15 jan

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SEDUÇÃO ( Party One)

Um dia, pouco interessava qual, vinha vindo. Um homem, tampouco se sabia quem era, vinha vindo. Um outro – que não precisava mais vir pois já estava – contava de dias que vinham vindo, de homens, de céus bem afeiçoados, ou mal promissores que sempre vinham vindo. O que vinha, parou na esquina. E ficou bem assim. Ficar bem assim – era estar-se de pé, estático – assuntando as coisas. Por um bom tempo ficou esquinando. Isso mesmo. Esquinar era – ficar afrontando o que se tinha pra desfazer, ou dependendo do caso – refazer. Àquele, não se sabia se tinha ciência que se encontrava perante uma das quatro (es)quinas do mundo. Assim estava o homem.

Era muito provável que o outro se dispusesse a descrever o que via. Talvez não tivesse muito que contar. Por aquela ser uma cena tão comum, corriqueira, atemporal. Um lugar qualquer no mundo. Muita gente passando. Pra lá e pra cá passando. Cada um carregando – como bem podia e entendia – aos seus fardos-destinos. E ia um que levava às costas, um porco abatido já desviscerado. A marcha de calça coronha, e canos de botas sanguineos. Orelhas a balançar pingantes – alegremente a caminho do mercado – olhos fechados, suinamente sorriam. Um negro com um caçuá na cabeça – ia, sem nada dizer – falava de cachos de banana da terra. Nanica, e Prata somente na semana que viria, diria se alguém perguntasse. O balaio-fubá com seus dedinhos morenos, finos, entrançados, abraçava um saco branquinho como as vestes de Jesus na transfiguração! Num misto de melancólico e curioso o balaio olhou pro caçuá. Nos bolsos da calça de ir pro cassino do homem branco, carteira, dinheiro, documentos, a algibeira-relógio com almofadinha azul-marinho no forro interno da tampa. Numa carroça puxada por uma burra, seis ancoretas enjoadas iam, e de tantos solavancos, vomitavam água do sobejo. O promotor público com seu bigodinho fino. Os picinês no rosto recém-escanhoado – desfilava na rua do comércio – dentro do seu carrinho feio, que mais parecia uma baratinha! Não era feio não, era a inveja que era muita! E iam, e vinham, tantos destinos. Doidamente, milagrosamente, numa alucinada sincronia. Corpos a tirarem fino, uns nos outros. Enquanto as almas não tendo a mesma sorte esbarravam-se. Inexplicavelmente aquele homem resolvera parar. Era isso que intrigava. Por que parara? A ficar sem mais nem menos, margeava a vida? O livro, não dava pra ver. No entanto ele estava lá, com certeza, estaria guardado em uma de suas bagagens. Porque trazia mais do que necessário. Uma inquietude mal disfarçada a dizer que se quisesse consultar o livro, ali não se sentiria muito à vontade pra isso.

E aquele que observava, achou por bem – e propiciava a hora – descrever o sujeito. Gostava de começar pelo figurino, porque achava que toda indumentária tinha poder impactante. E que era o cartão de apresentação de qualquer um. Achava que até um mendigo – como tal – devia vestir-se condignamente. Porque pra ele, era bastante dizer o que vestia, pra dizer quem era. Vestia um paletó azul – pobremente desmaiado – escuro. Uma calça de tecido também muito gasta. A ponto do entorno dos bolsos a negar o blue marinho que um dia tivera. Tinha umas coisas ali que não combinava – porque nesse mundo de meu Deus tem coisas que não fazem o menor sentido – o chapéu de salgueiro, lixado a esmero. Com faixa negra na base da copa, clamava uma cor neutra, mas o sol não colaborava. Entre os lábios e os dedos da mão direita um cachimbo, feito de álamo cru. A piteira metálica reluzia ao sol das dez, dando a impressão que o homem tinha dentes de ouro. Um par de sofredores nos pés. Três ou quatro volumes de bagagem jaziam no chão. Faltando pouco pra se apoiarem no poste. O chapéu, pendido pro lado, e o sol continuava não colaborando. Os traços marcantes, os fios de cabelo branco, as linhas da idade, tudo sequestrado pela luz. A impressão que dava era que Getúlio Vargas resolvera sair do Palácio do Catete indo bater na praia de Copabacana – em plena segunda-feira pela manhã – surpreendendo até os periquitos que arribavam araucárias, ananás e palmeiras – trazidas de além-mar por D. Pedro II para enfeitar – a Avenida Atlântica.

E o livro? Se era que o tal livro realmente existisse – o que já não duvidávamos – descobrimos onde o escondia. Estaria dentro daquele bolso que fica na tampa da mala pelo lado de dentro. Muito parecido com um embornal de caçar rolinha e preá no sertão do Cariri. Donde aquele miserável nunca, jamais deveria ter saído. Dentro da mala de couro quadrada, dotada de cinto de couro cru, com quatro cantoneiras de lata nos quatro cantos. Na bolsa de pano da tampa pelo lado de dentro se encontrava o tal livro de capa vermelha. A capa trazia a suástica nazista dentro de um círculo preto. Em letras sóbrias – na parte de cima – talvez dissesse “Mein Kampf”. Por causa desse maldito livro há vinte e tantos anos passados, ainda estudante fora preso e torturado. Seus pais e irmãos jamais entenderam o que significava a palavra ‘comunista’ com que alguns vagabundos – na calada duma madrugada de sábado – picharam no oitão da casinha de taipa. Pra eles tudo aquilo só podia ser uma espécie de doença muito séria, um castigo de Deus por ter rezado pouco. Naquela redondeza, só eles foram agraciados com aquele atraso de vida.

Quando iam pra feira, os homens da cidade olhavam-nos com desprezo. Jamais esqueceriam no dia que o jipe da polícia chegou ao terreiro da sua humilde casinha. A tapera de taipa no Sítio Mocó dos Vieiras nunca tinha visto um carro na vida. O comandante e uma guarnição de cinco homens Com seus enormes fuzis munidos de baionetas espetavam o céu. Seis pra dar voz de prisão a um frangote – que nem gala tinha direito – um menino, um matuto da roça. As vistosas fardas de lona camuflada e o chapéu de cuia “brilhou no céu da Pátria neste instante” E fez raiar o sol da desliberdade. Mesmo não demonstrando a menor reação, despiram o rapaz da cintura pra cima. Amarrado de corda, arrastado pelo terreiro no entorno da tapera, as vistas de pais e irmãos humilhado. Socos e pontapés, e deitou sangue subversivo, dum nariz dissidente, maculando o terreiro que sua mãe todo dia varria. Sua cabeça foi raspada, seu cabelo foi juntar-se ao cabelo de milho do alpendre, no aceiro da roça. Levaram-no para o manicômio judicial. Lá as torturas se intensificaram, choques elétricos, medicamentos psicotrópicos, alucinações e o diagnóstico: esquizofrenia. Vinte e tantos anos ficaram pra traz, as lembranças não.

O livro que Ulisses guardava a sete chaves desde menino, ganhara de tio Afonso. E o escondia de todos porque era um livro proibido. O padre Bento mesmo, num de seus sermões, teria excomungado e tornado herege todo aquele que o lesse. O livro falava de muitas coisas que os homens do seu tempo negavam. De que inicialmente todas as coisas tinham o aspecto do caos, e o que hoje cogitamos chamar de mundo se dava o nome de Caos. “E havia uma densa escuridão e um imenso vazio sem começo nem fim. Dali surgiu Gaia, a Terra, que deu a luz Urano. E Gaia e Urano se amaram, e desse coito incestuoso nasceram os titãs: seis homens e seis mulheres. Sendo Cronos e Reia os mais taludos dentre eles. Urano sabendo do poder e da astúcia de seus filhos, com medo que os derrotasse não permitiu que saíssem do interior de Gaia. Pensando que assim se manteriam obedientes ao pai. Com a ajuda da mãe, com uma foice, Cronos cortou as genitais do pai e lançou-os ao mar, o esperma que caiu produziu Afrodite, o sangue da ferida gerou Ninfas. Após libertar seus irmãos Cronos seduziu e desposou Reia sua irmã. Com ela procriou os deuses do Olimpo entre eles Hera, Poseidon e Zeus mais conhecido por Júpiter. Através de artimanhas Zeus conseguiu tornar-se rei dos titãs do Olimpo, de lá governava, os céus e as tempestades.”

O mundo agora mesmo, não sabia mais o que fazer com Ulisses. Depois de vinte e tantos anos, um universo inteiro de gente que vivera com ele já morrera. Pais, avós, tios, irmãos. Talvez se houvesse ainda algum, não o reconheceria, do jeito como se encontrava, não o reconheceria mais. Além do que tantos males causara a família, melhor seria não voltar a vê-los. E as asas de Cronos puseram sobre ele sua sombra. E voando nelas foi até a casinha do sítio Mocó. Sua mãe na cozinha, a ficar de cócoras pra lavar as louças numa bacia. O tecido da saia ajuntava todo no meio das pernas, os joelhos iam aos seios, murchos. Um lenço na cabeça escondia sua imensa cabeleira raiada de fios brancos. Pucumãs mantidas nos caibros negros de fumo, pro caso duma ferida braba a estancar o sangue. O pedaço de couro de veado preso a cumieira era pra mordida de cobras. O galho de arruda num jarro pra afastar mal olhado. Mas quem nesse mundo de meu Deus, iria lançar olho gordo pra tanta miséria em cima da terra! Uma tapera caindo aos pedaços, galinhas, bacurinhos, uma velha mula, a vaquinha Princesa, a cachorra Cruvina. A lavoura na roça, um açude quase seco. Era o rico patrimônio dos Vieiras, que Ulisses tanto gostaria de reencontrar.

Como gostaria de estar lá novamente. Ah! Se tivesse o poder de Cronos. Enquanto pensava nisso, Ulisses viu uma moça atravessando a rua. E vinha em sua direção. Stephanie de Mônaco, bela deusa grega em plena manhã. Por um instante na terra do condor, de um olho o brilho, um raio (incan)indecente. Sedução.

Fabio Campos

31 dez

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QUANDO CRESCER…

Os dias eram os que preludiavam o final do ano. Havia ternas lembranças de histórias de tempos idos nas mentes dos que já haviam amadurecido. Sendo fim de ano, com muita propriedade vinham. As casas, as lojas, as ruas cheias de gente. No limiar de mais uma mudança de ciclo, o que mais havia era efusão de sentimentos, de modo especial nos que detinham mais idade. O que estivera por muito guardado, nessa época aflorava, dizendo o quanto as pessoas mesmo amando tão pouco, como gostariam de serem amadas. Despejadas dos postes, das fachadas das lojas, das árvores da praça, cascatas de luzes a se derramar, inundava as calçadas. Gente alegre ia e vinha portando pacotes coloridos, vozes exaltadas. Dilúvio de cores dizia de fortes sentimentos a serem revividos. E tudo, tinha tudo para ser muito bom.

A igreja, a farmácia, a loja de brinquedos. Os bares com suas toldas coloridas, lembrava Paris “A cidade Luz” da Belle Époque. Mesas nas calçadas, homens de terno e gravata, chapéus de massa, vastos bigodes, bebiam cerveja em tulipas douradas esfumaçadas de gelo. Belas damas com seus vestidos longos recompensavam as vistas masculinas com generosos decotes de colo. Cigarros finos, entre os dedos bem cuidados, ornados de jóias, finas piteiras, e a fumaça ia desenhando serpentes que levemente subiam e sumiam, espalhando aroma de tabaco no ar. Polidamente misturando-se a perfumes cítricos e suaves. Liberados das peles dos casacos, das ricas vestes e colares brilhantes. Diríamos que daria pra tirar dali magníficas aquarelas de T. Lautrec. Orvalhado céu de estrelas jamais intencionaria competir com esfuziantes chuva de luzes dos brinquedos na praça onde crianças alegremente faziam a festa.

Pedro era garçon no Bar “A Lira dos Vinte Anos” olhava pra porta da igreja, os degraus cheios de gente. Era o branco a cor predominante nas vestes. Ainda mais esfuziante que as frugais luzes das lanternas hasteadas nas mãos dos coroinhas. Dali a pouco o padre iria celebrar a última missa do ano. As luzes da nave apagadas, tornando ainda mais solene a triunfal entrada do cortejo. Somente as seis velas que representavam os dias da semana, tendo a cruz de Cristo ao meio, iluminavam o altar. E o presépio montado ao lado do sacrário recebia unicamente a tênue luzinha vermelha duma lamparina. Permanentemente acesa para lembrar que Cristo sempre presente estava. Numa tradição trazida do longínquo período medieval. Naquele tempo eram alimentadas com azeite puro de oliva, ou cera de abelha. E o coral composto por meninos celibatários que deveriam seguir a ordem no tempo determinado. Enchiam a igreja com suas vozes agudas que lembravam querubins e serafins. Apesar do barulho e do intenso movimento das ruas Pedro conseguia pensar. Pensava que quando saísse dali iria pra casa de sua avó Júlia com quem morava. De certo a encontraria ainda acordada a olhar o velho álbum de fotografias. Perguntaria se ele já havia jantado, ele diria que sim, e a aconselharia que fosse dormir. Porém ela só iria quando ele estivesse deitado. Uma das fotos permanecia debaixo do abajur no criado-mudo. Era a foto de um homem vestido de terno de linho com um chapéu na mão. Era do seu avô Francisco, a muito já havia falecido.

Jarbas o pai de Pedro, naquela manhã do primeiro dia do ano, lembrava do filho. Fazia dois anos que não se via, a trabalho fora morar noutra cidade. Tinha por tradição pagar uma promessa de todo fim de ano. Inventava uma caridade, uma penitência. Isso porque havia alcançado uma graça. Certa vez vinha pelo meio da feira, e começou a passar mal. Trôpego veio vindo pela rua Rotary. Algumas pessoas conhecidas observou que daquele jeito parecia estar bêbado. Cambaleante foi ajudado a chegar a casa. Não era efeito de bebida alcoólica, tinha acabado de sofrer um acidente vascular cerebral. Ficou prostrado na cama somente o tempo que dona Olga, a mãe de Pedro, conseguiu uma ambulância que o levaria para a Santa Casa de Misericórdia em Maceió. Passou mais de quinze dias na UTI e conseguiu se recuperar ficando algumas sequelas. Um braço esquecido, o maxilar dormente, mas a fisioterapia e sua fé em Deus, fez com que recuperasse parte dos movimentos. A promessa daquele ano era ir novamente a pé, até a pedra do urubu. Encimada da capelinha do padre Cícero. Ainda escuro sairia de casa. Levaria consigo mantimentos, porque outra vez, quando chegasse a determinado lugar deixaria estrada. Embrenharia na caatinga por mais de meia hora. Pra chegar num lugar deserto donde avistaria o casebre de Jaconias, um octogenário ermitão. Ficaria horas esperando que ele saísse pra fazer o papel dum papai Noel do sertão. Jaconias já se acostumara com aquela situação, a cada fim de ano. O dia amanhecia e poria os pés descalços dentro da mata, ia orar ao pé da cruz no alto da serra. E ao voltar encontraria sua choupana totalmente remodelada. As vasilhas lavadas, águas no pote, tudo varrido e limpo. Novos forros de cama, roupas limpas, uma quantidade de mantimentos que lhe garantiria vários dias de fartura. Até fumo picado e fósforo aquele homem que jamais conhecera deixaria. Quando descesse da serra tudo isso encontraria no seu casebre. A única coisa que podia fazer em troca, era uma oração pra aquele que considerava um anjo da guarda. Nunca se encontraram, nunca conversaram. No entanto se conheciam tão bem. Melhor assim. Era o que ambos achavam. Melhor assim.

No oceano celeste andorinhas, uma aqui, outra acolá dali a pouco, nadavam solitárias. Em negrito desenhavam graves notas de “si’ no ar, cortando com as tesouras de longas caldas. Enquanto cardumes de garças, militarmente atravessavam, dum lugar pra outro, levando som nenhum. Porem dava pra vir de muito longe um som de castanholas quebrando. E como vinha de muito longe também doutra dimensão vinham. E quão antigo era, antiguíssimo! E diziam dum menino de calças curtas, que ia a bodega de seu Benício, comprar cigarro pro avô, e ia tão feliz porque ganharia o troco. E compraria bengalas de açúcar raiadas de corante vermelho. Isso lá pela quarta hora da tarde, quando passava o carrinho de Seu Antonio doceiro tilintando sua campainha. Dando a lembrar um papai Noel fora de época, que só daria doces mediante um escambo de moedas.

Nas novenas de natal três Marias iriam: Das Dores, Das Virgens e Do Carmo. Cada uma com sua especialidade, a primeira pra cuidar de doente, a segunda a arranjar casamento pra moças encalhadas, menos pra ela mesma; e a terceira coitada, pegou a fama de “papa-defunto”. Eram as três filhas de Seu Lipercino, o mecânico chefe, da usina de algodão, que tanta vontade tinha de ter um filho homem, mas da “usina” de dona Umbelinda só mulher fêmea saiu. Maria das Dores conhecia todo tipo de meizinha pra aliviar os males que afligiam os pobres, que não podiam comprar remédios de farmácia. Sabia da utilidade ou dos males que causavam cada mato existente na caatinga do sertão. A serventia da carqueja, do pau d’arco, da aroeira, do Samba Caitá, dos benefícios da gosma da Babosa. Maria das Virgens sabia duma ruma de oração. Oração pra livrar as pessoas de mau-olhado. E mesmo pra arranjar casamento. Aconselhava: era só ter uma conversa de pé de ouvido com Santo Antonio! Tinha uma pequena imagem do santinho que era pra emprestar, recomendando que no mês de junho colocasse dentro duma vasilha com água. Pra só tirar, se até o fim do mês arranjasse um noivo. Maria do Carmo muito religiosa ia a todo velório, e os doentes em leito de morte pediam aos parentes: “-Pelo amor de Deus! Não deixem Do Carmo vir me visitar!” Sua presença, era certeza de morte breve.

Pedro lembrou, que com seu avô montou a lapinha e a árvore de natal de vó Júlia. Tinha só cinco anos e saiu com uma pergunta desconcertante: -Vô o que você quer ser quando crescer? A pergunta pegou o velho Francisco de surpresa. E olhando pro menino: -Quando Deus crescer e for bem grande, vou pedir pra ele que nunca deixe faltar vô pra ninguém, o ano inteiro.

Fabio Campos

21 dez

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E O QUE VOCÊ FEZ? (And what have you done?)

Eis que vinha vindo o dia de natal. Num tempo em que os cartões de felicitações, de mão em mão iam indo, correr mundo. De tudo fazendo pra chegarem a tempo a seus destinos. E encheriam de graça e luz, os olhos quando chegassem aos seus destinos. De bicicleta, na bolsa do carteiro, a passearem pelas ruas e praças. E palpitariam os corações dos remetentes, premeditando o semblante dos que receberiam. Haveriam de amanhecerem junto de garrafa de leite no batente da porta. Dentro da agenda do gerente da loja. Junto ao diário de classe da professora. Ao pires da xícara de chá da dona da pensão. Pra finalmente irem repousar junto a latas de bombons, buquê de flores e caixas de pães da Itália. A alegrarem as mesas forradas com toalhas de motivos natalinos, com cheiro de vinho do ano passado.

Árvores urbanas se espreguiçavam mansamente nos seus mais altos galhos, a dizerem que era tempo de as enfeitarem. Tempo de se voltar a ser criança. Tempo de se ser menino. Tempo de ter menino-Jesus, vindo brincar de bola com a molecada no campinho. Verdes, verdinhos de jardim, nas asas de Betularias enviariam seus acenos pra um casal de namorados no banco da praça largados. Alegres, vistosas samambaias a discutir quem angariaria mais olhares. De bolas coloridas se enfeitando, de cristais olhares. E os piscas-piscas camuflados na folhagem do jardim, tiravam o dia pra dormir, e aguardariam a noite pra acordarem velhos sonhos.

Havia uma, duas, três casas, solitárias. E a rua, sem calçamento, sem iluminação, sem rua. Sem alegria de meninos brincando de bola. De rua mesmo, apenas o nome. Rua do Colombo. Sendo aquela à hora terceira, os meninos teriam ido pro campinho, lá embaixo. Encoberto pela algazarra de vegetação ficavam. O mundo tinha uma vontade imensa de se mostrar solidário ao tempo do advento. E pra isso revestia seu teto, de um rebanho de nuvenzinhas pequenas! Tão engraçadas. E os meninos do cabelo de fogo, punham-se a chamá-las de carneirinhos, Deus nem ligava. E suas avós, no alpendre da casa de dona Marinete, se lembrariam, que aquela era a hora da misericórdia. E por-se-iam a recitar um rosário, apressado, cheio de angústia e solidão. E as velhas senhoras se lembrariam de quando eram meninas. E ficariam tão sonolentas, e durante a reza cochilariam tanto. E acabariam sonhando com suas mães. Enquanto os gritos coloridos da molecada a grudarem-se nas camisetas, listradas numeradas, de fazer gol. Esbaforidas acabavam fazendo o que devia ser feito. E corria e corria por entre o verde.

Rua do Colombo guardava nenhuma comédia, mas pelo menos três tragédias. O homem da última casa que nunca falava com ninguém. Quando saía era somente pra ir ao mercado. Um terreno baldio, onde um cavalo pastava. A penúltima casa era duma velha que sofria de doença celíaca. Outro terreno vazio que tinha um pé de Acássia solitário, plantado no meio da grama. Findava a rua com a primeira casa, da menina triste da janela. Na cozinha, da casa do meio, uma cadeira de balanço aproveitava o silêncio da manhã, e a despeito dos pardais pipilando diziam assim mesmo: ren-ren… O teto havia se chegado, pintado de um verde claro se valia da luz diurna pra definir a geladeira, o fogão de estanho, o guarda-louça antigo. Junto das xícaras e taças de cristal, um descanso de cachimbo de porcelana com duas piteiras nodoadas de fumo, um dia pertencera a Seu Firmino, o marido barbeiro que fora embora, fazia anos.

Eis que vinha vindo, o dia de natal. A menina da casa do meio permanecia na janela de grades de ferro, fechada. Deixando ainda mais triste seu rosto triste. Sendo porém tempo de natal, era tristeza boa, sincera. Um cavalo pastava no terreno baldio. Por que sentia tanto medo? Tinha medo, do olho negro do cavalo. No que pensava o cavalo? Aquele olho lhe ia tão dentro de si. Nos recônditos porões da sua existência a tentar desvendar profusos segredos. De beijos forçados, beijos proibidos. Coisas que sua mãe, nunca deveria saber, jamais. Tinha medo. O professor de música um dia abusara dela. Preferia morrer a ver algo tão abominável exposto. E odiava-se por isso, sentia-se culpada. As pessoas têm o costume de julgar a partir de um lado apenas das verdades. Sabia disso pelos comentários. -Por que Adelaide era uma menina tão arredia? Na escola, na igreja, no parque da praça. Chegava a evitar o contato com as coleguinhas. Não dava pra entender porque não queria participar de nada. A professora tocou-lhe enquanto estava distraída e instintivamente ela a repudiou, foi traumático. Uma vez, dentro da biblioteca municipal, se atracou com Dulce sua melhor amiga. Só porque tomou de sua mão um livro que pegara primeiro. Na aula de catecismo irmã Flora conversou com ela. Adelaide voltaria pra casa ainda mais triste. A bolsa dos livros fortemente apertada contra o peito. A mãe reclamava pela demora no banheiro. Mal sabia que se trancava ali, quando queria chorar. Despia-se e ficava num canto abraçando a si mesmo. Sentia-se suja. O chuveiro prolongado, e esfregava-se com tanta força que chegava a machucar a pele. Odioso contato do professor, odiosos beijos.

Lá longe, muito além donde as vistas podiam alcançar. Eis que vinha vindo, o dia de natal. Talvez para além do fim do mundo, estivesse chovendo. E o vento na sua intrépida altivez viesse perguntar: -Tá sentindo? E a menina devolveria a pergunta: -Sentindo o quê? Cheiro de natal? E natal tem cheiro? E ouviria o vento a dizer que: -Lá longe, muito além donde as vistas podiam alcançar, também o natal era triste. A mãe da menina, chata como toda mãe devia ser, lembrou de suas obrigações. No silêncio da janela, acabou mal-dizendo das mães que achavam que filhas eram suas propriedades, das quais podiam usar a seu bel-prazer. Revisou mentalmente o que tinha pra fazer. Recolher os panos no varal, porque Deus prometia chuva. E quando Deus prometia dificilmente esquecia de seus compromissos. Mas como era natal talvez ele estivesse muito ocupado devido a quantidade de pedidos aumentada. Em papai Noel deixara de acreditar fazia três anos, desde o ano que seu pai falecera. Quando ela tinha só nove anos de idade. O vento frio soprando forte na vidraça aberta, veio lembrar-lhe de ir colocar as galinhas e os pintinhos no grajau. Recolher os ovos da poedeira. O chiqueiro dos cágados carecendo de reforma, mas só quando tio Jonas viesse somente ele pra ajudar nos reparos. Numa casa onde só duas mulheres viviam tanta falta fazia o esteio da casa. Sua vó dizia: -Minha “filha” nunca queira ficar velha nem viúva! Será o fim… E não concluía a frase. Fim de que vó? Fim da vida? Fim do sonho? Fim do mundo? Talvez fosse isso. A Rua do Colombo, talvez fosse o fim do mundo.

Era tempo de cajus no cajueiro de Seu Antonio. E os galhos escalando os muros do quintal. O crime pelos meninos premeditado nunca consumado. Dariam as Melipondias vazão pra fartarem-se até se embriagarem do doce néctar do pomar de Seu Antonio pedreiro. Ainda tontas, indo desdenhar das pobres flores da Acácia solitária do terreno ermo. O pedreiro perdera o único filho num acidente de moto. O rapaz morava em São Paulo. O corpo viera com a esposa de avião. Triste tarde de sepultamento. E o pedreiro nunca mais sentou um tijolo. Ficou doente se encostou pelo seguro social. Adquiriu a doença da tristeza, do isolamento do mundo. Assim era a Rua do Colombo, rua triste, de três casas de três moradores triste.

So this Christmas

And what have you done

Another year over

And a new one just begun

And so this is Christmas

Eis que vinha vindo o natal. Era tempo de cajus. Pra onde foram os meninos? O campinho agora era só céu, mato, e um vento frio, escurecedor. Grossos pingos de chuva fizeram o cavalo ir pra debaixo do pé de Acácia Ferrigínea. Sentada no chão Adelaide fitava a árvore de natal da sala de estar. Cartões feitos com pedaços de folha de caderno, frases tão sinceras. E Deus se inclinando por cima do seu ombro lia junto com ela e sorria. O pisca-pisca dizia verde, vermelho, verde… Dona Belinha sentada na cadeira de balanço, não sabia se dormia ou morria. Seu Antonio no sofá, um lençol vermelho enxadrezado lhe ia até o pescoço se queimando de febre. Lá longe, muito além donde as vistas podiam alcançar, uma vitrola tocava a música daquele Beatles assassinado, que dizia: Então é natal! E o que você fez?

Fabio Campos

23 nov

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ENTRE A SERPENTE E A ESTRELA (Parte Dois)

O céu escureceu, e como seria bom se fosse apenas ilusão. O mundo vertiginosamente rodopiava. Quem dera fosse redemoinho de vento. Alucinadamente girava de lembranças vendavais. E tudo era dura constatação. Certas coisas deviam nunca acontecer, melhor nunca terem acontecido. Infelizmente nunca se sabe qual vai ser a reação diante do inesperado. O susto, a arma branca, não era aquele o momento. Uma longa história precisava ser revelada. Arriscar a vida em defesa dum grotão ameaçado. Em missão estava. Era praticamente uma obrigação sua. Morrer de golpes de faca. Se tivesse que ser assim morreria. Aquele medo não era da morte, era da faca. Com seu inexorável poder. Diante da fraqueza de José Ivan, o rapaz do departamento Seu Pedro esmoreceu. Tocado de terna dó do moço. Disposto a abrir a guarda, desarmar-se ainda que espiritualmente. A faca na cintura do camponês. Zé Ivan paralisado. A folha de metal exercendo sua ação maléfica sobre sua alma. Entender o porquê era preciso. Tinha certeza, aquilo vinha de longe. De lá trás pra onde agora mesmo ele acabara de ir.

“Há um brilho de faca

Onde o amor vier

E ninguém tem o mapa

Da alma da mulher

Ninguém sai sem o coração sem sangrar

Ao tentar revelar

Um ser maravilhoso

Entre a serpente e a estrela”

Vinte e poucos anos e Zé Ivan parecia ser bem mais jovem. Rosto alvo, espinhas avermelhando-lhe as faces. Cabelos revoltos, dum jeito de que tomava banho, e não via pente. Proeminente dentição incisiva sob lábios finos. Os óculos, de aros arredondados dando-lhe cara dum John Lennon, sertanejo. Calça jeans, tênis de cadarços brancos, desalinhados, descomportados. Bolsa de couro a tiracolo, camiseta com uma estampa maneira, o que o tornava ainda mais esguio. Tinha, a um só tempo, cara de anjo – decaído, mas anjo – e universitário calouro. Não era fácil captar – muito embora houvesse – bem lá no fundo do olhar, uma rebeldia doce, quase ingênua. De um menino que curtiu Kurt Cobain, chorou e chorou quando ele morreu de overdose. Passaria três dias, trancado dentro do quarto, sem querer ver ninguém. As portas do guarda-roupa – pelo lado de dentro, o espelho – cheio de adesivos do Iron Maiden, Sepultura, Nirvana, Charles Brown Jr e Renato Russo. Quando estava de bem com a vida, pegava o violão, num domingo bem cedinho, se afastava da cidade. Ia sozinho curtir a natureza, cantar Sting para os lírios orvalhados dos campos. Tinha saudade das conversas que não teve com seu pai. Quem sabe perguntar como fora pra ele viver duas gerações antes de ser seu pai. Ele que vira nascer o rock’in roll comportado de Elvis Presley. Esbarrado nos anos oitenta, tempos da eletrizante geração Coca-Cola, de Rita Lee e Cazuza.

“Um grande amor do passado

Se transforma em aversão

E os dois lado a lado

Corroem o coração

Não existe saudade mais cortante

Que a de um grande amor ausente

Dura feito diamante

Corta a ilusão da gente”

Zé Ivan morava numa República com mais três amigos, na Rua Nossa Senhora de Fátima, num primeiro andar. Estudava Geografia em Belo Jardim. Nas noites quentes de verão ia pra Pracinha Dom Fernando Medeiros tomar cerveja com os amigos. Foi naquela praça que conhecera Dayane. Não sabiam, mas viveria os dois, um amor intenso. Como uma maçã cortada que encontra a outra metade. “Apple” a marca do seu headphone era também nome da Banda da qual seu pai era fã. Guardara dele, um disco compacto, que tinha na capa metade da fruta cortada. Com caneta a nankim alguém havia escrito na capa: “Were a British psychedelic rock band. The band was founded in Cardiff in 1968 by Rob Ingram on Guitar and Jaff Harradon bass. They released single LP in 1969, titled “An Apple a Day” E vinham as lembranças, com nitidez de por gosto de sangue na boca. De sua infância, da casa onde morava, próximo a Praça do Pirulito, em Maceió. Com impressionante nitidez a ouvir o barulho do trem. A abalar os alicerces, a tremerem as panelas, no tripé lá na cozinha. O barulho enorme, de dar a sensação que tudo ia desabar. Essa rotina repetida mais de quatro vezes por dia. E o braço da radiola que sequer terminava uma faixa do Long Play que seu pai colocava pra tocar retornava pro início e começava tudo de novo. Ainda menino deitado na cama, Zé Ivan cansou de imaginar o trem, como um gigantesco imbuá de ferro, doidamente derrubando as casas e que a invadir seu quarto. Tantas foram as vezes que adormecera e sonhara esse sonho. A noite caída, uma vermelhidão vinda do tabuleiro, se misturava com o negro do firmamento, trazia o cheiro de tiborna. E a fuligem da palha de cana-de-açúcar queimada enchia os móveis, os quadros da parede duma camada fina e preta. De agosto a dezembro, na entre safra, era sempre assim crianças adoeciam com frequência de constipações e o ambulatório do Sanatório, ficava abarrotado de criança e idosos com problemas respiratórios. Zé Ivan era levado por sua mãe primeiramente no Posto de Saúde ali do bairro, próximo a sua casa. Um médico com cara de alemão nazista. Como que saído daquelas velhas revista Seleções, ou da revista o Cruzeiro, duma matéria do jornalista de guerra Davi Nasser que cobria os conflitos no golfo pérsico, no Vietnã, e estivera na Itália na segunda guerra mundial. Talvez dali se tivesse materializado. Saído duma página de jornal, guardado por seu pai lá no sótão. O médico bastante irritado punha a culpa nos pais pelas doenças dos filhos. E esbravejava, dizia imprecações contra o governo, o descaso com a saúde pública. Num daqueles domingos em que levava a família à praia. Lembrou-se de sua mãe preparando sanduíches e bolinhos de arroz pra levar. Iam à praia de Pajuçara, e tiravam fotos com uma geringonça chamada de Polaroid que produzia fotografias instantâneas. A roupinha de marinheiro, o calção listrado, o maiô comportado os sorrisos de gente feliz. Uma delas flagrou o velho Gogó da Ema, o famoso coqueiro com esse formato.

“Toco a vida pra frente

Fingindo não sofrer

Mas o peito dormente

Espera um bem querer

E sei que não será surpresa

Se o futuro me trouxer

O passado de volta

Num semblante de mulher

Olegário Martins o pai de Zé Ivan, fora funcionário do DNER nos anos sessenta. Um belo dia acabaria transferido pro sertão. Recrutado pra fazer parte da equipe que iria construir a ponte General Tubino, em Santana do Ipanema, obra sobre o rio intermitente do sertão. A redenção para melhorar o fluxo de acesso a Bacia Leiteira de Batalha e Major Isidoro. Aos sábados Seu Olegário levava o menino pro Mercado da Produção. Ia comprar verdura e carne. Um dia, vinham os dois voltando pra casa. Como sempre passavam na feira do passarinho, na banca de revista comprava o jornal. Na tabacaria cigarrilhas. Pro menino, churros um caminhão de madeira branquinha pintado com corante azul e vermelho. Ao embrenharem-se por aqueles corredores escuros e mal-cheirosos um negro mal encarado vindo ao encontro deles empurrou Seu Olegário pra um canto, e anunciou o assalto. Como um raio uma faca peixeira brilhou em sua mão. Seu pai sequer demonstrou qualquer reação, porém recebeu: uma, duas, três vezes… a lâmina cravou-se em seu abdômen. Rapidamente o ladrão rebuscou-lhe os bolsos, e saiu correndo. O menino, estático, em choque. Vendo o pai cair lentamente ao chão, logo uma poça de sangue contornando-lhe o corpo. Cada vez mais aumentando de tamanho. E o mundo rodopiou. E o céu ficou vermelho. Pra onde foi a luz? O céu escureceu. Por que estava acontecendo aquilo? Seria bom se fosse apenas ilusão. O mundo vertiginosamente rodopiando. Quem dera fosse redemoinho de vendavais que dava, no caminho de volta da escola. Alucinadamente o céu não parava de girar. E a realidade era uma dura constatação. Certas coisas deviam nunca acontecer. Deus. Melhor nunca terem acontecido.

Fabio Campos

28 out

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SOMBRAS E LUZ (Ariana e Lamarck)

Ilustração (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)

Ilustração (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)

Esta história é de Ariana, a ela pertence. Interessante é que não a conheço, jamais a vi. Por acaso num banco da Praça Senador Enéas, esquecido, encontrei um caderno de estudante. Pelo motivo da capa um personagem feminino, percebi tratar-se de uma menina. Olhando envolta tentei descobrir porem das que estavam ali próximo – a despeito dum rapaz que ia – não havia alguém que parecesse ser a dona do espiral. Cleptomaníaco possui-o. Folheei-o rapidamente. Detive-me na contracapa havia ali uma mensagem manuscrita. Aliás, aproveito a oportunidade, Ariana, para pedir-lhe desculpa – não tive como não ler – o esmero, aquela caligrafia.

“Lamarck, Eu preciso te dizer o quanto te amo, o quanto você é importante para mim. Hoje acordei cedo. Você sabe, sempre acordo tarde. Hoje, porém fiz diferente. Enquanto minha mãe e meu irmão ainda dormiam, na pontinha dos pés, fui até a cozinha. Abri a porta dos fundos e ganhei o quintal. O dia vinha amanhecendo… Meu Deus como é lindo ver o dia amanhecer! E pensar tantas manhãs como aquela, que eu já perdi. Enquanto simplesmente dormia. E perdia de ver momento tão maravilhoso! Aquele sol com seu brilho, invadindo pouco a pouco todos os espaços! Espalhando sua luz e seu calor sobre toda criatura. Fazendo sorrir as plantinhas do chão, verdinha com suas flores coloridas. Pintadas com capricho pelas mãos do maior dos pintores, o nosso Pai, Deus do céu o Criador! E ver os passarinhos cantando sobrevoando os telhados, subindo além do imenso azul do céu. Lembrei de nós quando estamos na praça, também brincamos e cantamos. Os adultos dizem que nós os jovens, não pensamos em nada, e tudo que mais queremos é mudar o mundo, o que não é verdade. Sabemos que o mundo nos espera, e o que pode, e tem a nos oferecer. Jamais nos iludimos de que tudo é “um mar de rosas” ou que “tudo são flores”. Sobre as flores, e os animais que habitam o mar, você mesmo, tem ideias revolucionárias, o curso de Biologia lhe proporcionou muitas e novas descobertas. Tens consciência do que dizes em tuas teorias, que pode serem rejeitadas, jamais aceitas pela maioria. Eu porem faço minhas as palavras de Lavoisier, àquele que o nosso professor de filosofia falou: “Posso não concordar com tudo que dizes, porem defenderei até o fim o direito de dizeres.” Quando estamos juntos trocamos carícias, nos beijamos e fazemos juras de amor um pra o outro. E dizemos que nada, nem ninguém será capaz de acabar um amor tão intenso, tão real, tão sincero, como esse que sentimos um pelo outro.Te amo muito meu amor!”

A mensagem tomava toda às costas da capa. Não era porem ali, que acabavam as confidências da jovem Ariana. Folheando um pouco mais, e adiante, depois de muitos escritos de escola, encontrei outras coisas de si. Dizia que havia sido muito traumático, saber que a mãe estava doente. “Doeu muito em mim, descobrir que minha mãinha tinha câncer. Ela estava com um câncer de mama. Sempre que chegava do trabalho, cansada, reclamava de dores embaixo do braço. Eu falava que achava aquilo normal, afinal a ocupação de serviçal, por ela exercida no Tribunal de Justiça. O dia inteiro a passar o pano, naquelas imensas salas. Bem que poderia ser a causa. Lembro ainda hoje, do dia da consulta médica. Eu fui com ela. Depois de vários exames minuciosos, a médica fez-lhe uma série de perguntas. Desde quando sentia aquelas dores? Perguntou que idade tinha. Em que dias do mês menstruava. Notei-lhe bastante envergonhada por estar relatando tanto de sua vida íntima, não por conta da médica, mas da minha presença, sua filha. Foi prescrita uma bateria de exames, entre elas, a tão falada ressonância magnética que muito elucidaria. Pra acabar de vez a dúvida a tal biópsia, e com ela a confirmação do diagnóstico: células tumorosas na mama esquerda, em adiantado estado de formação. Foi-nos explicado que era um tumor não benigno, em estágio avançado. Era caso pra extração cirúrgica seguida de tratamento quimioterápico. O tratamento começou no outro dia. E veio a parte mais cruel, para qualquer mulher. Ver que estava perdendo os cabelos. Minha mãe ficou completamente careca. Chorávamos nós duas abraçadas, eu tinha que ser forte, mas não conseguia. Eu olhava pra minha mãezinha querida. E só em lembrar do quanto era ela uma mulher vaidosa, que tanto se valorizava e tinha um astral lá em cima. Gostava tanto de viver! Ia aos bailes e festinhas, com as amigas e amigos, colegas de trabalho. E levantava a auto-estima de todos, onde chegava. Meu Deus, são os mistérios da vida. Ela e meu pai, haviam se separado quando eu tinha só nove anos, e meu irmão era um bebê.

Lamarck não tivera melhor sorte. Sendo sua amada órfã de pai vivo, com ele ocorrera o contrário, era órfão de mãe morta. Mais ainda traumático a forma como a teria perdido. Foi assim: Seu pai, Estevão da Paz, filho de família ilustre de sua terra natal, Santana do Ipanema, fora um rapaz boêmio dado as farras na juventude. Namorou e casou cedo com Maria Anália, tirando a jovem da casa dos seus pais, ainda quando estudava o curso normal. Só depois de casada, com sacrifício foi que se formou professora. Contra a vontade do marido ciumento, não queria que ela estudasse. Ao completar vinte anos de idade Estevão Paz, por influência política de sua família ingressaria, na Polícia de Alagoas. Como oficial chegou a major, destacou muitos anos no interior. Foi delegado em vários municípios. Aponto de ficar famoso por promover a paz nas localidades onde passava. Tranquilidade muitas vezes conseguida com o derramamento de sangue. já próximo de ir pra reserva, foi morar na capital do estado. No quartel tornou-se músico da banda da polícia Militar de Alagoas. Numa vez que a banda foi se apresentar numa cidade do litoral norte do estado. Por ocasião da inauguração de uma usina de cana-de-açúcar, um rapaz embriagado teria dirigido um galanteio a sua esposa que se encontrava no local. O major acabaria se envolvendo numa briga com esse homem. Sacou sua arma e na tentativa de acertar o galanteador, acabou atingindo sua própria esposa com um tiro no pescoço. Senhora Anália morreu a caminho do hospital. Lamarck era só um menino quando isso aconteceu. Porem jamais perdoaria seu pai por isso.

Interessante como era vida, aquele menino ficou incrédulo das coisas de Deus. Passou a acreditar puramente nas ciências. Nas teorias, nas leis criadas pelos homens. Assim era Lamarck estudante de biologia queria provar uma tese que um seu xará o biólogo francês Jean Lamarck defendia desde o século dezoito. Por méritos próprios conseguiu uma bolsa de estudos, para aprofundar sua teoria numa universidade francesa, em Bazentin-le-Petit cidade onde nascera o grande biólogo Jean-Baptiste Pierre Antonie de Monet, “Chavallier” de Lamarck “Filho mais novo, duma prole de onze irmãos. Seu era barão francês da infantaria, o que incentivou-o a entrar pro exército quando tinha vinte e quatro anos. Abandonou a carreira militar para dedicar-se a medicina e a botânica. Aos trinta e quatro anos de idade publicou três volumes do livro “Flora Francesa”. Obra que lhe valeu a nomeação para o cargo de botânico do herbário real de França pelo então imperador Napoleão Bonaparte. Professor de zoologia do museu de História do Museu de História Natural de Paris.” A biografia do mestre constava do seu trabalho.

Lamarck em sua pequena história de vida, sempre encontrara desafios pela frente. Sentado naquele banco da praça teve que decidir sua vida. Ir embora pra França e concluir sua tese sobre a Evolução dos seres vivos, ou ficar em Santana do Ipanema. Casar-se. Concluírem os dois, o curso de Biologia na universidade do Sertão. E conformar-se com o destino de sertanejo a si reservado. Ser professor, escrever, livros, compor poesias. Fazer filhos com Ariana. Dar aulas numa escola pública. Levar seus alunos pra visitarem sítios arqueológicos, rios intermitentes do vale da caatinga e reservas florestais. Com um grito talvez pudesse me ouvir. E devolver-lhe-ia então o caderno – esquecido num banco de praça – de sua amada Ariana.

Fabio Campos

14 out

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SEM ANA ( Para sempre…)

Terça-feira

Havia uma menina, tinha os olhos grandes. Olhos que vasculhavam o mundo como quem precisava urgentemente descobrir coisas. Conhecer pessoas, de certa forma interessante. Sem essa de medir olhar. Isso pra ela, era como emprestar pro mundo palmo e meio de atenção. E não eram os outros, (fosse quem fosse) o que de mais importante existia na face da terra. Academia só a partir das terças-feiras. As coisas que precisavam deixar de serem feitas eram as que mais lhes interessavam. E ficava assim, a ouvir música, enquanto olhava, e roia as unhas.

Quarta-feira

Ana teve um sonho. Sonhou que estava num lugar onde as pessoas tinham os rostos voltados pra trás. E ela só conseguia ver-lhes a nuca. Quem havia roubado os rostos das pessoas? Nesse sonho sua mãe morria (provavelmente às três horas da tarde) num dia de quarta-feira. Por isso não tinha limões na geladeira, que eram comprados na tolda de Seu Alípio, bem próximo ao Mercado de Carne. Desse modo não podia fazer limonada. Mesmo morta sua mãe lhe sorria. O mais incrível disso tudo é que ela mesma não via nada de anormal em nada daquilo. A mãe mortinha da silva e ela nem aí, nem se quer chorava! O caixão teria sido colocado no cais do porto, por quatro homens de terno preto e cartola, que ficavam parados por alguns instantes, mas logo iam embora. Um barco com marinheiros viria buscá-la. Num dia de chuva, mas só chovia no cais, lá no horizonte havia sol. Os homens do mar tinham boinas na cabeça, camisas brancas com listras pretas. Eram galegos fortes, de braços hercúleos e longas costeletas. Sorriam e acenavam pra Ana, enquanto se iam com sua mãe.

Quinta-feira

Ana ficou com Carlos Antonio. Eles sequer namoravam. Eram apenas bons amigos, e vizinhos. A casa onde moravam ficava afastada do povoado. Ao voltarem da escola já era noite, desceram do ônibus (nenhum irmão de Ana teria ido à escola naquela noite) tinham que andar ainda um quinhentos metros até chegarem as suas casas. Ao passar próximo ao campinho, sem saber por que pararam. Ficaram um de frente pro outro, daí começaram a se beijar. E despiram-se, e fizeram amor com frenesi. Ana passou a quinta-feira toda dormindo. Uma da tarde, e continuava deitada, trancada no quarto, tentando entender porque fizera aquilo. Arrependida? Talvez, porem não dava o braço a torcer. Vá lá entender, quem sabe fez só pra se mostrar pra amigas. Ou a dizer pra si mesma que não era careta. Quantas vezes na roda de conversas, ela mesma vira as amigas ralhar outras meninas, só porque sabiam que eram virgens. Tantos mitos criados, tantos tabus caíram por terra. E as coisas que nunca tivera com quem tirar dúvidas se dissiparam. Delas que dizia que na primeira vez doía muito. Que a mãe iria descobrir, e que pra isso bastava olhar fixamente nos olhos, ou descobriria simplesmente ao vê-la andar.

Sexta-feira

Camila sua melhor amiga, contou uma mentira ao namorado, o que fez com que Ana e Carlos acabassem brigando. O fuxico seria especulação sobre uma ter ouvido da outra, que aquela primeira estaria apenas ficando com ele, mas gostar mesmo não gostava. Mas (todo mundo sabe como é) amiga é amiga, estão sempre ali pronta para nos amparar, a dar um ombro pra apoio na hora da dor. Deram as duas, de faltar às aulas, preferindo ir a praça encontrar-se com os meninos. Afinal era sexta-feira. Ana emprestou pra Camila uma calça jeans, e uma blusa lilás de alça que tanto gostava. Pra que pudessem ir a uma festa de vaquejada, escondido das mães. Um dos meninos levaria as duas na garupa duma moto. Não precisava nem dizer que não fora uma boa ideia. Num certo trecho da estrada de barro, o desequilíbrio e a queda. Os vapores de álcool a mais, fizeram o garoto acelerar, a por mais adrenalina na ação. O resultado foi muitas escoriações nos braços, nas pernas. Um corte profundo na testa de Ana. Um braço quebrado de Camila. Carlinhos ficou com dois dentes a menos no sorriso que já era torto.

Sábado

Lucimara a mãe de Ana era uma mulher bonita. Mulher pra um artista deitar os olhos sobre seu corpo, e desejar. Desejar ardentemente pintá-la, em um nu artístico. Êxtase de ateliê, pincéis e telas. Aturdido a buscar a cor daquele corpo. Lânguido corpo, moreno, cujas auréolas dos seios intumescidos de encher de arrepios. Sobre o cetim encarnado do divã. A taça de cristal, o cacho de uvas, o champanhe. A moldura cor de ouro, envernizada pra destacar ainda mais aquela pele morena. Os cílios, os olhos enchendo-se de lágrimas mornas. As coxas roliças a se roçarem liberando cheiro de fêmea. Inebriou-se o artista, tomado de volúpia e furor, a fazer sexo consigo mesmo. Os cabelos negros, a púbis febril. Aquela boca carnuda, de alvos dentes perfeitos, (encerrava) um sorriso de Mona Lisa. Doce Lucimara, por três longos anos estivera casada, agora viúva. Alcoólatra e diabético, se fora o pai de Ana dar trabalho a São Pedro. E a mãe, teve que criar a filha sozinha. Tão bom quando era apenas uma bebezinha! Angustiava-se agora, ao ver a rebeldia da menina, pouco a pouco se embrenhando por um caminho quase sem volta. Difícil, pra ambas. Seria falha de sua parte? Questionava-se. Estaria faltando diálogo entre elas? O trabalho na loja de cosmético, até os sábados, a venda de confecções porta a porta, nos finais de semana. Um fosso do tamanho de um coração fendido, incrivelmente pulsando a separar mãe e filha.

Domingo,

Em que, ou o que pensa uma menina de quinze anos? Ora, dizia consigo mesmo: “-No meu tempo, ninguém parava pra pensar nisso não. Acordava-se cedo pra lida no campo. Numa casa onde vivia com dez irmãos. Num total de treze ao todo. As tarefas da casa eram divididas. A ela Lucimara, cabia a lavagem de roupa nuns dias, o feitio de comida na cozinha noutros. Assim varava a semana. O pai era rígido nunca deixando irem a uma festa, a não ser em casos muito especiais. Um batizado, ou um casamento, de um membro da família. A bruteza da vida campesina, no entanto, jamais lhes tiraria a feminilidade. Ingênuas mulheres na ida pra roça. Com alegria, pareciam crianças a brincar de roda no terreiro de casa. Sem nunca se darem conta que o mundo um dia se lhes apresentariam homens perversos, maus intencionados. Tanto quanto (iguais e) diferentes de seu pai e irmãos. E que um dia ainda elas sentiriam saudade daquela vida monótona. Vida de viver. Despretensiosa, simplesmente vida. De colher umbu no pé, de ir a casa dos tios e primos aos domingos. De andar a cavalo. E ter que se virar sozinha ao menstruar pela primeira vez, e ficar com vergonha de dizer a mãe e as irmãs. No entanto era fácil descobrir, porque ficaria o dia inteiro se preciso fosse sem sair do quarto. Vergonha dos irmãos e do pai, que passariam a encará-la como um bicho estranho. Apesar de não se sentir, não mais menina, seria agora tratada como uma moça.

Segunda-feira

Para alguns o melhor, para outros o pior, dia da semana. Às vezes quando nos falta o que fazer passamos a ouvir a nós mesmo, ou (quem sabe) outros nós mesmos. O espelho é cruel. No reflexo, todo mundo é outra pessoa. Na frente dele se pode ser tudo, menos nós mesmos. A menina penteava-se. De dentro da boca fechada uma música, querendo vir de lá da infância, (cantava) “-Uuuummm.” Fez uma franja. Trouxe todo o cabelo de lá trás pro colo, e pôs-se a alisar. Enquanto olhava bem lentamente pra cada linha de seu rosto, pros seus traços. Quem seria aquela estranha? Batom vermelho nos lábios beijou a superfície polida. Escreveu algumas palavras. Deitada na cama. Havia uma menina, de olhos grandes. Não mais vasculhavam o mundo como quem precisava urgentemente descobrir coisas. Vítreos, opacos, sem vida a fitarem o teto aqueles olhos. Braços estendidos. Duas imensas nódoas vermelhas de sangue vertidas dos pulsos. As coisas que precisavam deixar de serem feitas, infelizmente se fizeram.

Fabio Campos

07 out

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RAQUEL

De repente lá estava a vila. Dois cordões de casas, separados por um tapete de paralelos de pedras. Mosaicados de sol sempiterno. Esteira bruta, de mãos cascudas brotada. A lápis cinzel e marreta assimetricamente escrevinhada. Como cri-cri de grilos contumazes, no aço e no granito forjado. Tudo, tudo, escrito a suor e sangue de um povo bravio, forte, campesino. Sendo deles mesmos aquela história. Apesar da noite, dava pra ver tudo, tudo mesmo. Casas, e almas viventes. Estrada de barro, carro de boi. Gradiente de um tenor ofuscado de luz. Corda, couro, chocalho. Cocão cantador, idílio de cachorro doido.

O ônibus devagar foi chegando, parando ao lado do portão da Escola. Abraçando com a luz amarelada de seus faróis os que lá estavam. Estudantes, fardados, mambembes, brincalhões avançavam. Mochila às costas, guerrilheiros indo pra uma batalha que travavam contra eles mesmos, dali a pouco. Sempre haveria de ter a serra. A dizer prefiro que se esqueçam de mim, esqueçam que existo, cuidem das suas vidas (impossível imaginar a vila sem ela!). Cuidem das vidas das criaturas que Deus pôs no mundo. A muito, desde a criação. E tanto já se havia passado que o leito do riacho secou. Ninguém jamais iria pra um lugar tão desolador apenas pra admirar o por do sol. Da progenia de Adão rebelados. Da filogenia de Caim expulsos do paraíso. Expurgados da presença do Senhor. Indo parar ali eis por que se haviam. Vagaram vagabundos, pelo mundo.

Quando Raquel nasceu dona mãezinha, a parteira tomou-se de espanto ao ver aquele pingo de gente do cabelinho cor de ouro. Alvinha! De pele da cor do leite que sugava do peito da mãe uma cabocla mestiça. No seio daquela família já cinco irmãs a esperava: Leopoldina, Isabel, Antonieta, Joaquina, e Tereza Cristina. Um pai chamado Pedro, uma mãe Maria Francisca. Desde pequena demonstrara ser uma criatura diferente. Com seis meses já queria dizer palavras, e engatinhava a casa toda. Agarrando-se nas coisas firmava-se em pé, raramente chorava se levava tombos por mais contundente fosse. A avó Amélia, por parte de mãe, também vivia naquela casa, e dizia: “-Você já prestaram atenção? Que essa menina olha por baixo?” Pra velha senhora aquilo tinha um significado não lá muito bom. Pessoas que serravam os olhos, e endureciam o sobrolho pra olhar. Pra ela, essas pessoas tinham encosto o que não era bom. Raquel passou mais de dois anos pra ser batizada. Seu Benedito do Óleo, um velho benzedor, cansou de dar conselhos a comadre Francisca pra batizá-la, o quanto antes. Porque um atraso de vida era a casa que abrigava um pagão. As coisas (quando davam certo) vinham com muita dificuldade. Menino pagão adoecia com facilidade medonha. Tinha os peitos abertos. E as espinhelas caíam de palmo em palmo. Não adiantava reza, galho de arruda, banho com Samba Caitá, sal grosso, alfazema. Profetizava: “-Que Deus a livre! Se passar um vento cai de moléstia incurável, morre cedo.” (-Pagão não vai pro céu!) O que aconteceu com o único varão nascido de dona Francisca devia ter servido de exemplo.

Foi assim, dona Francisca achou de ir uma novena no Sítio Vertedouro lá pras banda de Fazenda Nova. O bucho já estava pela boca. E dona Chica bebeu pinga, muito vinho de jurubeba, fumou cigarro branco. Na euforia, dançou e dançou. Deu de sentir uns desejos. Desejou comer xin-xim de galinha, barro de louça e o fruto do mandacaru. Pedro teve que ir fachear o fruto caatinga noite à dentro. Encontrou uma caninana que não tinha mais tamanho, devorando um cururu. Levou uma carreira duma raposa choca. Ralou-se todinho numa touceira de facheiro. Pra completar quando rumaram pelo caminho de casa, um fogo corredor lá na várzea do baixio foi botá-lo no terreiro de casa. A lua cheia ia pelas alturas e dona Francisca fez uma coisa que não devia. Apontou pra lua. Era coisa que todos sabiam mulheres grávidas não podiam apontar pra lua cheia! Se nascesse vivo, o menino corria o risco de ter seis dedos nas mãos ou nos pés. Além do que sinha Chica havia pendurado a chave de casa no pescoço, outra coisa que jamais devia ter feito, o menino fatalmente nasceria com o lábio fendido, até uma das narinas. Não deu outra, a criança, um menino nasceu de sete meses. O cordão umbilical preso ao pescoço selou seu destino. Pedro nem chegou a vê-lo foi enterrado pelos padrinhos na cova da família do pai. O último a ser enterrado lá havia sido dona Genoveva, a mãe de Pedro. As crianças que acompanharam o cortejo jogaram flores e terra até cobrir o pequeno caixão. Criam que os anjos de Deus vendo que por mãos de inocentes fora enterrado viriam buscá-lo. Levariam pro lugar onde tinha um campo verde, uma relva baixa, onde podia deitar e sonhar e brincar, debaixo dum céu azul da cor do caixãozinho. Ali ficaria até o dia do julgamento.

Raquel era uma menina diferente, mesmo crescendo-lhes os peitos e adquirindo pêlos no púbis continuava tomando banho apenas de calcinha, junto com suas irmãs no riacho assoreado que lhes cobriam apenas as coxas. Os meninos danavam-se a espiar, de longe se masturbavam amoitados. Dos fundos da casa de Raquel dava pra ver o cemitério, lá a margem da estrada invadindo o prado, parecia uma manada de Nelore pastando. O muro baixo branquinho! Branquinho! Quando as coisas dentro de casa ficavam muito pesadas, brigas entre seus pais, agressões verbais e físicas. Então ia até lá. A desfrutar do silêncio, dos malmequeres, das andorinhas, beija-flores e pardais. Cruzes e flores caladas, datadas e nomeadas tristemente mal pintadas, catacumbas e covas cuscuz. Punha-se a observar as formigas que excursionavam sobre o túmulo da vó Genoveva. Tinha em conta que (a terra já tivesse consumido o corpo dela) Fabiano seu irmãozinho que não vingara, estaria debaixo do chão, correndo dentro de túneis brincando com os ossos de vó Genoveva. Quando se deu conta o dia tinha ido embora. Resolveu voltar, vez em quando olhando pra trás, como que dando adeus ao irmãozinho. Naquela noite foi pra escola muito triste. Sem vontade de assistir as aulas. No banheiro feminino encontrou Rita de Cássia. Rita percebeu que ela chorava. Perguntou-lhe o que tinha. Disse que estava triste, era seu aniversário e ninguém na sua casa se lembrou da data. De repente Raquel segurou a amiga pelo rosto e beijou-lhe na boca. Ar de espanto a menina desvencilhou-se ao tempo que limpava a boca com as costas da mão. Pediu desculpas, pôs-se de cócoras e chorou.

Uma viatura do Pelotão de choque na porta da sua casa, ao retornar da escola. As luzes vermelhas piscando sob o teto. Tingiam de sangue as paredes das fachadas das casinhas acanhadas, a luz rodava e rodava, transformando a rua num baile macabro e mudo. A qual não fora convidada, ficou de longe olhando. Um turbilhão de sentimentos a invadir-lhe. Sisudo o pai surgiu na porta, os pulsos unidos por uma algema. Abrindo caminho entre os curiosos, foi conduzido ao camburão por um policial. Humilhante ver o pai naquela situação. Queria que fosse um pesadelo do qual pudesse acordar a qualquer momento. Não era.

Pedro fora preso porque uns assaltantes de banco, pego pela polícia o denunciaram, pela venda de armas pra o crime. Enquanto via seu pai sendo conduzido até a viatura, tantas coisas vieram a mente. Pensou que teriam sido as brigas com sua mãe. Quiçá denunciaram-no pelo consumo e venda de drogas, ele fumava maconha. Ou uma de suas irmãs, pelos abusos sexuais? Até então só não havia tentado a ela, talvez a respeitasse. Perdera a conta das vezes que fora dormir com uma faca debaixo do travesseiro. Ai dele se inventasse de importuná-la.

Raquel resolveu ir embora. O ônibus escolar se afastando do povoado, se ia, levando uma garota com uma mochila cheia de sonhos, o fone no ouvido a impedia de ouvir o adeus de Fabiano na porta do cemitério. Seu destino: Maceió, morar na casa duma tia no Canaã. O ônibus avançando na poeira, deixando pra trás uma mãe, cinco irmãs, uma escola, uma serra, um riacho. Se lançasse um último olhar, veria uma menina de cabelos loiros segurando uma boneca, acenando da porta de casa.

Fabio Campos

17 set

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O SINAL E A SANTA CRUZ (Terceira Parte)

Enéas perdeu o emprego. Ficou somente alguns dias mais. Não suportando Seu Domício desabafou: “-Ô homem desligado da vida, meu Deus.” Tudo que se mandava fazer. Quando fazia, ou fazia pela metade, ou não fazia. E a resposta era sempre: “-Eu me esqueci…” Maura esperta, ofereceu-se e acabou ganhando a vaga do primo. Ativa, dedicada. Interessava-lhe aprender as coisas. O mundo vivia disso, de desenhar, moldar, modelar pessoas. 

A rua brincava de azul, de um céu do mesmo tom de antes de ontem. Sonolentas, se aquecendo ao sol as casas iam se acordando. Pouco a pouco se dissipando o frio orvalho da madrugada. Enquanto os atores do dia a dia, como se saindo da condição de imagens congeladas, pra situação de filme, como de cinema mudo. Passando cada um, pra seus velhos afazeres. Se encontrando sempre, com os mesmos. Seu Ermínio já abrira a farmácia, Cazuzinha seu assistente, vestido numa bata branca, varria a calçada. Solícito a cumprimentar dona Ismênia que passava com as filhas Isabela e Isadora. As meninas iam pra casa de dona Carmem, pra aulas de flauta doce e canto. As atenções todas convergiam pra um ponto da cidade, o comércio. Donde emanavam todas as ações e reações. A torre da igreja um lápis de cor laranja gigante desenhando um sol amarelo gelado. Os meninos no passeio, tão carentes de cores. Feito homens feitos, como que esquecidos de serem meninos. Zezé e Tião com um carro de mão, de porta em porta, a vender macaxeira. As sextas-feiras além do tubérculo, peixe. O caminhãozinho de pau, o pião, a pipa, enquanto isso dormia dentro do baú, na gaveta da cômoda, embaixo da cama, sem pressa aguardariam o chegar da tarde pra irem à forra. Zé de Paulo morava no Pedrão, fazia rosário de coco de Ouricuri pra vender no meio da feira. Meio dia quando a fome apertasse, tiraria um tostão do bolso, ia a tolda de Seu Antonio da Garapa comprar pão e suco de anilina. As estripulias do Mateu, a fazer com que sorrisse um sorriso azul de pão doce. Rosa de Zefinha fazia cocada e tapioca, vendia na porta de casa. O pano branquinho de dar gosto bordado com duas flores vermelhas cobria a boca do pote. Donde repousava um copo de estanho verde. 

Osvalinda era amiga das duas moças que moravam na penúltima casa da Rua Nova. Amigas de irem pra igreja todos os domingos. A ponto de despertar a curiosidade por parte das mais velhas: “-Amância vamos botar cuidado nessas meninas.” Osvalinda irmã de Petronilia que todos chamavam de “Lia”. E dizia a amiga: “-Minha mãe acha você tão bonita.” Seu Tibúrcio barbeiro, pai de Osvalinda e Alcantina, dividia um salão com Seu Thomaz Doroteu. Manoel Porcino trabalhava no Serviço público, na inspeção sanitária. Antes somente na capital do país Rio de Janeiro, e em São Paulo existia. Getúlio Vargas presidia a nação do Brasil. Sendo um homem de visão, ampliou o setor de saúde pública estendeu pelo país inteiro. As inovadoras descobertas dos médicos sanitaristas, Osvaldo Cruz e Carlos Chagas precisavam chegar aos mais longínquos sertões. O combate a malária no norte, a varíola no sudeste. A doença do “barbeiro” campeava nas humildes casas de taipa no meio da caatinga. A picada fatídica do inseto a ceifar vidas de tantos bravios sertanejos. Missão árdua do agente de saúde, a tentar conter o avanço da doença, tendo que ir de casa em casa. Mal entendido por uns, enxotado, ou recebidos com porta na cara e ameaças de morte por outros. A exercerem fielmente seu serviço, se submetiam a humilhações. A ganharem apelidos, servindo de chacota até em marchinha de carnaval.

“A Carrocinha pegou três “Barbeiros” de uma vez/Se ouvir a tal Buzina/ Corre, corre a três por três/Traz um Balde e a Creolina / “Barbeiro” virou freguês/ do homem da Carrocinha”

Alcantina irmã de Osvalinda tinha o carinhoso apelido de “Tinô”. Berenice amiga de Alcantina era apelidada de “Caçula”, e Deolinda, amiga das duas, tinha apelido de “Lia”. “Florzinha”, filha de dona Faustina dona do “Armarinho das Flores” chamava-se Tercília, tão metida a rica, mal pisava no chão. E por isso não era amiga de ninguém. Ao cair da tarde as amigas se encontravam na casa de Luzinha, irmã de Julieta, escutavam rádio, conversavam sobre os moços que trabalhavam no comércio e na usina. Se iam a igreja, davam de olhar com desdém a roupa uma das outras. E os cochichos comiam soltam. Teve uma vez que Berenice foi só o padre sair do altar, com os corinhas pisando no seu rastro, dirigiu uns impropérios a moça do coral. Coisa de mundiça, gente invejosa. Nem uma reação da parte ofendida. Rostos pasmados de surpresa. Guardou o choro pra casa. Consolava-se a ouvir sua mãe dona Amância: “-Minha filha, Quem tem vergonha não faz vergonha aos outros.” E os insultos nunca revidados, continuariam noutra ocasião, a moça do coral indo à casa de dona “Santinha” costureira, a provar o vestido do casamento precisou passar na janela de “Caçula”. E teve que ouvir.

“Nêga do cabelo duro qual é o pente que te penteia/ Qual é o pente que te penteia/Qual é o pente que te penteia (Ondulado e permanente/ Teu cabelo é de sereia/ Misampli a ferro e fogo/ Não desmancha nem na areia)”

“Os Anjos do Inferno” haviam criado aquela marchinha pro carnaval, daquele frívolo fevereiro de 1939, amplamente tocada nas rádios. Satirizavam sendo opositores aos “Diabos do Céu”, do qual Pixinguinha fazia parte. A moça descobriu o segredo de uma vizinha, a mãe de uma, sua amiga traia o marido, justo com o cunhado. Os elogios desmedidos, intencionais para conquistá-la, e com isso conseguir seu silêncio. Pobre mulher, não sabia o mal que praticava contra si mesma. Havia um sinal para que o encontro amoroso, pudesse se concretizar sem perigo. Encima das estacas próximas da cancela dos fundos, que dava acesso a casa, havia uma porção de potes de barro emborcados. O combinado era se caso um dos potes não estivesse numa determinada estaca, o acesso, ao pé de pano estava garantido. Os encontros ocorriam à plena luz do dia. Da janela da cozinha de casa a moça percebeu tudo isso. Era carnaval, o rádio tocava outra marchinha:

“A Paraíba já não é tão boa/ Até Recife anda tão à toa/ O João Duarte ali residente/Matou o presidente, nosso João Pessoa”

Antonio Tenório era amigo de Seu Canuto, que era esposo de dona Adélia, que era mãe de “Santinha” que na verdade se chamava Maria Rita. Eram comerciantes, dos mais ricos da vila. O primeiro sobrado do comércio pertencia a eles. Noutra esquina da mesma rua tinha a loja de Maria Serafina, esposa do senhor Tercílio Firmo, amigo de Seu Alípio, ou seria o contrário? Dizia minha vó que eles vieram de Pernambuco, começaram com a venda de café e bolo, aos mangaieiros, no meio da feira. “-Benza-os Deus! Como prosperaram.” Luzinha, Terezinha e Julieta, três irmãs, também pernambucanas, costuravam pra fora. Vizinhas que eram da casa da mãe da moça do coral, que sabia dos encontros dos amantes, e do sinal. De lá, a mulher percebera que eram vistos doutro quintal.

Seu Antonio e Seu Canuto se encontraram na casa de Sebastiana que por encomenda, torrava café. Conversaram bastante. Conversa vai e conversa vem. Deram de falar sobre o sonho e o suposto, porem não concretizado, atentado contra sua vida. Seu Canuto aconselhou o amigo ir até a Bahia. E procurasse um homem sabido pelo nome de Zé da Cruz. Seria a pessoa certa pra decifrar o sonho que tivera no dia que Manoel morreu no velório. Ia o dia declinando sobre o cheiro de café torrado. Se despediram os amigos: “-Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!” “-Para sempre seja louvado!”

Fabio Campos

01 set

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O Sinal e A Cruz (Parte 2)

Serra do Gavião, um colosso de lombo verde, sempre que agosto. A casa de Seu Antonio Tenório ficava no resvalo, do sopé. Ao bem da verdade, a casa, não passava de um ponto insignificante, diante daquele esplendor de cena. Um céu ameaçador, profuso, de nuvens carregadas. Angustiosamente carente de luz. E raramente, talvez, inimagináveis fios de relampejo rasgassem o tudo, que se lhe cobria de cinzento. Cá de baixo, facilmente assustaria qualquer menino. A imaginar ferocíssimo lobo gigante. Cuja cabeça estaria voltada pro poente. A qualquer momento poderia injetar horrendo par de olhos fosforescentes naquela direção. Enquanto de sua boca aberta, viscosa baba a verter dos caninos.

Telhas coloniais de barro vermelho cozido. O pouco de musgo que havia, a dizer que tão velho não seria o casarão. Quatro caídas d’água de alpendres guarnecida. Sapata alta, faltando pouco pra igualar-se em altura, a um homem mediano. A área coberta tinha parapeito de cobongós ornado de trepadeiras, acessível por espaçosos degraus. As paredes entremeadas de janelas e caqueiras ora fixas, ora suspensas. Bancos, cadeiras de vime, de rendinha e cipó entrançado. A dar-se a convite ao descanso, a uma rede de renda do Ceará. Peças do arreio de um cavalo sobejavam nos armadores, e pelos cantos. No terreiro um coqueiral rodeava todo alpendre. O terreiro forrado com imensas folhas maduras, e frutos púrpura de um pé de Castanhola. A raiz, feito jibóia emergira do solo, a não mais ameaçar a fundação da construção. O lado leste da casa era virado pra serra. Ali, era o lugar de pensar, de Seu Antonio. Já ia quase uma semana que o homem, não se arredava de lá. Só saindo dali pra fazer as refeições e recolher-se, quando o gigantesco lobo verde se cobria com um manto negro. Dando a perceber-se somente pelo contraste com o esfumaçamento do céu, pinicado de estrelas se oferecia. Não tirava o olho de lá da serra, o velho Antonio. Como que em transe hipinótica, ou como se de lá subitamente fosse sair a resposta pra sua inquietação: -Quem estaria interessado em matá-lo? De vez em quando abria um pequeno baú de umburana envernizada, com uma trinca dourada. Todo trabalhado, em pedras semi-preciosas. Donde tirava, empunhava. Mirava e atirava a ermo, com um revólver Taurus, calibre38.

Seu Domício convidou Enéas pra trabalhar no balcão, da loja de tecido, na Rua do Comércio. Logo no primeiro dia, foi encarregado de levar uma compra feita por Seu Antonio, que nunca mais aparecera. Depois do que passara o homem mal saía de casa. Evitava expor-se desnecessariamente. Aos domingos ia igreja. Tinha fé em Deus que por mais perverso fosse o assassino, talvez não fosse capaz, de atentar contra um homem dentro do templo santo. A serra, naquela tarde ganhou outro admirador. Agora dois a contemplá-la. Macambúzio Enéas disse, mais consigo mesmo que para o amigo: “-O sinal do apocalipse está aí, pra todo mundo ver. Não adianta a gente querer se enganar. Ainda semana passada, a rua ficou sabendo que o negro Bento, que morava no Sítio Caititu, amanheceu injuriado. Tomou vários litros de cachaça. Deu uma surra na mulher. Estuprou a filha de doze anos. Dum tiro de “soca tempero” matou o cavalo. Tacou fogo num silo de milho. Foi até um pé de jaqueira que tinha detrás de casa, e se enforcou. Tudo que fazia, aos gritos ia repetindo: “-Estou cumprindo minha promessa! Está satisfeito?” Seu Antonio continuava pensativo. Revirava e remoia o passado, tentando encontrar onde tinha deixado um inimigo, capaz de quer vê-lo morto.

E outros e mais outros acontecimentos do povo da vila contou Enéas amigo. Duma briga, que envolvera Chico de Ernesto e Júlia Honorato. Chico era metido a seresteiro. Sempre em alto estado de embriaguez, não parava de cantar. Tinha verdadeira devoção por uma das modas de Francisco Alves e Horácio Campos, “A Voz do Violão” que dizia: “Não queiras meu amor saber da mágoa/que sinto quando a relembrar-te estou/ atestam-te os meus olhos rasos d’água/ no espinho de tão negra solidão/ a dor que a tua ausência me causou/ porém nesse abandono interminável/ eu tenho um companheiro inseparável/ na voz do meu plangente violão.”

O porquê da briga, foi assim, vinha ele cantando no meio da feira. Parou diante de Júlia “Bêba” que além de alcoólatra, era muda e surda. Nada ouvia, porém entendia muito bem os sinais do povo. E percebeu que todos riam. Estavam rindo dela, e era por causa daquele bêbado idiota gesticulando em sua direção. Não deu outra, tacou o maior sopapo nas fuças do ébrio metido a cantor. A briga só terminaria na prisão. Contou duma burra que se assustou com um enxame de abelha que ia passando partiu em disparada derrubou um monte de bancas dos mascates. Cuminho, tempero e colorau, foram parar dentro da saca de farinha. Gás óleo, e creolina derramou-se nos atavios, candeeiros de pavios, cangalhas de capim, chapéus de couro cru e chocalhos tudo perdido.

Não podiam deixar de falar do assassinato do governador João Pessoa à poucos dias ocorrido. A triste notícia Enéas ouviu no rádio de Seu Domício, lá na loja. Jamais esqueceria com que palavras o locutor, da Rádio Cruzeiro S/A: “O senhor presidente da Parahyba que chegou hoje a capital de Pernambuco. Em plena confeitaria Glória, a rua Nova foi assassinado pelo senhor João Duarte Dantas seu desaffecto, e chefe político de Teixeira, Estado da Parahyba. Seu corpo fora embalsamado no Recife e transportado para a capital paraibana de trem. Aguardado por uma multidão, o corpo chegou ao meio-dia do dia 28 de julho. Ficou exposto à visitação pública na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, até o dia 01 de agosto. Dali foi transportado ao Porto de Cabedelo para ser sepultado no Rio de Janeiro.” De repente um estouros como tiros, Seu Antonio instintivamente sacou o revólver. Os estouros vinha de muito longe. Deram-se conta que era meio-dia, eram fogos de artifícios nos céus da vila. Foguetes em louvor da novena de Nossa Senhora Assunção.

Mergulhando no vasto lago do tempo, Seu Antonio foi esbarrar em Águas Belas, a época que ainda rapaz. 30 anos voltados no profundo poço do rei Chronos, rei tempo. Afoito e destemido sempre fora. Perdera a conta das inúmeras brigas e contendas as quais se envolvera junto à peãozada. Pobre que fora no passado, ia pras frentes de serviço de plantio das lavouras de feijão, milho, algodão dos senhores donatários. Nas limpas de lotes de palma, de ricos fazendeiros da região ribeirinha. No corpo ainda guardava cicatrizes, facadas. Também furou bucho dum monte de negro, e tirou sangue de outro tantos arruaceiros. Nos festejos de fim de semana, nos forrós, nas peladas de futebol de várzea. A maioria, brigas banais, motivadas por embriaguez. Lembrou-se de uma, que poderia considerar um caso mais sério. Era o mês de dezembro, na Fazenda São José. Comemorava-se a festa de Nossa Senhora Conceição Aparecida. Havia uma moça, muito bonita que atendia pelo nome de Divina Engracia, trabalhava na cozinha da casa grande do coronel Pedrosa, irmão do capitão Bezerra, um dos que buscava com sua volante, acabar com Lampião e sua raça.

Engracia se engraçou pelo jovem Antonio, que lhe correspondeu o amor. Desse relacionamento, nasceu-lhes um filho. Porem Antonio só viria saber dezesseis anos depois. O rapaz a par dessas informações foi ao encontro do pai, mas não foi aceito, Antonio, então casado, não reconheceu aquela paternidade. A mãe do rapaz teve muito desgosto, portadora de moléstia séria, morreu. 30 anos agora separavam aquele, dos dias da novena. Antonio continuava olhando pra serra. A noite vinha chegando, por um momento a montanha pareceu dotar-se de ameaçador par de olhos de lobo. Pasmados os homens viram Rasgar a cortina negra da noite um terrível uivo.

Fabio Campos

11 ago

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O SINAL E A SANTA CRUZ (Parte I)

A porta que dava pro terreiro dos fundos se abriu. Lá dentro tudo escuro. Pondo ainda mais luto na viuvez, de marido vivo, de minha vó, que olhava a luz do mundo. E de tanto olhar, viu mais um dia chegando. O primeiro, do mês de agosto. Sequer deu-lhe passagem, mesmo assim ele entrou. Gélida mão do tempo, penteara seu fino cabelo liso. Com tanta força e vontade o fizera que se tornaram brancos como as nuvens que estavam lá. Seus olhos, duas pedras de sal, de lágrimas que nunca caíram pelo seu rosto. E toda a verdade do dia, sem dó nem piedade viera lhe abraçar. Triste, tristemente frio. O terral fumou o caminho da roça. Fumou a serra, e a roça. Não dava pra ver, mas estava tudo lá. Sempre estariam. As nuvens escondiam tudo o que tinha nela, e pra além dela.

A casa da roça era de taipa. Cedo ainda o feijão ia pro fogo, a lenha. Meu avô dali a pouco iria pra barbearia. No gole de café de ver pela janela, a quebra do jejum. A filha primogênita sonolenta surgiu no umbral da porta do quarto. “Sua benção meu pai.” “Deus lhe abençoe.” “-É pra você ir pra roça. Catar algodão mais sua mãe. O tempo promete muita chuva! E se não for catado vai se perder.” Se amanhecia com neblina, era sinal de um dia muito quente, e era. Assim o sertanejo conseguia decifrar ao longo dos tempos, os sinais vindos dos céus. Tudo isso ia passando de geração a geração. E na hora oitava, da primeira metade do dia, se fez com muita luz e calor, abafado. Como se era esperado. Os capuchos de algodão saltavam do pé pro saco feito pipoca. E a moça dos olhos tristes de cristãos, sem costume da lida da roça acabaria adoecendo. Lá da infância voltou a asma, reação alérgica, a poeira vermelha da estrada, o cisco do mato seco. Com água quente de barreiro banhou o rosto, em fogo. Tinha muita sede mas não tinha coragem de beber. O sol ardendo na cabeça. A noite teve alucinações, sonhou com seu primo, que foi pra São Paulo, que um dia prometera vir buscá-la. E o enorme sapo que quase não a deixou passar na estrada, saltando entre as poças d’água, sem o beijo da quebra do desencanto, jamais se transformaria no seu príncipe encantado. Madrinha Moça ao pé da cama enxugava o suor da testa, da sua febre alta, dos delírios. E ouvia toda confidência duma alma cheia de ansiedade, medos, dúvidas. E a beberagem feita com fezes de porco, que era tida como remédio eficaz, a mãe não a obrigou beber. Também achou asqueroso, fétido! Moreninho farmacêutico quando chegou das bandas do Capim, recomendou quatro injeções, que só ia encontrar em Santana. Um motorista dum caminhão Ford que vinha somente dia de feira, dias depois traria a encomenda. Depois de três delas aplicadas, se sentiu curada, e acabaria não tomando a quarta.

Manoel nunca voltaria pra revê-la. As cartas cheirando a pó de arroz, amarradas com fitilho vermelho, traziam num cantinho escrito à nanquim, em esmeradas letras cursivas: “A você que tanto amo, com muito amor…”. De tão triste, e de tanto esperar, desbotaram, as cartas e o amor. E para sempre guardas ficariam numa lata de bombons Sonho de Valsa. O casal na embalagem indiferentes ao que acontecia dançava e dançava. Ao som do bandolim, cujas notas musicais se materializando iam trazendo um gosto cor de rosa. O primo “Casteado” acertou um dia de serviço pra fazer o serviço que a moça não conseguiu terminar. E sentado bem ali, naquele banco que tem o apelido de “Péla Porco” comeu cuscuz com leite, numa tigela de barro de louça que não tinha mais tamanho. Segurava pelo fundo com uma das suas enormes mãos, bem próxima do rosto, enquanto a colher vadiava noutra. Queria saber: “-Por que madrinha Amância botou luto, se padrinho Thomaz estava vivo?” Era uma promessa que tinha feito a “meu” padrinho Ciço Romão Batista. Outra pergunta: Queria saber qual era. Não contaria pra não perder de alcançar a graça. A moça sabia, a promessa era porque tinha receio de estar grávida. Uma gravidez que acabaria se confirmando, e ficaria morta de vergonha. Na idade que estava, grávida! Seria motivo de comentários, e isso era odioso. Nos próximos nove meses não mais sairia de casa pra rua. Seria de casa pra roça, assim mesmo de madrugada. Se a promessa não vingasse, a criança nasceria no finalzinho do mês abril, do ano vindouro.

A criança, uma menina, deu de vir ao mundo. Tanta foi a comoção, e a moça chorou quando viu pela primeira vez a irmãzinha. Aquele novelinho de gente, chorona que só! Os cabelinhos preto, a pele vermelha, ora todo mundo estava vendo, que ia ficar moreninha. E assim foi. Contava com sete anos mais ou menos estava a mesa, a tomar café com leite, num pires. A dar chupões no beiço da louça produzindo barulho característico. Ao tempo que fazia uma munganga, um requebro. De repente caiu de rosto no chão, um caco do pires quebrado provocou um corte enorme próximo ao supercílio direito, o que deixaria imensa cicatriz. Cresceu, esticou-se mais que a irmã, virou moça também. Metiam-se a cantar durante os afazeres doméstico, varrer a casa e forrar as camas o serviço de Maura. O mais pesado, o da cozinha, ficava com a irmã mais velha, que em vão reclamava. Filha caçula sempre fora o xodó dos pais. Um dia, participaria na encenação duma peça, na escola, no papel duma negra empregada. Tantos trejeitos criou pra personagem, a torná-la caricata por conta própria. Muitos risos arrancou duma platéia surpresa. Leônidas um rapazote metido a galanteador, pendeu as asas pra Maura. Os pais do moço, no entanto, não aprovaram o namoro nem bem começado. Temiam que desse em casório cedo. Cuidavam que devia estudar, se formar, trabalhar. Mandaram-no pra Cacimbinhas, pra casa duns parentes, como se fosse o fim do mundo, e era. Chegou Juvêncio vindo de Pão de Açúcar, conquistou o coração da morena, e a menina acabaria nos pés do altar, declarando fidelidade pro resto de sua vida aquele pedreiro, metido a pescador, fichado no Dnocs. Um dos que estava na turma que sentou as pedras de fundação da ponte General Tubino.

João Doroteu, irmão da minha vó, gostava de cantar em velórios. Quando alguém morria nas redondezas, ele era avisado e lá ia cantar no velório. Naquele tempo, velava-se um defunto com cantoria a noite todinha. Sendo os cantores acompanhados por tocadores com seus instrumentos musicais, sanfona, viola, até amanhecer o dia. Quando foi um dia, lá estava João Doroteu velando um morto. Às seis da manhã, o caixão saiu para o sepultamento. Naquele mesmo dia Seu João se encontrou com o compadre Antonio Tenório, no povoado Pilões, foi um encontro ao acaso, os dois conversavam e ele lhes dizia: “-Esta noite compadre, enquanto velava um defunto, eu tive uma visão: Um sinal. Dizia que num determinado local, bem adiante daqui, num lugar onde há uma Santa cruz na beira da estrada, dois homens estariam de tocaia, lhe preparando uma emboscada. De modo que o melhor que compadre faz é não viajar esta noite. Vamos pernoitar numa pousada que tem aqui, amanhã viajaremos, retornaremos por outro caminho” O compadre concordou.

Quando o dia amanheceu, Antonio Tenório acudiu a chamar o compadre pra viajarem. Achou estranho pois ele não se encontrava mais ali. Pensou, lá com ele mesmo: “-O compadre devia estar apressado, se adiantou.” E voltou sozinho pra casa. Mantendo o cuidado de não passar no local onde estaria a tocaia. Assim chegou ao destino, tendo retorno seguro. Qual não foi sua surpresa ao chegar a casa, e ficar sabendo que seu compadre João Doroteu. Naquela noite que ele jurava tê-lo encontrado, jamais fora ao povoado Pilões. Enquanto cantava Tivera um enfarto e morrera, na casa onde velava um defunto.

Fabio Campos


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