14 fev

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O ENIGMA

“Uma lenda sobre a fundação de Santana do Ipanema”

Era uma vez, três irmãos, Frederico, Lutero e Pedro. Três donatários de terras remanescentes, que se estendiam desde a serra do Ororubá na capitania de Pernambuco, até a freguesia de Porto da Folha, sob a égide de Nossa Senhora da Conceição, as margens do rio São Francisco. Pois bem, esses impávidos desbravadores viviam conforme as vicissitudes de que suas terras lhes propiciavam. Frederico, pecuarista, tirava o máximo de proveito da região de clima ameno, no alto sertão, onde assentou moradia. Lutero, agricultor, vivia alternadamente períodos de fartura e escassez, devido à região que ocupava o médio sertão. E Pedro a despeito de ocupar as margens do “Velho Chico”, era pescador, vivia da pesca.

Frederico praticamente nascera encima dum cavalo, sua mãe, mesmo na sua gravidez, já perto do menino vir ao mundo vivia nas caatingas do sertão, na lida com os bovinos. Mulher destemida, laçava, derrubava e ferrava boi no mato. Separava as novilhas que já estava em época de pegar cria. E conhecia as características dos garrotes com capacidade de cobertura. A vaca boa de leite, sabia que não era a de carcaça cheia, volumosa. Vaquinhas leiteiras eram as magrelas, pois tudo que comiam era pra transformar no precioso líquido lácteo.

Touro era tratado no capricho, garantia de boas coberturas. Rebanho bom era rebanho manso, que bovinamente pastava no cercado. Ora contido no curral, ora na canga do carro gemedor, ou ainda sulcando a terra no bico do arado Tudo isso Seu Frederico aprendeu na vivência com os servis bubalinos. Se quiser saber quem é que acorda o sertão pergunte ao vaqueiro. Quem pensar que são as aves, a pipilar, ou o galo com seu despertador có-có-ri-có, ou mesmo o bezerro mugindo a desmama, no curral, está enganado, quem acorda o sertão é o vaqueiro. E a boquinha da noite, todos se reuniam no alpendre, e rezavam uma reza, que pedia a Deus proteção, para os bois de arado, que não houvesse ali cavalo desertado, nem naquela casa morresse mulher de parto. Um dia Seu Frederico teve um sonho, muito parecido com aquele que o faraó teve lá no Egito, narrado nas escritas sagradas.

Seu Frederico sonhou com sete vacas gordas, e sete vacas magras, e sete espigas de milho. Só que, ao invés das vacas magras engolirem as gordas, aparecia um touro brabo, dez vezes maior que as catorze vacas, e investia contra eles. Bem cedinho, no raiar do dia, foi até o curral, e algo incrível ocorreu, um dos bois, o mais velho, começou a falar com Seu Frederico, com sua voz de boi velho e cansado, ele disse bem assim: “-Seu Frederico, eu sei o significado do seu sonho, porém só contarei se o senhor prometer me soltar na mata, pra que possa viver livre o resto dos meus dias.” Seu Frederico concordou. Então ele continuou: “-As sete vacas gordas que o senhor viu no sonho é o senhor com sua propriedade. As vacas magras é seu irmão Pedro pescador, com suas posses. As sete espigas, o seu outro irmão Lutero, o agricultor. O touro brabo que investe contra vocês é o poder do império, os três precisam se unir para não perderem o que tem.”

Lutero o agricultor, puxou a seu velho pai, amava a terra. Desde pequeno acompanhava a lida do campo, tinha consigo ensinamentos conservados do velho patriarca da família, que lhes ensinara os preceitos do Padre Cícero do Juazeiro, que dizia: “Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau; Não toque fogo no roçado, nem na caatinga; não cace mais, deixem os bichos viver; não crie boi nem bode solto, faça cercado; não plante de serra à cima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra; faça cisterna no oitão de sua casa para guardar água da chuva; represe os rios de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta; plante cada dia, pelo menos um pé de algaroba, caju, sabiá, ou outra árvore qualquer; aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como maniçoba, favela e jurema; tudo isso pode lhe ajudar a conviver com a seca.” E procurava seguir à risca o decálogo Ciceriano, sempre, sempre que podia. Bem como outras práticas que só quem vive vida roceira conhece. Controlar o registro da máquina de plantar pra deixar cair a quantidade certa de grãos de milho e feijão, por cova. No plantio da palma fazer com que a raquete ficasse com a face voltada pra sol nascente de um lado, e poente do outro. Regular bem o caititu pra descascar a mandioca. Repreender os pequenos quando descobriam entre a ramagem uma melancia ou abóbora, pra não apontarem com o indicador, senão os frutos paravam de crescer. E como gostaria de entender porque um pé de abacate só dava frutos se estivesse ‘olhando’ pra outro pé. Seu Lutero era homem sensato, fazia cilagem pra enfrentar os períodos de estiagem. Armazenava grãos nos vasos, e no dia da armazenagem, sabe-se lá porque, não podia ter mulher ‘naqueles dias’, ajuntando os grãos. E temente a Deus destinava a paróquia de sua igreja o dízimo de sua colheita. E quando era de tardezinha todos se reuniam embaixo do telhado, os homens tiravam os chapéus da cabeça e agradeciam a Deus, os frutos da terra. Um dia, Seu Lutero foi olhar umas armadilhas que colocara pra pegar preás, e encontrou uma nambu, enroscada na rede. Algo incrível ocorreu, a pequena perdiz, começou a falar com Seu Lutero. Disse-lhe que se ele a soltasse contaria um segredo, o camponês concordou. E a ave falou da ameaça que pairava sobre os três irmãos, que ele procurasse ir ao encontro dos outros. E ele assim procedeu.

Pedro tinha uma particularidade, só ia pescar, depois de consultar em que fase se encontrava a lua. Era ela, a mãe lua, que ditava os dias bons pra pesca. Fosse com rede de arrasto, que pegava peixe graúdo, Ou que dias de tarrafa, que trazia peixe miúdo. Os dias do jereré traziam camarão, e pitu. Do terreiro de sua casa dava pra ver o rio. O amanhecer ali era algo divino, contemplar as águas se acordando vindo encher os olhos. O sol se espreguiçando, lavando o rosto, se olhando no magnífico espelho d’água. E o rio amava o homem, que amava o rio. E era um amancebo tão sincero que se despiam um para o outro, sem pudores. E como se amavam. Tanto, a ponto de se sentirem um só, rio e homem. Um dia, melhor dizendo num cair de tarde, Pedro estava pescando com vara, sentado na barranca. E fisgou um peixe enorme, que de tão grande quase arrebenta a linha. Ao trazê-lo pra si, o peixe começou a falar, pedindo que se o pescador o soltasse lhe revelaria um segredo. Teria lembrado a Pedro um sonho em que ele, feito o profeta Jonas da Bíblia, fora engolido por uma baleia. Orientou que procurasse seus outros dois irmãos, e assim iria entender o que significava. Segredo revelado, o peixe foi solto.

E eis que os três irmãos se encontraram. De comum acordo decidiram ir à presença do rei, para saber se realmente havia interesse da parte daquele, de retomar suas terras, ou que outros planos o monarca arquitetava para com os três irmãos. Em sua presença revelariam os sonhos, os casos dos animais falantes, os segredos revelados. Na manhã do dia 02 de outubro de 1789, no porto de São Vicente, da capitania de igual nome, Frederico, Lutero e Pedro, decididos, viajaram em busca de se encontrar com o rei. A bordo do navio “Albatroz” sob o comando do almirante Francisco de Paula partiram em direção a Europa, foram ter com o rei que se encontrava numa reunião importante na França, dias depois da revolução.

Diante dos três, na presença de toda a corte, o rei disse o seguinte: “-Realmente, eu estava pretendendo retomar as terras devolutas daquela sesmaria. Por considerar que nenhum retorno trouxe até então, pra Coroa. Porém tenho uma proposta, farei a cada um de vocês uma pergunta se responderem acertadamente, voltarei atrás com meu plano, deixando tudo como está. Caso todos errarem, já sabem, levarei avante meu plano.” Pedro adiantando-se confabulou “-Digníssimo rei! Na minha humilde opinião, acho justo que caso, pelo menos um de nós acertemos uma de suas adivinhas, sejamos também merecedores de inquirir também o rei num enigma. Concorda?” O rei achou sensato. E tudo ia sendo transcrito pelos escribas. E o rei perguntou ao primeiro, dos irmãos: “-Que mulher sendo pequena na terra é grande no céu?”

Frederico respondeu: “-Maria, a mãe de Jesus Cristo!”. “-Errou!” disse o rei: “-Ana, seria a resposta certa. Ana, no céu e profetisa, na terra por conta de um acento, vira anã!” “-Que montaria é digna de um rei?” foi a pergunta dirigida a Lutero. “-O cavalo!” respondeu. “-Errou também. O jumento, foi a montaria que o rei dos reis, Jesus Cristo, usou quando entrou em Jerusalém!”

Finalmente a pergunta a Pedro: “-Responda-me: O que é, que mesmo sem sair do lugar, pode nos levar a lugares distantes?” E Pedro respondeu: “-Ó nobre monarca! Achas que irei responder o pensamento. Mas a resposta certa é o rio.” “-Oh!

Muito bem!” disse o rei. “-Afinal há alguém inteligente aqui! Pois bem meu rapaz agora chegou sua vez, pode fazer a sua pergunta!” Pedro então disse: “-Ilustríssimo imperador, quero primeiro dizer que esse enigma encerra uma terrível maldição, caso vossa alteza não acerte se transformará imediatamente num bicho!” O rei ficou aflito, no entanto não podia voltar a trás. E Pedro perguntou: “-O que é, o que é seu rei, que lhe pertence porém os outros usam mais que vossa senhoria?” O rei pensou, pensou, e finalmente disse: “-Ora! É o meu palácio!” Pedro esclareceu: “Não majestade! É o seu próprio nome.”

Imediatamente o rei, diante de todos se transformou num horrendo lobisomem, que fugiu dali pra montanhas. E Pedro daquele dia em diante, por sua arte em decifrar enigmas, ficou conhecido por Pedro Malasarte. Os irmãos retornaram a sua terra, decididos a prosperar. Fundariam uma vila que teria Senhora Sant’Ana como padroeira, um rio remanescente, e o jumento seria homenageado em praça pública.

05 fev

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O Medalhão de Ouro

Houve uma tarde, dessas em que um céu se havia em todo seu esplendor. E o silêncio de Deus vinha vindo e pairava sobre toda criatura. E o sol naquele instante dava de chegar, ao mesmo lugar do dia em que Jesus expirou no alto do madeiro. Mas somente aos espíritos elevados era permitido perceber isso. Visto assim o mundo parecia experimentar o preâmbulo da consumação dos tempos. Foi num momento como esse, que um táxi parou na porta do abrigo São Vicente de Paulo. Mais uma idosa acabava de chegar pra compartilhar um dos cômodos junto aos demais internos.

Assentado num barranco, de barro vermelho, no início da Rua São Vicente. Ao sopé do serrote do Pintado, pelo lado Sul, o Asilo para idosos São Vicente de Paulo, é uma construção de linhas simples. Um único bloco, retangular, ornado de janelas na parte externa. Na parte de dentro, um enfileirado de pequenos quartos, guarnecidos de varanda, com caída d’água pra um singelo pátio descoberto, ornado de plantas. Em tudo lembrando um pequeno convento. Ao entrar ali, os olhares convergiam pra capela e o refeitório, estrategicamente localizados. Onze almas de senis cristãos viventes, por aqueles dias, encerravam parte daqueles cômodos. Sete mulheres e quatro homens. Feitos passageiros, de uma nave chamada tempo, estranhamente navegavam, sem saber dia nem hora que iriam desembarcar. A cada quarto, camas de velhos colchões, uma pequena cômoda, um filtro de barro, um copo num pires. Um banheiro igualmente simples, com uma pia, um pequeno espelho quadrado. Um sabonete um rolo de papel higiênico, um lixeiro, um penico de estanho. Invadindo as narinas, forte cheiro de desinfetante, como se a dizer às moscas que ali não eram bem vindas. Porém insensíveis a tal informação, esvoaçavam e iam pousar onde bem entendiam. Em todos os cômodos uma característica comum, as malas dos seus ocupantes pareciam preparadas, prontas pra viagem.

Apoiando-se no braço da zeladora da instituição como se a muito a conhecesse, lá vinha dona Aureliana Feitosa, se deixando ser conduzida pela passarela. Acabava de chegar a décima segunda tripulante, da nave de gastar tempo. Tempo restante de vida. O chofer do táxi, um negro de boné bufante, as seguia levando a surrada malinha de couro preta, contendo tudo o que a velha senhora possuía. O jardim, as Cássias e espadas de São Jorge em rubro e verde tornado. As paredes pintadas, os telhados nada atraía a atenção, da nova hospede. Como se a única coisa que interessasse, naquele momento fosse apenas ir pelo passeio. Não se dava conta de que pra onde estava indo, não havia volta, não havia saída. Se quer dava-se ao trabalho de lançar um olhar aos demais idosos. Dali pra frente seus companheiros de viagem. Relegados ao ato de existir, era hora de estar ali e esperar, e esperar. O traje da tripulação, roupas de dormir. Como se numa máquina de sonho. E sob uma sonolência se permaneceriam, donde só deveriam acordar, quando chegasse o dia do desembarque, assim viviam. Os homens, sentados nas camas, nas cadeiras de balanço dos alpendres, se ocupavam com coisa alguma. Deles, deitados dormiam. As mulheres preferiam conferir os pertences das suas malas, dobrar roupas. A presença de estranhos, a chegada de uma nova companheira de viagem, nada atraía sua atenção.

Dona Aureliana foi conduzida pra um quarto onde havia duas outras mulheres, Benedita e Vicentina. Chegando ali, foi logo perguntando pela mala de sua irmã Clotilde. É preciso esclarecer que dona Aureliana vinha duma tradicional família de pecuarista. Seus pais era dono de uma das maiores propriedades rural, dos tempos em que a cidade ainda era vila. Aureliana tivera seis irmãs. E todas as sete se deram em casamento, constituíram famílias e envelheceram. À medida que iam ficando viúva, iam sendo conduzidas pelos netos e parentes, para o Asilo São Vicente onde permaneciam até morrer. Fazia apenas alguns meses que Clotilde havia morrido. Acontece que tem a história de um relicário, um medalhão de ouro, valioso, porém amaldiçoado. Aureliana botou na cabeça que o colar desaparecido, estaria ali, entre os pertences de sua falecida irmã Clotilde.

Pra contar a história do colar misterioso, vamos ter que voltar um pouco no tempo. Embrenhar-se na caatinga, ir até os idos de 1936 no sertão alagoano. Saber do cangaceiro José Benedito, conhecido na bandidagem, pelo apelido de “Zé Preto” que mantinha um caso com a cangaceira Rosemêire apelidada Sinhazinha. Essa parelha de crias do cangaço, em determinado ataque a fazenda Grota do Pombal, localizada nas imediações da Vila Entre Montes, às margens do “Velho Chico”, degolou friamente o casal de donos da fazenda. Antes de matar a mulher do fazendeiro, subtraíram-lhe um colar de ouro. Uma praga, um mau agouro foi rogado. Na agonia de morte a mulher teria lançado a maldição, do qual ela própria se dizia vítima, que passasse para quem se apossasse daquele colar. Sem entender do que se tratava a cangaceira passou a usar a jóia. Não demoraria muito e a Sinhazinha deu-se em coito com outro cangaceiro, Ao descobrir a traição “Zé Preto” matou o cabra safado que havia se deitado com sua companheira. A maldição havia se cumprido.

Como o colar teria ido parar nas mãos das irmãs Feitosa, é outra história. “Zé Preto” e Sinhazinha acabaram presos pela tropa de soldados do 3º Pelotão da Polícia Militar de Alagoas, cujo quartel ficava na cidade de Santana do Ipanema. Os despojos dos cangaceiros, armas, munições, a tal relíquia de ouro amaldiçoada, entre outras jóias. Tudo foi parar em cima do birô do comandante da brigada. O Coronel Albuquerque, na ocasião era amante justamente da mulher que um dia seria a mãe das irmãs Feitosa. Num de seus encontros amoroso teria presenteado-lhe o colar, o que implicava em perpetuar a maldição.

Dona Aureliana não encontrou a relíquia entre os pertences de sua irmã. O que incluía uma quantidade considerável de bonecas e calungas de pano. E esse mundo de meu Deus vagou, e vagou pelo mar do céu profundo. Feito a arca do dilúvio, a nave terra. Um dirigível tendo acoplado um bojo, o asilo, tripulado pelos anciãos do São Vicente, continuava sua viagem. Dias e dias, entremeados de noites se passaram. Um dia, melhor dizendo, uma tarde, parecida com aquela do início de tudo, em que Noé esperava um sinal de terra firme. E Dona Vicentina vislumbrou na imensidão do céu, uma pomba branca que vinha. Observando melhor viu que se tratava de um cavalo alado. Se destacando entre o azul vespertino, um alvo equino varão, feito nuvem, veio vindo. E se fazia montado por um homem maduro, de cavanhaque, trajado em vestes pretas.

“-Padre Vicente! O Senhor veio me buscar? Minha mala já está pronta! O senhor trouxe a coroa de ouro da rainha Margarida? E meu noivo, o rei Henrique da França, está esperando pra casar comigo? Vou me casar com o rei! Vamos ter quatro filhos: Três meninos e uma menina! Olhe essa boneca padre! Eu ganhei de Clotilde. Eu guardei pra dar a minha filha, que terei com o rei! Vamos padre! O seu cavalo, está machucando a grama do jardim!” Vicentina aos berros esbravejava, o que a um observador comum parecia um monólogo. No entanto se referia a um interlocutor não visível aos demais, e ele estava lá. Se Vicentina conseguisse viver aquele sonhado conto de fadas, seria interessante que não presenteasse sua filha com aquela boneca. Pra não acabar levando pro seu régio matrimônio, a maldição do colar, encerrado e costurado por Clotilde, nas entranhas da boneca.

24 jan

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Mil dias mais velhos

A vida reserva-nos tantas surpresas. Delas que serão boas, agradáveis de sentir. Outras nem tanto. De repente lá estávamos no corredor do hospital. Minha mãe, acometida de mal súbito, no alto dos seus oitenta e sete anos, pregava-nos mais um susto. Fui encontrá-la, sentada numa daquelas macas altas, de rodinhas, com a qual teria dado entrada ali. Trajada na esverdeada e inconfundível indumentária de paciente. Ainda mais surpresa com nossa presença, perguntava onde estava, e o que teria acontecido.

Um médico realizara os procedimentos padrão, já lhe havia administrado medicamento, no momento recebia soro via intravenosa. Com o auxílio de um enfermeiro, foi transferida pra uma cama. As manivelas sob o lastro foram manipuladas, e uma posição mais confortável teria sido conseguida. O estresse causado pelo mal, o cansaço por tudo que acabara por alterar sua rotina e dali a pouco, mamãe dormia. Já passavam quarenta minutos da meia noite quando cheguei ali. Fiz questão de consultar o relógio do celular, pra ter ideia de quando, e como tudo havia ocorrido.

Deitada na cama, em decúbito dorsal, olhos serrados, respiração compassada. Vista assim, minha mãe parecia dormir tranquilamente. Seríamos seu acompanhante por aquela noite, teria a noite inteira pra ficar ali, olhando pra ela. O cabelo branquinho combinava com os forros da cama, com as paredes do ambulatório. Dizem que quando estamos perto de morrer, algum de nós, consegue perceber a aproximação da morte nas feições do moribundo. Como se a gente ficasse com aspecto elevado perto de morrer. E uma aura nos preparasse para a transição pra outra dimensão. Talvez fiquemos com a cara de quem já está mais pra lá, do que pra cá. Alguém chamaria de sexto sentido. No entanto algo me dizia que não perderia a minha mãe naquela noite. Senti-me aliviado por estar invadido daquele tipo de pressentimento. Confortava-me o fato de sentir que não seria aquele, o momento de perdê-la. Na sala de Observação onde nos encontrávamos três outras pacientes do sexo feminino ocupavam outros leitos. O que me fazia sentir deslocado, intruso. Não demoraria e a Assistente Social esclareceu que não poderíamos permanecer ali. Teria que ficar no corredor, pelo fato de eu ser homem, para evitar constrangimentos. Permitiu-me, vez outra, dar uma olhada, porém permanecer ali, não podia. Entendi perfeitamente.

O corredor. Não sei se existe nada tão real e cruel quanto um corredor. Ainda mais de hospital, quando sabemos, obrigado a permanecer ali por longas horas. O silêncio parecia algo palpável. Tênue luz fluorescente iluminava o piso, as paredes, os acentos, as ideias. A frieza do ambiente a tudo gelava. Congelados os pensamentos, esterilizados os sentimentos. Canos vermelhos, do sistema contra incêndio, sequestravam o tempo todo nosso olhar, lá pro teto. Frios adesivos, em letras pretas, sérias, colados ao lado das entradas, informavam os nomes das dependências: “Observação Feminina”, de um lado. “Observação Masculina”, do outro. Milhares de vezes meus olhos, minha mente interpretariam aquela informação. Pela repetição, ler aqueles adesivos se tornou uma coisa maquinal. Ponderei que o melhor seria preencher a mente com outra coisa. Não havia muito em que pensar. Resolvi rezar. O terço que trazia no bolso, veio parar na minha mão. Pensei: que dia seria aquele? Quarta-Feira? Dali uma semana ela estaria completando idade nova. Quarta-Feira dia de recitar os Mistérios Gozosos talvez. Iniciei o rosário da Virgem Santíssima. Outros pensamentos se infiltravam no meio das Aves Marias e Pai Nossos. Por que era tão difícil manter a concentração? Se não tinha muito em que pensar?

Fui ver como estava minha mãe. Permanecia dormindo. O frasco de soro tinha secado, e já havia sido substituído. O enfermeiro ligou um aparelho em que uma espécie de presilha prendida a um dos dedos da mão, emitia um som, compassado, característico, parecia acusar os batimentos cardíacos. Pareceu-me regulares. Esvaiu-se a apreensão. Outra paciente iniciou um gemido de dor. Parecia uma dor leve, comportada. Fez-me lembrar uma triste cantiga de ninar. Triste cantiga de acalentar bebê, do tempo da infância de minha mãe. Olhei para além das janelas, lá fora permanecia escuro. Demoraria ainda a amanhecer? O relógio na parede, insone, cara redonda e branca, de bigodes pretos, dissera que sim. O enfermeiro prestativo ia executando seu serviço, com discrição. Só não se tornando invisível aos nossos olhos, devido nossa curiosidade. Verificou a pressão da paciente que gemia, auscultou o coração. Inconsciente a mulher pareceu aliviada. A luz foi apagada. A sala de “Observação Feminina” envolvida pela penumbra, iluminada apenas pela luz que vinha da porta. Acostumados, os olhos conseguiam ver as silhuetas das pessoas inertes, deitadas nas camas. A infância de minha mãe viera-me com veemência. Fui encontrá-la sentada na porta da casa materna. Nesse tempo ainda brincava de calunga. Talvez não tivesse ainda treze anos. Com três pedrinhas que chamava de “bois” ia jogando para cima, e fazia passar uma a uma, entre os dedos, indicador e polegar, que imitavam um portal, no chão de cimento. Eis que lá pela rua viam uns homens, o delegado, um soldado, o farmacêutico, um vendedor de calçados e o padeiro. Iriam até lá adiante, almoçar na pensão que ficava naquela mesma rua. Ao chegarem à frente da casa daquela menina, que um dia seria minha mãe, o soldado comentaria: “-Que morena bonita! Não é João?” João nada respondia. Era o padeiro, que um dia seria meu pai.

A mulher que sentira dor piorou. Teve convulsões, tosse, dificuldade pra respirar. A filha que a acompanhava desabou em um choro, que tentou conter, sem conseguir. Enfermeiros transferiram-na pra maca de rodinha, levaram-na. Segui-os com os olhos, era bem provável que a estivesse levando pra U.T.I. Demorei-me por mais um bom espaço de tempo, sentado no banco do corredor. Fui até lá adiante, onde havia um bebedouro. Tomei água, fui ao banheiro. O espelho mostrou-me um cara estranho que em nada lembrava eu mesmo. Já me acostumara aquilo, acontecia a cada novo espelho, um eu diferente. De volta, encontrei no corredor a filha da paciente transferida. Perguntei por sua mãe. Sabia apenas que estava no Tratamento intensivo. Com um aceno quis dizer-lhe que torcia por melhoras.

Cinco anos se passaram desde que a mulher entrou na U.T.I. e mais um encontro meu com o passado de minha mãe. Agora com dezoito anos, iniciara um namoro com o padeiro João. Terezinha, a vizinha, aconselharia minha avó a deitar cuidados naquelas meninas. Achava que estavam indo mais vezes a igreja. E que isso talvez fosse pretexto pra ir ver os namorados. Um dia minha avó foi à procura de minha mãe na pensão onde João almoçava, pois as filhas da dona da pensão eram amigas de minha mãe. Ao ouvir a aproximação de minha avó, minha mãe escondeu-se atrás dumas esteiras de Peri-peri, encostada numa parede. Minha avó percebeu, descobrindo-a no esconderijo repreendeu-a, na frente do namorado, que ficou sem jeito. Dias depois desse episódio, Seu João, faria uma visita à casa da suposta namorada. E ensejando a ocasião, solenemente pediu a mão da minha mãe em casamento. Tomaz meu avô, achou por bem perguntar a minha mãe se ela aceitava aquele pedido. Pedido aceito.

Quando o dia amanhece tudo fica diferente. Dentro de um hospital não apenas as pessoas, coisas também acordam. O silêncio e a penumbra foram se amasiar no quartinho da faxina. A usina da saúde se transfigura. Transmutada numa intensa movimentação de trabalhadores anônimos. Os que adentram ao hospital passam a ser seres identificados apenas pelos seus crachás e uniformes. Aguardamos o médico que tomaria conhecimento do estado de saúde das pacientes. Minha mãe foi julgada como merecedora de receber alta. Providenciamos um jeito de sair o mais rápido dali. E voltar pra casa, ao menos uns mil dias mais velhos.

20 jan

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Carpe Diem

Jorge nascera num tempo em que as mães tinham seus filhos em casa. E ficaria muitos dias de resguardo em cima da cama. E mãe e filho receberiam os cuidados de uma ama. E se a mãe não tivesse leite, a ama amamentaria. E todo fim de tarde, Seu Joaquim o farmacêutico viria visitá-los. E lá na sala lhe seria servido chá com sequilhos fresquinhos feitos por sinhá Tonha, uma preta velha que viera do sítio Mulungu pra cuidar da cozinha. E o velho Quincas comentaria sobre o calor daqueles dias de verão, pois os homens naquele tempo ainda andavam de terno, chapéu de massa na cabeça, e deles que usava bengala. Antes de ir embora receitaria Água Inglesa, pra cólicas intestinais da mãe. E chá de Camomila para que tivessem sono tranquilo. E se recuperariam fortes e saudáveis, pois teriam os cuidados necessários. Além do que, filhos varões eram mais esperados e respeitados, no seio de família como aquela que tradicionalmente vivia da agricultura.

Esta talvez seja história que fale de bem viver. E de que no ato de viver devemos tentar tirar o máximo de proveito. Buscar valores que nos são passados de geração em geração. E de que a herança maior que recebemos, não são coisas, nem objetos. Mas o que herdamos dos nossos pais. Os valores morais, os traços físicos, as afeições cultivadas em família, ao longo da existência terrena. Portanto a família em que Jorge nascera cultivava como valor primordial a união entre os pares. Uma modesta casa na cidade, e uma propriedade denominada Sítio Mulungu, incrustada no meio da caatinga eram os bens que possuíam. A cada ano, quando se aproximava o inverno, os membros do clã viravam camponeses e iam preparar a terra. As culturas consorciadas, milho e feijão, pra subsistência. Palma e algodão de reserva. Havia pasto pra mantença de um pequeno plantel de bovinos, e algumas poucas cabeças de gado miúdo. A demais era divino, dos céus aguardar que viessem as chuvas.

A casa da cidade era confortável. O mobiliário, apesar de antigo, bastante conservado, verdadeira relíquia. As paredes, revestidas de fotografias de toda herdade, em várias fases das suas vidas: bebês, jovens, e adultos. A cozinha da mãe de Jorge dava gosto de ver. Havia um belo bufê cheio de taças de cristal e xícaras de porcelana com paisagens bucólicas medievais, que fora herdado de sua avó materna. Havia uma mesa enorme de seis cadeiras de madeira maciça, muito pesada, herança do avô paterno. A principal parede daquele cômodo era ornada com o quadro em que Jesus ladeado dos doze apóstolos, fazia a última ceia. Encaixado em simples moldura, a gravura, em papel cartão, a impressionante pintura de Leonardo da Vinci. A mãe de Jorge ganhara o quadro de sua irmã Aurora, como presente de casamento, que ao lhe dar teria dito: “-Mande benzer. E enquanto você tiver esse quadro na parede de sua cozinha, jamais faltará alimento em sua mesa.” A mãe de Jorge teria tido dezenove filhos. Doze nascidos varões. Onze deles ganhariam os nomes dos apóstolos que apareciam escritos abaixo de cada apóstolo, no quadro da derradeira ceia de Jesus. Bartolomeu, Jacó, André, Pedro, João, Thomas, Felipe, Matheus, Tadeu. Simão virou Simeão e Jacó II, Jácomo Luiz, que todos só chamavam Luiz. E Mário Jorge, que os pais só chamavam pelos dois nomes quando era pra repreender. O décimo segundo filho não tinha como dar-lhe o nome de Judas Iscariote.

E vieram sucessivos anos de estiagem. As propriedades rural, transfiguradas em verdadeiros desertos obrigavam os sertanejos a buscar alternativas outras de sobrevivência. Sem inverno se consumiam as reservas de grãos dos vasos. O gado morria de fome. Em tal situação era comum o esteio das famílias de sertanejos, os pais de família, viajarem em busca de garantir o sustento da prole. O pai de Jorge foi embora, pra trabalhar na indústria têxtil de Delmiro Gouveia. Depois foi trabalhar de peão na usina de Paulo Afonso. Ali aprendeu a profissão de operador de máquina pesada. Não demoraria, foi embora pra São Paulo, exercer sua nova função na construção civil. Nos primeiros meses mandava dinheiro pelo correio. Aos poucos foi se desobrigando desse compromisso. Chegaram boatos que constituíra nova família no sudeste. Depois notícia nenhuma dele, tinha mais sua família do sertão.

Quando fez nove anos de idade Jorge adoeceu, de um mal que lhe comprimia os pulmões. Talvez tivesse asma. Tanto seus pais, quanto seus irmãos mais velhos eram todos fumantes. O fato de estar diariamente se expondo à fumaça de cigarro, em idade pueril, contribuiu para levá-lo aquele precário estado de saúde. Depois de uma consulta, o médico receitou uns remédios, e também recomendou que o menino passasse um tempo num lugar onde respirasse ar puro. Por conta da doença, Jorge foi obrigado a viver longe da família. Por dez longos anos o menino viveu no campo, sendo criado por sua tia Aurora, no Sítio Mulungu. Esse exílio forçado faria com que fosse o único dentre os irmãos que não teria tido a oportunidade de estudar. Vivera quase como um ermitão. Sua escola foi o mato aprendeu a valorar exclusivamente as coisas do campo. Conhecia os sinais dos céus, entendia se estava próximo o início das invernadas.

Findo esse tempo, recuperada a saúde, Jorge agora um rapaz, voltou à cidade. No entanto não mais se acostumaria à vida urbana e voltou pra vida rurícola. Porém sentia-se na obrigação de manter a casa de sua paternidade, com os irmãos mais novos que ainda permaneciam em casa. O dia nem havia clareado, encangava uma parelha de bois, ia até o barreiro enchia pipas e ancoretas, e abastecia d’água a casa materna. Do silo tirava milho seco, passava no moinho e não deixava faltar fubá. Uma única vaquinha, mantida no tempo seco, garantia o leite. Ovos e carne sempre havia da sua criação de galinhas. No grotão não faltava uma abóbora de caboclo, um cacho de bananas, uns tomates. E Jorge sem o saber conseguia perpetuar uma premonição ditada por sua tia Aurora, ao dar de presente o quadro da Santa Ceia, a sua mãe, que nem mais se lembrava daquele adágio em que disse: “Enquanto o quadro permanecesse na parede da cozinha, o alimento estaria garantido naquela casa.”

Muito tempo se passou. A mãe de Jorge padecendo de doença grave veio a falecer. Sua tia Aurora deixou o Sítio Mulungu, e foi morar na casa da cidade, pra terminar de criar os filhos da irmã. Todos cresceram, estudaram, se formaram e foram embora. Apenas Jorge permanecia sozinho eremita no Sítio Mulungu. Pelo menos uma vez por ano, os irmãos marcavam um local, a casa de um deles, onde se reuniam para confraternização natalina e de final de ano. Deles que residiam em São Paulo, vindo de avião até Maceió, chegava a sua terra natal em carro de luxo, fretado.

Naquele ano o local marcado foi à casa materna. Eis que na noite do réveillon, os dezoito irmãos se encontravam na casa onde a maioria deles nascera. No momento em que os relógios marcaram meia-noite, enquanto todos se abraçavam, brindavam com taças de champanhe e se deliciavam com as massas de forno e peru, mais um daquela descendência acabara de chegar, era Jorge. No seu jeito tímido de homem rude do campo, de pouca conversa, cumprimentou e abraçou a todos. Cada irmão, disse naquela ocasião que ia levar uma lembrança da casa da mãe. Taças de cristal, xícaras de porcelana foram parar nas malas. Jorge quis o quadro da parede da cozinha. Antes porém uma foto foi providenciada, onde os doze irmãos nascido varão sentaram-se à mesa. Estranhamente se colocaram na mesma posição em que se encontravam os apóstolos no quadro que aparecia ao fundo do instantâneo. A Santa Ceia, por aquela irmandade reproduzida contava também com a presença de Cristo.

Fabio Campos

10 jan

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Destinos em casas decimais

Negro Benedito depois de velho, já encabeçando os sessenta, botou na cabeça que era vidente. E se inventou de atender o povo, fazendo consultas sobre passado, presente e futuro. Essa história que vou contar aconteceu já faz certo tempo. Como tudo começou, não sei direito, por isso vou contar de onde, e até onde sei. Foi mais ou menos assim, primeiro conheci Damião, filho do velho Benedito. Damião não passava de um menino como eu. Nós nos tornamos amigo, vez outra ia ele a minha casa, e eis que um dia coloquei os pés dentro da casa dele. Senti um calafrio. Ali descobriria a história da vidência de seu pai.

Seu Benedito, era assim, parecia um preto velho desses que só se encontra originalmente na Bahia, no pelourinho ou na Baixa do Sapateiro. Se ao contrário fossemos nós o adivinho, diria que Seu Benedito teria vindo duma comunidade quilombola, nascido numa família prolífera, e que teria terminado de ser criado por um rico fazendeiro. Muito sofrera depois que a mãe morrera, e para sobreviver teve que ser engraxate, vender picolé, fazer frete de carro de mão, teria cuidado de animais na intendência, no vigor da idade fora estivador, conseguira um aposentadoria e agora estava ali, na minha frente. Devidamente trajado de branco, trazia uma quantidade razoável de colares cheio de contas coloridas, no pescoço, e outra dezena de amuletos e patuás, deles que descia até sobre sua imensa pança negra cujos botões da blusa branca de mangas compridas, punha à mostra. Uma barba branca, combinando com a carapinha, escondida em baixo de um chapéu de massa branco. Na beiçola um charuto, ora aceso, ora apagado, porém sempre fedorento. Os olhos do negro, estes mereciam uma descrição especial, primeiro porque eram enormemente incomuns. Além do que eram incomumente avermelhados. Projetavam-se para fora do globo ocular, como se a qualquer momento fossem pular fora da caixa. E se saltassem por certo me atingiria, em cheio, aumentando ainda mais meu medo.

A casa era simples, misturava paredes de taipa com outras de alvenaria, dando um aspecto surreal à construção. A entrada havia uma pequena sala de estar, que mal acomodaria três pares de pessoas. O teto baixo daria pra ser facilmente alcançado caso, um homem mediano, estirasse o braço. As paredes repletas de diversos quadros de santos da igreja católica, porém havia imagens pagãs. Numa mistura de crenças e misticismo. A gravura azulina de Iemanjá, flutuando sobre as águas do mar, repleto de flores, ladeada da imagem de São Pedro. O santo com a chave do céu, de rosto ríspido, de cara fechada, volvendo seu olhar aos céus, como se reprovasse aquele ecumenismo caboclo.

Olhando com aquele olhar de causar calafrio. Como se olhasse através da gente, o velho Biu teria dito: “-Ô! Esse menino! O que veio fazer na minha casa? Não precisa dizer! Eu sei de tudo. Você é amigo de meu filho, e só. É! Mas tem muitas coisas por trás de tudo isso. Coisas que vocês não sabem. Ele está aqui! O tempo todo está bem aqui. Ele me persegue.” Sobre o que estava falando não entendi patavina. E continuou: “-Venha…Vou lhe mostrar!” E me conduziu a um dos quartos da casa, que deu pra perceber tratar-se da sala das consultas. Havia uma cortina vermelha ao fundo. Uma mesa forrada de branco ao centro, à medida que meus olhos foram se acostumando com a penumbra, pude perceber diversas estatuetas espalhadas pelo chão. Uma delas era de um enorme cachorro da raça Collie, igual a cadela Lessie do filme, em posição de sentado atingia a cintura de um homem. Os olhos pareciam ter vida, pintados com tinta fosforescente. Noutro canto a estatueta do capeta, vermelho com seu tridente sorria maliciosamente. Centenas de ex-votos. E velas de cores variadas, algumas acesas. O cheiro que impregnava o ar era de um incenso nauseabundo. Nunca esquecerei aquele cheiro. Não teria Seu Benedito, feito previsões sobre a vida, do menino que acabava de conhecer. Porém algumas coisas interessantes teriam ocorrido ali, talvez isso, fosse o que interessasse aqui ser contado. Como se tivesse se sentindo perseguido, Seu Benedito ficou visivelmente perturbado. Agitando os braços para todos os lados, e dando voltas sobre si mesmo, sem fixar os olhos em lugar algum, começou a falar alto:

“-Ele está aqui. Eu o invoquei e agora não tenho mais como me livrar dele! Se alguém quiser ficar rico ele ajuda! Mas cobra um preço muito caro! Ele não me deixa em paz! Não queira nem saber de quem estou falando. Só precisa saber que é ruim! Dia e noite sem ter paz. Eu só não morri ainda porque tenho o corpo fechado. Não era nem pra dizer isso. Mas já disse.” Antes de sair da casa, dona Maria, a mulher de Seu Benedito, olhando com olhar enigmático disse: “-Você viu? Ele está doente. Ele invocou os espíritos das trevas, pediu pra lhe dizer, as seis dezenas da loteria. Andou fazendo algumas oferendas pra eles, mas não serviu. Eles sempre querem mais. Agora está perturbado.”

No dia que Seu Benedito morreu fui ao sepultamento. O esquife ficou exposto dentro da capelinha do cemitério, intensamente repleto de luz e calor do sol. A luz quase que cegava. O calor sufocava. Além dos poucos familiares, mais ninguém. Agora velas brancas velavam, flores e o forro do pequeno altar. Em solidariedade ao amigo, estávamos ali, ele não chorava. Apenas tentava consolar sua mãe. Só na hora de fechar o caixão criei coragem pra me aproximar. Um rosto de sobrancelhas serradas, de quem morrera com angústia e muita dor.

Seu Belo também estava ali. Seu Belo era dono da bodega, que ficava perto da Cadeia Pública, que ficava virada pra praia. Seu Belo nunca conheceu Seu Benedito, mas estava ali porque era da opinião de que aquele homem precisava descansar em paz. Nenhum dos que ali estavam via Seu Belo. Ele não fazia questão de ser visto, era melhor assim. Fez sua oração pela alma daquele homem, e se foi. Lembro quando ele um dia me disse: “-Na vida nós fazemos escolhas. É preciso ter serenidade, paz no coração. Um dia você nasceu. Nada acontece à toa. Como não é à toa que você está aqui, conversando comigo.”

A uma ensolarada manhã de segunda-feira. Por volta de sete horas, do dia primeiro de março. Do ano em que morrera a princesa Eleonora de Aragon, filha do rei Fernando I de Espanha, Sandro nasceu. No seio de uma família pobre, de camponeses. A um humilde casebre, ao lado da ponte velha, as margens do rio Arno, na velha Florença Sandro veio ao mundo. O pai Felipe Mariano muito comemorou a vinda de mais um varão, nascido em plena primavera. Sandro jamais sonhara, porém se tornaria um dos maiores pintores da renascença. E tão belamente pintou o nascimento da Vênus de Milo.

Fabio Campos

07 dez

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Natal

Um velho homem se fazia, sentado numa velha cadeira de balanço, no alpendre duma rude casinha desaprumada, lá no sopé do serrote da Camonga. A colossal “Baronesa”, do escritor Clerisvaldo B Chagas compunha o fundo dessa cena. O sol a pino, em todo seu esplendor, de raios, a tudo desnudava, tornando livre de qualquer poesia. O rei dizia que já ia o meio dia. Crudelíssimo sol, a muito estriando o seio do árido solo moreno do sertão. A craibeira semelhante a uma gigantesca mão de uma bruxa, brotada dantescamente do ventre da terra. Crispada, pedia clemência pelos seus pecados. Um carro de boi na estrada, violino rústico compondo a melodia do sertão. O carreiro fez os animais, unidos pela canga, pararem a marcha. Apoiando a vara de ferrão no chão quente, olhou pra lá. Os bois da dianteira, um fio de baba se esticando do espelho da bocarra. Sopravam das ventas hálito de mato rumino. Meneio de cabeça, e um dos bois, olhou pra lá. O cachorro, negro de cor, lá adiante parou. Tentou morder umas pulgas que lhe incomodava nos genitais. Endurecendo as sobrancelhas brancas, olhou pra lá. E Deus que a tudo assistia, olhou pra lá. Olhavam todos para lá. Para o homem sentado na velha cadeira de balanço, no alpendre da casinha no sopé da montanha. E era Deus aquele homem.

O homem solitário. Barba branca, de alguns dias por fazer, olhava o horizonte, na direção donde o azul do céu se ia misturar com o lago do Bode. Onde caprinos pastavam na relva, e galinhas selvagens flutuavam na superfície d’água. Olhando pra lá, Ele apenas piscou os olhos, na própria lentidão da cena. Um milésimo de segundo talvez. Foi o suficiente. Os cílios das pálpebras, mal tocaram os cílios de baixo. Sequer os olhos se fecharam, e dez gerações haviam se passado. Um século adiante era o que o calendário dali por diante dizia. E Deus olhou pra estrada. Carro de bois, carreiro, cachorro pulguento, estrada, craibeira, nada mais havia lá. Nada do que antes existia tinha mais. Porém, O Homem, ainda estava lá. Sentado calmamente a cadeira de balanço, no alpendre da casinha. O solo continuava, castigado de sol causticante, inclemente. O escritor não mais existia, porém a senhora “Baronesa” continuava lá. Em toda sua imponência, de pedra, granito, ervas, envolta de clorofila. Ainda mais rica de lendas, histórias e mistério. E o limiar do primeiro ano que dera início aquele século, talvez parecesse com aquele que culminaria com o início da primeira grande guerra, cujos jornais do mundo noticiaram:

“28 de junho de 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, o herdeiro do trono da Áustria-Hungria, pelo nacionalista iugoslavo Gavrilo Princip em Sarajevo, na Bósnia, foi o gatilho imediato da guerra, o que resultou em um ultimato Habsburgo contra o Reino da Sérvia. Diversas alianças formadas ao longo das décadas anteriores foram invocadas, assim, dentro de algumas semanas, as grandes potências estavam em guerra; através de suas colônias, o conflito logo se espalhou ao redor do planeta.”

O Homem agora ia pela estrada que levava a cidade. Era dia, porém o céu que cobria o mundo se fazia plúmbeo. O ar pesado carregado de partículas poluentes era quase palpável, pouco respirável. Densa neblina de gás que anuviava as coisas todas que existiam. Cheiro forte de resíduos queimados, como se o mundo tivesse se transformado num imenso lixão. E a densa neblina cinza, escondia o céu, de um quase azul, azul sujo, encardido. Muitos elementos que no passado era abundante, passaram a ser precioso. Água era um deles. Os alimentos agora eram sintéticos. O combustível dos únicos transportes existente, os ônibus espaciais, era de origem atômico nuclear. Quando chovia, e isso só ocorria algumas vezes por ano, era chuva ácida. Água potável, só havia nos pólos da terra, no que restava das calotas polares.

As grandes nações haviam se apossado dos territórios gelados do planeta, formando a Triple Aliança: Estados Unidos da América e seus aliados se apossaram do pólo Ártico. Alemanha e China, mais outras potências européias e asiáticas, se apossaram da Antártida. Os países emergentes, depois da revolução religiosa agruparam-se em dois blocos. Um deles explorava o Oceano Atlântico, a água do mar, era parcialmente dessalinizada. Do mar se sustentavam. Outro bloco era formado por países africanos, e mulçumanos do oriente médio, formavam a maior organização terrorista do planeta. Exploravam o Pacífico. As notícias chegavam ao sertão com alguns anos de atraso. A rede internacional de computadores não havia mais. Como naqueles inícios de séculos do passado, o mundo passava por mais uma revolução industrial. Os grandes rios haviam secado. As usinas hidrelétricas não funcionavam mais, por falta de água. A energia ainda existente era de origem eólica ou solar.

Senhor Josevel e dona Mirian tiveram seis filhos. Belchior, Baltazar e Gaspar que tinha três irmãs Francisca, Jacinta e Lúcia. O ano de 2113 estava terminando. Havia sido um ano muito difícil. Naquele ano Seu Josevel faleceu. A família ficou amparada com os recursos que tinham. Prédios, que alugavam na cidade. E a exploração de minas de alumínio, cobre e enxofre. Instaladas num lugar inóspito. Perto de uma região que no passado, chamada de agreste. Descobriram mananciais de vários metais, próximo a uma urbanidade chamada de Jaramataia. A divisão dos bens causou grave desunião entre os irmãos. As irmãs queriam reter os prédios alugados somente para as três. Sob sua responsabilidade ficara a guarda da mãe, sofrendo mal de Alzheimer, em idade avançada e viúva. Os irmãos achavam injusta a divisão, pois as minas davam sinal de esgotamento.

O mês de dezembro, do primeiro ano do início daquele século, estava quase no fim. A uma casinha alpendrada, fincada no sopé da montanha da Camonga morava Donana e Seu Joaquim. Eles tinham uma filha única, chamada Maria. Eram devotados cristãos. Nesse tempo os cristãos eram perseguidos pelos Mulçumanos. A prática da religião católica era proibida. Padres, missionários e cristãos eram perseguidos e mortos. Tratados como bandidos. Missas eram celebradas as escondidas, em grutas e cavernas em lugares secretos. Os governantes recompensavam quem denunciasse o que eles chamavam de rituais, que atentavam, segundo os que comandavam, contra a lei, a moral e os bons costumes. Maria fora desposada por um rapaz chamado José. E a quase menina estava grávida. Estava para se completar os dias de dar à luz. José fora embora pra São Paulo. Viajaria dizendo que só voltaria quando tivesse juntado dinheiro, o suficiente para comprar uma casa. Carpinteiro de profissão pensava em montar uma marcenaria. Trabalhava com madeira sintética, produzida a partir de plásticos, prensado com outros materiais recicláveis.

Lá pras bandas do por do sol. Uma estrela mais brilhante que as outras surgiu no céu. E os filhos de Seu Josevel, amigos de Seu Joaquim e Donana, quiseram ir visitar Maria que estava para ter bebê. Levariam presentes. E pegaram seus cavalos, e rumaram pras bandas do Serrote da Camonga. Um carro de boi na estrada, violino rústico compondo a melodia do sertão, tendo ao fundo magnífico por de sol. O carreiro fez os animais, unidos pela canga, pararem a marcha. Apoiando a vara de ferrão no chão, olhou pra lá. Os bois da dianteira. Fio de baba se esticando do espelho da bocarra. Soprava das ventas hálito de erva ruminada. Meneio de cabeça, e os bois, olharam pra lá. O cachorro, negro de cor, lá adiante parou. Tentou morder umas pulgas que lhe incomodava. Endurecendo as sobrancelhas brancas, olhou pra lá. O homem sentado a cadeira de balanço assistia a tudo. E Deus olhava pra lá.

12 nov

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Áurea e adamantina

Áurea e Adamantina, duas mulheres que conheci e de que vamos contar. É preciso que se diga, ambas jamais se conheceram. Contemporâneas, tendo uma, já vivido mais que a outra. Muito mais, que apenas átomos de carbono possam mudar, e separar elementos. Tornando-as tão distintas. Uma, suave, tenra, macia, candura em flor de idade. A outra já avançada em idade, porém inexorável, pétrea, feito Bruce Lee. Ao menos um fato as unia, foram as duas, estudantes da Escola Municipal Senhora Santana. Tomado fui, de forte comoção ao ver dona Adamantina pela primeira vez. Ao entrar na sala de aula, lá estava. Destacava-se frente à algazarra de trinta e poucas cabecinhas irrequietas dos seus colegas de classe. Deslocada, intrusa Adamantina. Naquela época, com seus setenta e poucos anos. Incólume, misturava-se a uma turma de meninas e meninos, com idade de serem seus netos. Doía-me perceber que em meio à bagunça reinante, pouco se fazia conta de sua presença. Ao entrar percebi-a dedicada a extraordinária tarefa de domar as mãos cascudas. Tentava, a muito custo, a façanha de manter firme o lápis entre os dedos. Apertava tanto que lhes fugia o sangue das falanges. E as letras do seu nome, iam surgindo uma a uma. Garatujadas ora sobre, ora sob, a linha da folha de papel branquinha do caderno.

Quase um decano havia se passado até nos encontramos outra vez. Num velório de uma amiga minha e dela, o reencontro. No silêncio daquele ambiente onde as pessoas velavam e oravam o esquife, tive a oportunidade de observá-la melhor. Ali se mostrou muito mais serena que antes havia concebido. Quase dez anos, e praticamente nada havia mudado em si. Algo que sequer a denotasse mais velha. O tempo tem desses artifícios, de moldar as pessoas, dando-lhes a aparência que lhe aprouvesse. Somos obras originais e sem retoques, de extraordinário artista, senhor tempo. Dona Adamantina, em tudo lembrava uma velha índia, da cordilheira andina, boliviana. Seu surrado e negro chapéu coco, em sinal de respeito ao evento ali ocorrendo, trazia-o à mão. O que indubitavelmente punha a mostra sua luzidia cabeleira negra derramada duramente até a altura dos ombros. Sobre o porquê de ter parado de estudar, tinha uma história pra contar.

Contou coisas de sua infância. De quando completou nove anos de idade, obrigada a trabalhar na roça. Seu pai o senhor Manoel Brasiliano, era homem bruto, de poucas palavras. Sua mãe, dona Rosário da Divina Pastora, no mundo colocou dezenove divinas criaturas, ao mesmo tempo humanas. Pelo menos seis deles não vingaram. Adamantina estava entre os sobreviventes. E todo ano, quando Deus punha no céu seus sinais de que próximas estavam as chuvas, início da invernada. A família toda era obrigada a ir pra roça. E disse categórica: “-Amigo! Enxada é fruto que nunca amadurece!” O sol ainda era só promessa de clarear as veredas, e na casa todos já estavam acordados. A mãe na beira do fogo preparava uma refeição a base de feijão, arroz e carne seca com farinha de mandioca, que era levada pro roçado, num saco, que tinha um cordão franzido na boca. Os pequenos ajudavam levando apetrechos, facão, foice, cabaças d’água, enxadas. Tomavam café de caco, sem coar, com pedaços de rapadura pra adoçar. E duma cuia, iam tirando com a mão, fubá de milho, untado com leite, e ovo frito. Com aquele desjejum puxavam pra meio dia. Aprendera a manejar o arado. Dizia que mesmo com aquela idade, se entregasse a ela uma pareia de bois, num arado, garantia que sozinha daria conta de um lote de vinte tarefas de terra, ao cabo de um dia de serviço. E achava aquele trabalho muito mais maneiro, que a difícil empreitada de escrevinhar seu nome numa linha de papel. E que aquele toquinho de lápis, pra ela, era muito mais complicado de domar do que uma canga de bois emparelhados no arado.

Um dia Adamantina, viu crianças indo pra escola. Achou interessante. E como iam felizes, brincando contentes. Daí concluiu que a escola devia ser um lugar bom, e teve o desejo de ir também. Ao chegar a casa, depois de mais um dia de trabalho, fatigada do serviço duro. Dirigindo-se ao pai pediu: -“Pai! O senhor deixa eu ir pra escola?”. O homem rude rebateu sua proposta, dizendo que o serviço no campo era mais importante. Adamantina já esperava tal reprovação, e contra argumentou garantindo que, o tempo supostamente perdido na escola recuperaria com o trabalho de arado. Mas o homem estava irredutível. E pra colocar ponto final naquela história, disse que moça que queria aprender a ler, o interesse era tão somente pra escrever carta pros namorados. E isso pra ele já era em si uma grande desfeita. Adamantina não dada por satisfeita, tomada de coragem, disse que ele, seu pai, era um homem ignorante. E só porque não tivera tido oportunidade, não devia privar os filhos de estudar. Disse isso de uma só vez. E correu a se trancar no quarto. O pai a seguiu, e fê-la abrir a porta. Se dizendo espantado com o que acabara de presenciar, não admitindo tal afronta, aplicou-lhe uma surra tão severa com o relho de bater nos animais, que no outro dia não teve condições de ir pro campo trabalhar, tal fora o estrago, nas costas, nos braços e nas pernas.

Áurea a outra menina, continuava menina ainda. Apenas dezena e meia de anos tinha, desde a última vez que a vi. Filha de camponeses, também viera do campo. Cabelos encaracolados, derramado até o colo, traziam a cor da avelã, de adocicado perfumo nos cachos. O que mais atraía em seu rosto fino, eram os olhos amendoados, e íris cor grafite. Perspicaz, nas aulas de ciências queria saber o porquê de certas coisas. Se dizia apaixonada pelas palavras e coisas abstratas. A matéria lhe punha certo receio, pelo caráter transitório, porque tudo lhe parecia tão volúvel talvez. O que tanto a gente desejava num dia, noutro poderia não mais querer. Teria um dia, desejado ser menino, só pra ter mais liberdade. Tomar banho na chuva sem blusa, sem a preocupação de cobrir os seios. Queria não ter o desconforto do fluxo de sangue, a cada mês. Achava chato ter que se depilar. Queria saber tin-tin por tin-tin a história do hímen elástico, e se os meninos conseguiam saber se uma menina não era mais virgem só pelo andar. Queria mesmo era jogar bola no campinho, ficar na rua até tarde como seus irmãos podiam. Só porque eram meninos, achava injusto isso. Por outro lado gostava de ser menina. De sentir-se feminina, vaidosa, de se olhar no espelho, fazer maquiagem, usar brincos, pulseiras, coisas que estavam na moda. Queria ter um bumbum maior, pra não ter vergonha de vestir biquíni, por se achar muito magra. E que às vezes, só às vezes, achava meninos tão bobos. Deles que zombavam, e ralhavam ao folhearem, sem autorização. seu caderno. E se encontravam poesias feitas por ela, recitavam em alta voz só para colocá-la em situação vexatória.

Disse-me um dia: “-Áurea Cândida! Acho meu nome horrível!” Tentei persuadi-la do contrário, dizendo-lhe que nomes possuem significados interessantes. E importava buscar a essência das palavras. Por exemplo, áurea significava algo feito de ouro, grafita era um mineral, aquele da ponta de seu lápis, precioso tanto quanto o diamante, e o que separava um do outro em grau de dureza, era apenas um rearranjo nos átomos de carbono que cada um possuía. Cândida vinha de candura, pureza. E que a palavra candidato vem de cândido. Lá na Grécia antiga, os senadores vestiam-se de branco para representar a pureza, de seus atos, na tomada das decisões em favor do povo. Ouviu atentamente a explicação. Para em seguida começar a escrever, creio que mais uma de suas poesias. Quanto ao seu nome, estava lá no meu diário de classe: Áurea Cândida Grafitas de Matos.

Fabio Campos

09 nov

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Finados

Dia de finados é dia bom pra ler um livro. No dia dos que já partiram, é dia de pensar na vida. Dia quente de verão, dia bom pra refletir. O sol nasce mais cedo. O mormaço, o calor de cedo começado, vem dizer que não é dia muito bom pra ir ao cemitério. Dia de mistério. Dona Maroca morava na Maniçoba. Todo ano na véspera de finados, ia com seu neto Marcelo até o campo santo, lavar a catacumba da família. Lavava, arrancariam as ervas daninha, depositaria um ramalhete de flores, e orações. E dizia a sim mesmo, finados é um dia que está se perdendo no tempo. Onde já se viu um dia santo como esse, a gente passa nas ruas, nas praças, os jovens estão bebendo, se divertindo, o som do carro ligado a toda altura. -Santo Deus! Aonde esse mundo vai parar?

Na casa de Seu Benjamim, ele fazia questão de ir com a família inteira. Dona Isaura acordava bem cedinho fazia café reforçado, na mesa um cuscuzeiro fumegante, uma jarra com leite, num tacho enorme ovos de galinha de capoeira fritos. Pães num saco de pano com renda de filó nas bordas. Manteiga, uma panela de macaxeira fumaçando no fogão. E o cheiro de charque torrado ia lá longe aguçar os olfatos dos viventes, e dos que já morreram que vagavam errantes. Intumescido o focinho dos felinos, e de saliva se enchiam os dentes dos caninos. Dez filhos, todos eles iriam. Lucinha, uma das filhas moça de seu “Bêja”, naquele ano, não pode ir porque estava menstruada. Moça “naqueles dias” devia evitar entrar em cemitério. Os mais velhos diziam que não era bom, apenas diziam, não explicavam porque, ai de quem perguntasse. Alguém arriscava dizer que se a moça tivesse perto de suspender o fluxo, se entrasse lá, a regra, acabava se estendendo por mais dias. E isso era o bastante para quem queria uma explicação. Dona Maria José a parteira morava pra lá do bebedouro, todo ano ia fazer sua penitência. Naquele ano deu de aparecer uma ferida na perna, da sua erisipela recorrente. Foi, mas ficou no portão, não entrou. Tinha medo que a ferida demorasse a sarar. Assistiu a missa, de longe. Fez sua oração pros seus entes queridos, pensou com saudade em Durval, seu falecido marido que era marceneiro, um acidente vascular cerebral o levou, já fazia três anos, rezou. E sua reza fez de tudo pra subir aos céus, sufocada pela algazarra reinante no mundo dos vivos. Os vendedores de vela, e do sorveteiro a toda altura anunciava pros viventes, e os mortos no seu dia ouviam, porém não sentiam os sabores dos picolés que tinha na caixa de isopor a tiracolo.

Adonias e Zé Cutia eram amigos, dois serventes de pedreiro, gostavam de beber cachaça todo dia. A depender da ocasião, o dia todo. Encontravam-se na bodega de Ciço “Pé Cotó”, bem no meio da ladeira da Rua Santa Luzia. Maria do Carmo fazia-lhes companhia. Nos vigores da juventude Do Carmo fora linda meretriz. Os melhores anos de sua vida vivera no baixo meretrício. No Cabaré de Suné, uma daquelas casinhas acanhadas, que margeiam o aterro da Avenida Pancrácio Rocha. A música alta, copos cheios de cerveja. O perfume, a muito custo conseguia disfarçar o cheiro do lamacento lodaçal, em que transformaram o Camoxinga, lá no bairro Artur Morais. Depois de velha, Do Carmo virou macumbeira e ganhou o apelido de Maria Paçoca. Naquelas mentes encharcadas de vapores de álcool, surgiria um plano macabro. Na véspera do dia de finados, resolveriam que os dois homens, iriam invadir o cemitério pra decapitar um defunto. Segundo a rameira, num ritual de magia negra, a cabeça do finado, imploraria para que lhes devolvesse o corpo. E eles prometeriam que só faria o que pedia depois que relatasse os números da loteria, e os três ficariam ricos.

Depois de escalarem o muro, eis que estavam no cemitério. Já sabiam direto aonde ir. Eles mesmos tinham ido pro sepultamento de um ancião, um agricultor, que se chamava Pedro Cândio e morava na Rua de Zé Quirino, falecera naquele dia. Zé Cutia levava um facão e uma enxada, Adonias portava uma lata de querosene vazia pra colocar o sinistro dentro. Tudo era breu, acostumados à escuridão vislumbravam os contornos das tumbas arribadas de cruzes. Delas erguidas em alvenaria, delas gradeadas de ferro, delas nuas, somente um montículo de barro. E as mães piedosas, mais tarde acenderiam velas, e chorariam seus filhos ali sepultados. Se criança ganhavam o nome de anjinhos.

Seguiam, e o que reinava era o silêncio. O álcool anestesiava-lhes os pensamentos, o que ajudava a disfarçar o medo. Ignorando o efeito do anidro, os sentidos lhes davam nos nervos. E qualquer ruído, além dos produzidos por eles mesmos, respiração ofegante, chiado dos chinelos e deglutição de cachaça, era motivo de calafrio. Pra chegar até a sepultura de Seu Pedro Cândio eles passariam em baixo de um pé de castanhola. Era um pé amêndoa razoavelmente pequeno, seu tronco fino e copa reduzida, lembrava a silhueta duma avestruz gigante, no meio duma cidade fantasma. De repente entre uma catacumba e outra, os dois homens se depararam com um enorme lobo negro, de pelo viscoso e eriçado. O grotesco animal nem parecia estar em posição ameaçadora. Sequer dava pra ouvir o rosnar de sua ira, ou o ranger dos seus dentes, nem a baba viscosa a correr-lhe pela boca. Porém o que fez os dois viventes, no campo dos mortos, se encherem de horror, era que no lugar dos olhos, o cão tinha duas bolas de fogo. E havia algo preso a sua boca. Isso mesmo era uma cabeça humana! O maldito trazia a cabeça de Seu Pedro Cândio presa aos dentes pelos cabelos.

Os infelizes lacaios, largando o que traziam, saíram em desabalada carreira. Tanto era o medo que os cegava, e já não sabiam pra que lado ir. Saltavam as catacumbas, feito trôpegas gazelas desengonçadas. Pro lado pra onde estavam indo havia um velho poço, desativado, coberto com velhas tábuas. Um e outro pisaram em cima, com o excesso de peso as tábuas cederam e os dois foram tragados pela boca do poço. Engolidos por mais de vinte metros de abismo, em trevas e água podre despencaram. No fundo pontiaguda vara de vergalhão os aguardava para o abraço da morte, e os espetou dum lado a outro. Com o impacto abriu-se enorme fenda donde jorrou sangue aos borbotões. Nem se deram conta que transpassados pelo ferro pareciam nacos de carne num espeto pronto pra assar no fogo. Tinham pressa de fugir dali, se desvencilharam do ferro, porém perceberam que seus corpos permaneciam lá, inertes. Não importava que ficassem então, precisavam sair dali. E escalaram a fétida parede de pedras do poço. Ainda deu pra ver ratazanas enormes chegando sobre eles mesmos, atraídas pelo cheiro de sangue.

Ainda era madrugada quando chegaram a casa de Maria Paçoca. Ela já havia iniciado os preparativos para o ritual de bruxaria. Várias velas acesas no chão formavam um cinco Salomão, no centro vários objetos grotescos, cabeça de caveira, dentes de animais entre outros. Eles entraram, já não precisavam que ninguém lhes abrisse a porta. Aproximaram da mulher, que não dava conta de suas presenças. Em vão tentaram falar-lhe sobre o ocorrido, simplesmente ela não os via. Com raiva começaram a derrubar o que havia na mesa, cartas de tarô, uma estatueta do preto velho voou sobre a cabeça da mundana. A do capeta vermelho sorrindo caiu e partiu o pescoço. A garrafa de cachaça tombou e um incêndio se alastrou rápido. As labaredas num segundo consumiu o forro da mesa e se espalhou como agilidade. Maria Paçoca sob o feito de maconha, em vão tentava salvar seus malditos relicários de praticar magias. Nem se deu conta que o fogo lhe lambia as vestes, e seu cabelo em chamas dava-lhe o horripilante aspecto de uma medusa flamejante. Pra finalmente tombar e ir aos poucos vislumbrando entre as chamas seus dois amigos. Sem se darem conta que agora eram finados.

Fabio Campos

21 out

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E você, em que é viciado?

Diante de tanta notícia triste, de violência urbana e rural: crimes de roubo, furto, estupro, estelionato, atentados a integridade física e moral de pessoas, atentado violento ao pudor. Violência chegando aos mais diversos ambientes, onde antes, se não fossem totalmente imunes, pelo menos ocorriam como muito menos freqüência: Violência nas escolas, nas residências, passeatas pacíficas com infiltrações de vândalos, destruição de patrimônio público, e até nas igrejas um ambiente tido como de paz, a violência chega com mais ênfase. De modo que para nós que optamos por uma crônica com viés humorístico, está se tornando cada vez mais difícil fazer rir num momento tão preocupante. De repente podemos até ser mal interpretado porque desdenhamos da brutal realidade, não é, nossa intenção última. Um vídeo disponível no portal G1 (globo.com.br) chamou-nos atenção:

“Você é viciado em tecnologia? Saiba quais são os Sintomas”

Daí concluímos que o mal da humanidade talvez sejam justamente os vícios. Nos viciamos nas coisas mais banais, e nem atentamos pra isso. Pais e filhos viciados em “facebook”, e outros sítios de relacionamento via internet, viciados em telefone celular, em telenovelas, em filmes etc. Olha só esse caso :

“Por Bom dia Online – Imagine uma pessoa que pede perdão de seus pecados ao mesmo tempo em que comete um furto. O caso aconteceu na Catedral Metropolitana de São Sebastião, no centro de Ribeirão Preto. O iPhone 5 do padre Carlos Eduardo Tibério, 39, foi furtado por uma mulher, após seu momento de confissão. O crime aconteceu na última terça-feira, 01, por volta das 17h30. Há um ano no sacerdócio, o religioso diz que não vai prestar queixa policial contra a suposta ladra. “Eu já havia perdoado seus pecados desde o momento da confissão”, disse. O telefone, que estava sobre o aparador do confessionário, sumiu no momento em que o padre saiu da sala por um instante.” (fonte: minutosertao.com.br)

Essa senhora, com certeza tem um vício, detectado no divã do psicanalista, a cleptomania. Vício em furtar objetos. E esse outro caso:

Por ChicoSabeTudo

Zezinho Lima da Silva, 37 anos, morador da cidade de Palmeiras dos Índios- AL, morreu no fim da tarde do último sábado (12/10), por volta das 17h30min, depois de engasgar-se com um pedaço de doce de banana no Povoado Barrinha, zona rural de Paulo Afonso. A vítima estava com a mulher na casa de amigos quando aconteceu o fato trágico.

Segundo informações, ele ainda foi socorrido para o Hospital Nair Alves de Souza, mas faleceu antes de dar entrada na unidade.(fonte:minutosertao.com.br)”

Quiçá o cidadão, fosse tabagista, daí resolve parar de fumar e para diminuir a ansiedade provocada pelo abstinência do tabaco passar a consumir doce na esperança de se ver livre dum vício. Aí torna-se chocólatra, viciado em chocolate. Uma mulher, ou moça que perde um ente querido e tenta compensar a perdas com um vício o de comer, por exemplo.

Meu amigo Tonho Neguinho o matuto mais arretado de Senador Rui Palmeira se assume viciado no consumo da cana de Vitória de Santo Antão: Pitú. É um pitúlotra assumido. A bebida tenta amenizar no slogan: “Mania de brasileiro” Mania? É vício mesmo! Então Tonho estava doido pra tomar uma, porém estava liso, foi dormir e sonhou que chegava no bar de Ciço de Quincas pede “uma”. E pede uma banda de limão. Quando vai tomando, Creuza sua digníssima esposa lhe acorda! Lamenta:

-Pôxa! Eu devia ter tomado sem limão mesmo.

E tem aquele homossexual que na hora de fazer amor, descobriu um vício no parceiro, que ficava pigarreando o tempo todo. Comenta:

-Que vício mais feio!

O ativo devolve:

-Repara quem fala!

Fabio Campos 17.10.13

No fabiosoarescampos.blog.spot.com o conto que já é recorde de acesso: “Sete Casas, Sete Pecados”

11 out

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CRONICA ACREDITE SE QUISER Crônica acredite se quiser

NOVIDADE? NENHUMA… ACREDITE, SE QUISER!

Pra quem não sabe, dentre tantas histórias sobre a criação do refrigerante Coca-cola, tem uma que diz que foi criado inicialmente como um xarope, um tônico para cura de todos os males, enfim uma panacéia. Pois bem já se vão 127 desde então. Recentemente o refrigerante sofreu poderoso “ataque” do famigerado jogo de marketing. Alguém apareceu no facebook acusado-o, de uma sequela grave motivada pela ingestão da bebida. Vejam só! Pra recuperar as vendas o fabricante saiu com essa:

“Cientistas chineses se dispuseram a descobrir como lidar com uma ressaca desde o início. A resposta é mais banal do que se imagina: Sprite. Sabe-se que os piores sintomas da ressaca não são causados pelo álcool em si, mas pela reação do organismo para tentar decompor o álcool ingerido. Por isso, muitos recomendam tomar uma dose de bebida alcoólica para “rebater” a ressaca. O organismo desencadeia duas reações químicas para decompor o álcool.

Primeiro, o fígado transforma o álcool em acetilaldeído e depois transforma esse segundo produto em acetato. O acetato não faz mal ao organismo, mas o acetilaldeído é prejudicial ao fígado e responsável pelos principais sintomas da bebedeira: náusea, vômito e dor de cabeça.

Cientistas de uma universidade em Guangzhou estudaram como as bebidas afetam a maneira como o corpo metaboliza o álcool ao pesquisar 57 tipos de bebidas: chás, bebidas gaseificadas e outras foram analisadas, segundo reportagem do jornal inglês Independent.

Enquanto alguns chás frearam o metabolismo do álcool, uma bebida conhecida como Xue bi acelerou a decomposição do álcool, encurtando a ressaca por causa da menor exposição ao acetilaldeído. No resto do mundo, a bebida atende por Sprite. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Food and Function da Royal Society of Chemistry.” (Fonte: Yahoo.com.br/notícias)

Entenderam? Caiu a venda de Coca-cola anuncia o “Sprite” como curador de ressaca! Acredite se quiser! Mais interessante é o nome do refrigerante “Sprite” na China Xuebi. Um anagrama de Xibiu. Ou seja pra curar ressaca chupe Xibiu! Que aqui no Brasil é uma bala doce…

Essa outra é ainda mais engraçada. Coisa de americano:

“Um grupo de alunos da Universidade do Tennessee foi suspenso após ser pego numa prática duvidosa. Um dos alunos, um rapaz de 20 anos, foi parar no hospital por ter ingerido álcool através do reto. A brincadeira é chamada de “butt chugging”.

Quando ingerido por meio da via retal, o álcool é absorvido de forma muito mais rápida pelo organismo: isso porque a região tem mais vasos capilares e veias. Como resultado, os efeitos da bebedeira acontecem mais rápido. No dormitório, foram encontrados outros jovens embriagados e diversas caixas de vinho.

Segundo o jornal Konoxville News Sentinel, o rapaz chegou ao hospital com um nível muito alto de álcool no sangue: cerca de 0,4% e também apresentava sinais de violência física e sexual. Os alunos foram suspensos pela Universidade. (vi no Washington Post).(Fonte: Yahoo.com.br/notícias).

Juro que eu não sabia que os americanos gostam de tomar no c… Literalmente!

Procurei uma piada engraçada com o tema ressaca e não encontrei. Aí me lembrei de meu amigo Tonho Neguinho, o cabra mais arretado de Senador Rui Palmeira! De quem nunca mais contei nada. Pois bem, Tonho foi passar uns dias em Aracaju na casa de um de seus filhos, que tinha uma garagem pra alugar. Sentado na porta, numa baita duma ressaca. Aí chega uma mulher interessada em alugar o ponto, e pergunta:

-Seu Zé! Passa ônibus aqui na porta?

-Minha senhora! Na porta passa um guarda-roupa, uma mesa! Ônibus não…

-Essa rua vai dá no shoping?

-Ela pode até ir. Mas eu prefiro que ela fique aí mesmo…

Nisso parou um ônibus próximo. E a dona continuou o interrogatório:

-Esse ônibus vai pra praia de Atalaia?

-Se a senhora tiver um biquíni que dê pra ele…