28 out

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SOMBRAS E LUZ (Ariana e Lamarck)

Ilustração (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)

Ilustração (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)

Esta história é de Ariana, a ela pertence. Interessante é que não a conheço, jamais a vi. Por acaso num banco da Praça Senador Enéas, esquecido, encontrei um caderno de estudante. Pelo motivo da capa um personagem feminino, percebi tratar-se de uma menina. Olhando envolta tentei descobrir porem das que estavam ali próximo – a despeito dum rapaz que ia – não havia alguém que parecesse ser a dona do espiral. Cleptomaníaco possui-o. Folheei-o rapidamente. Detive-me na contracapa havia ali uma mensagem manuscrita. Aliás, aproveito a oportunidade, Ariana, para pedir-lhe desculpa – não tive como não ler – o esmero, aquela caligrafia.

“Lamarck, Eu preciso te dizer o quanto te amo, o quanto você é importante para mim. Hoje acordei cedo. Você sabe, sempre acordo tarde. Hoje, porém fiz diferente. Enquanto minha mãe e meu irmão ainda dormiam, na pontinha dos pés, fui até a cozinha. Abri a porta dos fundos e ganhei o quintal. O dia vinha amanhecendo… Meu Deus como é lindo ver o dia amanhecer! E pensar tantas manhãs como aquela, que eu já perdi. Enquanto simplesmente dormia. E perdia de ver momento tão maravilhoso! Aquele sol com seu brilho, invadindo pouco a pouco todos os espaços! Espalhando sua luz e seu calor sobre toda criatura. Fazendo sorrir as plantinhas do chão, verdinha com suas flores coloridas. Pintadas com capricho pelas mãos do maior dos pintores, o nosso Pai, Deus do céu o Criador! E ver os passarinhos cantando sobrevoando os telhados, subindo além do imenso azul do céu. Lembrei de nós quando estamos na praça, também brincamos e cantamos. Os adultos dizem que nós os jovens, não pensamos em nada, e tudo que mais queremos é mudar o mundo, o que não é verdade. Sabemos que o mundo nos espera, e o que pode, e tem a nos oferecer. Jamais nos iludimos de que tudo é “um mar de rosas” ou que “tudo são flores”. Sobre as flores, e os animais que habitam o mar, você mesmo, tem ideias revolucionárias, o curso de Biologia lhe proporcionou muitas e novas descobertas. Tens consciência do que dizes em tuas teorias, que pode serem rejeitadas, jamais aceitas pela maioria. Eu porem faço minhas as palavras de Lavoisier, àquele que o nosso professor de filosofia falou: “Posso não concordar com tudo que dizes, porem defenderei até o fim o direito de dizeres.” Quando estamos juntos trocamos carícias, nos beijamos e fazemos juras de amor um pra o outro. E dizemos que nada, nem ninguém será capaz de acabar um amor tão intenso, tão real, tão sincero, como esse que sentimos um pelo outro.Te amo muito meu amor!”

A mensagem tomava toda às costas da capa. Não era porem ali, que acabavam as confidências da jovem Ariana. Folheando um pouco mais, e adiante, depois de muitos escritos de escola, encontrei outras coisas de si. Dizia que havia sido muito traumático, saber que a mãe estava doente. “Doeu muito em mim, descobrir que minha mãinha tinha câncer. Ela estava com um câncer de mama. Sempre que chegava do trabalho, cansada, reclamava de dores embaixo do braço. Eu falava que achava aquilo normal, afinal a ocupação de serviçal, por ela exercida no Tribunal de Justiça. O dia inteiro a passar o pano, naquelas imensas salas. Bem que poderia ser a causa. Lembro ainda hoje, do dia da consulta médica. Eu fui com ela. Depois de vários exames minuciosos, a médica fez-lhe uma série de perguntas. Desde quando sentia aquelas dores? Perguntou que idade tinha. Em que dias do mês menstruava. Notei-lhe bastante envergonhada por estar relatando tanto de sua vida íntima, não por conta da médica, mas da minha presença, sua filha. Foi prescrita uma bateria de exames, entre elas, a tão falada ressonância magnética que muito elucidaria. Pra acabar de vez a dúvida a tal biópsia, e com ela a confirmação do diagnóstico: células tumorosas na mama esquerda, em adiantado estado de formação. Foi-nos explicado que era um tumor não benigno, em estágio avançado. Era caso pra extração cirúrgica seguida de tratamento quimioterápico. O tratamento começou no outro dia. E veio a parte mais cruel, para qualquer mulher. Ver que estava perdendo os cabelos. Minha mãe ficou completamente careca. Chorávamos nós duas abraçadas, eu tinha que ser forte, mas não conseguia. Eu olhava pra minha mãezinha querida. E só em lembrar do quanto era ela uma mulher vaidosa, que tanto se valorizava e tinha um astral lá em cima. Gostava tanto de viver! Ia aos bailes e festinhas, com as amigas e amigos, colegas de trabalho. E levantava a auto-estima de todos, onde chegava. Meu Deus, são os mistérios da vida. Ela e meu pai, haviam se separado quando eu tinha só nove anos, e meu irmão era um bebê.

Lamarck não tivera melhor sorte. Sendo sua amada órfã de pai vivo, com ele ocorrera o contrário, era órfão de mãe morta. Mais ainda traumático a forma como a teria perdido. Foi assim: Seu pai, Estevão da Paz, filho de família ilustre de sua terra natal, Santana do Ipanema, fora um rapaz boêmio dado as farras na juventude. Namorou e casou cedo com Maria Anália, tirando a jovem da casa dos seus pais, ainda quando estudava o curso normal. Só depois de casada, com sacrifício foi que se formou professora. Contra a vontade do marido ciumento, não queria que ela estudasse. Ao completar vinte anos de idade Estevão Paz, por influência política de sua família ingressaria, na Polícia de Alagoas. Como oficial chegou a major, destacou muitos anos no interior. Foi delegado em vários municípios. Aponto de ficar famoso por promover a paz nas localidades onde passava. Tranquilidade muitas vezes conseguida com o derramamento de sangue. já próximo de ir pra reserva, foi morar na capital do estado. No quartel tornou-se músico da banda da polícia Militar de Alagoas. Numa vez que a banda foi se apresentar numa cidade do litoral norte do estado. Por ocasião da inauguração de uma usina de cana-de-açúcar, um rapaz embriagado teria dirigido um galanteio a sua esposa que se encontrava no local. O major acabaria se envolvendo numa briga com esse homem. Sacou sua arma e na tentativa de acertar o galanteador, acabou atingindo sua própria esposa com um tiro no pescoço. Senhora Anália morreu a caminho do hospital. Lamarck era só um menino quando isso aconteceu. Porem jamais perdoaria seu pai por isso.

Interessante como era vida, aquele menino ficou incrédulo das coisas de Deus. Passou a acreditar puramente nas ciências. Nas teorias, nas leis criadas pelos homens. Assim era Lamarck estudante de biologia queria provar uma tese que um seu xará o biólogo francês Jean Lamarck defendia desde o século dezoito. Por méritos próprios conseguiu uma bolsa de estudos, para aprofundar sua teoria numa universidade francesa, em Bazentin-le-Petit cidade onde nascera o grande biólogo Jean-Baptiste Pierre Antonie de Monet, “Chavallier” de Lamarck “Filho mais novo, duma prole de onze irmãos. Seu era barão francês da infantaria, o que incentivou-o a entrar pro exército quando tinha vinte e quatro anos. Abandonou a carreira militar para dedicar-se a medicina e a botânica. Aos trinta e quatro anos de idade publicou três volumes do livro “Flora Francesa”. Obra que lhe valeu a nomeação para o cargo de botânico do herbário real de França pelo então imperador Napoleão Bonaparte. Professor de zoologia do museu de História do Museu de História Natural de Paris.” A biografia do mestre constava do seu trabalho.

Lamarck em sua pequena história de vida, sempre encontrara desafios pela frente. Sentado naquele banco da praça teve que decidir sua vida. Ir embora pra França e concluir sua tese sobre a Evolução dos seres vivos, ou ficar em Santana do Ipanema. Casar-se. Concluírem os dois, o curso de Biologia na universidade do Sertão. E conformar-se com o destino de sertanejo a si reservado. Ser professor, escrever, livros, compor poesias. Fazer filhos com Ariana. Dar aulas numa escola pública. Levar seus alunos pra visitarem sítios arqueológicos, rios intermitentes do vale da caatinga e reservas florestais. Com um grito talvez pudesse me ouvir. E devolver-lhe-ia então o caderno – esquecido num banco de praça – de sua amada Ariana.

Fabio Campos

14 out

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SEM ANA ( Para sempre…)

Terça-feira

Havia uma menina, tinha os olhos grandes. Olhos que vasculhavam o mundo como quem precisava urgentemente descobrir coisas. Conhecer pessoas, de certa forma interessante. Sem essa de medir olhar. Isso pra ela, era como emprestar pro mundo palmo e meio de atenção. E não eram os outros, (fosse quem fosse) o que de mais importante existia na face da terra. Academia só a partir das terças-feiras. As coisas que precisavam deixar de serem feitas eram as que mais lhes interessavam. E ficava assim, a ouvir música, enquanto olhava, e roia as unhas.

Quarta-feira

Ana teve um sonho. Sonhou que estava num lugar onde as pessoas tinham os rostos voltados pra trás. E ela só conseguia ver-lhes a nuca. Quem havia roubado os rostos das pessoas? Nesse sonho sua mãe morria (provavelmente às três horas da tarde) num dia de quarta-feira. Por isso não tinha limões na geladeira, que eram comprados na tolda de Seu Alípio, bem próximo ao Mercado de Carne. Desse modo não podia fazer limonada. Mesmo morta sua mãe lhe sorria. O mais incrível disso tudo é que ela mesma não via nada de anormal em nada daquilo. A mãe mortinha da silva e ela nem aí, nem se quer chorava! O caixão teria sido colocado no cais do porto, por quatro homens de terno preto e cartola, que ficavam parados por alguns instantes, mas logo iam embora. Um barco com marinheiros viria buscá-la. Num dia de chuva, mas só chovia no cais, lá no horizonte havia sol. Os homens do mar tinham boinas na cabeça, camisas brancas com listras pretas. Eram galegos fortes, de braços hercúleos e longas costeletas. Sorriam e acenavam pra Ana, enquanto se iam com sua mãe.

Quinta-feira

Ana ficou com Carlos Antonio. Eles sequer namoravam. Eram apenas bons amigos, e vizinhos. A casa onde moravam ficava afastada do povoado. Ao voltarem da escola já era noite, desceram do ônibus (nenhum irmão de Ana teria ido à escola naquela noite) tinham que andar ainda um quinhentos metros até chegarem as suas casas. Ao passar próximo ao campinho, sem saber por que pararam. Ficaram um de frente pro outro, daí começaram a se beijar. E despiram-se, e fizeram amor com frenesi. Ana passou a quinta-feira toda dormindo. Uma da tarde, e continuava deitada, trancada no quarto, tentando entender porque fizera aquilo. Arrependida? Talvez, porem não dava o braço a torcer. Vá lá entender, quem sabe fez só pra se mostrar pra amigas. Ou a dizer pra si mesma que não era careta. Quantas vezes na roda de conversas, ela mesma vira as amigas ralhar outras meninas, só porque sabiam que eram virgens. Tantos mitos criados, tantos tabus caíram por terra. E as coisas que nunca tivera com quem tirar dúvidas se dissiparam. Delas que dizia que na primeira vez doía muito. Que a mãe iria descobrir, e que pra isso bastava olhar fixamente nos olhos, ou descobriria simplesmente ao vê-la andar.

Sexta-feira

Camila sua melhor amiga, contou uma mentira ao namorado, o que fez com que Ana e Carlos acabassem brigando. O fuxico seria especulação sobre uma ter ouvido da outra, que aquela primeira estaria apenas ficando com ele, mas gostar mesmo não gostava. Mas (todo mundo sabe como é) amiga é amiga, estão sempre ali pronta para nos amparar, a dar um ombro pra apoio na hora da dor. Deram as duas, de faltar às aulas, preferindo ir a praça encontrar-se com os meninos. Afinal era sexta-feira. Ana emprestou pra Camila uma calça jeans, e uma blusa lilás de alça que tanto gostava. Pra que pudessem ir a uma festa de vaquejada, escondido das mães. Um dos meninos levaria as duas na garupa duma moto. Não precisava nem dizer que não fora uma boa ideia. Num certo trecho da estrada de barro, o desequilíbrio e a queda. Os vapores de álcool a mais, fizeram o garoto acelerar, a por mais adrenalina na ação. O resultado foi muitas escoriações nos braços, nas pernas. Um corte profundo na testa de Ana. Um braço quebrado de Camila. Carlinhos ficou com dois dentes a menos no sorriso que já era torto.

Sábado

Lucimara a mãe de Ana era uma mulher bonita. Mulher pra um artista deitar os olhos sobre seu corpo, e desejar. Desejar ardentemente pintá-la, em um nu artístico. Êxtase de ateliê, pincéis e telas. Aturdido a buscar a cor daquele corpo. Lânguido corpo, moreno, cujas auréolas dos seios intumescidos de encher de arrepios. Sobre o cetim encarnado do divã. A taça de cristal, o cacho de uvas, o champanhe. A moldura cor de ouro, envernizada pra destacar ainda mais aquela pele morena. Os cílios, os olhos enchendo-se de lágrimas mornas. As coxas roliças a se roçarem liberando cheiro de fêmea. Inebriou-se o artista, tomado de volúpia e furor, a fazer sexo consigo mesmo. Os cabelos negros, a púbis febril. Aquela boca carnuda, de alvos dentes perfeitos, (encerrava) um sorriso de Mona Lisa. Doce Lucimara, por três longos anos estivera casada, agora viúva. Alcoólatra e diabético, se fora o pai de Ana dar trabalho a São Pedro. E a mãe, teve que criar a filha sozinha. Tão bom quando era apenas uma bebezinha! Angustiava-se agora, ao ver a rebeldia da menina, pouco a pouco se embrenhando por um caminho quase sem volta. Difícil, pra ambas. Seria falha de sua parte? Questionava-se. Estaria faltando diálogo entre elas? O trabalho na loja de cosmético, até os sábados, a venda de confecções porta a porta, nos finais de semana. Um fosso do tamanho de um coração fendido, incrivelmente pulsando a separar mãe e filha.

Domingo,

Em que, ou o que pensa uma menina de quinze anos? Ora, dizia consigo mesmo: “-No meu tempo, ninguém parava pra pensar nisso não. Acordava-se cedo pra lida no campo. Numa casa onde vivia com dez irmãos. Num total de treze ao todo. As tarefas da casa eram divididas. A ela Lucimara, cabia a lavagem de roupa nuns dias, o feitio de comida na cozinha noutros. Assim varava a semana. O pai era rígido nunca deixando irem a uma festa, a não ser em casos muito especiais. Um batizado, ou um casamento, de um membro da família. A bruteza da vida campesina, no entanto, jamais lhes tiraria a feminilidade. Ingênuas mulheres na ida pra roça. Com alegria, pareciam crianças a brincar de roda no terreiro de casa. Sem nunca se darem conta que o mundo um dia se lhes apresentariam homens perversos, maus intencionados. Tanto quanto (iguais e) diferentes de seu pai e irmãos. E que um dia ainda elas sentiriam saudade daquela vida monótona. Vida de viver. Despretensiosa, simplesmente vida. De colher umbu no pé, de ir a casa dos tios e primos aos domingos. De andar a cavalo. E ter que se virar sozinha ao menstruar pela primeira vez, e ficar com vergonha de dizer a mãe e as irmãs. No entanto era fácil descobrir, porque ficaria o dia inteiro se preciso fosse sem sair do quarto. Vergonha dos irmãos e do pai, que passariam a encará-la como um bicho estranho. Apesar de não se sentir, não mais menina, seria agora tratada como uma moça.

Segunda-feira

Para alguns o melhor, para outros o pior, dia da semana. Às vezes quando nos falta o que fazer passamos a ouvir a nós mesmo, ou (quem sabe) outros nós mesmos. O espelho é cruel. No reflexo, todo mundo é outra pessoa. Na frente dele se pode ser tudo, menos nós mesmos. A menina penteava-se. De dentro da boca fechada uma música, querendo vir de lá da infância, (cantava) “-Uuuummm.” Fez uma franja. Trouxe todo o cabelo de lá trás pro colo, e pôs-se a alisar. Enquanto olhava bem lentamente pra cada linha de seu rosto, pros seus traços. Quem seria aquela estranha? Batom vermelho nos lábios beijou a superfície polida. Escreveu algumas palavras. Deitada na cama. Havia uma menina, de olhos grandes. Não mais vasculhavam o mundo como quem precisava urgentemente descobrir coisas. Vítreos, opacos, sem vida a fitarem o teto aqueles olhos. Braços estendidos. Duas imensas nódoas vermelhas de sangue vertidas dos pulsos. As coisas que precisavam deixar de serem feitas, infelizmente se fizeram.

Fabio Campos

07 out

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RAQUEL

De repente lá estava a vila. Dois cordões de casas, separados por um tapete de paralelos de pedras. Mosaicados de sol sempiterno. Esteira bruta, de mãos cascudas brotada. A lápis cinzel e marreta assimetricamente escrevinhada. Como cri-cri de grilos contumazes, no aço e no granito forjado. Tudo, tudo, escrito a suor e sangue de um povo bravio, forte, campesino. Sendo deles mesmos aquela história. Apesar da noite, dava pra ver tudo, tudo mesmo. Casas, e almas viventes. Estrada de barro, carro de boi. Gradiente de um tenor ofuscado de luz. Corda, couro, chocalho. Cocão cantador, idílio de cachorro doido.

O ônibus devagar foi chegando, parando ao lado do portão da Escola. Abraçando com a luz amarelada de seus faróis os que lá estavam. Estudantes, fardados, mambembes, brincalhões avançavam. Mochila às costas, guerrilheiros indo pra uma batalha que travavam contra eles mesmos, dali a pouco. Sempre haveria de ter a serra. A dizer prefiro que se esqueçam de mim, esqueçam que existo, cuidem das suas vidas (impossível imaginar a vila sem ela!). Cuidem das vidas das criaturas que Deus pôs no mundo. A muito, desde a criação. E tanto já se havia passado que o leito do riacho secou. Ninguém jamais iria pra um lugar tão desolador apenas pra admirar o por do sol. Da progenia de Adão rebelados. Da filogenia de Caim expulsos do paraíso. Expurgados da presença do Senhor. Indo parar ali eis por que se haviam. Vagaram vagabundos, pelo mundo.

Quando Raquel nasceu dona mãezinha, a parteira tomou-se de espanto ao ver aquele pingo de gente do cabelinho cor de ouro. Alvinha! De pele da cor do leite que sugava do peito da mãe uma cabocla mestiça. No seio daquela família já cinco irmãs a esperava: Leopoldina, Isabel, Antonieta, Joaquina, e Tereza Cristina. Um pai chamado Pedro, uma mãe Maria Francisca. Desde pequena demonstrara ser uma criatura diferente. Com seis meses já queria dizer palavras, e engatinhava a casa toda. Agarrando-se nas coisas firmava-se em pé, raramente chorava se levava tombos por mais contundente fosse. A avó Amélia, por parte de mãe, também vivia naquela casa, e dizia: “-Você já prestaram atenção? Que essa menina olha por baixo?” Pra velha senhora aquilo tinha um significado não lá muito bom. Pessoas que serravam os olhos, e endureciam o sobrolho pra olhar. Pra ela, essas pessoas tinham encosto o que não era bom. Raquel passou mais de dois anos pra ser batizada. Seu Benedito do Óleo, um velho benzedor, cansou de dar conselhos a comadre Francisca pra batizá-la, o quanto antes. Porque um atraso de vida era a casa que abrigava um pagão. As coisas (quando davam certo) vinham com muita dificuldade. Menino pagão adoecia com facilidade medonha. Tinha os peitos abertos. E as espinhelas caíam de palmo em palmo. Não adiantava reza, galho de arruda, banho com Samba Caitá, sal grosso, alfazema. Profetizava: “-Que Deus a livre! Se passar um vento cai de moléstia incurável, morre cedo.” (-Pagão não vai pro céu!) O que aconteceu com o único varão nascido de dona Francisca devia ter servido de exemplo.

Foi assim, dona Francisca achou de ir uma novena no Sítio Vertedouro lá pras banda de Fazenda Nova. O bucho já estava pela boca. E dona Chica bebeu pinga, muito vinho de jurubeba, fumou cigarro branco. Na euforia, dançou e dançou. Deu de sentir uns desejos. Desejou comer xin-xim de galinha, barro de louça e o fruto do mandacaru. Pedro teve que ir fachear o fruto caatinga noite à dentro. Encontrou uma caninana que não tinha mais tamanho, devorando um cururu. Levou uma carreira duma raposa choca. Ralou-se todinho numa touceira de facheiro. Pra completar quando rumaram pelo caminho de casa, um fogo corredor lá na várzea do baixio foi botá-lo no terreiro de casa. A lua cheia ia pelas alturas e dona Francisca fez uma coisa que não devia. Apontou pra lua. Era coisa que todos sabiam mulheres grávidas não podiam apontar pra lua cheia! Se nascesse vivo, o menino corria o risco de ter seis dedos nas mãos ou nos pés. Além do que sinha Chica havia pendurado a chave de casa no pescoço, outra coisa que jamais devia ter feito, o menino fatalmente nasceria com o lábio fendido, até uma das narinas. Não deu outra, a criança, um menino nasceu de sete meses. O cordão umbilical preso ao pescoço selou seu destino. Pedro nem chegou a vê-lo foi enterrado pelos padrinhos na cova da família do pai. O último a ser enterrado lá havia sido dona Genoveva, a mãe de Pedro. As crianças que acompanharam o cortejo jogaram flores e terra até cobrir o pequeno caixão. Criam que os anjos de Deus vendo que por mãos de inocentes fora enterrado viriam buscá-lo. Levariam pro lugar onde tinha um campo verde, uma relva baixa, onde podia deitar e sonhar e brincar, debaixo dum céu azul da cor do caixãozinho. Ali ficaria até o dia do julgamento.

Raquel era uma menina diferente, mesmo crescendo-lhes os peitos e adquirindo pêlos no púbis continuava tomando banho apenas de calcinha, junto com suas irmãs no riacho assoreado que lhes cobriam apenas as coxas. Os meninos danavam-se a espiar, de longe se masturbavam amoitados. Dos fundos da casa de Raquel dava pra ver o cemitério, lá a margem da estrada invadindo o prado, parecia uma manada de Nelore pastando. O muro baixo branquinho! Branquinho! Quando as coisas dentro de casa ficavam muito pesadas, brigas entre seus pais, agressões verbais e físicas. Então ia até lá. A desfrutar do silêncio, dos malmequeres, das andorinhas, beija-flores e pardais. Cruzes e flores caladas, datadas e nomeadas tristemente mal pintadas, catacumbas e covas cuscuz. Punha-se a observar as formigas que excursionavam sobre o túmulo da vó Genoveva. Tinha em conta que (a terra já tivesse consumido o corpo dela) Fabiano seu irmãozinho que não vingara, estaria debaixo do chão, correndo dentro de túneis brincando com os ossos de vó Genoveva. Quando se deu conta o dia tinha ido embora. Resolveu voltar, vez em quando olhando pra trás, como que dando adeus ao irmãozinho. Naquela noite foi pra escola muito triste. Sem vontade de assistir as aulas. No banheiro feminino encontrou Rita de Cássia. Rita percebeu que ela chorava. Perguntou-lhe o que tinha. Disse que estava triste, era seu aniversário e ninguém na sua casa se lembrou da data. De repente Raquel segurou a amiga pelo rosto e beijou-lhe na boca. Ar de espanto a menina desvencilhou-se ao tempo que limpava a boca com as costas da mão. Pediu desculpas, pôs-se de cócoras e chorou.

Uma viatura do Pelotão de choque na porta da sua casa, ao retornar da escola. As luzes vermelhas piscando sob o teto. Tingiam de sangue as paredes das fachadas das casinhas acanhadas, a luz rodava e rodava, transformando a rua num baile macabro e mudo. A qual não fora convidada, ficou de longe olhando. Um turbilhão de sentimentos a invadir-lhe. Sisudo o pai surgiu na porta, os pulsos unidos por uma algema. Abrindo caminho entre os curiosos, foi conduzido ao camburão por um policial. Humilhante ver o pai naquela situação. Queria que fosse um pesadelo do qual pudesse acordar a qualquer momento. Não era.

Pedro fora preso porque uns assaltantes de banco, pego pela polícia o denunciaram, pela venda de armas pra o crime. Enquanto via seu pai sendo conduzido até a viatura, tantas coisas vieram a mente. Pensou que teriam sido as brigas com sua mãe. Quiçá denunciaram-no pelo consumo e venda de drogas, ele fumava maconha. Ou uma de suas irmãs, pelos abusos sexuais? Até então só não havia tentado a ela, talvez a respeitasse. Perdera a conta das vezes que fora dormir com uma faca debaixo do travesseiro. Ai dele se inventasse de importuná-la.

Raquel resolveu ir embora. O ônibus escolar se afastando do povoado, se ia, levando uma garota com uma mochila cheia de sonhos, o fone no ouvido a impedia de ouvir o adeus de Fabiano na porta do cemitério. Seu destino: Maceió, morar na casa duma tia no Canaã. O ônibus avançando na poeira, deixando pra trás uma mãe, cinco irmãs, uma escola, uma serra, um riacho. Se lançasse um último olhar, veria uma menina de cabelos loiros segurando uma boneca, acenando da porta de casa.

Fabio Campos

17 set

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O SINAL E A SANTA CRUZ (Terceira Parte)

Enéas perdeu o emprego. Ficou somente alguns dias mais. Não suportando Seu Domício desabafou: “-Ô homem desligado da vida, meu Deus.” Tudo que se mandava fazer. Quando fazia, ou fazia pela metade, ou não fazia. E a resposta era sempre: “-Eu me esqueci…” Maura esperta, ofereceu-se e acabou ganhando a vaga do primo. Ativa, dedicada. Interessava-lhe aprender as coisas. O mundo vivia disso, de desenhar, moldar, modelar pessoas. 

A rua brincava de azul, de um céu do mesmo tom de antes de ontem. Sonolentas, se aquecendo ao sol as casas iam se acordando. Pouco a pouco se dissipando o frio orvalho da madrugada. Enquanto os atores do dia a dia, como se saindo da condição de imagens congeladas, pra situação de filme, como de cinema mudo. Passando cada um, pra seus velhos afazeres. Se encontrando sempre, com os mesmos. Seu Ermínio já abrira a farmácia, Cazuzinha seu assistente, vestido numa bata branca, varria a calçada. Solícito a cumprimentar dona Ismênia que passava com as filhas Isabela e Isadora. As meninas iam pra casa de dona Carmem, pra aulas de flauta doce e canto. As atenções todas convergiam pra um ponto da cidade, o comércio. Donde emanavam todas as ações e reações. A torre da igreja um lápis de cor laranja gigante desenhando um sol amarelo gelado. Os meninos no passeio, tão carentes de cores. Feito homens feitos, como que esquecidos de serem meninos. Zezé e Tião com um carro de mão, de porta em porta, a vender macaxeira. As sextas-feiras além do tubérculo, peixe. O caminhãozinho de pau, o pião, a pipa, enquanto isso dormia dentro do baú, na gaveta da cômoda, embaixo da cama, sem pressa aguardariam o chegar da tarde pra irem à forra. Zé de Paulo morava no Pedrão, fazia rosário de coco de Ouricuri pra vender no meio da feira. Meio dia quando a fome apertasse, tiraria um tostão do bolso, ia a tolda de Seu Antonio da Garapa comprar pão e suco de anilina. As estripulias do Mateu, a fazer com que sorrisse um sorriso azul de pão doce. Rosa de Zefinha fazia cocada e tapioca, vendia na porta de casa. O pano branquinho de dar gosto bordado com duas flores vermelhas cobria a boca do pote. Donde repousava um copo de estanho verde. 

Osvalinda era amiga das duas moças que moravam na penúltima casa da Rua Nova. Amigas de irem pra igreja todos os domingos. A ponto de despertar a curiosidade por parte das mais velhas: “-Amância vamos botar cuidado nessas meninas.” Osvalinda irmã de Petronilia que todos chamavam de “Lia”. E dizia a amiga: “-Minha mãe acha você tão bonita.” Seu Tibúrcio barbeiro, pai de Osvalinda e Alcantina, dividia um salão com Seu Thomaz Doroteu. Manoel Porcino trabalhava no Serviço público, na inspeção sanitária. Antes somente na capital do país Rio de Janeiro, e em São Paulo existia. Getúlio Vargas presidia a nação do Brasil. Sendo um homem de visão, ampliou o setor de saúde pública estendeu pelo país inteiro. As inovadoras descobertas dos médicos sanitaristas, Osvaldo Cruz e Carlos Chagas precisavam chegar aos mais longínquos sertões. O combate a malária no norte, a varíola no sudeste. A doença do “barbeiro” campeava nas humildes casas de taipa no meio da caatinga. A picada fatídica do inseto a ceifar vidas de tantos bravios sertanejos. Missão árdua do agente de saúde, a tentar conter o avanço da doença, tendo que ir de casa em casa. Mal entendido por uns, enxotado, ou recebidos com porta na cara e ameaças de morte por outros. A exercerem fielmente seu serviço, se submetiam a humilhações. A ganharem apelidos, servindo de chacota até em marchinha de carnaval.

“A Carrocinha pegou três “Barbeiros” de uma vez/Se ouvir a tal Buzina/ Corre, corre a três por três/Traz um Balde e a Creolina / “Barbeiro” virou freguês/ do homem da Carrocinha”

Alcantina irmã de Osvalinda tinha o carinhoso apelido de “Tinô”. Berenice amiga de Alcantina era apelidada de “Caçula”, e Deolinda, amiga das duas, tinha apelido de “Lia”. “Florzinha”, filha de dona Faustina dona do “Armarinho das Flores” chamava-se Tercília, tão metida a rica, mal pisava no chão. E por isso não era amiga de ninguém. Ao cair da tarde as amigas se encontravam na casa de Luzinha, irmã de Julieta, escutavam rádio, conversavam sobre os moços que trabalhavam no comércio e na usina. Se iam a igreja, davam de olhar com desdém a roupa uma das outras. E os cochichos comiam soltam. Teve uma vez que Berenice foi só o padre sair do altar, com os corinhas pisando no seu rastro, dirigiu uns impropérios a moça do coral. Coisa de mundiça, gente invejosa. Nem uma reação da parte ofendida. Rostos pasmados de surpresa. Guardou o choro pra casa. Consolava-se a ouvir sua mãe dona Amância: “-Minha filha, Quem tem vergonha não faz vergonha aos outros.” E os insultos nunca revidados, continuariam noutra ocasião, a moça do coral indo à casa de dona “Santinha” costureira, a provar o vestido do casamento precisou passar na janela de “Caçula”. E teve que ouvir.

“Nêga do cabelo duro qual é o pente que te penteia/ Qual é o pente que te penteia/Qual é o pente que te penteia (Ondulado e permanente/ Teu cabelo é de sereia/ Misampli a ferro e fogo/ Não desmancha nem na areia)”

“Os Anjos do Inferno” haviam criado aquela marchinha pro carnaval, daquele frívolo fevereiro de 1939, amplamente tocada nas rádios. Satirizavam sendo opositores aos “Diabos do Céu”, do qual Pixinguinha fazia parte. A moça descobriu o segredo de uma vizinha, a mãe de uma, sua amiga traia o marido, justo com o cunhado. Os elogios desmedidos, intencionais para conquistá-la, e com isso conseguir seu silêncio. Pobre mulher, não sabia o mal que praticava contra si mesma. Havia um sinal para que o encontro amoroso, pudesse se concretizar sem perigo. Encima das estacas próximas da cancela dos fundos, que dava acesso a casa, havia uma porção de potes de barro emborcados. O combinado era se caso um dos potes não estivesse numa determinada estaca, o acesso, ao pé de pano estava garantido. Os encontros ocorriam à plena luz do dia. Da janela da cozinha de casa a moça percebeu tudo isso. Era carnaval, o rádio tocava outra marchinha:

“A Paraíba já não é tão boa/ Até Recife anda tão à toa/ O João Duarte ali residente/Matou o presidente, nosso João Pessoa”

Antonio Tenório era amigo de Seu Canuto, que era esposo de dona Adélia, que era mãe de “Santinha” que na verdade se chamava Maria Rita. Eram comerciantes, dos mais ricos da vila. O primeiro sobrado do comércio pertencia a eles. Noutra esquina da mesma rua tinha a loja de Maria Serafina, esposa do senhor Tercílio Firmo, amigo de Seu Alípio, ou seria o contrário? Dizia minha vó que eles vieram de Pernambuco, começaram com a venda de café e bolo, aos mangaieiros, no meio da feira. “-Benza-os Deus! Como prosperaram.” Luzinha, Terezinha e Julieta, três irmãs, também pernambucanas, costuravam pra fora. Vizinhas que eram da casa da mãe da moça do coral, que sabia dos encontros dos amantes, e do sinal. De lá, a mulher percebera que eram vistos doutro quintal.

Seu Antonio e Seu Canuto se encontraram na casa de Sebastiana que por encomenda, torrava café. Conversaram bastante. Conversa vai e conversa vem. Deram de falar sobre o sonho e o suposto, porem não concretizado, atentado contra sua vida. Seu Canuto aconselhou o amigo ir até a Bahia. E procurasse um homem sabido pelo nome de Zé da Cruz. Seria a pessoa certa pra decifrar o sonho que tivera no dia que Manoel morreu no velório. Ia o dia declinando sobre o cheiro de café torrado. Se despediram os amigos: “-Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!” “-Para sempre seja louvado!”

Fabio Campos

01 set

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O Sinal e A Cruz (Parte 2)

Serra do Gavião, um colosso de lombo verde, sempre que agosto. A casa de Seu Antonio Tenório ficava no resvalo, do sopé. Ao bem da verdade, a casa, não passava de um ponto insignificante, diante daquele esplendor de cena. Um céu ameaçador, profuso, de nuvens carregadas. Angustiosamente carente de luz. E raramente, talvez, inimagináveis fios de relampejo rasgassem o tudo, que se lhe cobria de cinzento. Cá de baixo, facilmente assustaria qualquer menino. A imaginar ferocíssimo lobo gigante. Cuja cabeça estaria voltada pro poente. A qualquer momento poderia injetar horrendo par de olhos fosforescentes naquela direção. Enquanto de sua boca aberta, viscosa baba a verter dos caninos.

Telhas coloniais de barro vermelho cozido. O pouco de musgo que havia, a dizer que tão velho não seria o casarão. Quatro caídas d’água de alpendres guarnecida. Sapata alta, faltando pouco pra igualar-se em altura, a um homem mediano. A área coberta tinha parapeito de cobongós ornado de trepadeiras, acessível por espaçosos degraus. As paredes entremeadas de janelas e caqueiras ora fixas, ora suspensas. Bancos, cadeiras de vime, de rendinha e cipó entrançado. A dar-se a convite ao descanso, a uma rede de renda do Ceará. Peças do arreio de um cavalo sobejavam nos armadores, e pelos cantos. No terreiro um coqueiral rodeava todo alpendre. O terreiro forrado com imensas folhas maduras, e frutos púrpura de um pé de Castanhola. A raiz, feito jibóia emergira do solo, a não mais ameaçar a fundação da construção. O lado leste da casa era virado pra serra. Ali, era o lugar de pensar, de Seu Antonio. Já ia quase uma semana que o homem, não se arredava de lá. Só saindo dali pra fazer as refeições e recolher-se, quando o gigantesco lobo verde se cobria com um manto negro. Dando a perceber-se somente pelo contraste com o esfumaçamento do céu, pinicado de estrelas se oferecia. Não tirava o olho de lá da serra, o velho Antonio. Como que em transe hipinótica, ou como se de lá subitamente fosse sair a resposta pra sua inquietação: -Quem estaria interessado em matá-lo? De vez em quando abria um pequeno baú de umburana envernizada, com uma trinca dourada. Todo trabalhado, em pedras semi-preciosas. Donde tirava, empunhava. Mirava e atirava a ermo, com um revólver Taurus, calibre38.

Seu Domício convidou Enéas pra trabalhar no balcão, da loja de tecido, na Rua do Comércio. Logo no primeiro dia, foi encarregado de levar uma compra feita por Seu Antonio, que nunca mais aparecera. Depois do que passara o homem mal saía de casa. Evitava expor-se desnecessariamente. Aos domingos ia igreja. Tinha fé em Deus que por mais perverso fosse o assassino, talvez não fosse capaz, de atentar contra um homem dentro do templo santo. A serra, naquela tarde ganhou outro admirador. Agora dois a contemplá-la. Macambúzio Enéas disse, mais consigo mesmo que para o amigo: “-O sinal do apocalipse está aí, pra todo mundo ver. Não adianta a gente querer se enganar. Ainda semana passada, a rua ficou sabendo que o negro Bento, que morava no Sítio Caititu, amanheceu injuriado. Tomou vários litros de cachaça. Deu uma surra na mulher. Estuprou a filha de doze anos. Dum tiro de “soca tempero” matou o cavalo. Tacou fogo num silo de milho. Foi até um pé de jaqueira que tinha detrás de casa, e se enforcou. Tudo que fazia, aos gritos ia repetindo: “-Estou cumprindo minha promessa! Está satisfeito?” Seu Antonio continuava pensativo. Revirava e remoia o passado, tentando encontrar onde tinha deixado um inimigo, capaz de quer vê-lo morto.

E outros e mais outros acontecimentos do povo da vila contou Enéas amigo. Duma briga, que envolvera Chico de Ernesto e Júlia Honorato. Chico era metido a seresteiro. Sempre em alto estado de embriaguez, não parava de cantar. Tinha verdadeira devoção por uma das modas de Francisco Alves e Horácio Campos, “A Voz do Violão” que dizia: “Não queiras meu amor saber da mágoa/que sinto quando a relembrar-te estou/ atestam-te os meus olhos rasos d’água/ no espinho de tão negra solidão/ a dor que a tua ausência me causou/ porém nesse abandono interminável/ eu tenho um companheiro inseparável/ na voz do meu plangente violão.”

O porquê da briga, foi assim, vinha ele cantando no meio da feira. Parou diante de Júlia “Bêba” que além de alcoólatra, era muda e surda. Nada ouvia, porém entendia muito bem os sinais do povo. E percebeu que todos riam. Estavam rindo dela, e era por causa daquele bêbado idiota gesticulando em sua direção. Não deu outra, tacou o maior sopapo nas fuças do ébrio metido a cantor. A briga só terminaria na prisão. Contou duma burra que se assustou com um enxame de abelha que ia passando partiu em disparada derrubou um monte de bancas dos mascates. Cuminho, tempero e colorau, foram parar dentro da saca de farinha. Gás óleo, e creolina derramou-se nos atavios, candeeiros de pavios, cangalhas de capim, chapéus de couro cru e chocalhos tudo perdido.

Não podiam deixar de falar do assassinato do governador João Pessoa à poucos dias ocorrido. A triste notícia Enéas ouviu no rádio de Seu Domício, lá na loja. Jamais esqueceria com que palavras o locutor, da Rádio Cruzeiro S/A: “O senhor presidente da Parahyba que chegou hoje a capital de Pernambuco. Em plena confeitaria Glória, a rua Nova foi assassinado pelo senhor João Duarte Dantas seu desaffecto, e chefe político de Teixeira, Estado da Parahyba. Seu corpo fora embalsamado no Recife e transportado para a capital paraibana de trem. Aguardado por uma multidão, o corpo chegou ao meio-dia do dia 28 de julho. Ficou exposto à visitação pública na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, até o dia 01 de agosto. Dali foi transportado ao Porto de Cabedelo para ser sepultado no Rio de Janeiro.” De repente um estouros como tiros, Seu Antonio instintivamente sacou o revólver. Os estouros vinha de muito longe. Deram-se conta que era meio-dia, eram fogos de artifícios nos céus da vila. Foguetes em louvor da novena de Nossa Senhora Assunção.

Mergulhando no vasto lago do tempo, Seu Antonio foi esbarrar em Águas Belas, a época que ainda rapaz. 30 anos voltados no profundo poço do rei Chronos, rei tempo. Afoito e destemido sempre fora. Perdera a conta das inúmeras brigas e contendas as quais se envolvera junto à peãozada. Pobre que fora no passado, ia pras frentes de serviço de plantio das lavouras de feijão, milho, algodão dos senhores donatários. Nas limpas de lotes de palma, de ricos fazendeiros da região ribeirinha. No corpo ainda guardava cicatrizes, facadas. Também furou bucho dum monte de negro, e tirou sangue de outro tantos arruaceiros. Nos festejos de fim de semana, nos forrós, nas peladas de futebol de várzea. A maioria, brigas banais, motivadas por embriaguez. Lembrou-se de uma, que poderia considerar um caso mais sério. Era o mês de dezembro, na Fazenda São José. Comemorava-se a festa de Nossa Senhora Conceição Aparecida. Havia uma moça, muito bonita que atendia pelo nome de Divina Engracia, trabalhava na cozinha da casa grande do coronel Pedrosa, irmão do capitão Bezerra, um dos que buscava com sua volante, acabar com Lampião e sua raça.

Engracia se engraçou pelo jovem Antonio, que lhe correspondeu o amor. Desse relacionamento, nasceu-lhes um filho. Porem Antonio só viria saber dezesseis anos depois. O rapaz a par dessas informações foi ao encontro do pai, mas não foi aceito, Antonio, então casado, não reconheceu aquela paternidade. A mãe do rapaz teve muito desgosto, portadora de moléstia séria, morreu. 30 anos agora separavam aquele, dos dias da novena. Antonio continuava olhando pra serra. A noite vinha chegando, por um momento a montanha pareceu dotar-se de ameaçador par de olhos de lobo. Pasmados os homens viram Rasgar a cortina negra da noite um terrível uivo.

Fabio Campos

11 ago

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O SINAL E A SANTA CRUZ (Parte I)

A porta que dava pro terreiro dos fundos se abriu. Lá dentro tudo escuro. Pondo ainda mais luto na viuvez, de marido vivo, de minha vó, que olhava a luz do mundo. E de tanto olhar, viu mais um dia chegando. O primeiro, do mês de agosto. Sequer deu-lhe passagem, mesmo assim ele entrou. Gélida mão do tempo, penteara seu fino cabelo liso. Com tanta força e vontade o fizera que se tornaram brancos como as nuvens que estavam lá. Seus olhos, duas pedras de sal, de lágrimas que nunca caíram pelo seu rosto. E toda a verdade do dia, sem dó nem piedade viera lhe abraçar. Triste, tristemente frio. O terral fumou o caminho da roça. Fumou a serra, e a roça. Não dava pra ver, mas estava tudo lá. Sempre estariam. As nuvens escondiam tudo o que tinha nela, e pra além dela.

A casa da roça era de taipa. Cedo ainda o feijão ia pro fogo, a lenha. Meu avô dali a pouco iria pra barbearia. No gole de café de ver pela janela, a quebra do jejum. A filha primogênita sonolenta surgiu no umbral da porta do quarto. “Sua benção meu pai.” “Deus lhe abençoe.” “-É pra você ir pra roça. Catar algodão mais sua mãe. O tempo promete muita chuva! E se não for catado vai se perder.” Se amanhecia com neblina, era sinal de um dia muito quente, e era. Assim o sertanejo conseguia decifrar ao longo dos tempos, os sinais vindos dos céus. Tudo isso ia passando de geração a geração. E na hora oitava, da primeira metade do dia, se fez com muita luz e calor, abafado. Como se era esperado. Os capuchos de algodão saltavam do pé pro saco feito pipoca. E a moça dos olhos tristes de cristãos, sem costume da lida da roça acabaria adoecendo. Lá da infância voltou a asma, reação alérgica, a poeira vermelha da estrada, o cisco do mato seco. Com água quente de barreiro banhou o rosto, em fogo. Tinha muita sede mas não tinha coragem de beber. O sol ardendo na cabeça. A noite teve alucinações, sonhou com seu primo, que foi pra São Paulo, que um dia prometera vir buscá-la. E o enorme sapo que quase não a deixou passar na estrada, saltando entre as poças d’água, sem o beijo da quebra do desencanto, jamais se transformaria no seu príncipe encantado. Madrinha Moça ao pé da cama enxugava o suor da testa, da sua febre alta, dos delírios. E ouvia toda confidência duma alma cheia de ansiedade, medos, dúvidas. E a beberagem feita com fezes de porco, que era tida como remédio eficaz, a mãe não a obrigou beber. Também achou asqueroso, fétido! Moreninho farmacêutico quando chegou das bandas do Capim, recomendou quatro injeções, que só ia encontrar em Santana. Um motorista dum caminhão Ford que vinha somente dia de feira, dias depois traria a encomenda. Depois de três delas aplicadas, se sentiu curada, e acabaria não tomando a quarta.

Manoel nunca voltaria pra revê-la. As cartas cheirando a pó de arroz, amarradas com fitilho vermelho, traziam num cantinho escrito à nanquim, em esmeradas letras cursivas: “A você que tanto amo, com muito amor…”. De tão triste, e de tanto esperar, desbotaram, as cartas e o amor. E para sempre guardas ficariam numa lata de bombons Sonho de Valsa. O casal na embalagem indiferentes ao que acontecia dançava e dançava. Ao som do bandolim, cujas notas musicais se materializando iam trazendo um gosto cor de rosa. O primo “Casteado” acertou um dia de serviço pra fazer o serviço que a moça não conseguiu terminar. E sentado bem ali, naquele banco que tem o apelido de “Péla Porco” comeu cuscuz com leite, numa tigela de barro de louça que não tinha mais tamanho. Segurava pelo fundo com uma das suas enormes mãos, bem próxima do rosto, enquanto a colher vadiava noutra. Queria saber: “-Por que madrinha Amância botou luto, se padrinho Thomaz estava vivo?” Era uma promessa que tinha feito a “meu” padrinho Ciço Romão Batista. Outra pergunta: Queria saber qual era. Não contaria pra não perder de alcançar a graça. A moça sabia, a promessa era porque tinha receio de estar grávida. Uma gravidez que acabaria se confirmando, e ficaria morta de vergonha. Na idade que estava, grávida! Seria motivo de comentários, e isso era odioso. Nos próximos nove meses não mais sairia de casa pra rua. Seria de casa pra roça, assim mesmo de madrugada. Se a promessa não vingasse, a criança nasceria no finalzinho do mês abril, do ano vindouro.

A criança, uma menina, deu de vir ao mundo. Tanta foi a comoção, e a moça chorou quando viu pela primeira vez a irmãzinha. Aquele novelinho de gente, chorona que só! Os cabelinhos preto, a pele vermelha, ora todo mundo estava vendo, que ia ficar moreninha. E assim foi. Contava com sete anos mais ou menos estava a mesa, a tomar café com leite, num pires. A dar chupões no beiço da louça produzindo barulho característico. Ao tempo que fazia uma munganga, um requebro. De repente caiu de rosto no chão, um caco do pires quebrado provocou um corte enorme próximo ao supercílio direito, o que deixaria imensa cicatriz. Cresceu, esticou-se mais que a irmã, virou moça também. Metiam-se a cantar durante os afazeres doméstico, varrer a casa e forrar as camas o serviço de Maura. O mais pesado, o da cozinha, ficava com a irmã mais velha, que em vão reclamava. Filha caçula sempre fora o xodó dos pais. Um dia, participaria na encenação duma peça, na escola, no papel duma negra empregada. Tantos trejeitos criou pra personagem, a torná-la caricata por conta própria. Muitos risos arrancou duma platéia surpresa. Leônidas um rapazote metido a galanteador, pendeu as asas pra Maura. Os pais do moço, no entanto, não aprovaram o namoro nem bem começado. Temiam que desse em casório cedo. Cuidavam que devia estudar, se formar, trabalhar. Mandaram-no pra Cacimbinhas, pra casa duns parentes, como se fosse o fim do mundo, e era. Chegou Juvêncio vindo de Pão de Açúcar, conquistou o coração da morena, e a menina acabaria nos pés do altar, declarando fidelidade pro resto de sua vida aquele pedreiro, metido a pescador, fichado no Dnocs. Um dos que estava na turma que sentou as pedras de fundação da ponte General Tubino.

João Doroteu, irmão da minha vó, gostava de cantar em velórios. Quando alguém morria nas redondezas, ele era avisado e lá ia cantar no velório. Naquele tempo, velava-se um defunto com cantoria a noite todinha. Sendo os cantores acompanhados por tocadores com seus instrumentos musicais, sanfona, viola, até amanhecer o dia. Quando foi um dia, lá estava João Doroteu velando um morto. Às seis da manhã, o caixão saiu para o sepultamento. Naquele mesmo dia Seu João se encontrou com o compadre Antonio Tenório, no povoado Pilões, foi um encontro ao acaso, os dois conversavam e ele lhes dizia: “-Esta noite compadre, enquanto velava um defunto, eu tive uma visão: Um sinal. Dizia que num determinado local, bem adiante daqui, num lugar onde há uma Santa cruz na beira da estrada, dois homens estariam de tocaia, lhe preparando uma emboscada. De modo que o melhor que compadre faz é não viajar esta noite. Vamos pernoitar numa pousada que tem aqui, amanhã viajaremos, retornaremos por outro caminho” O compadre concordou.

Quando o dia amanheceu, Antonio Tenório acudiu a chamar o compadre pra viajarem. Achou estranho pois ele não se encontrava mais ali. Pensou, lá com ele mesmo: “-O compadre devia estar apressado, se adiantou.” E voltou sozinho pra casa. Mantendo o cuidado de não passar no local onde estaria a tocaia. Assim chegou ao destino, tendo retorno seguro. Qual não foi sua surpresa ao chegar a casa, e ficar sabendo que seu compadre João Doroteu. Naquela noite que ele jurava tê-lo encontrado, jamais fora ao povoado Pilões. Enquanto cantava Tivera um enfarto e morrera, na casa onde velava um defunto.

Fabio Campos

27 jul

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O TEREZÃO E A FESTA DE SANTANA

A história que a gente se inventa de contar, é história de um povo, de uma festa religiosa, numa cidade do sertão. Num tempo em que dez réis e vintém eram dinheiro. Tempo que ainda existia matuto de verdade. Daqueles que corria léguas só de ouvir o ronco dum carro pela primeira vez. O mês de julho vinha se encostando por ali, como quem não queria e querendo. Aí Santana e os santanenses se viravam noutros. Com afinco, suas ações voltadas todinhas pras festas da padroeira, Senhora Sant’Ana.

A cada ano, um mês juliano, novinho em folha se instalando, e o sertanejo com cara de bezerro que não largou a mama, se pondo a esbanjar alegria. Oferecido, o sertão assanhava suas asas por riba das coisas dos homens, em nuvens brincalhonas, ora inchadas de brancura, ora plúmbeas d’água de chover. Fazendo Senhora Caatinga vestir sua mais exuberante saia verde. Pintassilgado de vermelho o fruto do mandacaru, a saudar com solene reverência a avó de Jesus netinho! Ó povo sertanejo, sapientíssimo! De saber como, e de onde, tirar o máximo de proveito do que ela, a vida sempre estaria a lhes mostrar uma saída. Desconfiado por natureza, um olho no gato outro no peixe: um na roça outro no céu. Assim era o matuto. A volver em preces e pedidos, a avó amabilíssima que providenciasse o necessário pra que sua festa fosse aquela, a mais bonita.

O Largo em frente á igreja nesse tempo nem calçamento tinha. Pelas festas, o prefeito ordenava que colocassem carradas de piçarra no passeio, pra dar condição do povo andar sem se atolar na lama. O secretário de obras baixara portaria, estabelecendo que o trânsito de animais e carros de boi, no período dos festejos, ficaria limitado a Rua da intendência, pela Rua do Sebo, e a Rua da Cadeia Velha. O serviço de difusora da praça central, arribado num poste, a alegrar o rosto do dia. Silabando os avisos governamentais e sibilando aos ventos varonis, belas páginas musicais. Modas de Dalva de Oliveira e Carlos Galhardo. Sempre oferecidas por “alguém apaixonado” a “alguém que já sabia quem era”. Com a proximidade da noite, o palanque oficial amplamente ocupado pelas autoridades. Os discursos solenes engomados, em trajos sóbrios de linho riscado. Flor na lapela, sapato envernizado, chapéu de massa. No parapeito riquíssimo buquê de fitas de cetim, com as cores da bandeira do município. Homens novos, meninos velhos, A se espremerem, protegiam-se da garoa fina embaixo do coreto. A bandinha Santa Cecília nos degraus à porta da igreja. Ladeado de coroinhas portando lanternas dotadas de velas acesas, pendidas nos mastros seguia o cortejo. Pelo corredor central do interior da nave rumo ao altar mor. O coral alumiado pelas vestes e cânticos fulgurantes. Entre floreios de vozes, como se o tempo todo a dizer: “Óóóó!” E as bocas a tomar a forma daquela letra. Dali a pouco dar-se-ia início a mais uma novena em louvor, honra e glória da excelsa padroeira Senhora Sant’Ana.

Tudo ainda era como antigamente, nada tinha mudado. O altar belamente ornado. As imagens da padroeira e de São Joaquim adornadas. Efusiva profusão de flores coloridas e perfumadas entre luzes proeminentes em sibilante fulgor etéreo. Nuvens de incenso se expandido por entre os presentes. Emprestando diafaneidade ao ambiente, instigando narinas. Acólitos, seminaristas, sacristãos, diáconos. O pároco anfitrião, o sacerdote, o vigário, o bispo da arquidiocese, a mitra violeta apontando o alto, estola branca franjada de dourado. O báculo e o anel episcopal à destra. A assembléia de pé atenta, convivas. O sino no alto do campanário escrevendo agudas notas nas partituras celestes borradas de negro, pra muito além do frontispício. Os fogos pipocando, assustando escutas pueris, pardais e pardocas revoando dos ninhos das árvores do centro da cidade. Não era difícil decifrar o que dizia o calendário. Naqueles dias fogos estourariam sempre ao meio dia, e às seis horas da tarde. O banho do matuto na beira do açude de tardinha. O cheiro do sabão da terra, o afetado perfume de meio de feira a muito custo esconderia a inhaca da montaria. Enquanto a brilhantina luzidia no cabelo crespo. O café engolido as pressas. A roupa, especialmente encomendada pra aquela ocasião, voltaria manchada de picolé e banha de carne de galinha. Os sapatos novos criariam calos, o que obrigaria a tirar dos pés antes do fim da festa. O sono reparador debaixo da marquise da loja. E os pisantes novos, que seriam pagos em prestações que iam durar até o final do ano, ganhavam novos donos. O prazer de passear naqueles brinquedos rústicos de doer. Os corrupios, engenhoca que girava e girava, a embebedar gente nas cadeiras de balanços suspensas no ar. As barcas, puxadas por uma corda pelo próprio brincante, era mais desprendimento de força que diversão.

Mas o que era mesmo o “Terezão”? Tratava-se de um Cassimiro Coco, constituído de bonecos gigantes, que representavam os cangaceiros de Lampião. Enfim um rude teatro de bonecos. Matuto só ia ver se tivesse coragem! É preciso que se diga que o centro da cidade tomado pelo povo, nas noites de festa da padroeira, ficava dividido em três territórios distintos: Desde a frente da igreja matriz até o fim da Rua Tertuliano Nepomuceno circulava a pobreza, o matuto o povo da roça. Por conta disso se concentrava por ali, os brinquedos mais rústicos; da frente da igreja indo pro lado da Rua de São Pedro, até a entrada da Rua professor Enéas circulava o classe média, principalmente o santanense que morava e vivia em Santana; da esquina do sobrado do hotel de Maria Sabão subindo em direção a Avenida Coronel Lucena, até a bifurcação com a Rua Benedito Melo (antiga Rua Nova) ficavam a prosear a classe mais importante, o classe alta, os filhos de empresários e comerciantes. Em especial os que residiam e estudavam na capital do Estado e em Recife. E nessa área se concentravam os diversos jogos de azar, roletas do bicho, jogos de apostas nos dados era maioria em número de bancas.

Existia um matuto vendedor de inhame e macaxeira que atendia pelo nome de José Costa Cândido, mas que todos chamavam de Zé Cândio. Na última noite de festa uma segunda-feira, a boquinha da noite estava no carteado da Casa de Jogo de Zé Chagas, que ficava ao lado da Vidraçaria “A Triunfante” dos irmãos Carvalhos, um pouco a cima do Cine Alvorada. Consultou o cobrinho que restava no bolso, e viu que o apurado de sábado praticamente havia ficado todo ali. Restando-lhe três contos de réis. Saiu de lá acreditando que quando alguém entrava em uma casa de jogo, um tinhoso chamado Zé Pilintra se encostava no cabra, ou abria as portas da fortuna, ou dava as costas. Aquele fora um dia avessado. Desses que quando a gente acorda parece que pisou em rastro de corno. Ganhou a Rua dos Porcos, entrou no bordel de Dona “Madame Conceição” a cartomante. Ceiçinha pros íntimos. Os dois eram amigos,tiveram longa prosa.

Depois da conversa com a rameira Zé Cândio ficou mais animado. Pediu um litro de Ron e refrigerante. Dançou com a rapariga, bebeu, e bebeu. E mais alegre ainda ficou. As orelhas pegando fogo, os pés como se pisasse em rolimã, partiu pelo meio do povo. Quando chegou enfrente a barraca do Teresão, gritou: “- Zé Pilintra seu “fio” duma égua! Devolva meu dinheiro!” E sem mais nem menos resolveu invadir o teatro de bonecos. Em vão o porteiro tentou segurá-lo. Trôpego, sem dizer coisa com coisa, partiu o mangaieiro pra tentar tirar um punhal de madeira que um dos bonecos tinha na cintura. O povo que pagara pra assistir, sem entender patavina. Alguns riam pensando que a cena fazia parte do show. Dado ao intento de tirar o punhal do boneco gigante, disposto estava o cabra. Em vão os funcionários tentavam lhe conter. A polícia chegou. Finalmente nosso herói foi dominado. E o último dia de festa de Sant’Ana foi curtir sua ressaca, a ver o sol nascer quadrado, trancafiado no xilindró.

Fabio Campos

15 jul

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A USINA (Parte Três)

Desde o começo, era aquele um dia diferente. De feira nunca era um dia qualquer. As toldas plainavam suas panadas cirandantes trançando vias e ruelas. Vapores de calor se assoprando dum sol bonachão. Risonho sol, de fim de tarde. Bufava uma brisa amarela feno do leste. Esturrava indo esbarrar lá nos beiços do Panema. Redemoinho de gente matraqueava sobre o burburinho dos amantes, flagrados pelo próprio marido traído. Dados a um amor lascivo, tendo a relva macia por coiteira. A zoada dava a vender piaba ao litro, na porta do mercado da carne. A guarnição da polícia, parelha de soldado, assustados seguiram pelo caminho de pedras ladeira. Entre os curiosos, seguravam os revólveres nos coldres para não cair, davam a vasculhar. Como desejavam saber ao certo o que procuravam. O povo também procurava. Cornélio de arma branca empunhada o pioneiro na procurada. Zé de Matias e a amada amante nuzinhos em pêlos simplesmente haviam sumido.

‘’Nossa senhora do Desterro, desterrai o mal de minha vida. Ó Bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador do Mundo, Rainha do Céu e da Terra, advogada dos pecadores, auxiliadora dos cristãos, desterradora das indigências, das calamidades, dos inimigos corporais e espirituais, dos maus pensamentos, dos sonhos pavorosos, das ciladas, das pragas, dos desastres, bruxarias e maldições, dos malfeitores, assaltantes e assassinos.’’

Virados em vultos os amantes, tragados por Caapora. O deus protetor da mata branca abocanhou os amantes, toda a luz do sol, com todo seu calor. Enquanto seus mitológicos pulmões exalavam calor vulcânico em larva fluída por cima das pedras. Seu hálito sorrateiramente se precipitava sobre o céu do sol, feito vento tinto de preto, numa força tão intensa e violenta que não suportando, desmaiou o dia. E desde então ninguém via mais nada sem a ajuda dum luzeiro. A rua foi contar fuxico na madorna da porta. No enfado do dia engenhoso, novamente a diluir-se no oitão da usina de algodão de Seu Luiz dos Anjos. João Dorotheu, Enéas e Antonio Tenório, jogavam: o bispo, a torre e o cavalo. Nem um dos três avançava. Um jogo de palavras, travado. Num campo da sevícia lingual.

‘’Minha amada mãe, eu prostrado agora aos vossos pés, com piedosíssimas lágrimas, cheio de arrependimento das minhas pesadas culpas, por vosso intermédio imploro perdão a Deus infinitamente bom. Nossa senhora do Desterro, atendei o meu pedido!

(em silêncio faça o seu pedido) Rogai ao vosso Divino Filho Jesus, por minha família, para que ele desterre de nossa vida todos estes males, nos dê perdão de nossos pecados e nos enriqueça de sua divina graça e misericórdia.Nossa Senhora do Desterro, desterrai o mal da minha vida!’’

O Bispo disse; ‘’-Eu teve uma conversa com o demônio.’’ Ora mais que história mais sem pé nem cabeça! Enéas e Seu Antonio queriam saber como foi. Seu João estava disposto a contar, foi assim: “-Eu estava escutando o rádio. Toda noite tenho por costume escutar “A voz do Brasil”. Como sempre, “O Guarany” de Carlos Gomes abrindo o programa, a bela voz de Luiz Jatobá dizendo que em Brasília eram 19 horas, daí começou a falou do “Jango”. Disse que o presidente estaria criando a partir daquele mês o 13º salário, para o funcionário público. O governo dali em diante iria taxar os óleos lubrificantes vendidos por empresas estrangeiras e o governo outorgaria o monopólio da Petrobrás. Novamente falou da tragédia no Senado Federal a pouco ocorrido, onde o senador de Alagoas Arnon de Melo em plena tribuna teria sacado um revólver e deu três tiros noutro senador seu conterrâneo Silvestre Péricles, sem atingir o alvo. Porém um dos tiros acabou matando o senador José Kairala do Acre que infelizmente nada tinha a ver com a briga. Daí o rádio começou a chiar como se fosse sair do ar. E uma voz vinda das profundas do inferno soou dizendo: “-João! Eu sou o demônio, fique certo que eu vou soltar as pestes em cima de você! Tá pensando que eu não sei o que anda aprontando? Cabra de pêia safado!” “-Ora, compadre! Não passou pela sua cabeça que o cão estivesse dirigindo essas palavras ao presidente da República que também se chama João!

“Cobri-me com o vosso manto maternal e desterrai todos os males e maldições, e em especial atendei o meu pedido, que tanto necessito agora. Afugentai, ó Senhora, de minha casa a peste e os desassossegos.”

A “Torre” que até então permanecera calado, quebrando o silêncio disse ”-Se for pra contar história de trancoso é comigo mesmo. Conheci um jogador de baralho, que por sinal se chamava João. Certa ocasião passou três dias com três noites numa mesa de jogo. Estava ganhando um dinheiro avultado! Os outros jogadores começaram a desconfiar que estivessem sendo trapaceados. Então lá pro meio da terceira madrugada resolveram acuar meu compadre João! Um deles sacou um revólver, no que tentou disparar a arma engripou. Se aproveitando do tumulto o homem simplesmente sumiu. Invultou-se na frente de todo mundo! E só apareceu uma semana depois quando tudo já tinha se acalmado. Se apresentou na delegacia de Polícia de Santana do Ipanema, contou sua história pra Seu Caroula o delegado, e tudo ficou resolvido.’’

“Que por vossa intercessão, minha família e eu, possa obter de Deus a cura de todas as doenças, encontrar as portas do Céu abertas e convosco ser felizes por toda a eternidade. Amém. Nossa Senhora do Desterro, desterrai o mal de minha vida!’’

Seu Antonio Tenório tinha um belo alazão trotador. Tão belo animal simplesmente fantástico. Homem e montaria uma só criatura. Viviam como se fosse um, a extensão do outro. Sabia um, o que outro pensava. Sentimentos fundidos. A fama de ‘’Apolion’’ em pega de boi na caatinga ia longe. Sempre se sagrava vencedor. Uma coisa intrigava a todos; a longevidade do animal. Ora, era sabido que um cavalo vivia no máximo, por volta dos 30 anos de idade. Fazendo as contas “Apolion” deveria ter mais de 40 anos. Ora, essa nem de longe era a história mais escabrosa sobre o equino. Diziam que o cavalo era cego e quem o guiava era o próprio demônio.

“Ó Nossa Senhora do Desterro! Os que tiverem confiança nas vossas misericórdias serão felizes em seus negócios e viagens. Não morrerão sem a confissão e ficarão livres de uma morte repentina e traiçoeira.”

Certa vez ao retornar duma pega de boi no mato, Seu Antonio deparou-se com uma visão pavorosa no meio da caatinga. Plasmando-se do meio das trevas surgiu um cavalo de fogo montado pelo capeta que com muita fúria investiu contra eles. Antonio bradou alto, a Nossa Senhora do Desterro, que viesse em seu auxílio. Imediatamente uma ponta surgiu na testa de “Apolion” e um escapulário que Antonio trazia no pescoço virou-se numa armadura. Investiram contra o cavalo do cão, em cheio atingindo seu coração. O que provocou uma grande explosão. No outro dia encontraram Seu Antonio desmaiado enquanto o cavalo calmamente pastava ali perto, esperando que seu dono acordasse.

Fabio Campos

08 jul

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A USINA (Segunda Parte)

A rua todinha pintou-se de João de Barro na farda dos operários. O grená sacudia as saias das meninas num dançar e balançar, a volta da escola, rodeando a praça. Os pés de fícus no canteiro arremedavam enormes pirulitos brincando de verdes. A lacerdinha cintilou os amarelos daqui e dali, e foi até o fim da rua procurando um olho a arder. João Dorotheu permanecia sentado no oitão da usina de algodão de Seu Luiz dos Anjos. Enéas deu-se a lavra de alumiar o amigo sobre como Deus desinventou-se de obrar o mundo.

“No princípio Deus estava

Onde nada existia

Cobriam o abismo as trevas

Na terra disforme e vazia

E o espírito de Deus pairava

Sobre as águas profundas e frias”

“-Foi assim: Deus “tava” sozinho. Pois onde ele “tava” só existia ele mesmo. Bem “acentado” assim num canto. Assim quétinho, só assuntando. Aí pensou, pensou, e “dixe”: -Vou criar o mundo. Entônsse olhou pra cá, olhou pra lá, pra riba e pra baixo. E só via o nada. O nada é escuro, não sabe? Pois é, ele olhou, olhou… Então pegou com as mãos, um pouco desse breu. E começou a amassar. Amassou, amassou até formar uma bola. Eu acho que não levou mais que uma hora de relógio pra fazer isso. Os sete dias que se seguiram ele gastou justamente pra criar as outras coisas que tem em riba do mundo.”

“O espírito de Deus se erguia

Sobre a terra e seu futuro

E Deus disse: Faça-se a Luz

E a claridade surgia

As trevas foi pro o escuro

Deus fez a noite e o dia”

Quando dona Maroquita morreu, o padre teve que contratar três carpideiras pra chorarem no velório. Porque os parentes da finada já tinham morrido todos. As mucamas a detestavam, porque não gostava de preto, ainda mais pobre. Diziam as más línguas, bastava tocar num matuto, corria a lavar as mãos, como se pobreza fosse doença. Já o dinheiro que traziam pra doar a igreja… Ah! Esse sempre seria bem vindo. Nos dias de sábado, dia de feira livre, quando a casa do padre ficava cheia, dona Maroquita se trancava no quarto, e só saía de lá pra ir a cozinha vistoriar o feitio das refeições. Obrigava a criadagem a servi-la nos seus aposentos. Enxotava os que se atreviam a invadir a cozinha. No dia seguinte todos os forros das mesas, cortinas tinham que serem trocados. As velas acesas, até mesmo elas negavam-se a chorar por aquela ex-vivente, mal tremiam a pétala de luz. Acompanhavam quietas amornando as rezas. E os espíritos andantes, um a um, iam se acercando do féretro. Velariam até o fim, mesmo que viesse o sono nos que eram viventes que lhes faziam sentinela. Permaneceriam velando. Daquele jeito lembravam mães, ao lado do berço de seus filhinhos, embalando cantiga de ninar.

“Terceiro dia agora está

Deus juntou águas correntes

Chamou a isso de mar

Pois o elemento terra na frente

Nessa parte fez brotar

Pés de frutas e sementes”

“-Deus fez o mundo pros destros.” Disse sério Seu Antonio Tenório. Estava na feira, comprando abacate. No que foi pagar, o vendilhão saiu com essa: “-Não é por nada não Seu Antonio, mas o senhor me troque o dinheiro de mão!” Porque estava pagando com a esquerda. Lá na roça, já algum tempo havia tirado a limpo a história que plantar jogando a semente com a mão esquerda davam a nascerem pés de milho e feijão mais falhado. Quando ia fazer uma anotação no caderno de registro da fazenda, tinha que ter um cuidado danado pra não borrar tudo que escrevia, a tinta da caneta tinteiro demorava a secar. Ainda menino seu pai queria que ele aprendesse a tocar sanfona. Chegou a tocar viola, mas teve que trocar a posição das cordas. O velho Antonio quis ter um pé de abacate no terreiro de casa. Ensinaram-lhe que tinha que pedir a uma menina moça pra descaroçar o fruto. A semente teria que “dormir” encima do telhado num prato de estanho que não tivesse nenhuma trinca. Bem cedo tinha que retirar sem tocar, pegando com uma colher. E plantar ainda com o orvalho da manhã, dando as costas pra nascente. Tempos depois não entendia a ciência de que o abacateiro só botaria fruto se tivesse “olhando” pra outro pé.

E o sexto dia se fez

Deus fez seres exemplares

Criou na terra animais

Como tinha feito nos mares

Disse; Crescei e multiplicai

De acordo com seus pares

“-Zequinha Abreu dizia que Zé de Zefinha conversava mais que o homem da cobra.” “-Ora! Terezinha! Também não ficava muito pra trás.” “-Vai ver que quando eram criança beberam água de chocalho!” Toda vez que falava em homem da cobra, madrinha Moça lembrava-se dum dia quando estavam na roça. O terreiro tomado por montanhas de vagens de feijão pronto pras batas. O paiol e os alpendres tomado pelo milho, e os carros de bois abarrotados de sacas de algodão. Ô tempo bom meu Deus! Maria de Zé Lagoa, bem acolá, sentada num batente de umburana que servia pra empatar de entrar água da chuva pra dentro de casa. A mais de hora pitava um cachimbo, enchendo o entardecer de fumo. “-Entônsse ela “dixe” “mermo” assim: “-Vixe Maria! Mais é muito cobra!” Acontece que ninguém deu valor aquilo que acabara de dizer. E ela tornou a repetir; “-Minha gente! Mais é muita cobra!” Acabaria despertando a curiosidade dos compadres, que queriam saber do que estava falando. Então se descobriu que ela referia-se a pelo menos umas três jibóias que passeava pelo terreiro, atrás de pegar os franguinhos e as galinhas.

“Nesse dia fez Adão

Moldando barro do piso

Deu sua imagem e semelhança

Discernimento e juízo

Lhe deu alma e temperança

Lhe deu Eva era preciso

Neles pôs sua esperança

E lhes deu o Paraíso”

O açougueiro Zé de Matias mantinha um caso com a mulher do barbeiro. O fuxico corria a boca miúda. Muita gente sabia inclusive o irmão do dito cujo. No sertão o povo tem um dizer que “Corno sempre era o último a saber.” E assim, quando era dia de feira a mulher do Fígaro, se arrumava toda e ia pra rua. Passava na barbearia, Seu Cornélio dava o cobrinho “móde” fazer a feira. Depois ela ganhava o caminho do Mercado de Carne. Tapeava comprando uma fruta aqui, um legume ou outro ali. Na tarimba de Zé de Matias se demorava. Um piscar de olhos e estava marcado o encontro entre os amantes. O local combinado, o de sempre, lá no poço da pedra. Um lugar bem escondido entre as cachoeiras do rio. Acontece que naquele dia o irmão do galhudo tomou umas cachaças a mais, e deu com a língua nos dentes. De posse dum facão, provocando grande alarido, partiu Seu Cornélio rumo ao rio. O povaréu foi atrás. Chegando lá, encontraram feito Adão e Eva, os pombinhos. No meio da relva, junto a frutas e legumes. Bramindo o facão resolvido a expulsar os amantes do mundo dos viventes e daquele paraíso. Lá se foi o samurai do sertão, disposto a ensanguentar de mais vermelho, o sol, da terra do sol poente.

Ao concluir a Criação

Deus sua obra admirou

Viu que tudo era bom

E ao homem ordenou

Domine o que há na Terra

Nos mares, no ar na Serra

Do mundo seja o senhor

Esse era o Sétimo dia

Agora Tudo existia

E por fim Deus descansou

Fabio Campos

01 jul

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A USINA (Parte I)

Zefinha era prima de Valdemar, por parte de pai. Valdemar era irmão de Paulo, que era irmão de Manoel, que eram sobrinhos de João Doroteu. E eram primos de Casteado, por parte de mãe, que era sobrinho de Antonio Tenório, que tinha outro irmão, que não recordo o nome agora, mas que era casado com uma irmã de Osvalinda, que era casada com Seu Tibúrcio, que eram compadres de Enéas e Terezinha. E se a gente não der um basta nisso tudo, vai ficar falando somente de quem era parente de quem, e eticétera e coisa e tal. Mas isso tudo é só pra dizer que Zefinha casou com Paulo, e que na verdade eram primos, e tiveram dez filhos. Mas no falar do matuto, só “vingaram” seis. O que queria dizer que apenas seis deles sobreviveram.

Isso porque o matuto tem um jeito de dizer as coisas, que só eles entendem. E tem uns cabras que apesar de ser matuto, sabe cantar umas coisas bonitas por aí. Mas quem é que não acha bonito? Quando o peste diz que pro cabra nascer homem de verdade tem que nascer no sertão. A parteira “Mãe Dedé” quando aparava um cabra macho, não dizia “É menino!” dizia “É homem!” Isso pro cabra já ir se acostumando. E danava um sopro nas ventas pra desentupir o resto de parto. E mandava que o pai fosse enterrar o umbigo, na frente duma igreja ou duma escola: Que era “pra móde” aquele vivente se tornar um bom cristão ou quem sabe um doutor! Só não podia era deixar o gato comer, senão virava ladrão! E o matuto ficava era doidinho quando nascia um “bacurinho” macho! Pábo de orgulho! Assim que começou a gravidez do sexto filho de Zefinha, Paulo foi até a casa de Seu Esaú e pediu pra ele cevar, lá debaixo do alpendre na parte do lado do sul da casa, um cortiço, pra fazer um “Cachimbo”: Uma garrafada de aguardente de cana e mel de Uruçu. Recomendou a Ciço Mouco e Zé Torreiro que engordasse um porco. A dona Tereza, lá de Santana, que morava na Rua da Cadeia, pelo mascate Zé Costa, enviaria um bilhete dizendo que ajuntasse uns dez cágados, no dia aprazado ia pegar. Perus, guinés e galinhas, não precisaria encomendar. O ano todo, tinham no terreiro de casa. Porém tinha um detalhe: só compraria a quem criasse preso, porque galinha solta come merda, lacraia, barata, tudo quanto é porcaria! Tudo era providenciado com antecedência pro dia do batizado. Iria chamar Enéas e Terezinha pra serem padrinhos de vela. E o senhor doutor João Yoyô ilustríssimo juiz de Direito daquela comarca com sua digníssima esposa convidaria pra serem os padrinhos de apresentar! Com certeza não podia faltar o farmacêutico “doutor” Hermidio. Ô homem bom de gogó! Depois de beber umas, o homem cantava umas modas de viola que era uma beleza. “-Ô de casa!? Com licença! Já tô entrando… Ôxente! Cadê o povo dessa casa? Já sei foram tudo catar algodão! E deixaram o rádio ligado coitado, ficou aí cantando sozinho.

“Prepare seu coração para as coisas que eu vou contar

Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão

Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar

Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar

E a morte, o destino e tudo, a morte, o destino e tudo

Estava fora de lugar, eu vivo pra consertar”

Êita! Que ano cego era aquele! Valha-me Deus! A última cuia de farinha, Zefinha catou no fundo do bornal, pôs um pouco de sal, molhou com água, até virar uma papa, e deu pros meninos comerem. O mais novo já estava com três anos. Por sugestão do padre Bulhões botaram-lhe o nome de Sebastião, pois no dia do batizado, era dia daquele santo. E era tanta a desolação de “Tiãozinho” e seus irmãos naqueles dias, que nem tinham ânimo pra brincar. Coragem se quer pra correr pelo terreiro, catar uma vagem de algaroba, travar no dente e sentir seu rústico sabor adocicado. Zefinha fez um chá, e o cheiro de capim Santo tomou conta. Trançou um cigarro de palha, pôs-se a fumar. E se já se anuviava as vistas pelas águas dos olhos, a fraqueza, a fumaça azulina mais ainda anuviava. Num semi estado de dormência. E ia se enfiando no cabelo negro, Anum. A sensação efêmera de serotomia, desencadeada pela nicotina, fluindo sobre a pele morena, ressecada. A testa lavrada de temperança, as unhas enegrecidas de carências. Sendo a afetiva a maior delas. O cercado tremia – tristeza. O pé de serra tremia – solidão. A vela acesa, alumiando o quarto tremia – oração. Desmanchou o có-có do longo cabelo. Pôs-se a pentear-se. O cabelo solto lhe fazia um pouco mais nova. De vez em quando “bisóiava” o canto de parede. Passava “o rabo do olho” pras imagens de “meu” padrinho Cícero, e padrinho frei Damião. Padrinho com a cabecinha branquinha, assim meio abaixada. “-Enh! enh! Meu Deus! E não era que eles estavam tudinho ali! Bem no cantinho do primeiro vão da minha taperinha de taipa! O tempo todo!” De repente dum salto ficou de pé, foi até o quarto e voltou com um objeto envolto num pedaço de linho velho desbotado. Novamente sentou-se a porta para aproveitar o clarão do dia e pôs-se a desenrolar sobre as pernas o que tinha embaixo do pano.

“Maria Maria, é um dom, uma certa magia

Uma mulher que merece viver e amar Como outra qualquer do planeta.

Mas é preciso ter raça

É preciso ter gana sempre. Quem traz no corpo a marca Maria

mistura a dor e a alegria.”

Maria, a filha mais velha se atreveu a perguntar: “-Mãe? O que a senhora vai fazer com a usina?” José, o irmão do meio, olhou assim com olhar estranho, não disse nada, mas pensou: conhecia aquilo como sendo uma máquina. A graciosa “Vigorelli“ era uma máquina de costura manual, sem pedestal. Acoplada num pequeno caixote retangular de madeira servindo-lhe de tampo dum compartimento pra guardar atavios. A manivela tinha o cabo de marfim, o corpo da peça todo em preto, e as letras no lombo, ainda conservava um pouco do dourado. Zefinha ia enxugando os pingos de lágrimas que iam caindo sobre o compartimento de apoio. Fazia tantos anos comprara a Seu Zezé Fonte da usina de corda de caruá. O maquinário era bem parecido com aquele. Desenganou-se da promessa do senador, passou mais de ano pagando, fazia tempo, era dela. Seu Zé Doceiro fazia caldo de cana, moendo, moendo, de tanto esforço os braços ficaram fortes. Ele moía até o bagaço virar uma bucha seca. Aí, ele dava pra burra comer. “- Seu Zé Doceiro era um engenheiro.” Matuto era assim mesmo, tinha mania de botar nome de usina, em tudo que era engenhoca. “-Sendo Seu Zé Doceiro um usineiro. “Entônsse” Seu Leô cego? Aquele que ajeita relógio quebrado era um maquinista?”

“Meu Deus, meu Deus

Setembro passou Outubro e novembro

Já tamo em Dezembro Meu Deus que é de nós?

Meu Deus, meu Deus

Assim fala o pobre do seco Nordeste

Com medo da peste da fome feroz. Ai, ai, ai, ai”

João Dorotheu se estava. sentado no oitão da usina de algodão de Seu Luiz dos Anjos. Zefinha chegou montada numa burra, apeou quase esbarrando no meio-fio. Nos caçuás, algodão. Daí a pouco chegou Enéas. Um olhou pra cá, depois olhou pra lá. Os outros repetiram o gesto. Acenderam cigarro. O azulão do céu ganhou pelo menos mais três pares de olhos. “-Não sei não. Mas como foi que Deus se inventou de criar o mundo?” “Não sabe? Pois então eu vou lhe contar.” E soou um silvo longo, lúgubre apito da usina.

Fabio Campos