso futuro se colocará da forma a qual estamos construindo neste momento.

Então, se você não sabia fique sabendo:

– Que Mário Silva é o 13º prefeito eleito pelo voto direto, de Santana do Ipanema e o quarto prefeito eleito a ter exercido o cargo de vereador. Quando Mário Silva assumir, em janeiro de 2013 serão 17 mandatos exercidos por 13 prefeitos.

– Que a prefeita Renilde Bulhões foi a primeira mulher a assumir o Executivo santanense, em 2001, bem como a primeira prefeita a se reeleger, em 2008. Até o ano de 1996 não era permitido a reeleição no Brasil para os chefes do Poder Executivo Municipal, Estadual e Federal.

– Que o primeiro prefeito eleito pelo voto direto foi Joel Marques, em 1936, e seu filho Adeildo Nepomuceno Marques o primeiro vereador a se eleger prefeito de Santana.

– Que Adeildo Nepomuceno Marques foi o único prefeito eleito por três vezes:

de 1951 a 1955

de 1966 a 1969

de 1973 a 1977

– Que Paulo Ferreira de Andrade foi o político que mais se candidatou a prefeito e vice-prefeito de Santana do Ipanema; quatro vezes a prefeito e duas a vice. Sendo candidato a prefeito pela primeira vez em 1972, não obtendo êxito.

De 1983 a 1988, Paulo Ferreira exerceu o cargo de vice-prefeito e em seguida foi eleito duas vezes prefeito, entre os anos: de 1989 a 1992 e de 1997 a 2000.

– Que a vereadora Josefa Eliane Bezerra, a Fofa, foi a primeira mulher a presidir o Legislativo santanense.

– Que o vereador Luciano Gaia é o vereador com maior número de mandatos. Em janeiro de 2013 deverá exercer o cargo pela nona vez. Desde a primeira vez em que foi eleito vereador, em 1971, Luciano só não exerceu o mandato nos exercícios de 2001 a 2004 (Marcos Davi) e de 2005 a 2008 (Renilde Bulhões).

– Que o Coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão foi eleito o primeiro deputado estadual para representar Santana do Ipanema, em 1950. Seguido de Siloé Tavares, ex-vereador, e do ex-prefeito Adeildo Nepomuceno Marques.

– Que as cidades de Major Izidoro, Olho d’Água das Flores, Olivença, Carneiros, Poço das Trincheiras, Maravilha, Ouro Banco e Senador Rui Palmeira, já foram distritos de Santana do Ipanema.

10ª – Que a emancipação política de Santana do Ipanema é comemorada no dia 24 de abril, apesar de o Município só ter passado à condição de cidade no dia 31 de maio do ano de 1921, isso porque, antes da proclamação da república, as povoações eram elevadas a vilas de acordo com o sistema português.

No Brasil colonial a data correta da fundação de municípios era a da criação da vila. Com a vila, o arraial ou freguesia, adquiria a sua autonomia político administrativo, podendo escolher o seu intendente (prefeito) e conselheiros (vereadores). Santana do Ipanema, ainda Santana da Ribeira do Panema, passou à sua condição de cidade (vila) emancipada politicamente, através da Resolução nº 681, de 24 de abril de 1875, se desmembrando da Comarca de Traipu.

Prefeitos de Santana do Ipanema, eleitos pelo voto popular:

Joel Maques 1936/1938

Coronel Lucena Maranhão – 1948/1951

Adeildo Nepomuceno Marques – 1951/1955

Hélio Cabral do Nascimento – 1956/1960

Ulisses Silva – 1961/1065

Adeildo Nepomuceno Marques – 1966/1969

Henaldo Bulhões Barros – 1970/1972

Adeildo Nepomuceno Marques – 1973/1976

Genival Wanderlei Tenório – 1977/1982

Isnaldo Bulhões Barros – 1983/1988

Paulo Ferreira de Andrade – 1989/1992

Nenoi Pinto – 1993/1996

Paulo Ferreira de Andrade – 1997/2000

Marcos Davi Santos – 2001/2004

Renilde Silva Bulhões Barros – 2005/2008

Renilde Silva Bulhões Barros – 2009/2012

*Referencia da pesquisa: Livro Santana do Ipanema conta a sua História; Floro de Araujo Melo e Darci de Araujo Melo.


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