08 maio

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Os empregos verdes em uma economia de baixo carbono

MarcusEduardoNo seu relatório anual sobre as tendências mundiais do emprego, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, “apesar de uma recuperação moderada do crescimento da produção” esperada para este ano e para 2014, “a taxa de desemprego deverá aumentar de novo e o número de desempregados no mundo crescerá 5,1 milhões em 2013, ultrapassando 202 milhões”.

Contudo, esse cenário desolador da economia mundial pode ser atenuado via geração dos chamados empregos verdes a partir da transição para uma economia de baixo carbono; para uma economia que se desenvolva qualitativamente sem impactar o meio ambiente, que cresça moderadamente sem destruir os elementares serviços ecossistêmicos, que se paute na ética dos valores contidos no ideário do desenvolvimento sustentável, protegendo a flora, a fauna, reduzindo o consumo de recursos naturais, de energia e de água.

Para a OIT, os empregos verdes são aqueles que reduzem o impacto das empresas no meio ambiente e dos setores econômicos a níveis que sejam considerados sustentáveis, além de reduzir a necessidade de energia e matérias primas.

Isso somente será possível com a prática de uma nova economia que respeita o meio ambiente e reconheça a necessidade de reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa, respondendo afirmativamente pela geração de empregos em áreas-chave da sustentabilidade.

Ainda segundo estudos elaborados pela OIT, até 2030 o Brasil deve criar cerca de 730 mil novos postos de trabalho com a implantação de projetos de economia de baixo carbono, somente no setor de energias renováveis.

Hoje, já contamos com mais três milhões de postos de empregos verdes, com destaque para as seguintes áreas: agroecologia, proteção de áreas de conservação, biocombustíveis e construção civil, usando nesse último caso a eficiência energética em prédios residenciais e industriais, com construções mais inteligentes que consomem no ato produtivo menos energia, água e materiais, portanto, em sintonia à ideia de “cidades sustentáveis”.

Dentro da perspectiva dessa nova economia que obrigatoriamente coloca no centro das decisões a questão ambiental, fazendo a interface entre a atividade econômica e as Ciências Naturais (especialmente a biologia e a ecologia), permitindo assim com que o processo econômico gire em torno dos ecossistemas, derrubando, pois, a economia neoclássica que leva em conta o meio ambiente apenas pela ótica da externalidade, há um amplo conjunto de atividades que são potencialmente geradoras desses empregos ambientalmente equilibrados e favoráveis à qualidade de vida.

Essas atividades necessariamente passam pela descarbonização da atividade econômica. Dentre essas, destacam-se: a agricultura orgânica (com o desenvolvimento de compostagens e adubação orgânicas – transformação de resíduos em húmus), o turismo ecológico e de aventura (englobando patrimônios culturais e as belezas naturais), a reciclagem de resíduos (com a normalização dos catadores de materiais e criação de cooperativas), o setor de energia solar, atividades de apoio à produção e manejo florestal (dados da OIT – base 2009 – apontam que esse setor emprega 12,9 milhões de trabalhadores em todo o mundo), geração e distribuição de energias renováveis, saneamento, gestão de resíduos, processamento e distribuição de gás natural, atividades paisagísticas, caça e pesca, horticultura e floricultura.

Especificamente no setor de transportes, cabe destacar como bons postos de empregos verdes, o marítimo de cabotagem, por navegação, de travessia, ferroviário de carga, metroferroviário de passageiros, além da construção de embarcações e estruturas flutuantes.

Outro setor que responde afirmativamente pela geração de vagas no mercado de trabalho é o do cultivo da cana de açúcar para produção de etanol; resguardando-se, nesse caso, os impactos negativos sobre o meio ambiente, tais como a exaustão dos solos, degradação das matas, assoreamento e a poluição dos rios.

De toda sorte, os empregos verdes em uma economia de baixo carbono se insere na perspectiva de que é possível ainda salvar o planeta da agressão produtiva típica das economias modernas que anseiam a qualquer custo obterem elevadas taxas de crescimento econômico.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor, com especialização em Política Internacional e mestrado em Integração da América Latina (USP). email: prof.marcuseduardo@bol.com.br

25 abr

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Por uma economia pautada na ideia do decrescimento

Prof-Marcus OliveiraEnquanto a lógica do sistema econômico herdada dos ensinamentos da economia clássica estiver centrada na ideia do crescimento, a economia continuará cometendo o seu mais grave erro ao considerar os recursos naturais como algo infinito, ignorando os limites da biosfera no que tange à sua capacidade de prover recursos e absorver dejetos.

Romper com essa lógica dominante e buscar estabelecer uma economia pautada na ideia do decrescimento parece ser, a contento, a saída mais plausível para assegurar-se uma perspectiva de vida saudável num futuro próximo.

Fora isso, a economia deve “conversar” com a ecologia. A temática ecológica precisa, necessariamente, estar na agenda econômica de tal forma que não pode haver separação de diálogos e ações entre essas ciências.

Nesse pormenor, o tema mais relevante talvez seja discutir os limites do crescimento e a possibilidade de crescer sem agredir o meio ambiente; portanto, de prosperar economicamente sem fazer a economia se expandir. Até mesmo porque esse produtivismo/consumismo exagerados apresenta sérias consequências: esgotamento dos recursos energéticos (petróleo, gás, urânio, carvão) e degradação ambiental (efeito estufa, aquecimento global, perda da biodiversidade e poluição constante).

A busca pela preservação da qualidade de vida dos seres humanos passa obrigatoriamente pela adoção de um modelo econômico regido pela biosfera, incorporando a ideia central de fazer (produzir) menos com menos e, claro, consumir menos. O resultado disso? Menos produção econômica é sinônimo de menos poluição. Menos estrago ambiental é sinônimo de mais vida e ambiente saudáveis.

Torna-se cada vez mais insuportável manter um modelo econômico agressivo em termos de exploração de recursos naturais, dilapidador do meio ambiente, em troca de uma gama variada de produtos disponibilizados no mercado de consumo.

A dimensão-chave para isso talvez seja trocar quantidade por qualidade, mudando o discurso da busca de crescimento pelo desenvolvimento, à medida que o primeiro conceito representa expansão física da economia, ao passo que o segundo se refere à melhoria da qualidade de vida das pessoas. Em economia, o mais importante não são as mercadorias, mas sim as pessoas.

Para isso, a economia tradicional deve aceitar a premissa que o sistema econômico é parte – e não o todo – de um sistema maior, a biosfera. Sem sistema ecológico, não há economia. Não é mais possível continuar fazendo a economia crescer à custa da pilhagem do capital natural, diminuindo avassaladoramente o patrimônio natural. A insistência nesse modelo fará com que a própria economia diminua, num futuro próximo, à medida que a biosfera vai sendo completamente “enxugada” pela “máquina de produzir” da economia.

É certo que não há recursos em quantidades infinitas para o atendimento dos desejos de consumo ilimitados e expansivos. Atender esse consumo cada vez mais exigente de bens materiais é sacrificar substancialmente as bases da natureza. O exemplo do automóvel ainda é paradigmático. Se a sociedade chinesa, por exemplo, desejar ter o mesmo número de automóveis que tem a sociedade norte-americana, acabaríamos com o planeta em poucos dias. Apenas como único exemplo, para cada litro de gasolina queimado são necessários cinco metros quadrados de floresta durante um ano para absorver o CO2. Não há a menor condição física para isso.

O ponto mais relevante para a reversão desse modelo dilapidador da natureza, cuja “Pegada Ecológica” comprova que já ultrapassamos em 40% a capacidade deste planeta em nos prover recursos e absorver resíduos, está em estabelecer uma economia que leve prioritariamente em conta à sustentabilidade da Terra. E, para isso, o melhor a fazer é buscar o decrescimento da economia.

Nas palavras de Eric Assadourian, um dos diretores do WorldWatch Institute, dos EUA, quatro princípios devem ser seguidos para a consolidação da ideia do decrescimento, são eles: 1) Transformar a indústria do consumo, tornando a ideia da vida sustentável tão natural quanto à ideia de consumir; 2) Redistribuir os impostos, cobrando mais de indústrias que poluem, da publicidade (que fortalece o consumismo) e de quem ganha além do necessário para a sobrevivência básica; 3) Reduzir as jornadas de trabalho, dando às pessoas mais tempo, redistribuindo riquezas e gerando mais empregos; 4) Fortalecer a chamada “economia da plenitude”, em que as pessoas plantam mais para prover sua própria alimentação, cuidar de sua família e aprender novas habilidades.

É de fundamental importância mudar o paradigma dominante da economia tradicional que insiste no crescimento econômico como sinônimo de indicador supremo de prosperidade individual. Riqueza não está ligada à produção de mais bens e serviços pelos sistemas econômicos, assim como bem-estar não é sinônimo de acesso (consumo) às mercadorias.

A riqueza mais proeminente de uma nação é a preservação da saúde dos serviços ecossistêmicos; o bem-estar mais interessante que uma pessoa pode almejar é viver com plena qualidade. Dilapidar o patrimônio natural em nome da busca de modelos econômicos que priorizam o consumo supérfluo, tipo das economias ocidentais, é subestimar sensivelmente a qualidade de vida.

(*) Economista. Especialista em Política Internacional – Universidade de São Paulo- (USP) prof.marcuseduardo@bol.com.br

20 abr

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Trabalho Infantil: A escravidão do nosso século

Prof-Marcus OliveiraMarcus Eduardo de Oliveira (*)

Um sistema econômico que faz uso de trabalho infantil desumanizando as relações econômicas em troca do lucro rápido só pode ser classificado como tacanho. Esse modelo econômico não tem limites e se reproduz soberbamente em várias partes do mundo. Lojas de tapetes na Índia, no Nepal e no Paquistão usam quase um milhão de crianças na linha de produção. São vários os casos de crianças que atingiram a cegueira devido ao longo tempo em que passaram costurando.

Casas de prostituição tailandesas, indianas e birmanesas usam meninas de 11 anos de idade numa submissão sexual inadimissível. De igual maneira, em várias cidades das regiões Norte e Nordeste do Brasil, “programas sexuais” com adolescentes menores de 15 anos de idade são “vendidos” antecipadamente a estrangeiros pela internet.

No Oriente Médio, nas famosas corridas de camelo, os jóqueis são meninos entre 12 e 15 anos “comprados” por comerciantes e tratados com brutalidade, da mesma forma como também são tratados os camelos.

No Camboja, a indústria de tijolos e telhas faz uso de meninos descalços e sem nenhuma proteção básica para o transporte desse produto; por isso, muitas crianças aparecem com braços, pernas e dedos cortados pelo manuseio de pesados tijolos.

A poderosa fabricante de calçados esportivos Nike, enquanto enche os cofres (somente no primeiro trimestre de 2013 seu lucro foi de US$ 662 milhões) e torra fortunas em publicidade, continua usando trabalho infantil em Banten, na Indonésia. Nessa localidade, entre os anos de 2009 a 2011, a Nike deixou de pagar mais de 590 mil horas extras a 4500 funcionários.

No estado de Tamil Nadu (sul da Índia) quase 400 mil meninos e meninas trabalham manualmente produzindo cigarros da marca “Beddies” vendidos exclusivamente a elevado preço no mercado local. O “salário” dessas crianças não ultrapassa US$ 30 centavos/hora.

Os brinquedos distribuídos junto aos lanches das famosas redes alimentícias Mc Donald´s, Bobs e Burger King, em mais de 140 países, são feitos também por crianças menores de 15 anos em galpões sem nenhuma ventilação localizados em Taiwan. Muitas dessas crianças apresentam queimaduras nas mãos e nos braços em decorrência do uso de componentes químicos.

Na China, a maior exportadora de brinquedos do mundo, estimativas indicam que 70 milhões de crianças e adolescentes trabalham nas quase seis mil fábricas situadas na maior parte na província de Guangdong (sudeste do país).

Também a Mattel, a fabricante das bonecas “Barbie”, recebe denúncias apontando uso de mão-de-obra infantil nessas fábricas chinesas, cujo trabalho é remunerado a US$13 centavos/hora, numa jornada de trabalho de 14 horas/dia.

Esses fatos evidenciam e mostram a face da escravidão do nosso século: uso de trabalho infantil gerando riqueza para alguns grupos corporativos.

Em 2007, o lucro da Mattel atingiu US$ 379,6 milhões. Em 2008, somente a rede Mc Donald´s anunciou um lucro recorde de US$ 4,3 bilhões, valor esse que saltou para US$ 5,5 bilhões em 2011.

No Brasil, apesar da lei estabelecer a idade mínima de 16 anos para o ingresso no mercado de trabalho, segundo o IBGE são mais de cinco milhões de crianças e jovens entre 7 e 15 anos que trabalham em geral na agricultura.

De acordo com dados elaborados em 2008 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC), existem no mundo cerca de 350 milhões de crianças entre 5 e 16 anos envolvidas em alguma atividade produtiva.

Entre elas, cerca de 250 milhões são submetidas a condições consideradas de exploração, o que equivale a uma criança em cada seis no mundo. Destas, 170 milhões trabalham em condições perigosas e 76 milhões têm idade inferior a 10 anos. A maior parte deste “exército de mini-trabalhadores” vive na Ásia (127 milhões) e na África e Oriente Médio (61 milhões). Na América Latina e Caribe são 17,4 milhões. Os países industrializados e o leste europeu abrigam pelo menos cinco milhões de crianças trabalhando. Diante disso tudo resta indagar: até quando ocorrerá essa insanidade econômica, social e moral?

(*) Economista. Especialista em Política Internacional – Universidade de Havana

prof.marcuseduardo@bol.com.br

15 abr

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A terra não suporta excessos

MarcusEduardoSão quase 800 grupos corporativos mundiais que dominam a cena da intermediação financeira e se regozijam com a “economia da acumulação e da devastação”, pouco se importando com os custos ambientais gerados pela excessiva produção da qual fomentam. Para esses grupos, os passivos ambientais (poluição do ar, da água e a diminuição da cobertura vegetal do planeta, entre outros) não passam de meras externalidades, ou seja, não são contabilizados.

Com isso, a economia cresce defeituosamente, poluindo mais e ceifando vidas pelo caminho. De acordo com o relatório Desafio Global, elaborado pela ONU, em 2010, mais de 3 milhões de pessoas morrem ao ano em razão da poluição causada, por exemplo, pelo dióxido de carbono (CO2), monóxido de carbono (CO) e hidrocarbonetos (HC).

De um lado, a “turma do capital” se empaturra cada mais vez na tarefa em ganhar dinheiro; do outro, o meio ambiente sofre as consequencias.

Enquanto a forma de produção industrial não for mudada, respeitando os ciclos normais da natureza, longe ficaremos do verdadeiro Estado do bem-estar social, e cada vez mais veremos um crescimento econômico “falso” enraizado na premissa em satisfazer o consumo material dilapidando o capital natural.

Na China, expressão maior desse “crescimento dilapidador da natureza”, um terço dos rios e 75% dos lagos do país estão contaminados. Das vinte cidades mundiais mais poluidas, 16 delas são chinesas. Mais de 60% das mortes relacionadas à poluição ocorrem na Ásia, especialmente devido à explosão do crescimento econômico e compra de automóveis na região. Na Europa, só resta 0,1% das florestas do planeta, ante 7% existentes num passado não muito distante.

Já que a economia tradicional age de forma irresponsável e pouco compromissada para com a questão ambiental, cabe à economia ecológica a tarefa de alertar sobre os riscos advindos de uma produção econômica excessiva. É imprescindível, portanto, combater excessos e entender que o progresso humano não pode, em hipótese alguma, ser confundido com crescimento material, muito menos esperar que o crescimento físico da economia consiga satisfazer a todos. A Terra não suporta excessos. Gandhi, a esse respeito, assim profetizou: “A Terra possui recursos suficientes para prover às necessidades de todos, menos dos gananciosos”.

Nessa mesma linha de argumentação, Leonardo Boff diz que “(…) precisamos produzir para atender as necessidades humanas. Mas produzir respeitando os ritmos da natureza, os limites de cada ecossistema e optar por uma forma de consumo solidário, responsável, uma verdadeira simplicidade voluntária. Isso seria o desenvolvimento sustentável e humano. Caso contrário, não sobram recursos para as gerações de nossos filhos e netos. Não somos os únicos que usam a biosfera. Também os animais, as florestas e todos os seres vivos. Sem eles nós não sobreviveríamos”.

Essa crise ecológica ora vivenciada decorre do crasso erro “patrocinado” por um sistema econômico que defende um crescimento ilimitado num mundo limitado, como se a biosfera fosse um enorme báu inesgotável.

Se almejamos obter uma vida mais tranquila em um mundo mais desenvolvido e equilibrado do ponto de vista ambiental, urge pôr um ponto final nesse modelo econômico que somente faz diminuir o capital natural, agredindo os serviços ecossistêmicos. O primeiro passo para isso é criar e difundir uma consciência ecológica.

Essa consciência ecológica passa, obrigatoriamente, por eliminar aquilo que Fritjof Capra chama de “analfabetismo ecológico”.

Esse tipo de consciência se consegue disseminando informações. Para tanto, é preciso desenvolver uma política nacional de educação ambiental. Em outras palavras, é necessário criar a ecoalfabetização que seja capaz de sensibilizar a sociedade para a crucial importância que representa o sistema ecológico em nossas vidas.

Urge difundir a noção básica de que o crescimento econômico precisa ter limites e, antes disso, deve-se buscar um tipo de atividade econômica realçada nos valores da justiça social aliada à proteção do meio ambiente. Fora disso, é a vida que corre riscos.

Definitivamente, o homem não pode se esquivar dessa consciência. É imperioso não perder de vista que a natureza é a provedora maior das necessidades humanas, e, portanto, precisa ser tratada com parcimônia.

Infelizmente, parece que muitos ainda não se deram conta de que somos parte da natureza e que essa não é composta apenas pelos seres humanos. Todos os seres são interdependentes e formam a comunidade de vida.

Pela continuidade da vida, com padrões equilibrados e uma economia justa social e ambientalmente que esteja centrada no paradigma da preservação, conservação e sustentação do meio ambiente, espera-se que a ecoalfabetização aconteça, afinal de contas, a Terra não suporta excessos.

Economista e professor. Mestre pela USP em Estudos da América Latina. prof.marcuseduardo@bol.com.br

03 abr

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Só o decrescimento poderá evitar uma crise ecológica planetária, diz economista

03/04/2013 – Folha Oeste

Prof Marcus OliveiraSão Paulo – Na avaliação do economista Marcus Eduardo de Oliveira, professor da UNIFIEO e da Faculdade de Ciências da FITO, ambas em São Paulo, enquanto não houver uma mudança radical do modelo econômico freando o crescimento nos países mais avançados, estaremos cada vez mais próximos de uma séria crise ecológica, cujo resultado será catastrófico.

Falando ontem (02) à Folha Oeste, Marcus de Oliveira destacou que a ideia em torno do decrescimento precisa ser absorvida, em primeiro lugar, pela comunidade de economistas que foram educados pela teoria neoclássica que ainda recomenda o crescimento econômico como santo remédio para todos os males sociais. “Para esses economistas tradicionais, escapa-lhes a percepção que a economia está dentro de um sistema que se alimenta de uma fonte de energia e, por isso, a esgota.” É de fundamental importância que todos entendam, diz Oliveira, que a exploração do subsolo da terra tem limites, que a biosfera é limitada e não pode mais ser agredida da forma como vem sendo. Para tanto, é necessário propagar a noção capaz de redefinir o processo econômico integrando variáveis ecológicas e repensar a busca pelo crescimento a qualquer preço.

Oliveira acredita que “a noção do decrescimento econômico”, ou seja, frear o ímpeto de crescimento das economias mais avançadas somente “ganhará mais adeptos quando a maioria das pessoas perceber que a vida – e somente a vida – está acima de qualquer posicionamento da economia financeira, da economia que prioriza o valor e a quantidade, e não o conteúdo e a qualidade. E que para viver bem, com qualidade, com pleno desenvolvimento, não é preciso colocar mais produtos e mercadorias nas prateleiras dos supermercados, visto que isso é muito agressivo ao meio ambiente. Mais produtos significa menos ambiente à medida que aumenta a poluição; portanto, na prática, é sinônimo de menos vida”. Penso que o decrescimento poderá evitar a crise ecológica, disse Oliveira.

“No meu entendimento, o crescimento da economia só é recomendável em sociedades em que as pessoas estejam vivendo num nível abaixo das suas necessidades básicas. Nesses lugares, contudo, o crescimento é bem-vindo até certo ponto, ultrapassado o ponto ótimo tem-se problemas, pois todo e qualquer crescimento tem limites e é simplesmente impossível crescer infinitamente num planeta finito, cujos recursos são limitados”, explicou.

O economista criticou enfaticamente a macroeconomia tradicional que trata o sistema econômico como um processo circular isolado, ignorando o fato que para se produzir algo é necessário extrair matérias-primas e energia do meio ambiente, transformar em mercadoria e depois devolver ao ambiente os dejetos.

Fonte: – Folha Oeste

(Entrevista à Ricardo Almeida)

02 abr

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Os excluídos da economia mundial

marcusfoto54Até dezembro do corrente ano conheceremos o primeiro indicador de bem-estar e felicidade no Brasil. O Well Being Brazil (WBB), como será chamado o Índice de Bem-Estar Brasil, vai medir o nível de satisfação do brasileiro. Em suma, dez temas serão analisados: clima e atividades ao ar livre, transporte e mobilidade, família, redes de relacionamento, profissão e dinheiro, educação, governo, saúde, segurança e consumo.

Tal proposta está relacionada, na prática, à ideia em torno da Economia do Bem-Estar Social que se assenta numa visão de equilíbrio e equidade, evitando-se assim as distorções socioeconômicas. Em outras palavras, é aquela situação em que o sistema econômico envereda-se pelos caminhos de uma justa distribuição dos ganhos, tornando menos desigual, mais humana, justa e mais inclusiva à participação das pessoas dentro do conjunto da economia.

Dito de outra forma, para estar econômica e socialmente bem deve se atingir aquele estágio em que a economia cresça sem agredir os serviços ecossistêmicos, fazendo da questão social sua mais elementar prioridade. Para tanto, é imprescindível colocar as pessoas em primeiro lugar visando assegurar de forma satisfatória o atendimento pleno das necessidades dos menos privilegiados, uma vez que a economia precisa estar à serviço das pessoas, e não o contrário.

No entanto, resta saber: quem são esses menos privilegiados? São milhões de seres humanos que se encontram “excluídos da economia mundial”, para usarmos a expressão de Amartya Sen.

Colocar a economia para atender esse contingente de excluídos só faz sentido se o sistema econômico apresentar como característica precípua um modelo de organização econômica que esteja pautado na cooperação, capaz de somar e incluir.

Enquanto a teoria do bem-estar não apresenta essa faceta, lamentavelmente aumenta-se de forma assustadora o contingente de excluídos da economia mundial. Vejamos alguns números em relação a isso: 870 milhões (12,5% da população mundial) passam fome; 783 milhões (11% da população mundial) de pessoas não têm acesso à água potável; apenas 63% dos habitantes do planeta têm acesso a saneamento básico; 1,1 bilhão de pessoas ao redor do mundo ainda fazem suas necessidades fisiológicas ao ar livre – a grande maioria (949 milhões) vive em zonas rurais.

Mais de 28 milhões das cerca de 80 milhões de crianças encontram-se atualmente longe da sala de aula vivendo em 12 nações da África e da Ásia. Nesse pormenor, só a Nigéria tem 10,5 milhões de crianças sem estudar.

Em 2011, 13% do total de jovens, ou cerca de 75 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos, estava sem trabalho.

Ainda no que toca aos aspectos relacionados à saúde, todos os anos 4 milhões de pessoas morrem vítimas de malária, AIDS e tuberculose. Fora da África, apenas a malária afeta 34 milhões de pessoas, levando mais de 40 mil delas ao óbito a cada ano. No mundo, todos os dias, 7,5 mil pessoas são infectadas pelo vírus HIV e 5,5 mil morrem em consequência dessa doença.

Em relação às crianças, 19 delas com menos de cinco anos de idade morrem a cada 5 minutos de pneumonia; são 5 milhões de crianças que a cada ano não completam cinco anos de vida. Quinhentas mil mães morrem a cada ano na hora do parto devido à assistência médica insuficiente.

Diante desse quadro terrível de degradação das condições de vida humana, é possível encontrar na atividade econômica todas as possibilidades para reverter essa situação. Que a economia do bem-estar social possa alcançar e resgatar esses excluídos da economia mundial o quanto antes. A vida agradece.

(*) Economista, com mestrado pela USP.

Professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO (São Paulo).

prof.marcuseduardo@bol.com.br

26 mar

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A especulação financeira e a fome mundial

MEO PIB mundial em 2013 deve atingir o montante de 74,1 trilhões de dólares correntes. Com 1,1 bilhão de habitantes, a participação das economias mais ricas no “bolo” da produção de bens e serviços deve ser de 49,2%, com uma renda per capita de mais de 41 mil dólares em termos de paridade do poder de compra (ppp, na sigla em inglês).

Do outro lado do planeta, a renda per capita para os demais 6 bilhões de habitantes atingirá 7,4 mil dólares (ppp).

Assim, o “bolo” da economia mundial vai crescendo e cada vez mais as distorções em termos de acesso ao que foi produzido vão se acentuando. Enquanto o “lado rico” do planeta continua recebendo polpudas ajudas financeiras, ao “lado pobre” sobram quirelas.

Em abril de 2009, numa reunião em Londres, os países integrantes do G-20 (as 20 economias mais avançadas) prometeram aos países vulneráveis a importância de 1,100 trilhão de dólares. Passados quatro anos, somente 5% desse valor “desembarcou” nos cofres das economias mais carentes, ao passo que, no mesmo período, US$ 18 trilhões foram injetados nas veias das instituições financeiras dos países mais avançados.

Depois do pacote de ajuda à Grécia, Portugal e Irlanda, agora é a Espanha que pede socorro. Os países da zona do euro já se movimentam para esparramar na economia espanhola até 100 bilhões de euros (cerca de R$ 251,1 bilhões) na tentativa de recapitalizar o setor bancário. De onde virá o dinheiro? Do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE).

Não obstante a isso, a financeirização internacional movimenta em termos especulativos 3,5 trilhões de dólares por dia, montante 40 vezes superior ao valor monetário das transações de bens e serviços mundiais. Depois que eclodiu a crise financeira internacional em 2008, os especuladores retiraram recursos de ativos de alto risco apostando na valorização das commodities puxando assim os preços dos alimentos para cima, o que resultou maior dificuldade de acesso à comida, sobretudo nas áreas mais afetadas pela fome.

Por esse caminho, de um lado, se empanturram de dólares os cofres da agiotagem internacional, enquanto do outro ronca de fome 1 bilhão de estômagos vazios. Desse 1 bilhão de pessoas (jovens, idosos, pobres e miseráveis) que passam fome, 180 milhões (quase um Brasil inteiro) são crianças (menores de 10 anos de idade). Destas, 11 milhões são sepultadas todos os anos.

Enquanto se discute meios para proporcionar ajuda monetária aos incompetentes banqueiros internacionais, o mundo contabiliza 25 milhões de óbitos em decorrência da Aids.

Enquanto os dentes afiados dos especuladores agem livres, leves e soltos nas praças financeiras em busca das maiores taxas de juros e da valorização de commodities, corpos de inocentes vão tombando ao chão pela falta de acesso à água potável e pela crônica desnutrição – a cada 3 segundos uma pessoa morre de fome no mundo. Só na Somália, as Nações Unidas estimam que 3,9 milhões de pessoas estejam passando fome, o que equivale à 40% da população (dados de 2011).

No entanto, bastaria menos de 0,5% do PIB mundial para acabar de uma vez por todas com essa sandice chamada fome e desnutrição. Já que há um Fundo de Estabilidade Financeira, por que não é criado um Fundo de Amparo à Fome e a Desnutrição? Já que há um Mecanismo de Estabilidade para salvaguardar bancos, por que ainda ninguém pensou em criar um Mecanismo de Moralidade para decretar o fim da pobreza e da miséria no mundo?

(*) Economista, especialista em Política Internacional e mestre pela USP.

Professor de economia na UNIFIEO e na FAC-FITO (São Paulo)

prof.marcuseduardo@bol.com.br

18 mar

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O desenvolvimento não tem limites, mas o crescimento sim

Prof-Marcus OliveiraPela régua da tradicional macroeconomia, mede-se crescimento econômico de um país a partir das mudanças na produção física, enfatizando o aspecto quantitativo, levando-se em conta o movimento ascendente de algumas grandezas econômicas (renda nacional, geração de empregos, entre outras) modificando alguns setores econômicos.

Assim, crescimento é aumentar a quantidade dos bens de produção. Grosso modo, é expandir a base física da atividade produtiva colocando mais mercadorias nas prateleiras para que o deus-mercado absorva e repasse aos consumidores vorazes. Contudo, o crescimento econômico só faz sentido se promover o desenvolvimento social e humano, sem agressão ambiental. Por razões óbvias de finitude dos recursos naturais, esse propagado crescimento tem limites, embora a economia tradicional não aceite de bom grado esse apanágio.

Já o desenvolvimento econômico passa pela expansão e acesso das chamadas possibilidades criativas, proporcionando diversas oportunidades que se abrem aos indivíduos, permitindo que essas se coadunem no imperativo das condições de melhoria da vida pessoal, até mesmo porque o desenvolvimento se refere às pessoas e não aos objetos e as mercadorias.

Desenvolvimento econômico implica, ademais, mudanças estruturais, culturais e institucionais e visa indubitavelmente proporcionar bem-estar. Assim, o desenvolvimento social e humano tem o crescimento econômico como meio e a melhoria do padrão médio de vida das pessoas como fim. Desenvolver uma economia, nesse sentido, é criar e possibilitar mais qualidade às pessoas. Enquanto crescimento é associado à quantidade, o desenvolvimento se associa à qualidade.

Pois bem. Como todo e qualquer sistema vivo que habita a natureza, o crescimento (espécie de “ser vivo” do sistema econômico) é uma condição inerente; cedo ou tarde, vai acontecer.

Contudo, todo e qualquer crescimento tem um determinado ponto em que precisa parar uma vez que a expansão infinita – impossível de ser alcançada – não encontra base de apoio dentro de uma biosfera de ordem finita. Por isso, o crescimento tem limites, mas o desenvolvimento não.

Essa é a razão precípua que deve ser enfrentada com seriedade por governos que aplicam políticas econômicas que somente estimulam o crescimento, mas nem sempre conferem maior atenção ao desenvolvimento. Um dos motivos que leva a essa distorção de finalidades é enxergar nas taxas de crescimento as justificativas plausíveis para se atenuar, por exemplo, os vexatórios índices de miséria e pobreza que marcam algumas sociedades contemporâneas. Um dos equívocos ainda muito em voga nas economias modernas é defender que o crescimento, per si, elimina automaticamente as taxas de pobreza.

A pobreza – quando conceituada corretamente – jamais deve estar relacionada apenas ao aspecto monetário. Dessa maneira então, não se deve conceituar pobreza tão somente pela ausência de dinheiro nos bolsos. O correto conceito de pobreza passa além disso. Logo, não é fazendo a economia crescer gerando mais renda em nível nacional que se conseguirá mediante isso colocar – automaticamente – um ponto final nas taxas de pobreza.

Se assim fosse, o desempenho econômico alcançado pelo Brasil nos últimos 100 anos, quando nossa economia fez o PIB crescer em mais de 150%, teria sido um dos mais ilustrativos exemplos. No entanto, a economia cresceu, mas não eliminou as diferenças sociais em proporção semelhante. O mesmo ocorreu com a economia mundial que nos últimos 210 anos cresceu mais de 50 vezes. No entanto, para ficarmos num único exemplo, a vida de 4,1 bilhões de pessoas (60% da população mundial) que habitam o continente asiático (com destaques para a China, Índia e Indonésia) não melhorou na mesma escala de crescimento.

Pior ainda é verificar que todo esse crescimento econômico mundial ao longo do tempo mencionado se deu sob intensa destruição e pauperização do meio ambiente. Definitivamente, quem degradou – e continua degradando – a qualidade de vida do planeta foi (e continua sendo) o sistema econômico praticado sem limites e parcimônia.

Em decorrência da condução de uma atividade econômica de maneira expansionista, coube ao homem-econômico destratar o meio ambiente em três grandes frentes: 1) no papel de usufruidor de recursos naturais; 2) na condição de consumidor voraz de bens e serviços e; 3) como potencial “produtor” de dejetos em forma de lixo.

Esse homo sapiens industrial, usando a expressão de Paula Brugger, soube como ninguém interferir nos planos da natureza. Nas palavras dessa autora: “A Terra tem 4,6 bilhões de anos. Durante as últimas frações de segundo geológico da história do nosso planeta, o homo sapiens industrial interferiu em ciclos naturais que levaram de milhões a bilhões de anos interagindo dinamicamente para formar as atuais condições de vida que conhecemos e às quais nos adaptamos. Tais intervenções antrópicas têm se traduzido frequentemente em problemas como extinção de espécies, mudanças climáticas, poluição, exaustão de recursos úteis ao homem e outras questões que nos são hoje bastante familiares.”

Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor com mestrado pela (USP).

prof.marcuseduardo@bol.com.br

11 mar

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A economia é um subsistema do meio ambiente

Prof MarcusDefinitivamente, a economia neoclássica têm sérias dificuldades em aceitar o fato de que a economia é apenas um subsistema do meio ambiente. Centrados numa visão míope do diagrama do fluxo circular (empresas fornecendo bens e serviços às famílias dada as condições do mercado de fatores de produção) que é de natureza hermeticamente fechada, isolada e restrita, os economistas tradicionais não enxergam (ou não querem enxergar) a completa inter-relação existente entre a economia e a natureza.

Diante disso, passam por cima das questões ambientais, pois entendem que a economia é soberana e superior a tudo. Para os “tradicionais”, as questões de ordem ambiental não passam de meros setores pertencentes à macroeconomia, como são os casos da pesca, da agropecuária, das florestas, entre tantos outros. Para esses não há limites e obstáculos ditados pelo ambiente e a expansão da atividade produtiva pode ocorrer sem maiores transtornos.

Pensando assim, os economistas tradicionais ignoram o que realmente se sucede em termos reais de movimentação dentro de um sistema econômico: entra (materiais) e sai (resíduos); entra matéria e energia, sai ejetada poluição (lixo); logo, a economia não pode ser vista como um sistema fechado. Ao contrário: a economia nada mais é que um sistema aberto dentro de um amplo sistema (o ambiente) que tem a finitude como sua maior característica.

Nesse ponto, convém chamar a atenção para o desenho aqui apresentado: fluxos de entrada (materiais e energia) e de saída (produtos e resíduos ejetados) precisam ser considerados em sua essência, e não relegados ao descaso como é comum pela visão econômica tradicional. A economia necessita (e sempre precisará) da natureza, e não o contrário. Nas palavras de Clóvis Cavalcanti, “não existe sociedade (e economia) sem sistema ecológico, mas pode haver meio ambiente sem sociedade (e economia)”.

É totalmente equivocado pensar a atividade econômica de forma ermitã. A economia é apenas uma parte de um todo; o todo é o meio ambiente.

Nessa linha sistemática de defesa em torno do meio ambiente, quando se aponta dedo em riste sobre a atividade econômica, pontuando a exploração de recursos em favor de um crescimento antieconômico, é forçoso aventar que o “tipo de economia” que pretendemos, capaz de assegurar a capacidade de progresso à geração futura, não está fazendo o jogo do antiprogresso, do antidesenvolvimento, da antievolução. Para termos progresso, desenvolvimento e evolução, de fato e de direito, é necessário entender que há limites biofísicos, e esses obrigatoriamente devem ser respeitados.

Por isso, não há como escapar da seguinte premissa: crescer significa usar o meio ambiente, e mais crescimento significa menos meio ambiente, pois como aponta Herman Daly, a biosfera é finita, não cresce, é fechada (com exceção do constante afluxo de energia solar) e obrigada a funcionar de acordo com as leis da termodinâmica.

Também por isso e para isso, cabe destacar que qualquer subsistema, como a economia, em algum momento deve necessariamente parar de crescer e adaptar-se a uma taxa de equilíbrio natural.

Funda-se nesse argumento um fato imperioso: parar de crescer não significa parar de se desenvolver. É perfeitamente possível prosperar sem crescer. Prosperidade é sinônimo de bem-estar para todos. Logo, não pode haver prosperidade em ambientes que são constantemente expostos à degradação, reduzidos a poluição como objeto final, afetando a qualidade de vida das pessoas.

Com isso, é urgentemente necessário trocar a busca incessante do crescimento (expansão quantitativa) pelo desenvolvimento (melhoria qualitativa). No linguajar dos economistas-ecológicos crescimento econômico vai até certo ponto, ultrapassado esse ponto não há melhorias, mas sim perdas significativas começando pela qualidade do ar que respiramos e pela completa destruição do espaço natural, afetando sobremaneira a qualidade de vida nas cidades, tornando-as insustentáveis.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista, especialista em Política Internacional pela (FESP) e mestre em Estudos da América Latina pela (USP).

prof.marcuseduardo@bol.com.br

07 mar

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O interior ultrapassou a capital

Prof MarcusO potencial de consumo dos lares brasileiros tem agora um novo líder. A região do interior do estado de São Paulo ultrapassou a Capital e a Região Metropolitana de São Paulo (38 cidades) e se converteu no maior mercado consumidor do país.

Os números que representam esse cenário são ilustrativos. Em 2012, os mais de 22 milhões de habitantes das 607 cidades do interior paulista gastaram pouco mais de R$ 380 bilhões, ao passo que os moradores da capital e da Região Metropolitana gastaram R$ 379 bilhões em alimentação, habitação, saúde, transporte e lazer.

Essa pujança consumista do interior paulista está intimamente relacionada a alguns segmentos produtivos. O fato proeminente é que a “interiorização” da economia transformou o mapa do desenvolvimento do Estado ao colocar na agenda de investimentos o agronegócio (respondendo hoje, por exemplo, com mais de 63% da produção nacional de açúcar, 60% da de álcool, 95% do suco de laranja exportado e 13% do gado abatido), além dos segmentos de petróleo e gás. Esses três segmentos, em conjunto, permitiram levar novas tecnologias ao interior, facilitando a geração de empregos e o aparecimento da renda, estimulando como consequência o consumo.

Em 2011, a região do interior paulista absorveu 44% dos empregos gerados no Estado. Esse percentual representa 13% de toda a geração de empregos no País. Um ano antes, em termos de valores, os investimentos foram de quase R$ 50 bilhões no Estado de São Paulo, sendo que o interior abocanhou mais de R$ 21 bilhões desse montante. Já em 2011, o Estado de São Paulo somou em investimentos a importância de quase R$ 84 bilhões. Desse montante, mais de 50% tomaram as estradas rumo às cidades do interior.

Com geração de emprego e renda em alta, melhoram-se consideravelmente as condições de vida da população. Tomando como base o Índice de Desenvolvimento Municipal que mede o desenvolvimento dos municípios a partir das quantidades de emprego formal, matrícula infantil, consultas pré-natais e mortalidade infantil, dos 100 melhores do Brasil 73 estão em São Paulo (dados de 2012).

Os dez melhores índices nacionais são cidades paulistas, localizadas a mais de 430 km da capital, com destaque para as duas primeiras: Indaiatuba e São José do Rio Preto.

Esse avanço econômico do interior paulista se conecta ao intenso processo de descentralização que a economia brasileira tem vivenciado. Quando uma região absorve empresas com potencial tecnológico, como é o caso dos segmentos mencionados acima, leva-se junto toda uma cadeia de novas empresas do setor de serviços e, principalmente, de comércio. Isso dinamiza e pulveriza a atividade econômica, pois permite o surgimento de novas demandas, estimulando mais ainda o consumo em todas suas vertentes.

Não por acaso, há mais shoppings-centers no interior do que na Grande São Paulo. Ilustrando melhor essa situação é oportuno dizer que 80% de toda a produção de cosméticos e eletrônicos, por exemplo, é consumida no interior paulista.

Nesse pormenor, os principais destaques ficam para Campinas, Sorocaba (que possui mais de 1,5 mil indústrias no segmento de manufatura), São José dos Campos e a Baixada Santista.

Junto aos investimentos em paralelo aparece o consumo. A renda per capita de cidades como São José dos Campos e Campinas, por exemplo, é de R$ 34 mil e R$ 27,7, respectivamente. Esses valores são superiores à média nacional que é de R$ 19 mil.

Em 2011, o interior paulista contava com um PIB de US$ 146 bilhões, valor superior a toda a produção de bens e serviços da Nova Zelândia. A força econômica do interior paulista supera a produção de vários países, dentre eles o Chile (que produz 10% menos).

Esse potencial decorre do fortalecimento da infraestrutura da região interiorana. Uma região que contém o maior porto do país (Santos), uma importante hidrovia (Tietê-Paraná) e alguns bons aeroportos facilitando o escoamento de cargas (Viracopos, em Campinas, p. ex.) sempre será fortalecida em relação a lugares cuja infraestrutura ainda carece de investimentos.

Não obstante a isso, vale mencionar o exemplo da região do Vale do Paraíba que abriga a quarta maior indústria mundial de aviões de uso comercial, a EMBRAER, em São José dos Campos.

Em termos de valores científicos, o interior paulista conta com importantes polos universitários: Campinas (UNICAMP), Ribeirão Preto (USP), São Carlos (USP), São José dos Campos (ITA) e Piracicaba (ESALQ) são modelos de produção intelectual, uma vez que respondem por ¼ de toda a produção científica do país. Tudo isso permite o fortalecimento econômico, cultural e também político do interior.

(*) Economista, com especialização em Política Internacional e mestrado em Estudos da América Latina pela (USP).

prof.marcuseduardo@bol.com.br