28 abr

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Juvenal e Soberano

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Juvenal era assim, um homem montado a cavalo. Porque tem pessoas, que nos vem. E lembramos pelo que faziam no mais da vida. Deles que nem sabemos se entre os viventes ainda habita. Outras coisas mais acabam vindo, de como se trajava, os ambientes que gostava de frequentar. Chegam-nos por fim, o caráter, a personalidade, os trejeitos. Se a muito não vemos, remetemo-nos irremediável, a uma imagem concebida. Nosso personagem era assim por se dizer, uma pessoa difícil. Nesse lastro de mundo, que Deus fez pra ajuntar miséria, chamado de sertão, quando se falava duma pessoa feito Juvenal, não raro, as pessoas se benziam. E com os nós dos dedos batiam na madeira, volvendo ao santo de devoção, um pedido, para que longe de si mantivesse o que tinha vindo em pensamento.

Quando isso, porém não era possível, então diriam: “Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece.” E lá estava Juvenal montado no seu cavalo. Certeza tinham os que viam, não se tratava de nenhuma visão do outro mundo. Cavalo e cavaleiro, tudo muito real. Aliás, real demais. O bodum exalado, a capa de poeira volvida sobre si, o toque-toque dos cascos do equino, arrancando lascas do terreno de cascalho. Por mais que nunca tenham consciência disso, o que estar montado exerce empatia de imponência, de respeito, sobre os que não montam. Sendo que animais e seus donos possuem certa simbiose. Como se um ao outro entendessem o pensamento. Rastros de identidade no caráter e mesmo de semelhanças físicas se percebia. Nas crinas longa e negra, nas canelas finas, ao tempo, rijos músculos, bronzeados de sol. Suor e urina acidificando o couro, os pelos, os apetrechos de um, as vestimentas do outro. Num trote preguiçoso porque não havia necessidade de marcha mais desarnada, não naquele momento. Se lhes perguntasse não saberia dizer, de certeza, porque seguia. Acompanhava o cortejo da via sacra, em plena sexta-feira santa. A encenação da paixão de Cristo. Numa frieza quase desumana, como um ser doutro planeta. Como se os passos sofrido de Jesus, ainda que numa encenação, causasse a menor estranheza. Um dos centuriões de Pilatos que ia de largo, evitando que o cavalo pisasse alguém da multidão sequer lembrava. Aqueles ao menos demonstravam ira, escarneciam. Não era apenas a certeza de que tudo era de mentira, que um nada de sentimento esboçava. Interessava-lhe entender porque as pessoas faziam caras de pena, diante daquelas cenas sabidamente simuladas. Se não sofria de verdade, não entendia. Uma coisa ninguém sabia, Juvenal tinha visões.

Dom Quixote de La Mancha. Era isso! Talvez estivéssemos ali, em pleno sertão nordestino, diante do herói, anti-herói de Cervantes. Dom Quixote e seu cavalo Rocinante, vivendo suas peripécias em plena selva branca. Seu fiel escudeiro Sancho Pança, não sendo de carne e osso, um fantasma, com quem conversava a todo tempo. O homúnculo do burrico, na verdade seu subconsciente, a que suas atitudes, ora aconselhava, ora recriminava. Não saber ler Juvenal, compensava com uma memória prodigiosa. Se ia pra feira da Vila, ficava horas a ouvir os vendedores de livretos de cordel, e as incríveis narrativas das aventuras, de Davi e Golias, Sansão e Dalila. Do príncipe Romuldo, a loba Rosadina, e a princesa Teodora. Ouvia e memorizava verso por verso, uma vez retornado pra sua casinha nuns cafundós onde Judas esquecera as botas. Ao cair da noite, hora de namorar a lua, de tomar banho de estrelas, coroava tais momentos repetindo com precisão fidedigna para os seus, as histórias ouvida dos mercadores de palavras cantadas. Aragão e Catalunha, pra nós, eram os povoados de Piau e Caboclo. As incursões do nosso personagem tinham por cenário o vaso da Catarina, as margens do “velho Chico” na parte cheia de “Canyos”. Juvenal dedicava particular atenção aos modos das pessoas, interessava-lhe o comportamento humano. Fascinava entender particularmente, a raiva, o rancor, o ódio. Que dor doía mais, a dor física ou a do coração? Curiava saber por que ele nunca sentira tais coisas? Não porque não quisesse, queria até mesmo um dia sentir. Já se envolvera em brigas. Acabaria tornando-se assassino por conta de uma. Num dia de feira que tirou pra beber, dentro do cabaré de Zuleide e Gracinha. Se encontrou com Mauro que tinha o apelido de Lobinho, e um fez companhia ao outro. Exaltados os ânimos começaram a se estranhar. De verdade estavam com o cão no couro, perdeu as estribeiras Lobinho e atacou com uma faca o companheiro de mesa de bar. Defendendo-se Juvenal, com a mesma faca matou o cabra. Mas esse nem fora o primeiro, nem seu último crime.

Napoleão e seu cavalo Le Visir! De fato era com quem Juvenal e Soberano pareciam. Além de gostar de cavalos, outras semelhanças mais, vamos encontrar entre o imperador Francês e nosso camponês. Na estatura, na cor da pele, no cabelo revolto. De certo que o de cá, não nascera em família nobre, no entanto como aquele, fora o segundo dentre os oito filhos que seus pais, José Maria e dona Otília da Conceição teria posto no mundo. Com muito sacrifício criaram: José, Juvenal, Luciene, Elisa, Luiz, Pauliano, Carolina e Jerônimo. O caráter rebelde e indisciplinado rendeu-lhes castigos severos, Por desobediência a ordens paternas, amargaria noites e dias trancado num quarto sem comer. Assim como o monarca, nascera no dia 21 de julho, duzentos anos apenas separava os nascedouros 1971. Mania tinha de andar com a mão sobre o abdômen, sem com isso tivesse, como aquele, problemas de úlcera estomacal, mas unicamente para manter contato com seu segundo maior amigo, o revólver calibre 38, carregado de balas. Com a máquina de fazer buraco em gente, mandou uns tantos de almas sebosas pra “Terra dos Pés juntos”. Encabeçou esse rosário macabro um preto velho, metido a curador. Foi assim, um dia dona Otília foi tirar barro de louça pra fazer umas panelas e acabou mordida por uma cobra venenosa. O tornozelo inchou na mesma hora, ficou preto da cor de carvão. Uma vez em casa, colocou encima do ferimento seiva das folhas de barbatimão e a gosma da Babosa. Tonta e muito fraca, prostrada ficou numa cama. Deram-lhe de beber um chá de jalapa, que de nada adiantou. Se queimando em febre, trouxeram um rezador que atendia na feira do povoado Caboclo. O preto velho aprontou um remédio que incluía óleo de baleia, pó da canela seca de Siriema, espinhas do peixe Cará, pena de papagaio novo que nunca falou. Tudo isso tinha o benzedor. Já fedida estava a ferida, deu gangrena. Então colocou raspa do entre casca do mulungu e enrolou com um pedaço de pano branco contendo maniva da mandioca brava. Depois de três dias delirando dona Otília morreu. Juvenal simplesmente esperou o sábado. Assim que o negro chegou pra começar o dia, nem bem armou a barraca, recebeu inteirinha a descarga do revólver. Seis tiros na caixa dos peitos. Juvenal tranquilamente saiu caminhando, montou Soberano e se foi. O que sentia era satisfação do dever cumprido. Certo de ter praticado justiça.

Alexandre “O Grande”, mais que a uma mulher formosa, amava Bucéfalo seu cavalo. Igual sentimento devotava Juvenal por Soberano. Eram reflexos um do outro, simplesmente extensão e reflexos. Dizem que Alexandre tanta paixão sentiu ao ver o cavalo pela primeira vez, ainda selvagem cavalgando nos prados no meio de um tropel, que passou três dias seguindo-o e apenas observando-o. Uma vez capturado preferiu ele mesmo domar. Sofreu ao tentar montá-lo descobriria tempos depois que se assustava com a própria sombra. Entre Juvenal e Soberano ocorreu exatamente o contrário, o cavalo que era de outro dono ao vê-lo cismou de segui-lo. Juvenal era desses matutos arredios que se espantava com qualquer coisa. Achou que aquele cavalo estava possuído e que tivesse parte com o tinhoso.

Um dia estava tudo muito tranquilo, uma paz que aqueles que já cometeram coisas graves ficam assim muito ressabiados, preparado pro pior. E sempre acaba acontecendo. Mataram Seu Adonias pai de Juvenal. Pensou logo nos seus desafetos. Mas havia sido por questões de demarcação de terras, Juvenal ficou muito triste. Durante o sepultamento jurou vingança. Antes de descer o caixão à sepultura colocou uma moeda na boca do finado Malaquias. O próprio demônio lhe contara, numa das vezes que se viram, que antes das portas do inferno e do purgatório existia o rio do Limbo. As margens haviam dois barqueiros, irmãos gêmeos, Caronte e Corante esperando os espíritos desencarnados pra fazer a travessia. Juvenal recomendou: “-Vai meu pai na frente. Não tarda irei eu também.” Uma rabeca gemeu em duas notas que lamentava a morte e convidava ao choro. E concluiu: “-Peço que quando eu morrer matem meu cavalo. Pras terras dos mortos, pra onde irei, quero ir montado em Soberano.”

Fabio Campos 16 de Abril de 2015

21 abr

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SOL E LUA DE BETÂNIA

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Lá estava o aglomerado de casas, quase rústicas. Vistas de longe assim, falava duma nesga de cores pálidas. Os tons de branco destacavam-se formidavelmente. Nas fachadas de tijolos rebocados e caiados. Donde alguns quantos se destacavam. A torre da igrejinha. O balaústre do mirante do açude. O muro do cemitério. Ecomo querendo também compor excepcional quadrante, flutuantes nuvens destacavam-se lá no céu azul de anil de Betânia.

O tudo que se via, o olho do condor era que via. E os que lá embaixoviviam,ainda estes, e àqueles pormenores não viam. Talvez soubessem, ou tivessem ideia ao menos,que existiam. Duas mil e poucas almas habitavam corpos, que habitavam casas, que compunham paisagens. Sem se darem conta que o eram mesmo sendo. Obcecados na tarefa de gastarem vidas viviam. Laboriosos na mais relevante das ocupações, a de viver viviam. O carreiro carreava o carro. O menino brincava de ser ele mesmo. O mercador mercantilizando palavras. O cachorro deu com o rabo no ar, vã tentativa de espantar o tédio, de ser cachorro. Todos protagonistas de si mesmos. Mas se encenavam suas próprias histórias, aquele eratempo de viver outra encenação. A da Paixão. Teve início num pedregulho que tinha ao lado do campo de futebol. Abandonado naquele momento porque era sábado de aleluia. E como era semana santa ninguém queria jogar bola pra não ser taxado de Judas. O lajedo excelente lugar para a cena do sermão da montanha. O que recebeu o nome de Jesus seguiu andando, acompanhado dos doze. Na casa de Seu Zacarias o burrico atado, que foi requisitado por dois discípulos para que se cumprisse a palavra. “Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte Jerusalém! Eis que o rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. Zacarias -9.”

Uma pequena multidão seguia. O público quis também participava de cada cena. Na hora de acenar com os ramos de palmeira acenaram. Acompanhavam e gritavam junto com os atores: “-Salve o filho de Davi! Hosana! Hosana!” A Betânia verdadeira ficava a milhares de quilômetros dali, do outro lado do Atlântico. Tão distante do sertão e da caatinga. Betânia ficava só a três quilômetros da cidade velha de Jerusalém e do Monte das Oliveiras. Bethania em grego, Bét-nyyah em hebraico, “casa de Ananias”, “casa dos figos verdes”. A cena da última ceia do Senhor ocorreu no patamar defronte a igreja. O Jesus adolescente de barba rala, cabelos revoltos, e pele morenada pelo sol do sertão, partiu o pão e distribuiu entre os doze. Elevou o cálice a cima da cabeça e compartilhou. Seu Luizão sapateiro quis fazer o papel de Judas. Uma cena das mais difíceis, o pobre discípulo condenado a ser o traidor, em desespero perfeito na arte do fingimento. Com força atirou contra os paralelepípedos,o saquinho com as moedas que barganhou com Caifás pela traição do mestre. Quem terá sido os que pegaram as moedas? Haveria quem dissesse que cada um dos que pegou sofreu um mau presságio. As moedas que custou o sangue precioso de Cristo encerrariam maus desígnios para quem delas se apossaram. Um pastor de ovelhas depois de se apossar de uma daquelas moedas de ouro, numa tempestade repentina teria perdido parte das ovelhas do seu rebanho. Um agricultor, dizem que porque pegou uma daquelas moedas, amargou a ruina de ver sua lavoura toda perdidacom uma enchente que destruiu tudo.

“Mazurca velha mazurca/Dança grossa do meu sertão/ Quando toca uma mazurca véio macho cai no salão/ Dança duro batendo o pé balança a casa, balança o chão.” Assim dizia no rádio a canção de Luiz Gonzaga. Na vilaCandunda havia a tradição de se dançar mazurca. Por ocasião dos festejos juninos se dançava mazurca na praça. Desde a quaresma começavam os ensaios. Um grupo de meninos e meninas, outro de jovens: moças e rapazes. E outro de adultos e idosos. Todos participavam do folguedo. Trajados em vestes de poloneses os homens, de polacas as mulheres. Representavam agricultores da região de Cracóvia. A tradição chegou a vila trazida por um padre polonês. O padre chegou a vila no tempo da segunda Guerra Mundial, quando Hitler quis dizimar da face da terra, o povo Judeu.A igreja do povoado desenhada pelo padre tinha os traços arquitetônicos do Santuário da Divina Misericórdia, da capital polonesa, conhecido devido às aparições e revelações de Jesus, reconhecidas pela Igreja Católica, a Santa Faustina Kowalska. Os homens com seus chapéus verdes com uma faixa branca e preta ornada com uma pena vermelha. As mulheres tinham aventais com franjas e lenços coloridos na cabeça, toda vestimenta predominava as cores vermelho e branco da bandeira da Polônia. Era engraçado,pra quem jamais vira, os passos da dança. Uma fila de homens, outra de mulheres, realizava bela coreografia. Inicialmente soltos, cujos passos, cujo ponto forteera o bater dos pés, como um sapateado. Depois as duas filas se aproximavam e dançavam aos pares. A um toque diferenciado dos músicos e todos largavam seus pares e trocavam de parceiros. O fole, e a zabumba eram os instrumentos predominantes, o triangulo, o pandeiro e o pífano eram alternativos.

Betânia não vingou no sertão. O nome sugerido pelo padre polonês, foi aceito e bem acolhido somente pelos habitantes mais jovens. Entre os antigos moradores porém, Betânia jamais deixaria de ser Candunda. Os mais antigos, jamais se acostumaram com o novo nome sugerido pelo pároco. Canduda era espécie de peixe de pequenas dimensões, alimentavam-se basicamente de microrganismo disperso na água, que filtram à medida que sugam a água pelas minúsculas guelras, com a ajuda de branquispinhas, que são excrescências ósseas dos arcos branquiais (a estrutura que segura às brânquias ou guelras).O peixe candunda não vive em cardume e se reproduzem pouco com alternância da fase da lua entre a minguante e crescente. Faz do fundo dos açudes seu nicho, tem preferência pela profundidade onde possam estar livre dos predadores, os peixes maiores as tarrafas e as puçás dos pescadores. Ao atingirem a idade adulta não passam de 3 a 6 centímetros de envergadura. Na quaresma devido a época favorável a pesca, tornava-se presa do homem.Candunda dava uma prato típico do povoado a fritada.

Existia uma lenda sobre a chegada do peixecandunda na região. Dizia que os colonizadores desbravando os sertões chegaram à região montado em mulas e jumentos. Cansados de tanto andar debaixo do sol quente, a caravana resolveu descansar. Ao se aproximarem dum pé de uma clareira perceberam um grupo de mulheres morenas lavando roupa as margens dum lago no sopé duma montanha. Aproximaram e perguntaram se podiam pegar um pouco de água, as mulheres permitiram, desde que algo lhes fosse dado em troca. Com uma exigência especial: tinha que ser algo vivo que nunca tivessem visto. Não aceitavam as mulas pois já conheciam, nem carneiro pelo mesmo motivo. Entre os colonizadores havia um negro escravo com uma moringa de couro de carneiro, na qual disse que trazia uns peixinhos que pegara no rio Jordão. Pois diziam que quem carregasse daqueles peixinhos na moringa jamais morreriam de sede, nem nunca lhes faltaria água. Eles colocaram alguns dos peixes no lago depois se abasteceram da água de que necessitavam. O escravo disse as mulheres que era da aldeia de Candundo em Angola na África. O povo do sertão aportuguesou Candudo, pracandunda. Pondo estenome no peixe, por soar melhor. O negro se estabeleceu naquela aldeia. Constituiu família com uma daquelas mulheres. Teve um sonho em que seus antepassados teriam dito que se trocaram candudo pra candunda três outras palavras o povo devia também substituir dali por diante: Aldeia chamariam de Povoado, Lago seria Açude e Montanha sempre chamariam de Serra.

Sol e Lua eram duas meninas. Nascidas gêmeas. Filhas de Maria Lúcia e José Francisco. As meninas não eram idênticas. Uma tinha a pele morena como o pôr-do-sol. A outra tinha a pele alva como uma lua cheia à meia noite.Sol era franzina e de cabelo castanho encaracolado. Lua de mais estatura tinha cabelo preto escorrido. Sol, como o astro que lhe inspirou o nome era extrovertida, pra não dizer supervitada, que o matuto apelidara de “esprevitada”. Lua era a personificação da palavra recatada, tímida.

Um dia, as duas meninas juntamente com Júlio irmão mais velho se inventaram desubir a serra do Candunda. Naquele dia voltaram da escola mais cedo porque houvera festa pelo dia das crianças. Quando os pais descobriram o desaparecimento ficaram desesperados. Todo o povoado se mobilizou na busca. Logo a noite caiu. O céu negro-azul chuviscado de estrelas piscou-piscou pra o sertão se regozijar de encanto. Os aldeões vasculharam pelas cercanias em bandos, abriram picadas na mata com fações e tochas, e nada.De repente alguém notou um imenso clarão vindo do alto da serra. Todos se dirigiram para lá. E qual não foi o espanto de todos, encontraram as três crianças de joelhos adoravam a virgem Maria aparecida sobre uma rocha. De um lado da virgem santa era dia, do outro era noite.O padre polonês ao ver a aparição entendeu sua missão e disse aos que ali se encontravam de hoje em diante, a padroeira de nossa aldeia será Nossa Senhora da Conceição porque apareceu aquelas três crianças. E era o dia delas.

Fabio Campos 10 de Abril de 2015.

11 abr

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AGOUREIRO (Sangue no Chão)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

O que daremos de contar. Pra alguns teria se passado, a quatro, cinco décadas talvez. Pra outros, mais de dois mil anos já se foram desde então. De um tempo em que as famílias fundamentadamente patriarcais, sustinham os pais a herdade. Educava-a dentro de princípios, morais e religiosos, passados de geração a geração. As mulheres tinham seus bebês em casa. Enquanto os maridos iam buscar uma parteira pra ajudá-las no serviço de parto. E os homens ficavam sentados à porta brindando a chegada de mais um herdeiro. Entre taças de vinho e sorrisos de júbilo, discutiriam um nome cristão pro novo membro que chegava àquela família. Teria que ter afinidade com os demais nomes da sua ancestralidade. E comentariam com qual parente aquele pequeno ser, fisicamente, se parecia. Quem seriam os padrinhos, a data do batizado. Dona Maria do Leite, dona Maria da Pedra, dona Maria do Ouro iam a visitar a que dera a luz. E levariam seus filhos, que olhariam pro menino no berço, ririam dele. Depois corriam lá pro quintal. Sapecariam pedras nos frutos do trapiazeiro, derramariam o leite do gato, jogariam barcos de papel dentro da cisterna. A empregada traria pras visitas bolinhos de bacalhau e uma taça de vinho tinto. Pois se aproximava o domingo de páscoa.

Eram sete horas da manhã, do dia 31 de março de 1964 quando nasceu José Antero dos Reis da Costa. Sete da matina, quando sua mãe o concebeu. No exato instante em que caminhões do exército paravam na porta da prefeitura, da Cadeia Pública e do Tribunal do Júri. Faziam manobras militares revistavam indiscriminadamente os passantes. Prendiam gente do povo, bem como, gente de nome. Uma montanha de papéis virou fogueira na porta da Coletoria. Estudantes deixaram as escolas nas ruas, carregavam faixas e pichações que citavam o governo Jango. Gritavam palavras de ordem. Se corria alguém, era perseguido pelos policiais. Dava pra se ouvir o baque surdo dos coturnos no calçamento, os capacetes redondos só não caiam porque eram atados por baixo do queixo. As cabeças raspadas. Os nomes de guerra tinham-nos com tinta negra, afixadas com formas de metal, que cortava as letras ao meio. Sibilavam seus cassetetes, empunhavam metralhadoras. E atiravam medo, e olhares furtivos pra todo lado. Um professor foi preso, acusado de incitação a violência e desordem pública. O prefeito teve que entregar sua arma, um revólver calibre 38. Por ordens do comandante do exército da capital, foi detido, ficaria incomunicável na sala do delegado, enquanto durasse a operação militar. Um jipe camuflado levando seis soldados avançou pro interior do município. Pras bandas das Várzea de Dona Joana, a ordem era que deviam voltar trazendo: Valderedo, Zé “Gago” e Zé Crispim. Disparos de metralhadora encheram o muro da delegacia de pequenas barrocas vermelhas. Era o “El Paredon” cubano em pleno sertão. Não se sabe quantos tombaram sem vida ali. Os olhos eram vendados, atavam-se as mãos e os pés. Como se defunto pinicado de bala pudesse correr. Na verdade as amarrações eram pra facilitar no momento de colocar no lastro da pick-up. Destino: Paulo Afonso, a ponte de aço os aguardava pro último e único voo, depois de morto. As cápsulas dos projéteis, os meninos depois pegariam, e usariam como apitos. Bombas de efeito moral lembravam, nos estouros e no cheiro, os rojões do tempo das festas juninas. O barulho fez com que levassem o bebê do berço, pro colo da mãe, terno colo materno: aquecido, porem no peito que amamentava um coração acelerado, batia descompassado. Nunca na vida descobriria o menino porque tanto medo teria de estouro de bomba e foguetes depois de grande.

E viria a festa da padroeira que propiciaria o batismo. Muita gente na cidade, burburinho da criançada nos corrupios. A jogatina dos brincantes adultos, a angariarem um monte de quinquilharia. A festa concomitantemente profana e religiosa. A charola riquissimamente adornada com muitas flores. E a santa de pio olhar volvido pra Deus. Muita gente rodeando os degraus do santuário. A difusora melodiava com exclusividade pros namorados. O padre ladainhava missa, o coral sacrossanto, o turíbulo produzindo seu som e aroma característicos que atravessaria os anos incensando as palavras de Cristo, em latim, em português. Meninas de boinas brancas, luvas brancas, ramalhetes de flores, sapatos com meias três quarto, igualmente brancas. E suas saias, ora comportadas ora sumaríssimas, expunham pernas, adolescentemente longilíneas. Os lábios cobertos de batom evitariam o ressecamento dos lábios. E suas gargantas engoliam em seco, em úmido. Entoariam com muita ênfase os cânticos da missa. Ato litúrgico findo, agradecimentos aos que ensejaram o evento. O doutor juiz de Direito discursaria e comoveria a muitos. E suas feições ficariam para sempre na mente de alguns dos meninos que haviam sido obrigados a ficarem perfilados num pelotão feito soldados mirins. E diriam para si que um dia quereria ser juiz de Direito pra ter o respeito de uma multidão. O militarismo impunha seus ditames, para aquém, e além dos muros escolares.

Rural era nome de carro, concebido para o campo, porem em nada ficava devendo ao status dos carros da cidade. Diferente dos outros. Pelo porte alto. De parecer com a americanizada Veraneio, parente próximo da Caravan. José Antero teve um dia a oportunidade de entrar num daqueles carros. A estatura de criança fazia assimilar como bastante espaçoso. As imensas janelas remetiam aos ônibus da empresa Progresso o até então, único automóvel que havia experimentado. Dentro dum carro de passeio, propriamente dito, pela primeira vez lá se foi José, a fazenda Boa Vista, com o dono, e o filho do dono, seu amigo. Tudo era novidade, e explorou ao máximo. Andou pelo curral. Já ia o sol desabando pra ficar de coito com a montanha. Revigorado, retornaria dia seguinte, no lado oposto, pra disfarçar. Uma pequena aglomeração chamou atenção lá pro grotão. Dirigiram-se todos pra lá: Uma vaca estava parindo. Seu Dominício apreensivo pedia que não se aproximassem muito. E que fizessem o máximo de silêncio. O cachorro Maranhão não colaborava, latia e avançava, pondo quase tudo a perder. Seu Dominício um caseiro pau pra toda obra. Cuidava do gado, da roça, da cerca de arame, da ordenha, da casa grande, da sua casinha na encosta do morro, da mulher e dos filhos. E naquele momento, do parto duma vaca. Nos dias de sábado ia pra rua, fazer a feira, comprar meia dúzia de cacarecos. A melhor parte era passar na barbearia de Firmino os apetrechos iam pra junto do pote, e ia tomar cachaça até de tardinha. A primeira dose era na tolda de Zé Ciço, uma beberagem composta de limão, tempero, sal, um dente de alho triturado com um copo e um pouco de café pra espantar o caboclo. Na feira do rato trocou uma gaiola e um alçapão, com dois coleirinhas e um soldadinho, por um rádio de pilhas. Era a única vez que um matuto via um soldadinho preso.

Já se havia a semana santa. Naquele tempo, os sertanejos saiam do seu sítio e iam bater no sertão do Pajeú pra se confessar com frei Damião. O missionário capuchinho severo com os que cometiam o pecado da fornicação, fora do casamento. Pregava que Satanás, o próprio de chifre e rabo, viria buscar o maldito pecador montando-o como se monta a um jumento. Largando-lhe esporas desceriam pras profundas do inferno. E nem adiantava mentir pro frei de Bozanno. Conhecia quando o cabra estava mentindo. Por isso alguns preferiam ir do sertão de Alagoas pro Juazeiro do Norte a pé. Pra confessar-se com “padrinho” padre Ciço que era mais maleável, tinha dó do matuto em falta com Deus. A romaria saía no domingo de Ramos e a chegada era na quarta-feira maior. O sertanejo chamava a semana Santa de “Os dias grandes” Nos dias maiores usavam roupas de saco, um embornal contendo carne seca, farinha e uma rapadura. Uma moringa d’água, um par de alpercatas “Xô Boi” nos pés, e um chapéu de abas larga na cabeça. Entre os que iam tinha que levar uma imagem do santo do Juazeiro. Tinha uma romaria pra pedra do Urubu, município de Dois Riachos, mas era coisa de menino, mulher e velhos que não aguentavam rojão de puxar na perna, até o vale do Cariri.

José Antero naquele ano, foi a Juazeiro. Quando o sol no céu disse: meio-dia, pararam pra descanso. Urubus voavam em busca do que comer. José Antero e Otacílio puxaram conversa sobre as agoureiras aves negras. O primeiro comentou: -Urubu não é ruim, o único bicho considerado impuro pelo povo judeu, era o porco. E buscando a bíblia leu: “Fareis pois diferença entre os animais limpos e imundos, e entre as aves imundas e as limpas; e as vossas almas não farei abomináveis por causa dos animais, ou das aves, ou de tudo que se arrasta sobre a terra: as quais coisas apartei de vós, para tê-las por imundas. Levítico 20:25”

José sabia que entre os homens e alguns animais existiam suas diferenças. Não raros são os que têm aversão de corujas rasgas mortalha, morcegos, borboletas pretas, sapos e cobras. Noutro momento o livro sagrado diria que todos os animais de casco bipartido: o boi, a cabra, o bode e mesmo o porco eram animais puros. O próprio Deus tinha posto inimizade entre o homem e a serpente com vê-se no livro de Gênesis. Matutava sobre outra passagem no Evangelho: “Ouvi-me vós todos e entendei; o que vem de fora e entra numa pessoa, não a torna impura; as coisas que saem de dentro da pessoa é que a torna impura. Quem tem ouvidos ouça. O que sai do homem é que o contamina. Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem as más intenções, como a imoralidade, roubos, crimes, adultérios, a cobiça, as maldades, malícia, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a insensatez; todas essas coisas mais saem de dentro da pessoa, e são elas que a tornam impura. (Marcos 7-14-23-4).

Será que nada era falado sobre os abutres? José não acreditava que urubus fossem aves maus agourentas. Sabia da árdua função de limpar as carniças do mundo. A história de que aquelas aves não comiam carne humana foi desmistificada. Seu Otacílio contaria que esteve na emboscada de Angicos e os corpos dos cangaceiros ficaram expostos por dois dias. O cheiro forte de carne exposta, sangue no chão acabaria atraindo urubus, e se não fosse a intervenção da polícia as aves teriam os devorados mesmo sem cabeça.”

Fabio Campos 31 de março de 2015

23 mar

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CAVALO MARINHO

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Era o ano de 1986. Os dias falavam de quaresma. Na estação rodoviária de Maceió, exatas 14 horas, um ônibus, da Auto Viação Nossa Senhora da Piedade, acabara de deixar a plataforma A-4. A bandeira indicava o destino, a cidade de Porto de Pedras, litoral norte do estado. Os que permaneciam ali. Sentados nos bancos de concreto, ou debruçados no parapeito do amplo salão de espera. Acabaram assistindo a uma cena comum, pra aquela ocasião. Um rapaz, camiseta preta, calça jeans, tênis branco, uma bolsa camuflada às costas. Corria e acenava, mas infelizmente não deu. Vã tentativa, de alcançar o coletivo.

Rui Junior era de Palmeira dos Índios. No entanto, desde a infância vivera e crescera, no bairro do Prado, se considerava um maceionse. Jovem universitário do curso de Química da Ufal. Óculos de grau de aro leve, livros, revistas, walkman, fones de ouvido. Na camiseta preta estampado o símbolo dos Rolling Stones, a escrota língua da banda de rock americana. Na cidade praieira, do norte do estado, pra onde pretendia ir, assumiria a cadeira de professor de Química, de alunos do antigo Colegial, na Escola Nossa Senhora da Glória. Ainda ouvindo música, buscou o guichê da empresa para remarcar o embarque. A viajem acabou ficando para às 17 horas. No lanche do quiosque acabou conhecendo Farnel Cabús, outro professor que por vias do acaso, ia pro mesmo destino, ensinar Ciências, na mesma escola. Foi só o ônibus deixar a capital, e o céu desabou. Chuva torrencial, impetuosa veio, cravejando de relâmpagos e trovões o anuviado pano negro da noite, avizinhada. Os faróis dos carros, luzes refratárias, na pista molhada. Determinados trechos totalmente alagado, muita cautela exigia dos motoristas. Um caminhão tombado, vinha em sentido contrário. Viaturas piscando, luzes cor de sangue, policiais tentavam, a quase impossível tarefa de, manter o tráfego fluindo. Histórias vinham contadas pelas imagens que passava como filme, através da janela do automóvel comunitário. Um grupo de homens e mulheres seguiam pelo acostamento. Donde viriam? Pra onde iriam? Pelos trajes, de certo do corte da cana. Chapéu na cabeça, lenço amarrado em baixo do queixo, botas sete-léguas. Nas mãos, marmitas, moringas d’água, foice.

A estrada, os carros, gente correndo, ou simplesmente, caminhando na chuva. Movimento intenso, iminência de novos acidentes. O professor de química pegara no sono. O de ciências rememorava uma dinâmica, que utilizaria com os alunos, pra quebrar o gelo do primeiro contato. Falaria de como o mundo, vive cobrando-nos posturas, comportamentos. Sendo ideal que estejamos prontos para toda e qualquer situação. Diante disso: “Imaginemos que vocês se submeteram a um teste para uma vaga de um emprego, qualquer. Ao término da correção da prova escrita, concluiu-se que todos vocês se saíram muito bem. Então o gerente diante desse impasse encarregaria o psicólogo de resolver tal situação. Aquele profissional faria a seguinte proposta: Façamos o seguinte, eu vou contar uma história a vocês, ao final, faço uma pergunta, quem responder corretamente fica com a vaga do emprego! Topam? Todos concordaram: Um rapaz muito rico vinha numa auto-pista, num dos seus possantes carros de corrida. Neste, cabia apenas o motorista e apenas mais um passageiro. De repente ele avista um abrigo desses que as pessoas ficam esperando carros, e o que vê: uma velhinha (tremendo de frio), um médico (que reconheceu, um dia salvou-lhe a vida), e uma garota linda (perfeita, a ‘mina’ dos seus sonhos!). E a pergunta: A quem o rapaz daria carona?” E claro, depois de ouvir as diversas opiniões, somente ganharia a suposta vaga de emprego, quem dissesse que o rapaz cederia o carro ao médico, que iria embora com a velhinha. E o moço ficaria conquistando o grande amor de seus sonhos.

De repente o ônibus parou. Homens trajando coletes pretos, bastante nervosos, escopetas em punho entraram impetuosamente, revistando passageiros. Exigindo, um a um, documentos de identificação. Sem entender patavina, foram todos, forçosamente, obrigados a apresentar àqueles, algo que permitisse serem identificados. O professor de química foi acordado, sendo cutucado no ombro pelo cano de uma espingarda calibre doze. Achando que ainda sonhava, sorriu pro incauto policial, sem saber que espécie de brincadeira era aquela. Não gostando da forma como o pobre rapaz reagira à abordagem, o agente civil colocando o dedo no gatilho e apontando-lhe a arma, esbravejou que lhe apresentasse documentos, sob pena de ser detido se a ordem não fosse imediatamente obedecida. Pior pra Rui, o documento que portava naquele momento, era nenhum. Acostumara-se a sair de casa, sem lenço nem documento. Pra ele isso era estilo de vida, do tipo que achava que até um relógio de pulso aprisionava, tirava-lhe a liberdade. Por isso se desvencilhava de tudo que significasse limites. Era dos que acreditava na tão utópica “sociedade alternativa” propalada pelo filósofo de vanguarda, Raul Seixas. Pra desespero de todos, teve que descer do ônibus. Estarrecidos ficaram todos, sem nada poder fazer. O agente policial sequer esclareceu aos que continuaram no ônibus, de que àquela blitz era uma tentativa de capturar uns bandidos que acabara de assaltar um banco na capital, os envolvidos no crime evadiram para aquelas imediações. E pra polícia, qualquer indivíduo sem documento, passava da condição de suspeito, pra um criminoso em potencial. Rui passaria quase toda a noite no Distrito Policial do Jacintinho, tentando provar sua inocência. Somente depois de conseguir um contato telefônico, o mal-entendido foi desfeito. Por volta das 3 da manhã seu pai foi buscá-lo.

Muitas coisas, ainda mais intrigantes, estavam para acontecer. O ônibus que Rui perdera na estação rodoviária, caiu no rio. Pensou: antes ser preso que morrer afogado. No percurso havia a travessia de balsa pelo rio Santo Antonio Grande, na Barra de Santo Antonio. A tempestade, o mal tempo, tanto balançou a embarcação, o coletivo cheio de passageiro rebentou as correntes que o segurava, e acabou caindo dentro do rio. Gritos de desespero se ouviram naquele prelúdio de noite. Desesperada tentativa de resgate, aflição, demora pra chegar o guindaste, pescadores mergulhando no fundo, botes salva-vidas, homens rãs, médicos legistas, peritos. Corpos sem vida, molhados, iam sendo alinhados no cais. Tenebrosa noite, pedidos de socorro sufocados pelo ribombar dos trovões, entre o aguaceiro diluviano se fizera ouvir.

Enfim vieram dias de sol. Paz sobre as telhas das casas, diziam mais que simplesmente telhares. Aqueles beirais, suntuosos ou singelos, contavam histórias. Histórias de para sempre, ou de nunca mais. De nunca mais voltar os tempos dantes, de para sempre ficarem na memória. Velhos conhecidos de uns para os outros. Seu Belo na porta da bodega, de batentes altos. O velho General conversando com Seu Djalma, oficial de justiça. Os olhares convergiam todos, ora pro mar, ora pra porta da Barbearia de Rubens. A pequenina igreja de Nossa Senhora da Piedade, branca e azul claro, muda, conversava com o mar. A ladeira antiga, ia subindo e não tinha volta pra quem ia dentro do caixão, a caminho do cemitério. Dona Íris de cabelos loiros, sentada a porta de casa na cadeira de balanço, quando fosse mais tarde iria comprar pão na padaria de Amaro. Professor Sérgio, tinha pranchas de surf, um bugue, e no seu aquário, tinha cavalos marinho. Quando um deles morreu resolveu pesquisar. “Hippocampus gênero de peixe das águas marinhas temperadas e tropicais pertencentes à família Syngnathidae. Caracterizam-se por possuírem uma cabeça alongada, com filamentos que lembram a crina dum cavalo. Possuem mimetismo igual ao camaleão. Eles conseguem mexer os olhos independentemente um do outro. Nadam com o corpo na vertical, movimentando as barbatanas. Crescem até no máximo 15 cm e pesam entre 50 e 100 gramas. Vivem em regiões de clima temperado e tropical. Os machos são os responsáveis pela reprodução, que só ocorre na natureza. Conseguem viver em aquários, contanto que seja abastecido de água marinha e receba cuidados especiais, de alguém que os ame.”

Tão bom ir a Praia do Patacho, caminhar na areia, catar conchinhas. Coisas instigantes restavam ainda para serem esclarecidas. Os nomes de pontos estratégicos da cidade, certa inquietude causaria nos professores estrangeiros: Curtumes, Laje, Tatuamunha, Salinas, Ilha da Croa. Patacho era barco à vela equipado de dois mastros, do período seiscentista. Sempre que tinham oportunidade conversavam com os pescadores. Na tempestuosa noite do dia 17 de março de 1788. Vindo de Natal, terra dos índios Potiguares, indo pra Nova Cabrália, atual Porto Seguro na Bahia. Depois de colidir nos arrecifes, bem ali, naufragara o patacho St. Clement. Levava uma carga de sal, toras de madeira, e um canhão do forte dos Reis Magos. Havia quatro tripulantes, e seis passageiros, escravos. Gritos de desespero se ouviram naquele prelúdio de noite. Tenebrosa noite. Pedidos de socorro sufocados pelo ribombar dos trovões, e clarear dos relâmpagos. E o aguaceiro semelhava o diluviano. Ainda agora se fizera ver e ouvir. Tudo como antes, se fizera.

Fabio Campos 17 de Março de 2015

*Lage e Patacho, são praias no município de Porto de Pedras. As duas de areias claras, águas translúcidas e coqueiro vistoso ao fundo. Quase desertas e perfeitas para um dia de sossego. É só andar uma centena de metros até chegar às piscinas naturais. ( www.viajeaqui.abril.com.br)

09 mar

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CAVALO DO CÃO

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Everaldo nasceu no sítio Mulungu. Os verdes anos, os melhores de sua vida, viveram-nos lá. Ao lado dos pais, e seis irmãos. Muitos anos depois, casou e teve que partir. A tapera onde morava levou, consigo, dentro dos olhos levou. E quando lhe invadia a saudade, as lágrimas vinham – com gosto de barro vinha – da velha casinha de taipa onde nascera. O cheiro de catingueira engendrou na pele. Tanto, que quando realizava trabalho pesado, suava suor com cheiro de mato. O sertão, pra onde quer que fosse levava no corpo, nos momos, trejeitos. Permaneceram-lhe pra sempre, as manias dum sertanejo legítimo. Da mãe caatinga às manhas, eternamente parte de si. Se dependesse dele nunca sairia. Transmitiria por herança, pros filhos, assim esperava. Uma folha de juá mastigava de manhãzinha. Depois do café um talo de capim entre os dentes. Dum canivete jamais se apartava.

A vida na cidade não tinha graça nenhuma. À tardinha, de cócoras na porta de casa. Iam às vistas em busca do pôr-do-sol. Desmanchava um cigarro manufaturado, só pra ter o prazer de refazê-lo, num pedaço de palha de milho sequinho. Era uma das formas de voltar aos bons tempos da roça. Estudos fora segundo plano, sequer terminaria o fundamental. A leitura pouca, dera ainda pra conseguir a carteira de habilitação. Um emprego de motorista da prefeitura veio através do padrinho, o vice-prefeito. Os tempos de roceiro foram ficando cada vez mais distante. Terno passado de infância e juventude, que jamais esqueceria. Conheceu Ana Lúcia brava sertaneja com quem casaria. Três filhos machos Vandeilson, Vanderlanio e Vadiclebson. A depender dela, mais um filho viria. No caso uma menina, pra encerrar a carreira. E veio a gravidez desejada, mas no quinto mês de gestação acontecimentos estranhos passaram a ocorrer dentro de casa. A caixa d’água do banheiro rachou e desabou causando alvoroço. Nesse dia, Ana foi parar no hospital, mas foi só um susto. Exatamente um mês depois um curto-circuito na tomada do ventilador dentro quarto, provocou um incêndio, e queimou todo o enxoval do bebê que ainda estava pra vir ao mundo. Já ia o sétimo mês da gestação, e um estouro da válvula de segurança duma panela de pressão, causou-lhe mais um susto grande. Dessa vez foi forte demais, e Ana acabou perdendo a que seria a única filha mulher.

As coisas aos poucos foram tomando seu rumo. Determinados acontecimentos são como um puxão no freio de mão, nas estribeiras do mundo. Mas não demorava muito, e a bola azul de carregar gente nas costas, continuava sua alucinada viagem. Vagabunda, a dar voltas, e mais voltas, em torno do sol, enquanto redemoinhava sobre si mesmo lentamente. Os filhos de Everaldo reféns do processo evolutivo da espécie, pouco a pouco iam definindo a estatura dos seus corpos. Ia o ciclo da vida cumprindo seu papel. Uma coisa dava pra perceber nenhum dos três puxara ao pai. Era de se esperar que filhos de sertanejo viessem a gostar de passarinho cantador, na gaiola. Pegar alçapão e alpiste e ir lá pra várzea do riacho. Petecar ave de arribação com balas de barro de louça, endurecidas, quaradas ao sol no paredão do açude. Armar aratacas e arapucas pra pegar preá e mocó. Nas noites de lua fachear codorna e nambu. Gostar de ouvir história de Pedro Malazarte, Cacão-de-fogo, Mata-Sete e Camões. História do compadre e da comadre que traíram seus parceiros e viraram fogo corredor. Àqueles meninos se quer se animavam correr vaquejada, correr numa corrida de argola, ou na corrida de mourão, uma pega de boi no mato nem pensar. Sentir prazer de paramentar-se com as vestes próprias do vaqueiro: perneiras, peitoral, botas guarnecidas de esporas. Ostentar vistoso chapéu de couro, jibão, chicote e luvas de couro cru. Montar um belo quarto-de-milha. Se posicionar na portinhola do jiquí ladeado dum bom bate-esteira. Correr a derrubar o boi na faixa, e ouvir o locutor anunciar “-Valeu boi!”. Tirar um som dum berrante, aboiar, tirar um verso, ao badalar dum chocalho. Tirar umbu, na semana santa. Assar milho na fogueira do São João. Tirar maturi de caju, quando vinha o fim do ano. Nenhum dos três teria dado ao pai, o prazer de gostar das coisas do mato.

É certo que Everaldo e Ana queriam mesmo que os meninos estudassem, e se formassem. Pra não suceder com eles o que lhes ocorrera, emprego a custa de favores. Da promessa dum político Ana tornou-se serviçal do Tribunal de Justiça. Vandeilson o mais velho, conseguiu um emprego de técnico de informática no município, aproveitou o embalo e casou. Os outros dois em casa dos pais continuavam. Como não tiveram o mesmo tipo de criação, fora de suas presenças costumavam caçoar o jeito caipira dos pais. Pior, davam-se o direito de ralhar palavras que eles pronunciavam ao jeito simples do linguajar matuto. Vanderlanio chegou um dia dizendo que ia fazer uma tatuagem dum unicórnio alado no braço. O pai ao ver o rascunho do desenho escandalizado disse: “-Prefiro te ver morto! A ver um filho meu virado num cavalo do cão!” O rapaz não se conteve, caiu na gargalhada ali mesmo, na frente dele. Levou uma tapa por cima do toitiço que precisaria de compressa pra aliviar a luxação. Naquela noite, mais calmo Everaldo, chamou Vanderlanio, e foi ter uma conversa com ele. Disse-lhe que quando tinha a idade dele filho respeitava o pai. E falou de alguns episódios que lhe ocorreu quando rapaz. “-Uma terça-feira de carnaval, seu avô soube, lá no sítio Mulungu, que eu estava na vila bêbado, todo melado de pó ‘parecendo um macaco’. Foi me buscar. Voltei amarrado, atravessado na garupa do cavalo. Levei uma surra de urtiga. De outra vez, foi bater na escola porque soube que eu tinha brigado com um menino. Nesse dia, fui amarrado no tronco daquele pé de mulungu que tem até hoje atrás de casa, apanhei com o relho de amansar os bois de arado, cada lapada voava uma tira de couro das costas.

“-Sua avó, era uma mulher muito sabida. Gostava de ler, e lia muitos livros. Chegou a trabalhar como professora pra Delmiro Gouveia, o homem mais rico do sertão na época. Naquele tempo já se falava duma seita chamada Nova Era, que seria combatida pela Ordem dos Cavaleiros de Cristo, também chamados de Cavaleiros Templários. A Nova Era, que pregava a anarquia, o comunismo, a heresia e praticavam sodomia. Tudo coisa do demônio. Seus seguidores defendiam a negação de Cristo, dos Evangelhos, da bíblia, dos sacramentos da igreja. A favor do enriquecimento a qualquer custo, mesmo de vida inocentes, em rituais satânicos. E se reconheciam uns aos outros, por tatuagens no corpo, justo figuras como esta. Eles estão presentes em grandes empresas, em bancos internacionais, partidos políticos, emissoras de tevê. As cores, sempre o preto e o branco. Outro dia fui um aniversário do filho de um amigo meu, e fiquei chocado, ao ver que ao invés de cores alegres, de desenhos animados. Toda decoração eram imagens macabras: cabeças de caveiras, cobras, aranhas, esqueletos. Deram de presente ao filho, de apenas oito anos, o direito de fazer uma tatuagem quando completasse onze, que já havia até escolhido o que tatuar. Não se passaram mais de seis meses depois da tatuagem, e a criança contraiu uma doença que nenhum médico descobria o que era. Em menos de um ano morreu. Depois o pai caiu em depressão, matou a mãe e se matou. O demônio teria vindo buscar, mais dos seus cavalos. Precisava para cavalgá-los nas profundas do inferno. Viu aquelas execuções que apareceram na televisão como estavam vestidos os executores? É no Islã que fica a sede da seita. Pode pesquisar “Cavalo do Cão” e você mesmo vai descobrir.”

Vanderlanio pesquisou sim senhor. Mas o que encontrou foi: “Cavalo do Cão, nome científico “Pepsis ruficornis” da família dos pompilídeos é um inseto da classe das vespas. Locomove-se tanto no ar, como na terra. Sua picada é bastante dolorida, a peçonha age em questão de milésimos de segundo. Chega a causar paralisia do membro atingido. É predador natural da aranha. Ataca o inseto inimigo, com sua picada paralisa-o. Sua presa serve como alimento dele e de suas larvas.”

De nada serviram os conselhos de Everaldo. Primeiro Vanderlanio, depois os outros dois irmãos. Pois acharam legal, e cada um fez, nos braços, pescoço e costas, pelo menos três tatuagens. Cobras, raios, feras e monstros que eles mesmos não tiveram o menor interesse de saber o que simbolizavam. Um domingo desses duas Vans foram contratadas, pra irem ver o time do Canarinho, o de maior destaque no sertão, jogar com o alvinegro, maior da região fumajeira, no agreste. Os dois transportes alternativos acabaram se envolvendo num grave acidente. Cinco pessoas morreram. Três deles os filhos de Everaldo. Os outros dois também tinham tatuagens.

Fabio Campos 02 de Março de 2015

03 mar

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A MÃO E O MARTELO

Foto: Fábio Campos e Tômas Kael

Foto: Fábio Campos e Tômas Kael

A quaresma havia chegado. Nuvens vinham, e se quisesse, falariam de esperança, de coisas novas e sentimentos dúbios: tristeza, melancolia. E se tudo parecia confuso pouco importava isso nada mudaria o rumo das coisas. Indiferente as nossas vontades as coisas iam acontecer exatamente daquele, ou de qualquer outro jeito. E o vento vinha e – felizmente – não viera pra ficar. Não iria, porém sem deixar sua marca. E dava pra ouvir sua voz. Com nitidez colossal falava a as coisas todas. Aquele a quem fora repreendido – e a aqu’Ele – a que devia obediência, trouxe. E Tômas, na sua inefável – leveza de ser e – inocência, queria saber por que as pessoas estavam com cara de tristes. Se agora a pouco, houvera os dias frívolos, e fora tanta a alegria reinante.

Ainda muitos ventos, muitas águas, de outros marços, iam passar pra que Tômas entendesse. Lá estavam todos na calçada esperando o táxi. Desarmados de espíritos, limpos de corpos, trajados e perfumados pra ir à missa das cinzas, e foram. Água de chuva, quem sabe, não tivesse cheiro de céu? Um cachorro todo molhado surgiu na rua, veio até a calçada. Sob o pelo do pescoço uma corrente prata, sendo um prateado tão sutil que sumia na pelagem alvíssima! E mesmo sem querer trouxe tristeza. Lágrimas de encher os olhos. E se rolassem pelo rosto, teriam somente gosto de sal? As coisas todas reveladas, mas só a alguns poucos a capacidade de entender. Aos comuns, permaneceriam ocultas. A praça tristemente silenciada. E ia a tristeza andando de mãos nos bolsos, deixando pra trás um rastro de fumo de cigarro, que punha cheiro, nas mãos, nos tocos de pelos da barba de três dias, dentro das ventas, na aba do chapéu. Mais adiante outras mãos, largadas, sem rumo certo procurando o nada. Muitos momentos daqueles um instante e uma vida inteira pra pensar. Os atos vertiginosos impulsivamente cometidos. Arrepender-se-ia? Pra que? Se já pensava no ano que viria, tentaria não agir mais daquele jeito? Com um pouco de sorte retomaria ao que era antes. Uma mão, suja de pó, segurando uma latinha de cerveja, se ia buscando ainda um pouco mais das delícias de momo, findadas. Cores tragicamente mortas jaziam no leito da rua. As cores vivas foram todas pra porta da igreja. Estavam todos lá, ouvindo a missa de tomar cinzas.

Voltar pra casa, às vezes era a melhor opção. Preferível o refúgio da casa a rudeza de debaixo do tempo. Abrigado das vistas do céu, dava pra se ser quem quisesse. Heróis e bandidos lutavam dentro do peito numa batalha sem trégua, sem derrotados, nem vencedores. E sonhos mornos na penumbra do quarto vinham lhe fazer companhia. Sentiam-se tão fracos e pesados que não conseguiam alçar vôo. Deitavam-se manhosos por baixo dos lençóis, entre corpos e espíritos aqueciam-se. A porta do quarto meio aberta dava pra ver as crianças brincando na sala. Não queria adormecer e ter aquele sonho horrível. Dizia, que estavam em Maceió, Juliana ia andando de bicicleta, o cabelo rabo de cavalo balançando. Iam por uma longa avenida, a calçada cheia de gente, a menina pedalava feliz, despreocupada. Pouco a pouco se distanciava, e se perdia de vista. Tômas foi incitado a alcançá-la, porém também não conseguia. E chorava muito por isso. Cadê ela Tômas? A menina simplesmente evaporara. Ó quão triste a dor da perda! Meu Deus como pode acontecer isso… Que coisa terrível! Acordou suado, o coração disparado, nunca mais queria ter aquele pesadelo. Sob o clarão que vinha da janela lá estavam. Como era bom a certeza de tê-los, de poder vê-los. Tômas de frente pra quatro homens anões fortemente armados, ao lado de quatro animais igualmente de plástico rijo, revestido, de placas ricamente pigmentadas, com seus olhares ameaçadores. Faziam-se perfilados no piso esmaltado da sala. E os instruía pra uma missão árdua das quais os incumbiria. Para tal empreendimento teriam que preparar-se. O de trajes azul e verde era chamado de Tiwar, tinha um capacete reluzente que provavelmente fosse supersônico, bem como botas especiais. Estranhamente no lugar da mão direita havia uma espécie de torquês com três garras de ouro. Sua missão era proteger – com a própria vida se preciso fosse – Odin, o de vermelho e branco, que tinha uma espada e um escudo com poderes inimagináveis. O homúnculo de cabeça e vestes de aracnídeo, em posição de ataque aguardava a ordem do comandante era Balder. Finalmente Loki cujos músculos, peitoral, abdômen, bíceps, costureiros e asas fortemente ampliados, sem necessidade de anabolizantes apenas polipropileno puro.

Pois bem, a história ia de vento em popa. Dando a ideia de ser só dele, do menino Tômas. Ora, meu caro, felizmente as coisas nunca são como queremos. Nem mesmo quando o que escreve tendenciosamente procura beneficiar a apenas um protagonista. A campainha tocou. E Aika estranhou que à hora terceira da tarde já viesse o vendedor de pão! Porem não era. Olhando através do gradil da porta, Tômas viu um menino no portão. Vestia uma camisa de meia, surrada, um calção de tecido. Na cabeça um boné com a estampada de Thor. Pelo tamanho viu que aquele era mais velho que ele. De fato devia ter uns nove anos. Perguntou-lhe como se chamava, respondeu que seu nome era Luan. O que queria? Disse que vendia cofres feitos de barro, que podia até brincar com eles, mas que servia mesmo era pra guardar moedas. Pediu-lhe que fosse chamar seu pai pra comprar um. Tômas preferia prolongar a conversa. Conversar com o estrangeiro era mais emocionante que adquirir um mero cofre.

-Quem é este no seu boné? “-É Thor deus dos trovões, relâmpagos e tempestades, as árvores de carvalho, força, e proteção de todos os meninos, e dos fazendeiros. Sua arma é um martelo de guerra mágico chamado de Jolnir que ele atira contra os inimigos, nunca erra o alvo e sempre volta pra suas mãos. Percorre o mundo numa carruagem puxada por dois bodes pretos chamados de Tangrisnir e Tangrisnor. As rodas da carruagem ao rodarem nas nuvens provocavam os trovões nos céus. No castelo onde habita chamado de Thrudvang recebe todos pobres, depois que morrem aqui na terra. Considerada a mais bela das construções com mais de 1.500 acomodações, é pra onde irei um dia. Thor é respeitado na Germânia, na Escandinávia e por todas as tribos e povos viking. O deus Júpiter o homenageou dando seu nome a um dia da semana Dia de Thor, Thor’s Day ou Thursday, quinta-feira em inglês.”

Luan devolveu a pergunta: -E esse aí na sua mão, quem é? “-É Tiwar também chamado de Tyr. O meu herói preferido, o deus das guerras. Ele participou das muitas lutas e batalhas entre os deuses nórdicos, e venceu todas. Numa delas perdeu uma das mãos. Foi assim, Loki irmão de Tyr criava um lobo chamado Fenrir que vivia solto no reinado de Asgard. Esse lobo começou a crescer e ficar tão grande que Loki temeu que viesse um dia a devorar Odin seu pai. Os deuses decidiram que Fenrir devia dali por diante viver acorrentado. Acontece que Fenrir quebrava todas as amarras com lhe eram atadas. No longínquo reinado de Vartalfein, viviam os anões ferreiros, os melhores do mundo. Com a promessa de ouro e riquezas eles concordaram em fazer uma corrente pra prender Fenrir. Ao concluir os grilhões Odin curioso quis saber de que eram feitos. De seis coisas, responderam os homenzinhos: do som que um gato faz quando caminha, da barba de uma mulher, das raízes de uma montanha, dos tendões de um urso, do hálito de um peixe e do cuspe de um pássaro. Não sendo fácil persuadir Fenrir a deixar-se amarrar um acordo foi firmado. Se ele não conseguisse se soltar, eles o soltariam. Fenrir por garantia exigiu que um deles, como prova da sinceridade, colocasse uma das mãos dentro de sua boca. O único que aceitou colocar foi Tyr. O lobo lutou ferozmente sem conseguir libertar-se. Lutou muito sem conseguir furioso decepou a mão de Tyr. O deus Urano, consagrou esse trágico dia com o Dia de Tyr, “ Tyr Day” Tuesday em inglês.”

Outra quarta-feira de cinzas como aquela na vida daqueles, talvez nunca mais houvesse, nunca mais. Só Odin pai de Thor e Tyr o deus da quarta-feira, podia dizer pois neste dia podia interferir nos destinos. Mesmo que tudo parecesse confuso pouco importava, nada daquilo mudaria o rumo das coisas. Indiferente as nossas vontades as coisas tinham de acontecer daquele, ou de outro jeito. Luan desistiu de vender um cofre a Tômas. Virou a aba do boné pra trás. Dum puxão pra cima juntou o calção ao corpo franzino. Pegou nos braços do carrinho de mão. E seguiu rua adiante. Não sem antes, chamar um cachorro branco que estivera o tempo todo na calçada, esperando:

“-Vamos Fenin.”

Fabio Campos 24 de Fevereiro de 2015.

*A Gravura que ilustra este conto, parte dele, foi feita por Tômas Kael (5 anos) neto do autor.

23 fev

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BONECA DE TRAPO

Eliane estudou no grupo Escolar Padre Francisco Correia. Naquele tempo não passava duma menina, nascendo os peitos ainda. Até os treze anos a Rua de Zé Quirino, era tudo o que conhecia na vida. Seu único mundo. Aquela rua fora o ventre que lhe gerou, a puta que lhe pariu. Filha bastarda, de pai anônimo. Poderia, ser filha do açougueiro, do sapateiro, ou o dono da banca do jogo do bicho. Rua de Zé Quirino, sua casa, sua sala de estar, seu quarto, sua cozinha. As margens do Panema seu quintal. O rio, que tanto lhe deu por herança: pele morena, os olhos castanhos, os longos braços que nadaram, e nadaram aquelas águas. As pernas engrossariam a correr nas suas areias. A escalar as montanhas do Cristo redentor, e do Cruzeiro. A encher a roupa de carrapicho, as pernas de latanhos de rasga-beiço, calombos de urtiga. E os cílios, de tanto mergulho nas águas salobras, pareciam sempre molhados.

De lá do terno passado retornou, numa foto de primeira comunhão, na igreja Sagrada Família. Se havia colocado de pé, ao lado duma fila de meninos e meninas, vestidos de branco. Em segundo plano lá estava. Os garotos trajavam ternos, gravata borboleta e calças curtas, as meninas como freiras mirins. Segurava em cada mão, um catecismo e uma vela enlaçada por uma fita vermelha. Não sendo Eliane o foco principal do flagrante, no entanto, atraía para si a atenção, pelo traje esdrúxulo, uma ínfima blusa, uma mini saia, sandálias de salto. Havia um quê de ingenuidade em seu terno semblante. De criança que não conhecera ainda a maldade humana, não em todas as suas nuanças. Sequer se percebia descriminada pelos demais que ali se encontravam. Muito embora existisse um preconceito, não de todo velado. Jamais imaginava o que o destino lhe preparava. Para sempre a guardaria na mente.

Os filhos de família tradicionais santanenses juntavam-se aos filhos da pobreza da periferia. Nos eventos cívicos e religiosos se misturavam. Desde o velho grupo escolar, onde ocupavam as mesmas bancas, sentados lado a lado. Meninos discriminavam meninas como Eliane por serem pobres. Sem saberem que meninas como ela poderiam ser sua irmã. Somente muitos anos depois ficariam sabendo que seus pais muitas vezes deixavam suas mães em casa e, na calada da noite, ia pra periferia deitar-se com pobres mulheres. E estas se submeteriam aos caprichos sexuais e teria filhas, como Eliane. Com aquelas mulheres teriam filhas, e não trariam o nome do pai na certidão de nascimento. Talvez um dia quando fosse dormir, sonhasse com um pai a pedir a benção, um pai que lhe levasse a passear na festa de Senhora Sant’Ana, e que se lembrasse do dia do seu aniversário. As semelhanças físicas com os filhos legítimos as denunciariam. E viriam as brincadeiras maldosas, as comparações. No grupo escolar, as diferenças quase se anulavam. Quase, não fosse os apelidos, de ”cabelo pichaim”, “boca de caçapa”, “Maria mulambo” que os meninos punham, em meninas como Eliane.

Estávamos no primeiro ano da década de setenta. O sertão enfrentava uma de suas piores secas. Pelas estradas que acessavam as cidades do interior nordestino, levas de retirantes. Deixavam pra trás dias de amargura, a ameaça de morrer à míngua. Preferível partir a ter as tripas puxadas pelo carcará. Virar pasto de ave de rapina, feito suas últimas cabeças de gado assim vitimadas. Pra fugir da fome e da sede implacável, mulheres virariam lavadeiras, engomadeiras, empregadas domésticas, prostitutas. Os homens estivadores, almocreves, jagunços, exímios jogadores de carta. E construíam suas rústicas moradas na periferia das cidades. Caso contrário fazia “A Triste Partida”. Pro sul do país, pra construção de Itaipu, da ponte Rio-Niterói. Seu Ozéias da bodega, depois de ver a propaganda do governo na Revista “O Cruzeiro” foi bater no meio da floresta amazônica, trabalhar na construção da Santarém-Cuibá. A nação brasileira era comandada pelo chefe das agulhas negras General Emílio Garrastazu Médici, com mão de ferro governava. O “Garrafa Azul” perseguiu todo que se mostrasse contrário a sua forma de gerir os destinos do país. Deu um fim as guerrilhas no planalto central. Com uma recessão econômica tacanha pôs freios na inflação, o consumo que já era acanhado refreou. Poucos tinham poder aquisitivo. Só a classe mais abastada podia possuir geladeira e televisão.

A propaganda do governo chegava aos mais longínquos rincões. Até mesmo nos álbuns de figurinha, nas bancas de revistas, que as crianças compravam pra colecionar e colar. Figurões do alto escalão do governo, ministros Jarbas Passarinho, Mário Andreazza, Delfin Netto virados figurinhas que iam coladas, ao lado de cantores da jovem guarda, lutadores de teleket e comediantes. Livros, revistas, almanaques eram as maiores fontes de conhecimento, lazer e entretenimento. As bancas de revistas, cafés, lanchonetes eram pontos de encontro de jovens e intelectuais. Revistas com encartes, discos compactos, fitas k7, revistas com nus artísticos: playboy, Ele e Ela, tinham venda proibida pra menores de 18 anos, virava objeto de desejo dos meninos. Enciclopédias vendidas porta a porta, enalteciam o sesquicentenário da independência, eternizada na música de Miltinho. A Seleção Canarinha de Zagallo, virada mito, nos campos de Guadalajara. O narrador mexicano mais apaixonado por nossos craques que por seus patrícios. Lá fora ficávamos conhecidos como o país do futebol, do samba de Dorival Caymmi, das mulatas de Sargentelli, pintadas por Di Cavalcanti. Portinari retratou o sofrimento do retirante. Ter um fusca e um violão, era um sonho nacional. As mulheres imitavam os trajes e o cabelo de Jackeline Kennedy, O homem pisando na lua, Onassis o símbolo de riqueza. “Dona Flor e Seus Dois Maridos” da cidade de Salvador, da Bahia de todos os santos, de todos os pecados, de Jorge Amado. Leila Diniz quebrando tabus. Foi vendo e vivendo tudo isso que Eliane cresceu.

Cedo Eliane aprenderia que viver não era nada fácil. Cedo aprenderia que o mundo em que vivia, era um mundo cão. Via, sem ter direito a perguntar nada, homens de toda espécie, jogadores de baralho, boêmios, comerciantes, feirantes, entrarem na sua casa, e no dia seguinte irem embora. Homens que olhavam pra seu corpo de menina, com olhares de cobiça, de gulodices. Demorando-se propositadamente sobre seu sexo, peitos e bunda como se sevassem. Lá dentro do Panema, bolinada seria por um rapaz afoito pra quem deu ousadia. A primeira menstruação veio quando estava brincando de pega com outras meninas. Pensou que tivesse levado um corte. A mãe explicou-lhe “-Minha filha você agora é uma moça.” Por noites teve febre, delírios, pesadelo. Sonhou com um homem negro, muito gordo, vestido de paletó e gravata com chapéu de massa na cabeça, sapatos lustrosos, anel de ouro com pedra verde no dedo. Dizia que sua mãe tinha morrido a pegava no colo e a levava. Era noite, e iam entrar num carro preto que estava estacionado a porta. Dentro do carro o chofer lhe sorria um sorriso cínico, com um dente de ouro brilhando. E queria gritar por sua mãe, mas não conseguia.

Eliane decidiu que já era tempo de ir embora. A Rua de Zé Quirino ficara pequena, Santana do Ipanema não fazia mais, o menor sentido. Estudar pra quê? A sétima série já repetira duas vezes, cansada estava de estudos. Namorou um rapaz que tinha o apelido de “Bem-te-vi”. Com ele perdera a virgindade, também com ele provou maconha pela primeira. Afinal já fizera dezesseis anos. E com outra amiga foi morar em Maceió.

Na capital alagoana Eliane aprenderia muito mais. Se Santana do Ipanema descobrira o mundo cão. Maceió apresentou-lhe as delícias do inferno. Pouco a pouco foi se inteirando do poder que exercia sobre os homens. Poder de tirar do próprio corpo seu sustento. Decidiu que dele, e com ele, ganharia fama e fortuna. Investia parte dos ganhos em salões e academia. Em pouco tempo o que era belo, tornou-se extremo. Exuberância de seios, coxas e bunda colossal. Nada mais nela lembrava aquela cândida figura da fotografia. Queria tornar-se famosa, tanto que sua terra natal tivesse orgulho da filha ilustre. Pra isso precisava ser manchete. Mandou um aviso pra um jornalista duma emissora de tevê, dizendo que seria a primeira garota a fazer Top Less em praias Alagoanas. Hora, e local combinado. Noutra semana Eliane foi primeira página do jornal de maior circulação no estado. Passou a ser programa de celebridades, políticos e era vista frequentando festa de gente importante. Até um sambista carioca lá da Vila Isabel, de renome nacional, compôs uma música pra ela.

“Teka rendeira, Eliane praieira/ Vamos pra Paripueira/Vamos pra Paripueira/ Vai ter sururu/Vai ter sururu/E o maré fica na beira da Lagoa de Mundaú/ Da Lagoa de Mundaú/Da Lagoa de Mundaú.

Mas o tempo cruel, vertiginoso com seu prazer mórbido, de enterrar na areia movediça do destino os mais coloridos dos sonhos. E nossa boneca de trapo novamente voltaria a ser destaque nos jornais. Desta vez, na página policial. Nua sobre uma cama de quarto de motel Eliane. Morta com três tiros.

Fabio Campos 18 de Fevereiro de 2015

20 fev

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AS FOLHAS QUANDO CAEM…

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Adalberto nunca tinha passado um carnaval daqueles. Na verdade nem sabia se aquilo poderia ser considerado um carnaval. A casa era só uma choupana no meio da caatinga. Duas caídas d’águas, um alpendre escorado por toscas estacas guarnecidas de ganchos. Ornados de cordas de caruá, amolecida de tanto trabalho duro. Num canto arreios duma montaria, um relho e um chapéu de couro de boi, tudo tão gasto, ensebado. Um balaio de vime, atarefado de palma, um facão de cabo preto embainhado um par de alpercatas Xô-boi. Dois homens Adalberto e Maurílio sentados num “Péla-porco”. Os pés cruzados embaixo do banco davam guarida pra um cachorro branco. Macerando verbo e fumo de rolo. Proseavam, os amigos. Coisas desinventadas por gente do mundo. Coisas que até Deus que é Deus duvidava.

De limo negro as telhas diziam tristeza. Uma bica esturricada de tempo dormia pros lados do oitão esperando chuva. E quando viesse, porque em fevereiro sempre vinham, choraria a desaguar num tonel. E havia um céu perfeito a flamular de azul, sublinhado dumas nuvenzinhas, brancas que só. Com o rei brincava de luz, não luz. Do terreiro até aonde as vistas quisessem ir tinha mundo pra ver. Tinha uma roça que não dizia nada. Com paciência de Jó, aguardaria os obreiros que não tardariam. Formigas formigando a epiderme da mãe terra, caravaneavam tudo que pudesse fornecer alimento no inverno. Pros recônditos porões escuros, morno, úmido e cheiroso ventre da mãe terra campeavam. Onde a cigarra laboriosa cantava angariando longínquos ouvidores. Mangangás nupciais cortejariam xim-xins, orquídeas e frutos dos mandacarus.

A conversa estava boa, mas era preciso dizer pra que estavam ali. Maurílio filho de Seu Claudomiro e dona Paulina, tinha nove irmãos, Claudomero, Teodorico, Teodebaldo, Teodeberto, Teodomiro, Dagoberto, Ferdemundo, Ferdinando e Betânia. Adalberto um caboclo bem afeiçoado vindo das bandas do Sítio Capim. Apareceu por ali, pra passar uma temporada de plantio de roça com os tios, conheceu Betânia e cinco anos já fazia que se casaram. No mesmo dia, na mesma igreja e com o mesmo padre casou também Maurílio, com Robevânia que acabou de entrar na história. E de quebra, era prima legítima do noivo. Todos, com exceção de Maurílio, foram embora pra São Paulo. No sertão o povo tem umas crenças que devem ser respeitada, isso porque fazem parte da natureza humana. Diziam os mais velhos, que casamentos de dois parentes no mesmo dia não era muito recomendado. Porque um, iria carrear pra si, todo tipo de sorte predestinada pro outro. No tempo que os amigos se casaram eram jovens e se quer se aperceberam disso. Foram pro mundo, e cada qual seguiu seu cada qual.

De dito popular, em dito popular vive o sertão. Tem um que diz que, Deus não dorme. Bem diz, não dorme. Não fala em cochilo. Pois acreditando que uma vez perdida, assim, quando alta vai a madrugada, e o povo está mais desocupado de aporrinhar com seus infinitos rosários de pedidos. O Criador deve pelo menos dar um cochilo. Pois justamente entre um desses benditos cochilos, é que Leviatã aproveita pra pintar os canecos. E se conselho fosse bom não se dava vendia, mesmo assim o amigo desconfie do que diz: “O diabo não é tudo o que pintam.” Pois acredite, é tudo o que pintam sim, e um bocado mais. Acontece que o tempo gastou mais três lustros das histórias dos dois amigos. Adalberto tornou-se empresário do transporte alternativo. Sua modesta frota cobria linhas rodoviárias em todo o sertão. Prosperou o filho do camponês, que no passado teve dias de amargura. Enchiam-se os olhos d’água salobra quando lembrava os primeiros anos de casado. Morava numa tapera, numa situação que era de cortar coração. As histórias sofridas das canções de Luiz Gonzaga e Teixeirinha eram luxo diante do que passou. Guardara de lembrança uma foto do tempo que era fichado nas Frentes de Emergência, do governo “da Coalização Arenista” Guilherme Gracindo Soares Palmeira, o bacharel em Direito redentor da pobreza. Os sertanejos como Adalberto, à época o tinha como um homem abençoado. O suporte que dera para que a Sudene implantasse aquele programa que mataria a fome de tantos. Na foto Adalberto ao lado de outros “cassácos” como eram apelidados, só couro e osso. Com fé em Deus aquilo seria coisa do passado. Hoje gozava de uma vida confortável. Em sua chácara na praia de Miaí era onde ultimamente passava os feriados prolongados com a família, inclusive os carnavais. Acontece que deu vontade de voltar as origens e por isso estava ali, ao lado do velho amigo Maurílio que jamais saíra do sítio Pau Ferro.

Maurílio desde que casara nunca saíra dali. Uma moradia digna pra si e sua família não conseguira na vida. Juntamente com os três filhos. Dois rapazes, uma moça e a esposa Robevânia, morava na mesma tapera que servia de abrigo pros seus velhos pais. Seus avós moravam distante dali algumas braças. Quando era a tardinha sempre ia ver vó Orminda e vô Juliano. Era um casarão antigo de portas e janelas enormes lembravam os tempos coloniais. O pé direito ia lá nas alturas. E o telhado de tão pesado rangia nos dias de ventania muito forte. Ao entrar no casarão se anunciava: “-Ô de casa?” E ouvia: “-Ô de fora! Quem vem lá, que venha de paz!” Dona Orminda na penumbra da cozinha ficava olhando seu neto Maurílio. Parado no umbral da porta principal. Abria o ferrolho bem devagar e vinha até onde ela estava. “–Sua benção vó!” E esticava o mãozão cascudo, de dedos nodosos de capinar roça e amansar boi brabo. “-E por que “meu fio”não mandou o homem entrar ‘tombem’?” “–Que homem vó? Vôte! Eu ando só…””-Não senhor tinha sim um homem ali por trás de “ôcê” inda’gora.”

Domingo de carnaval, e se ouvia ainda o canto da cigarrinha, dos bem-ti-vis rodeando a casa. Os acordes de Zé Pereira forjaram-se num chiado vindo duma boca de som de um antigo rádio, em frequências de ondas médias. Robevânia a pedido de Maurílio serviu vinho ao ilustre convidado afinal era carnaval. Um garrafão posto entre eles colocou animosidade ali. Copos tilintaram em brindes. Estalos de língua, alegria a muito não vista naquela morada chegou em sorrisos tintos. As teias de aranhas atravessadas pela luz de fretas coloriam em confetes e serpentinas. E o pó da poeira caindo dos caibros suspenso no ar diáfano. Uma coisa Adalberto observava a esposa do amigo, continuava a mesma. Sempre a admirara. Esmerada nos gestos. Parcimoniosa no proceder. Os longos cabelos negros, sedosos, compunham belamente seu rosto. O colo gracioso. Mesmo sabendo corpo proibido, desejava-a. No íntimo do seu coração a consumia. Maurílio, Adalberto e Robevânia ganharam o caminho do açude. A banhar-se do fogo das paixões que os consumiam. Soprando seu sopro de fazer cócegas nos ouvidos o Caboclo vermelhinho sorria. Seu sorriso cheio de dentes e baba viscosa, luxurienta.

“O profeta Natã diante do rei Davi contou-lhe a seguinte história: Dois homens, um rico e um pobre. O rico possuía muitas ovelhas, enquanto o pobre tinha apenas uma, que cuidava muito bem. Um viajante aproximou-sedo rico pedindo comida. O rico então pegou a ovelha do pobre. A única que aquele possuía, e tomando-a como se fosse sua a deu ao nômade. Enchendo-se de cólera o rei Davi esbravejou: “-Tão certo como meu Deus de Israel vive! O homem que praticou esta infâmia merece a morte! Deve ele pagar com a vida quatro vezes mais do que foi o sacrifício do cordeiro, pois praticou o que é mal aos olhos de Deus e sem o menor remorso!” Natã no entanto advertiu-o: “-É o senhor meu rei, este homem! Eis que o Senhor Deus de Israel me disse: “-Eu ungi você (Davi) rei de Israel, e o livrei das mãos de Saul. Eu o tornei mestre da casa e as esposas do mestre ficaram em seus braços. Eu dei a casa de Israel e Judá. E se isso tudo fosse pouco eu lhe daria muito mais. No entanto o que fez você? Sacrificou a Urias “o hitita” fez com que fosse ferido de morte, a fio de espada. E tomou a esposa dele como sua. Como castigo a espada jamais deixará tua morada.” Betsabá esposa de Urias banhava-se na varanda de sua casa. Do seu terraço Davi a viu, e a desejou em seu coração. Mandou chamá-la até ele, e deitaram-se em coito. Deste ato nasceu-lhes um filho. E sendo fruto do pecado viria a perecer como castigo.”

Adalberto uma pergunta mais faria a Maurílio. Queria saber se o amigo não tinha ambição de crescer na vida. Sair daquele fim de mundo, ir embora. Podia até deixar Robevânia por uns tempos, com os filhos. Ir aventurar-se no Sul do país, pedir um emprego a um irmão próspero empresário da construção. E aquele, por resposta Cantarolava baixinho uma música do rei das paradas que dizia: ”As folhas quando caem nascem outras no lugar…” Dois mais estavam ali, embora eles não viam. Natã que meneava a cabeça de desaprovação. Enquanto Leviatã largueava mais e mais o asqueroso sorriso, afirmativamente. Afinal era carnaval.

Fabio Campos

13 fev

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TORPE!

“ (ó) que entorpece, embaraçado, acanhado; (ô) impudico; obsceno; sórdido, infame; ignóbil; nojento; sujo; manchado”

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Outra vez, lá estavam os dois juntos. Cezar e o mar. O mar e Cezar. Um diante do outro. A praia sempre bela. As ondas lânguidas esticavam-se, vindo beijar-lhe, o corpo estendido na areia. Beijava-lhe os pés, subia até o peito. A areia entranhando os cabelos. Por dentro do calção bolinando-lhe o sexo. Despudoradamente se amavam. Os braços do mar, libidinosos avançavam e recuavam. Carinho de amor mútuo, impudicamente correspondido. Lascivamente entregues um ao outro. Gostava daquele afago, e tanto lhe excitava. Retivera todas as delícias das vezes que estiveram juntos. Jamais esqueceria. Com ênfase nos dias de carnaval.

Dali da areia dava pra ouvir o som do frevo, indo pelas ruas da cidade. Os clarins, o frenesi dos tambores. Sopro torpe do deus Baco. Pelo vento tangido, alucinado. Decaído das asas de Ícaro, chegavam a si. E lhes vinham sob a forma de antigas marchinhas. Reberverando ao baterem ritmadas no coração das almas folionas. A acordá-las do entorpecido sono que dormiam sorridentes, a mais de ano. As troças surgiam nos becos, e logo por outros deles eram engolidas. Debaixo de um sol agastado de luz, os blocos a brincar de colorir as coisas. A tarde de carnaval tinha todo um poder, uma magia, de facilitar as coisas. Alegravam as pedras de pisar. Donde outrora negros estrangeiros umidificados de suor na pele retinta, luzidia de sol e sal, trazido do mar. Aquelas pedras tingiram-nas um dia com seu próprio sangue. E seus corpos fizeram sombras de mesma cor no chão na dança de capoeira. Tingiam-na agora, com vinho do porto, com vermelho de colorau, azul de anilina, branco de maisena derramado. E brilho de pó de mico.

Havia um quê de permissividade. Como se personagens de sonhos e fantasias sexuais de rapazes que quebraram o cabresto, se materializassem. Mulheres ébrias de amor se beijavam beijos com gosto de cerveja. Embriagados, homens e mulheres despudores aliviavam suas bexigas, sem dar-se a ocupação de esconder seus sexos das vistas dos passantes. Pegas de surpresas meninas pudicícias viravam os rostos de rubor pro lado do mar evitando a cena. A imensa faixa de areia virada em passarela, onde fantasiados banhistas desfilavam. Fantasmas de corpos esfuziantemente vivos. Mambembes, de gozos e gestos obscenos, se atiravam no mar como um amante se atira na cama na hora do amor. Ninfetas ingênuas ao mergulharem n’água inadvertidamente perdiam a parte de cima do biquíni. E corriam a cobrirem como podiam seus pequenos seios virginais. A parte de baixo da peça de banho, depois de molhada, tanta era a força de atração exercida pelo corpo, que se colava como uma outra pele. A ponto de suas vulvas intumescidas acabarem por se desenhar vivamente perante os ávidos olhos dos varões. E tão mal disfarçavam seus olhares, e os instintos de macho os denunciavam, pouco a pouco, inflamando os volumes de seus calções.

Ninguém acudisse que o sexo no carnaval, com ênfase na praia, ditava sua lei. Mulheres de corpos esculturais em sumaríssimos biquínis a untarem o corpo de óleo bronzeador. E era tanto esmero dedicado a este ato. Como se meticolosamente encenasse uma peça de teatro onde interpretavam personagens de si mesma, e eram tão carentes de amor. E não hesitaria em se masturbar publicamente só pra chamar atenção. As mentes masculinas precavidas – desejavam ardentemente que de fato tal intenção se realizasse – por trás dos óculos raybans, lançavam olhares lancinantes, vorazes devoradores. E reteriam na retina aquela magnífica cena para usá-la dali a pouco no banheiro. Haveria deles que ali mesmo, encobertos até o pescoço pelo mar, se dava ao luxo de produzirem simulacros daquelas vaginas com suas mãos. E as ninfas aceitavam passivamente o coito imaginário, contentando-se lascívias com as libertinas lambidas do sol. Aceitando, e adorando seu caliente carinho nos seios fartos, nas coxas eriçadas de pelos oxigenados, na bunda luzidia apalpada pela areia. Enquanto o montículo pubiano atacado pelo ínfimo taco de pano retinha forçosamente o cheiro de fêmea. A brisa brincante de areia nos cabelos sedosos e lisos. Uma língua vermelha, de lábios carnudos a devorar com sofreguidão um fálico e viril picolé cujo estado de coisa não dando pra agüentar mais tanta carícia escorria pela mão seu lambuzado gozo lácteo.

No ano passado também o carnaval havia sido ali naquela mesma praia. Vários casais amigos tinham vindo além de Cezar e Valdelice. Naquele ano, só Cezar mais ninguém. Pela saudade que sentia do mar ali estava. Também precisava dar um tempo no relacionamento desgastado. A doença de sua sogra estava atrapalhando o convívio.

Lembrou que ficaram todos na casa de dona Alcinéia e seu Oscar pescador, que moravam quase dentro do mar. A casa era pequena. Como se saída de um conto infantil, mas com jeito deu pra acomodar os quatro casais e duas crianças Elmo e Lavínia. E todos juravam que gostariam de morar ali para sempre. Recordou que ficaram no domingo à tarde vendo o por do sol. Que ocorria do lado oposto do mar, lá ia o rei, dando adeus à montanha, ao coqueiral, ao farol. Distantes um do outro apenas alguns metros estavam naquele mesmo lugar. A tarde inteira curtindo as ressacas de si, do mar. Nem perceberam que a noite chegara. Ali mesmo na praia, todos virados em negras silhuetas, fizeram amor.

Domingo de carnaval à noite. Sempre noite doidivana. Um palanque todo ano era montado no barranco do quebra-ondas. Bandas pra todos e gostos e ritmos desfilavam muito mais corpos, trejeitos, caras e bocas que música. Apenas som em altíssima frequência. Todo um terreno de terra batida toado pelo povo. Iluminado por gambiarras que ia refletir feito pingos de fogo dentro do mar, da cor de petróleo. Ainda alguns componentes de blocos resistiam de pé. Feito mambembes soldados escapes de uma batalha insana, que haviam lutado contra eles mesmos. Resistindo deseroicamente. Tudo o que meritoriamente alcançaram fora corpos extasiados, torpes. Zumbis exalando vapores de etil por todos os poros.

Domingo de carnaval à madrugada. Sempre madrugada doidivana. Pura extravagância, um esbaldar-se do ser. Como se todas as regras de vida e de mundo merecessem serem quebradas, descumpridas. Um dar-se ao direito de deleitar-se. A negação de tudo que se era. Direito a assumir-se a duplicidade de personalidade. Homens travestidos de mulheres. Alguns de tão perfeito disfarce pondo-se a passar perfeitamente por damas. Dando a pobres observadores sóbrios, o direito a dúvida. Ainda mais quando satisfazendo a desejos secretos, o ano inteiro adormecidos, beijavam-se na boca. Alegariam depois devaneios culpa da diamba ingerida, do pó consumido, do lança-perfume. Como num mundo surreal. Seres estranhamente levados por uma comoção frenética, psicodélica. Um manancial de ilusões, de arrojo e duma volubilidade tão fremente como suster um elefante por um fio de cabelo. Sobrando apenas o direito ao riso, ainda que falso, artificial sorriso de palhaço.

A chácara de doutor Luiz ficava no boqueirão, na croa da enseada. Elmo, tinha só treze anos naquele carnaval viera passar praia com os pais, ao cair da tarde foi olhar os cavalos na chácara. Saulo um negro enorme cuidava dos animais. A pedido arreou duas montarias e foram os dois cavalgar pela encosta, até quase noite andaram. O descendente de africano cuidou de dar banho nos cavalos. Despido a beira do grotão, o negro parecia o deus Priapo, com seu enorme pênis mesmo em estado de repouso. Elmo viu e ficou simplesmente estupefato. Pior não conseguia tirar os olhos de lá. Ao tempo que do seu íntimo vinha a curiosidade de saber que tamanho aquilo ficaria ereto. Parecendo adivinhar seus pensamentos Saulo ficou excitado, e a estrovenga criando vida própria, cresceu. Desejos nasceram no coração de ambos. O menino de pele alvinha, limpa, sedosa, como de uma moça. O negro não resistiu a tentação de seduzi-lo. Mas recebeu uma negativa. Prometeu que dar-lhe-ia um daqueles potros que tanto lhes fascinara. Depois de muitas tentativas o garoto cedeu, e o negro o possuiu. Fizeram amor avassalador. Arrependido do que fizera Elmo ameaçou dizer ao pai o que se sucedera entre eles. Saulo implorou pra ele não fazer aquilo pois tratava-se de uma tara, algo que não podia controlar. O menino concordou e os dois acabaram repetindo a dosagem. Saulo ainda faz amor com ele por mais outras vezes. Desta feita o mancebo o faria com prazer. E daí passou a cobrar do varão outras e mais outras vezes. Desfalecido Saulo se vê obrigado a dizer: -“Para, ou sou eu que direi a teu pai.”

Fabio Campos 03 de fevereiro de 2015

09 fev

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MEDONHA NOITE

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Era assim um cair de tarde, e as nuvens do céu se inventavam de falar de tristeza. Para isso tinham que se livrar do sol, que só falava de vigor e luz. E tudo estava como que empesteado com uma alegria quase incontida. Então o trovão disse, estou. O relâmpago também, eis-me aqui. E veio a chuva. Assim uma chuva feia. Com seus pingos grossos, espaçados, previsivelmente inesperada. Intrometidamente apressada. Borrando a tarde, afugentando as cores das flores, dos pássaros. A dizer o que não mais era prioridade. Tirou os namorados do banco da praça. Fez o velho senhor improvisar o jornal como guarda-chuva. As crianças, somente elas gostaram daquela chuva. E da mesma forma que veio se foi.

A noite, desembestou-se cheirando a terra molhada. Ainda era cedo da tarde, mesmo assim chegou. Nem um pouco surpreendente mais cedo veio. A moça ficou no alpendre, e era parte desses acontecimentos. Não podia, nem devia ser apenas mera observadora. Fazia parte de tudo como protagonista duma história, que não tinha começo, nem meio, apenas fim. Os cílios molhados de lágrimas repousadas na foto que jazia na palma duma das mãos de seus longos dedos trêmulos. Mãos que a pouco esmerara no tocador seu longo cabelo. Enquanto seus olhos buscavam no espelho encontrar alguém tão estupidamente parecida com ela, porém não se sentia aquela, refletida lá. A boca semi-aberta os alvos incisivos mordiam o lábio inferior tornando-o túrgido, rubro. Uma palavra que teimava em não se materializar, cujas cordas vocais simplesmente se negavam concretizar, escondida no consciente, se fazia, ciente.

A brisa quente, esbaforida como bafejo de bovino. Veio vindo, carregando, como quem flutuava a alma morta da tarde. A tocar-lhe os lábios permitindo-se fundir-se com o seu hálito adocicado. Lembrava de Leonardo, com ardor. Do tempo do namoro, escondido porque seus pais de criação não consentiam. Leonardo era um soldado recém admitido na corporação. Não tinha um ano de farda, e fora designado para subdelegado da Vila Capim da Igrejinha. Administrada pelo intendente Firmino Fontes era, nomeado pelo então governador Major Luiz. E do alto de seu orgulho não aceitava que sua neta-afilhada namorasse um soldado de polícia. Pra ele, todo militar não prestava. Apesar de que precisava sempre dos seus préstimos: pra dar uma surra em cabra safado, pra dar fim a outro que andasse se metendo a besta. A falar de sua gestão, a ferro e fogo implantada. Debaixo daqueles bigodes até onde as vistas podiam alcançar, tudo que vivesse tinha que respeitá-lo.

Lembrou com muita veemência do dia que Leonardo conhecera coronel Firmino Fontes. Mais dois dias e faria uma semana que havia chegado à vila. Conheceu a professora Maria Auxiliadora por providência do acaso. A delegacia ficava quase defronte a escola. Uma troca de olhar, um cumprimento formal. Daí a pouco estavam conversando. Falaram sobre o calor, a escassez de água, e que naqueles tempos de seca, era tirada da cisterna da delegacia pra servir a cantina. Naquele quinto dia de vila, nem bem Leonardo pôs os pés dentro do cubículo onde funcionava o distrito policial, e o coronel por um dos seus capangas, mandou buscá-lo. Chegou trazendo-lhe outra montaria. Orgulhava-se de trajar aquela farda cáqui, o cinto largo, a cartucheira com a arma da corporação, os coturnos pretos, engraxados, o boné engraçado que cobria somente o cocuruto. Porem tão respeitado um soldado de polícia em todo estado, com ênfase no meio da feira. O cabelo rapado, rosto bem escanhoado. Era o ano de 1969, e ele só tinha vinte e quatro anos. Um bigode fino conservado, mais pra dar ideia de mais idade. O dia realmente muito quente, dum desses verão, seco torrado, dum céu azulino sem nuvem. De doer às vistas se o cristão se inventasse de olhar pra cara da bola de fogo que tinha nome de nota musical. Inclemente seguia o sol sua pauta de clave de si implacável. A música era a segunda paixão de Leonardo. Tinha um trompete que vez outra tirava dele uns acordes.

O coronel se estava no alpendre. Sentado na cadeira de palhinha. E pareceu que tudo no mundo, de tão cansado, parado estava. Não se ouvia um nada. Se quer um vento de respeito, dos que assobiam forte nos ouvidos, ou mesmo um redemoinho de encher os olhos de areia, e derrubar mais folhas da craibeira na calçada. O que ainda malmente se via, era aqui e acolá se levantar uma poerinha acanhada, a dar ideia de que algo ainda estava vivo. No sertão brabo de meu Deus os viventes não entregavam os pontos assim facilmente. O coronel Fontes despira o terno e a camisa. Porem lhe cobria os peitos flácidos forrado de fios brancos e a barriga volumosa, uma camiseta branca, de meia. Suava por todos os poros. Um cigarro branco de filtro amarelo, recém aceso pendurado no lábio. Longa ponta de cinza. O artefato apelidado de chupeta do cão, se consumia sem ser tragado. Servindo somente de incenso a espantar moscas. Os jagunços eram três negros, de raça, e de procedência pra lá de duvidosa, que pela convivência já conheciam os pantins do patrão. Com caras de cães raivosos, amestradamente vigiavam. Pra eles, aquele tipo de postura do senhorzinho só era concebida quando algo havia a ser resolvido. O coronel sem levantar a vista, buscou um revólver taurus 38, preto com cabo de madeira, que se encontrava numa pequena mesinha ao lado da cadeira. Abriu o tambor, checou a munição, girou o cilindro, e retornou com ele a posição original. Era tudo parte de uma encenação. A raposa velha fazia o jogo do: “É bom que esse cabra saiba: quem manda aqui sou eu!”, sem precisar dizer, exatamente. Ditava sua lei com gestos comedidamente ensaiados. “-Só tenho a dizer ao senhor delegado que deixe minha neta em paz. Não a quero de namoro com um soldado de polícia.” E sem dar a menor oportunidade de seu interlocutor falar palavra, tratou de mandar o mesmo jagunço voltar com o homem da lei até o seu posto.

Pra continuar os estudos, Maria Auxiliadora, teve que deixar a vila. Não ficou mais de seis meses e partiu. Foi morar na casa de uma irmã mais velha, no mesmo sertão, distante da vila somente alguns quilômetros. O mundo rodopiou. A professora acabou casando com um primo chamado Valdemar, que era agricultor. Com quem teria dois filhos Raquel e Rubens. Vinte anos depois estavam separados. Valdemar foi embora pro Mato Grosso, com ele foi Rubens. Raquel ficou com a mãe.

Naquela tarde de verão Maria Auxiliadora recordava. A foto na mão. Estava no terraço da casa onde morava por tantos anos. A se consumir em recordações pensava nos filhos. Rubens escreveu-lhe: tinha ido embora do Mato Grosso, fora morar com um tio em São Paulo. Prestou concurso para a polícia e aguardava o resultado. Era quase desespero, a angústia lhe invadia naquele momento ao recordar que seu filho poderia se tornar na metrópole, repleta de violência, um policial. E ainda lhe repousava na consciência o estigma da rejeição. Soldado são pessoas tão descriminadas. Veio-lhe com vigor a lembrança de Leonardo.

A foto era numa praia. Ela estava de maiô listrado, com óculos escuros, e sorria, com frescor de dentes perfeitos. Ainda não escurecido pela nicotina de cigarro, que mais tarde aprenderia a fumar. Herança maldita de família, pela admiração que tinha pelos hábitos do avô. Na imagem aparecia com uma das mãos segurando um enorme chapéu de palha. Estava em pé, ao lado do ex-marido. Sério, talvez incomodado pelos trajes minúsculos a todos se expondo. Incomum a um homem rude, do campo feito ele tal situação. Valdemar segurava firme a cintura da ex-esposa. Os dois filhos pequenos sentados na areia sorriam felizes. A pele alva que tão poucas vezes haviam exposto ao sol, daquela forma quase ofuscava.

O relógio na parede da sala de janta, uma lua cheia, de números. Três da madrugada diziam as setas pretas. De costas pro quintal, sabia do pé de manga, lá traz, falando de escuro, e mangas de vez, esperando desfrute e vento. O chão uma pracinha cimentada. O terreno com seu considerável declive. De repente um baque surdo. Oh! Alguém saltara o muro, com certeza um ladrão! A porta buscada com aflição e angústia. A chave tinha que girar a chave! Alívio, conseguira trancar-se do malfeitor que passou correndo, no oitão da casa. Oh longa noite insone, de desespero. Medonha noite que não trazia o dia. Mas quando viesse, e com certeza viria, a frondosa mangueira a sorrir pro sol, amanheceria com menos algumas mangas na copa.

Fabio Campos


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