23 fev

0 Comments

BONECA DE TRAPO

Eliane estudou no grupo Escolar Padre Francisco Correia. Naquele tempo não passava duma menina, nascendo os peitos ainda. Até os treze anos a Rua de Zé Quirino, era tudo o que conhecia na vida. Seu único mundo. Aquela rua fora o ventre que lhe gerou, a puta que lhe pariu. Filha bastarda, de pai anônimo. Poderia, ser filha do açougueiro, do sapateiro, ou o dono da banca do jogo do bicho. Rua de Zé Quirino, sua casa, sua sala de estar, seu quarto, sua cozinha. As margens do Panema seu quintal. O rio, que tanto lhe deu por herança: pele morena, os olhos castanhos, os longos braços que nadaram, e nadaram aquelas águas. As pernas engrossariam a correr nas suas areias. A escalar as montanhas do Cristo redentor, e do Cruzeiro. A encher a roupa de carrapicho, as pernas de latanhos de rasga-beiço, calombos de urtiga. E os cílios, de tanto mergulho nas águas salobras, pareciam sempre molhados.

De lá do terno passado retornou, numa foto de primeira comunhão, na igreja Sagrada Família. Se havia colocado de pé, ao lado duma fila de meninos e meninas, vestidos de branco. Em segundo plano lá estava. Os garotos trajavam ternos, gravata borboleta e calças curtas, as meninas como freiras mirins. Segurava em cada mão, um catecismo e uma vela enlaçada por uma fita vermelha. Não sendo Eliane o foco principal do flagrante, no entanto, atraía para si a atenção, pelo traje esdrúxulo, uma ínfima blusa, uma mini saia, sandálias de salto. Havia um quê de ingenuidade em seu terno semblante. De criança que não conhecera ainda a maldade humana, não em todas as suas nuanças. Sequer se percebia descriminada pelos demais que ali se encontravam. Muito embora existisse um preconceito, não de todo velado. Jamais imaginava o que o destino lhe preparava. Para sempre a guardaria na mente.

Os filhos de família tradicionais santanenses juntavam-se aos filhos da pobreza da periferia. Nos eventos cívicos e religiosos se misturavam. Desde o velho grupo escolar, onde ocupavam as mesmas bancas, sentados lado a lado. Meninos discriminavam meninas como Eliane por serem pobres. Sem saberem que meninas como ela poderiam ser sua irmã. Somente muitos anos depois ficariam sabendo que seus pais muitas vezes deixavam suas mães em casa e, na calada da noite, ia pra periferia deitar-se com pobres mulheres. E estas se submeteriam aos caprichos sexuais e teria filhas, como Eliane. Com aquelas mulheres teriam filhas, e não trariam o nome do pai na certidão de nascimento. Talvez um dia quando fosse dormir, sonhasse com um pai a pedir a benção, um pai que lhe levasse a passear na festa de Senhora Sant’Ana, e que se lembrasse do dia do seu aniversário. As semelhanças físicas com os filhos legítimos as denunciariam. E viriam as brincadeiras maldosas, as comparações. No grupo escolar, as diferenças quase se anulavam. Quase, não fosse os apelidos, de ”cabelo pichaim”, “boca de caçapa”, “Maria mulambo” que os meninos punham, em meninas como Eliane.

Estávamos no primeiro ano da década de setenta. O sertão enfrentava uma de suas piores secas. Pelas estradas que acessavam as cidades do interior nordestino, levas de retirantes. Deixavam pra trás dias de amargura, a ameaça de morrer à míngua. Preferível partir a ter as tripas puxadas pelo carcará. Virar pasto de ave de rapina, feito suas últimas cabeças de gado assim vitimadas. Pra fugir da fome e da sede implacável, mulheres virariam lavadeiras, engomadeiras, empregadas domésticas, prostitutas. Os homens estivadores, almocreves, jagunços, exímios jogadores de carta. E construíam suas rústicas moradas na periferia das cidades. Caso contrário fazia “A Triste Partida”. Pro sul do país, pra construção de Itaipu, da ponte Rio-Niterói. Seu Ozéias da bodega, depois de ver a propaganda do governo na Revista “O Cruzeiro” foi bater no meio da floresta amazônica, trabalhar na construção da Santarém-Cuibá. A nação brasileira era comandada pelo chefe das agulhas negras General Emílio Garrastazu Médici, com mão de ferro governava. O “Garrafa Azul” perseguiu todo que se mostrasse contrário a sua forma de gerir os destinos do país. Deu um fim as guerrilhas no planalto central. Com uma recessão econômica tacanha pôs freios na inflação, o consumo que já era acanhado refreou. Poucos tinham poder aquisitivo. Só a classe mais abastada podia possuir geladeira e televisão.

A propaganda do governo chegava aos mais longínquos rincões. Até mesmo nos álbuns de figurinha, nas bancas de revistas, que as crianças compravam pra colecionar e colar. Figurões do alto escalão do governo, ministros Jarbas Passarinho, Mário Andreazza, Delfin Netto virados figurinhas que iam coladas, ao lado de cantores da jovem guarda, lutadores de teleket e comediantes. Livros, revistas, almanaques eram as maiores fontes de conhecimento, lazer e entretenimento. As bancas de revistas, cafés, lanchonetes eram pontos de encontro de jovens e intelectuais. Revistas com encartes, discos compactos, fitas k7, revistas com nus artísticos: playboy, Ele e Ela, tinham venda proibida pra menores de 18 anos, virava objeto de desejo dos meninos. Enciclopédias vendidas porta a porta, enalteciam o sesquicentenário da independência, eternizada na música de Miltinho. A Seleção Canarinha de Zagallo, virada mito, nos campos de Guadalajara. O narrador mexicano mais apaixonado por nossos craques que por seus patrícios. Lá fora ficávamos conhecidos como o país do futebol, do samba de Dorival Caymmi, das mulatas de Sargentelli, pintadas por Di Cavalcanti. Portinari retratou o sofrimento do retirante. Ter um fusca e um violão, era um sonho nacional. As mulheres imitavam os trajes e o cabelo de Jackeline Kennedy, O homem pisando na lua, Onassis o símbolo de riqueza. “Dona Flor e Seus Dois Maridos” da cidade de Salvador, da Bahia de todos os santos, de todos os pecados, de Jorge Amado. Leila Diniz quebrando tabus. Foi vendo e vivendo tudo isso que Eliane cresceu.

Cedo Eliane aprenderia que viver não era nada fácil. Cedo aprenderia que o mundo em que vivia, era um mundo cão. Via, sem ter direito a perguntar nada, homens de toda espécie, jogadores de baralho, boêmios, comerciantes, feirantes, entrarem na sua casa, e no dia seguinte irem embora. Homens que olhavam pra seu corpo de menina, com olhares de cobiça, de gulodices. Demorando-se propositadamente sobre seu sexo, peitos e bunda como se sevassem. Lá dentro do Panema, bolinada seria por um rapaz afoito pra quem deu ousadia. A primeira menstruação veio quando estava brincando de pega com outras meninas. Pensou que tivesse levado um corte. A mãe explicou-lhe “-Minha filha você agora é uma moça.” Por noites teve febre, delírios, pesadelo. Sonhou com um homem negro, muito gordo, vestido de paletó e gravata com chapéu de massa na cabeça, sapatos lustrosos, anel de ouro com pedra verde no dedo. Dizia que sua mãe tinha morrido a pegava no colo e a levava. Era noite, e iam entrar num carro preto que estava estacionado a porta. Dentro do carro o chofer lhe sorria um sorriso cínico, com um dente de ouro brilhando. E queria gritar por sua mãe, mas não conseguia.

Eliane decidiu que já era tempo de ir embora. A Rua de Zé Quirino ficara pequena, Santana do Ipanema não fazia mais, o menor sentido. Estudar pra quê? A sétima série já repetira duas vezes, cansada estava de estudos. Namorou um rapaz que tinha o apelido de “Bem-te-vi”. Com ele perdera a virgindade, também com ele provou maconha pela primeira. Afinal já fizera dezesseis anos. E com outra amiga foi morar em Maceió.

Na capital alagoana Eliane aprenderia muito mais. Se Santana do Ipanema descobrira o mundo cão. Maceió apresentou-lhe as delícias do inferno. Pouco a pouco foi se inteirando do poder que exercia sobre os homens. Poder de tirar do próprio corpo seu sustento. Decidiu que dele, e com ele, ganharia fama e fortuna. Investia parte dos ganhos em salões e academia. Em pouco tempo o que era belo, tornou-se extremo. Exuberância de seios, coxas e bunda colossal. Nada mais nela lembrava aquela cândida figura da fotografia. Queria tornar-se famosa, tanto que sua terra natal tivesse orgulho da filha ilustre. Pra isso precisava ser manchete. Mandou um aviso pra um jornalista duma emissora de tevê, dizendo que seria a primeira garota a fazer Top Less em praias Alagoanas. Hora, e local combinado. Noutra semana Eliane foi primeira página do jornal de maior circulação no estado. Passou a ser programa de celebridades, políticos e era vista frequentando festa de gente importante. Até um sambista carioca lá da Vila Isabel, de renome nacional, compôs uma música pra ela.

“Teka rendeira, Eliane praieira/ Vamos pra Paripueira/Vamos pra Paripueira/ Vai ter sururu/Vai ter sururu/E o maré fica na beira da Lagoa de Mundaú/ Da Lagoa de Mundaú/Da Lagoa de Mundaú.

Mas o tempo cruel, vertiginoso com seu prazer mórbido, de enterrar na areia movediça do destino os mais coloridos dos sonhos. E nossa boneca de trapo novamente voltaria a ser destaque nos jornais. Desta vez, na página policial. Nua sobre uma cama de quarto de motel Eliane. Morta com três tiros.

Fabio Campos 18 de Fevereiro de 2015

20 fev

0 Comments

AS FOLHAS QUANDO CAEM…

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Adalberto nunca tinha passado um carnaval daqueles. Na verdade nem sabia se aquilo poderia ser considerado um carnaval. A casa era só uma choupana no meio da caatinga. Duas caídas d’águas, um alpendre escorado por toscas estacas guarnecidas de ganchos. Ornados de cordas de caruá, amolecida de tanto trabalho duro. Num canto arreios duma montaria, um relho e um chapéu de couro de boi, tudo tão gasto, ensebado. Um balaio de vime, atarefado de palma, um facão de cabo preto embainhado um par de alpercatas Xô-boi. Dois homens Adalberto e Maurílio sentados num “Péla-porco”. Os pés cruzados embaixo do banco davam guarida pra um cachorro branco. Macerando verbo e fumo de rolo. Proseavam, os amigos. Coisas desinventadas por gente do mundo. Coisas que até Deus que é Deus duvidava.

De limo negro as telhas diziam tristeza. Uma bica esturricada de tempo dormia pros lados do oitão esperando chuva. E quando viesse, porque em fevereiro sempre vinham, choraria a desaguar num tonel. E havia um céu perfeito a flamular de azul, sublinhado dumas nuvenzinhas, brancas que só. Com o rei brincava de luz, não luz. Do terreiro até aonde as vistas quisessem ir tinha mundo pra ver. Tinha uma roça que não dizia nada. Com paciência de Jó, aguardaria os obreiros que não tardariam. Formigas formigando a epiderme da mãe terra, caravaneavam tudo que pudesse fornecer alimento no inverno. Pros recônditos porões escuros, morno, úmido e cheiroso ventre da mãe terra campeavam. Onde a cigarra laboriosa cantava angariando longínquos ouvidores. Mangangás nupciais cortejariam xim-xins, orquídeas e frutos dos mandacarus.

A conversa estava boa, mas era preciso dizer pra que estavam ali. Maurílio filho de Seu Claudomiro e dona Paulina, tinha nove irmãos, Claudomero, Teodorico, Teodebaldo, Teodeberto, Teodomiro, Dagoberto, Ferdemundo, Ferdinando e Betânia. Adalberto um caboclo bem afeiçoado vindo das bandas do Sítio Capim. Apareceu por ali, pra passar uma temporada de plantio de roça com os tios, conheceu Betânia e cinco anos já fazia que se casaram. No mesmo dia, na mesma igreja e com o mesmo padre casou também Maurílio, com Robevânia que acabou de entrar na história. E de quebra, era prima legítima do noivo. Todos, com exceção de Maurílio, foram embora pra São Paulo. No sertão o povo tem umas crenças que devem ser respeitada, isso porque fazem parte da natureza humana. Diziam os mais velhos, que casamentos de dois parentes no mesmo dia não era muito recomendado. Porque um, iria carrear pra si, todo tipo de sorte predestinada pro outro. No tempo que os amigos se casaram eram jovens e se quer se aperceberam disso. Foram pro mundo, e cada qual seguiu seu cada qual.

De dito popular, em dito popular vive o sertão. Tem um que diz que, Deus não dorme. Bem diz, não dorme. Não fala em cochilo. Pois acreditando que uma vez perdida, assim, quando alta vai a madrugada, e o povo está mais desocupado de aporrinhar com seus infinitos rosários de pedidos. O Criador deve pelo menos dar um cochilo. Pois justamente entre um desses benditos cochilos, é que Leviatã aproveita pra pintar os canecos. E se conselho fosse bom não se dava vendia, mesmo assim o amigo desconfie do que diz: “O diabo não é tudo o que pintam.” Pois acredite, é tudo o que pintam sim, e um bocado mais. Acontece que o tempo gastou mais três lustros das histórias dos dois amigos. Adalberto tornou-se empresário do transporte alternativo. Sua modesta frota cobria linhas rodoviárias em todo o sertão. Prosperou o filho do camponês, que no passado teve dias de amargura. Enchiam-se os olhos d’água salobra quando lembrava os primeiros anos de casado. Morava numa tapera, numa situação que era de cortar coração. As histórias sofridas das canções de Luiz Gonzaga e Teixeirinha eram luxo diante do que passou. Guardara de lembrança uma foto do tempo que era fichado nas Frentes de Emergência, do governo “da Coalização Arenista” Guilherme Gracindo Soares Palmeira, o bacharel em Direito redentor da pobreza. Os sertanejos como Adalberto, à época o tinha como um homem abençoado. O suporte que dera para que a Sudene implantasse aquele programa que mataria a fome de tantos. Na foto Adalberto ao lado de outros “cassácos” como eram apelidados, só couro e osso. Com fé em Deus aquilo seria coisa do passado. Hoje gozava de uma vida confortável. Em sua chácara na praia de Miaí era onde ultimamente passava os feriados prolongados com a família, inclusive os carnavais. Acontece que deu vontade de voltar as origens e por isso estava ali, ao lado do velho amigo Maurílio que jamais saíra do sítio Pau Ferro.

Maurílio desde que casara nunca saíra dali. Uma moradia digna pra si e sua família não conseguira na vida. Juntamente com os três filhos. Dois rapazes, uma moça e a esposa Robevânia, morava na mesma tapera que servia de abrigo pros seus velhos pais. Seus avós moravam distante dali algumas braças. Quando era a tardinha sempre ia ver vó Orminda e vô Juliano. Era um casarão antigo de portas e janelas enormes lembravam os tempos coloniais. O pé direito ia lá nas alturas. E o telhado de tão pesado rangia nos dias de ventania muito forte. Ao entrar no casarão se anunciava: “-Ô de casa?” E ouvia: “-Ô de fora! Quem vem lá, que venha de paz!” Dona Orminda na penumbra da cozinha ficava olhando seu neto Maurílio. Parado no umbral da porta principal. Abria o ferrolho bem devagar e vinha até onde ela estava. “–Sua benção vó!” E esticava o mãozão cascudo, de dedos nodosos de capinar roça e amansar boi brabo. “-E por que “meu fio”não mandou o homem entrar ‘tombem’?” “–Que homem vó? Vôte! Eu ando só…””-Não senhor tinha sim um homem ali por trás de “ôcê” inda’gora.”

Domingo de carnaval, e se ouvia ainda o canto da cigarrinha, dos bem-ti-vis rodeando a casa. Os acordes de Zé Pereira forjaram-se num chiado vindo duma boca de som de um antigo rádio, em frequências de ondas médias. Robevânia a pedido de Maurílio serviu vinho ao ilustre convidado afinal era carnaval. Um garrafão posto entre eles colocou animosidade ali. Copos tilintaram em brindes. Estalos de língua, alegria a muito não vista naquela morada chegou em sorrisos tintos. As teias de aranhas atravessadas pela luz de fretas coloriam em confetes e serpentinas. E o pó da poeira caindo dos caibros suspenso no ar diáfano. Uma coisa Adalberto observava a esposa do amigo, continuava a mesma. Sempre a admirara. Esmerada nos gestos. Parcimoniosa no proceder. Os longos cabelos negros, sedosos, compunham belamente seu rosto. O colo gracioso. Mesmo sabendo corpo proibido, desejava-a. No íntimo do seu coração a consumia. Maurílio, Adalberto e Robevânia ganharam o caminho do açude. A banhar-se do fogo das paixões que os consumiam. Soprando seu sopro de fazer cócegas nos ouvidos o Caboclo vermelhinho sorria. Seu sorriso cheio de dentes e baba viscosa, luxurienta.

“O profeta Natã diante do rei Davi contou-lhe a seguinte história: Dois homens, um rico e um pobre. O rico possuía muitas ovelhas, enquanto o pobre tinha apenas uma, que cuidava muito bem. Um viajante aproximou-sedo rico pedindo comida. O rico então pegou a ovelha do pobre. A única que aquele possuía, e tomando-a como se fosse sua a deu ao nômade. Enchendo-se de cólera o rei Davi esbravejou: “-Tão certo como meu Deus de Israel vive! O homem que praticou esta infâmia merece a morte! Deve ele pagar com a vida quatro vezes mais do que foi o sacrifício do cordeiro, pois praticou o que é mal aos olhos de Deus e sem o menor remorso!” Natã no entanto advertiu-o: “-É o senhor meu rei, este homem! Eis que o Senhor Deus de Israel me disse: “-Eu ungi você (Davi) rei de Israel, e o livrei das mãos de Saul. Eu o tornei mestre da casa e as esposas do mestre ficaram em seus braços. Eu dei a casa de Israel e Judá. E se isso tudo fosse pouco eu lhe daria muito mais. No entanto o que fez você? Sacrificou a Urias “o hitita” fez com que fosse ferido de morte, a fio de espada. E tomou a esposa dele como sua. Como castigo a espada jamais deixará tua morada.” Betsabá esposa de Urias banhava-se na varanda de sua casa. Do seu terraço Davi a viu, e a desejou em seu coração. Mandou chamá-la até ele, e deitaram-se em coito. Deste ato nasceu-lhes um filho. E sendo fruto do pecado viria a perecer como castigo.”

Adalberto uma pergunta mais faria a Maurílio. Queria saber se o amigo não tinha ambição de crescer na vida. Sair daquele fim de mundo, ir embora. Podia até deixar Robevânia por uns tempos, com os filhos. Ir aventurar-se no Sul do país, pedir um emprego a um irmão próspero empresário da construção. E aquele, por resposta Cantarolava baixinho uma música do rei das paradas que dizia: ”As folhas quando caem nascem outras no lugar…” Dois mais estavam ali, embora eles não viam. Natã que meneava a cabeça de desaprovação. Enquanto Leviatã largueava mais e mais o asqueroso sorriso, afirmativamente. Afinal era carnaval.

Fabio Campos

13 fev

0 Comments

TORPE!

“ (ó) que entorpece, embaraçado, acanhado; (ô) impudico; obsceno; sórdido, infame; ignóbil; nojento; sujo; manchado”

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Outra vez, lá estavam os dois juntos. Cezar e o mar. O mar e Cezar. Um diante do outro. A praia sempre bela. As ondas lânguidas esticavam-se, vindo beijar-lhe, o corpo estendido na areia. Beijava-lhe os pés, subia até o peito. A areia entranhando os cabelos. Por dentro do calção bolinando-lhe o sexo. Despudoradamente se amavam. Os braços do mar, libidinosos avançavam e recuavam. Carinho de amor mútuo, impudicamente correspondido. Lascivamente entregues um ao outro. Gostava daquele afago, e tanto lhe excitava. Retivera todas as delícias das vezes que estiveram juntos. Jamais esqueceria. Com ênfase nos dias de carnaval.

Dali da areia dava pra ouvir o som do frevo, indo pelas ruas da cidade. Os clarins, o frenesi dos tambores. Sopro torpe do deus Baco. Pelo vento tangido, alucinado. Decaído das asas de Ícaro, chegavam a si. E lhes vinham sob a forma de antigas marchinhas. Reberverando ao baterem ritmadas no coração das almas folionas. A acordá-las do entorpecido sono que dormiam sorridentes, a mais de ano. As troças surgiam nos becos, e logo por outros deles eram engolidas. Debaixo de um sol agastado de luz, os blocos a brincar de colorir as coisas. A tarde de carnaval tinha todo um poder, uma magia, de facilitar as coisas. Alegravam as pedras de pisar. Donde outrora negros estrangeiros umidificados de suor na pele retinta, luzidia de sol e sal, trazido do mar. Aquelas pedras tingiram-nas um dia com seu próprio sangue. E seus corpos fizeram sombras de mesma cor no chão na dança de capoeira. Tingiam-na agora, com vinho do porto, com vermelho de colorau, azul de anilina, branco de maisena derramado. E brilho de pó de mico.

Havia um quê de permissividade. Como se personagens de sonhos e fantasias sexuais de rapazes que quebraram o cabresto, se materializassem. Mulheres ébrias de amor se beijavam beijos com gosto de cerveja. Embriagados, homens e mulheres despudores aliviavam suas bexigas, sem dar-se a ocupação de esconder seus sexos das vistas dos passantes. Pegas de surpresas meninas pudicícias viravam os rostos de rubor pro lado do mar evitando a cena. A imensa faixa de areia virada em passarela, onde fantasiados banhistas desfilavam. Fantasmas de corpos esfuziantemente vivos. Mambembes, de gozos e gestos obscenos, se atiravam no mar como um amante se atira na cama na hora do amor. Ninfetas ingênuas ao mergulharem n’água inadvertidamente perdiam a parte de cima do biquíni. E corriam a cobrirem como podiam seus pequenos seios virginais. A parte de baixo da peça de banho, depois de molhada, tanta era a força de atração exercida pelo corpo, que se colava como uma outra pele. A ponto de suas vulvas intumescidas acabarem por se desenhar vivamente perante os ávidos olhos dos varões. E tão mal disfarçavam seus olhares, e os instintos de macho os denunciavam, pouco a pouco, inflamando os volumes de seus calções.

Ninguém acudisse que o sexo no carnaval, com ênfase na praia, ditava sua lei. Mulheres de corpos esculturais em sumaríssimos biquínis a untarem o corpo de óleo bronzeador. E era tanto esmero dedicado a este ato. Como se meticolosamente encenasse uma peça de teatro onde interpretavam personagens de si mesma, e eram tão carentes de amor. E não hesitaria em se masturbar publicamente só pra chamar atenção. As mentes masculinas precavidas – desejavam ardentemente que de fato tal intenção se realizasse – por trás dos óculos raybans, lançavam olhares lancinantes, vorazes devoradores. E reteriam na retina aquela magnífica cena para usá-la dali a pouco no banheiro. Haveria deles que ali mesmo, encobertos até o pescoço pelo mar, se dava ao luxo de produzirem simulacros daquelas vaginas com suas mãos. E as ninfas aceitavam passivamente o coito imaginário, contentando-se lascívias com as libertinas lambidas do sol. Aceitando, e adorando seu caliente carinho nos seios fartos, nas coxas eriçadas de pelos oxigenados, na bunda luzidia apalpada pela areia. Enquanto o montículo pubiano atacado pelo ínfimo taco de pano retinha forçosamente o cheiro de fêmea. A brisa brincante de areia nos cabelos sedosos e lisos. Uma língua vermelha, de lábios carnudos a devorar com sofreguidão um fálico e viril picolé cujo estado de coisa não dando pra agüentar mais tanta carícia escorria pela mão seu lambuzado gozo lácteo.

No ano passado também o carnaval havia sido ali naquela mesma praia. Vários casais amigos tinham vindo além de Cezar e Valdelice. Naquele ano, só Cezar mais ninguém. Pela saudade que sentia do mar ali estava. Também precisava dar um tempo no relacionamento desgastado. A doença de sua sogra estava atrapalhando o convívio.

Lembrou que ficaram todos na casa de dona Alcinéia e seu Oscar pescador, que moravam quase dentro do mar. A casa era pequena. Como se saída de um conto infantil, mas com jeito deu pra acomodar os quatro casais e duas crianças Elmo e Lavínia. E todos juravam que gostariam de morar ali para sempre. Recordou que ficaram no domingo à tarde vendo o por do sol. Que ocorria do lado oposto do mar, lá ia o rei, dando adeus à montanha, ao coqueiral, ao farol. Distantes um do outro apenas alguns metros estavam naquele mesmo lugar. A tarde inteira curtindo as ressacas de si, do mar. Nem perceberam que a noite chegara. Ali mesmo na praia, todos virados em negras silhuetas, fizeram amor.

Domingo de carnaval à noite. Sempre noite doidivana. Um palanque todo ano era montado no barranco do quebra-ondas. Bandas pra todos e gostos e ritmos desfilavam muito mais corpos, trejeitos, caras e bocas que música. Apenas som em altíssima frequência. Todo um terreno de terra batida toado pelo povo. Iluminado por gambiarras que ia refletir feito pingos de fogo dentro do mar, da cor de petróleo. Ainda alguns componentes de blocos resistiam de pé. Feito mambembes soldados escapes de uma batalha insana, que haviam lutado contra eles mesmos. Resistindo deseroicamente. Tudo o que meritoriamente alcançaram fora corpos extasiados, torpes. Zumbis exalando vapores de etil por todos os poros.

Domingo de carnaval à madrugada. Sempre madrugada doidivana. Pura extravagância, um esbaldar-se do ser. Como se todas as regras de vida e de mundo merecessem serem quebradas, descumpridas. Um dar-se ao direito de deleitar-se. A negação de tudo que se era. Direito a assumir-se a duplicidade de personalidade. Homens travestidos de mulheres. Alguns de tão perfeito disfarce pondo-se a passar perfeitamente por damas. Dando a pobres observadores sóbrios, o direito a dúvida. Ainda mais quando satisfazendo a desejos secretos, o ano inteiro adormecidos, beijavam-se na boca. Alegariam depois devaneios culpa da diamba ingerida, do pó consumido, do lança-perfume. Como num mundo surreal. Seres estranhamente levados por uma comoção frenética, psicodélica. Um manancial de ilusões, de arrojo e duma volubilidade tão fremente como suster um elefante por um fio de cabelo. Sobrando apenas o direito ao riso, ainda que falso, artificial sorriso de palhaço.

A chácara de doutor Luiz ficava no boqueirão, na croa da enseada. Elmo, tinha só treze anos naquele carnaval viera passar praia com os pais, ao cair da tarde foi olhar os cavalos na chácara. Saulo um negro enorme cuidava dos animais. A pedido arreou duas montarias e foram os dois cavalgar pela encosta, até quase noite andaram. O descendente de africano cuidou de dar banho nos cavalos. Despido a beira do grotão, o negro parecia o deus Priapo, com seu enorme pênis mesmo em estado de repouso. Elmo viu e ficou simplesmente estupefato. Pior não conseguia tirar os olhos de lá. Ao tempo que do seu íntimo vinha a curiosidade de saber que tamanho aquilo ficaria ereto. Parecendo adivinhar seus pensamentos Saulo ficou excitado, e a estrovenga criando vida própria, cresceu. Desejos nasceram no coração de ambos. O menino de pele alvinha, limpa, sedosa, como de uma moça. O negro não resistiu a tentação de seduzi-lo. Mas recebeu uma negativa. Prometeu que dar-lhe-ia um daqueles potros que tanto lhes fascinara. Depois de muitas tentativas o garoto cedeu, e o negro o possuiu. Fizeram amor avassalador. Arrependido do que fizera Elmo ameaçou dizer ao pai o que se sucedera entre eles. Saulo implorou pra ele não fazer aquilo pois tratava-se de uma tara, algo que não podia controlar. O menino concordou e os dois acabaram repetindo a dosagem. Saulo ainda faz amor com ele por mais outras vezes. Desta feita o mancebo o faria com prazer. E daí passou a cobrar do varão outras e mais outras vezes. Desfalecido Saulo se vê obrigado a dizer: -“Para, ou sou eu que direi a teu pai.”

Fabio Campos 03 de fevereiro de 2015

09 fev

0 Comments

MEDONHA NOITE

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Era assim um cair de tarde, e as nuvens do céu se inventavam de falar de tristeza. Para isso tinham que se livrar do sol, que só falava de vigor e luz. E tudo estava como que empesteado com uma alegria quase incontida. Então o trovão disse, estou. O relâmpago também, eis-me aqui. E veio a chuva. Assim uma chuva feia. Com seus pingos grossos, espaçados, previsivelmente inesperada. Intrometidamente apressada. Borrando a tarde, afugentando as cores das flores, dos pássaros. A dizer o que não mais era prioridade. Tirou os namorados do banco da praça. Fez o velho senhor improvisar o jornal como guarda-chuva. As crianças, somente elas gostaram daquela chuva. E da mesma forma que veio se foi.

A noite, desembestou-se cheirando a terra molhada. Ainda era cedo da tarde, mesmo assim chegou. Nem um pouco surpreendente mais cedo veio. A moça ficou no alpendre, e era parte desses acontecimentos. Não podia, nem devia ser apenas mera observadora. Fazia parte de tudo como protagonista duma história, que não tinha começo, nem meio, apenas fim. Os cílios molhados de lágrimas repousadas na foto que jazia na palma duma das mãos de seus longos dedos trêmulos. Mãos que a pouco esmerara no tocador seu longo cabelo. Enquanto seus olhos buscavam no espelho encontrar alguém tão estupidamente parecida com ela, porém não se sentia aquela, refletida lá. A boca semi-aberta os alvos incisivos mordiam o lábio inferior tornando-o túrgido, rubro. Uma palavra que teimava em não se materializar, cujas cordas vocais simplesmente se negavam concretizar, escondida no consciente, se fazia, ciente.

A brisa quente, esbaforida como bafejo de bovino. Veio vindo, carregando, como quem flutuava a alma morta da tarde. A tocar-lhe os lábios permitindo-se fundir-se com o seu hálito adocicado. Lembrava de Leonardo, com ardor. Do tempo do namoro, escondido porque seus pais de criação não consentiam. Leonardo era um soldado recém admitido na corporação. Não tinha um ano de farda, e fora designado para subdelegado da Vila Capim da Igrejinha. Administrada pelo intendente Firmino Fontes era, nomeado pelo então governador Major Luiz. E do alto de seu orgulho não aceitava que sua neta-afilhada namorasse um soldado de polícia. Pra ele, todo militar não prestava. Apesar de que precisava sempre dos seus préstimos: pra dar uma surra em cabra safado, pra dar fim a outro que andasse se metendo a besta. A falar de sua gestão, a ferro e fogo implantada. Debaixo daqueles bigodes até onde as vistas podiam alcançar, tudo que vivesse tinha que respeitá-lo.

Lembrou com muita veemência do dia que Leonardo conhecera coronel Firmino Fontes. Mais dois dias e faria uma semana que havia chegado à vila. Conheceu a professora Maria Auxiliadora por providência do acaso. A delegacia ficava quase defronte a escola. Uma troca de olhar, um cumprimento formal. Daí a pouco estavam conversando. Falaram sobre o calor, a escassez de água, e que naqueles tempos de seca, era tirada da cisterna da delegacia pra servir a cantina. Naquele quinto dia de vila, nem bem Leonardo pôs os pés dentro do cubículo onde funcionava o distrito policial, e o coronel por um dos seus capangas, mandou buscá-lo. Chegou trazendo-lhe outra montaria. Orgulhava-se de trajar aquela farda cáqui, o cinto largo, a cartucheira com a arma da corporação, os coturnos pretos, engraxados, o boné engraçado que cobria somente o cocuruto. Porem tão respeitado um soldado de polícia em todo estado, com ênfase no meio da feira. O cabelo rapado, rosto bem escanhoado. Era o ano de 1969, e ele só tinha vinte e quatro anos. Um bigode fino conservado, mais pra dar ideia de mais idade. O dia realmente muito quente, dum desses verão, seco torrado, dum céu azulino sem nuvem. De doer às vistas se o cristão se inventasse de olhar pra cara da bola de fogo que tinha nome de nota musical. Inclemente seguia o sol sua pauta de clave de si implacável. A música era a segunda paixão de Leonardo. Tinha um trompete que vez outra tirava dele uns acordes.

O coronel se estava no alpendre. Sentado na cadeira de palhinha. E pareceu que tudo no mundo, de tão cansado, parado estava. Não se ouvia um nada. Se quer um vento de respeito, dos que assobiam forte nos ouvidos, ou mesmo um redemoinho de encher os olhos de areia, e derrubar mais folhas da craibeira na calçada. O que ainda malmente se via, era aqui e acolá se levantar uma poerinha acanhada, a dar ideia de que algo ainda estava vivo. No sertão brabo de meu Deus os viventes não entregavam os pontos assim facilmente. O coronel Fontes despira o terno e a camisa. Porem lhe cobria os peitos flácidos forrado de fios brancos e a barriga volumosa, uma camiseta branca, de meia. Suava por todos os poros. Um cigarro branco de filtro amarelo, recém aceso pendurado no lábio. Longa ponta de cinza. O artefato apelidado de chupeta do cão, se consumia sem ser tragado. Servindo somente de incenso a espantar moscas. Os jagunços eram três negros, de raça, e de procedência pra lá de duvidosa, que pela convivência já conheciam os pantins do patrão. Com caras de cães raivosos, amestradamente vigiavam. Pra eles, aquele tipo de postura do senhorzinho só era concebida quando algo havia a ser resolvido. O coronel sem levantar a vista, buscou um revólver taurus 38, preto com cabo de madeira, que se encontrava numa pequena mesinha ao lado da cadeira. Abriu o tambor, checou a munição, girou o cilindro, e retornou com ele a posição original. Era tudo parte de uma encenação. A raposa velha fazia o jogo do: “É bom que esse cabra saiba: quem manda aqui sou eu!”, sem precisar dizer, exatamente. Ditava sua lei com gestos comedidamente ensaiados. “-Só tenho a dizer ao senhor delegado que deixe minha neta em paz. Não a quero de namoro com um soldado de polícia.” E sem dar a menor oportunidade de seu interlocutor falar palavra, tratou de mandar o mesmo jagunço voltar com o homem da lei até o seu posto.

Pra continuar os estudos, Maria Auxiliadora, teve que deixar a vila. Não ficou mais de seis meses e partiu. Foi morar na casa de uma irmã mais velha, no mesmo sertão, distante da vila somente alguns quilômetros. O mundo rodopiou. A professora acabou casando com um primo chamado Valdemar, que era agricultor. Com quem teria dois filhos Raquel e Rubens. Vinte anos depois estavam separados. Valdemar foi embora pro Mato Grosso, com ele foi Rubens. Raquel ficou com a mãe.

Naquela tarde de verão Maria Auxiliadora recordava. A foto na mão. Estava no terraço da casa onde morava por tantos anos. A se consumir em recordações pensava nos filhos. Rubens escreveu-lhe: tinha ido embora do Mato Grosso, fora morar com um tio em São Paulo. Prestou concurso para a polícia e aguardava o resultado. Era quase desespero, a angústia lhe invadia naquele momento ao recordar que seu filho poderia se tornar na metrópole, repleta de violência, um policial. E ainda lhe repousava na consciência o estigma da rejeição. Soldado são pessoas tão descriminadas. Veio-lhe com vigor a lembrança de Leonardo.

A foto era numa praia. Ela estava de maiô listrado, com óculos escuros, e sorria, com frescor de dentes perfeitos. Ainda não escurecido pela nicotina de cigarro, que mais tarde aprenderia a fumar. Herança maldita de família, pela admiração que tinha pelos hábitos do avô. Na imagem aparecia com uma das mãos segurando um enorme chapéu de palha. Estava em pé, ao lado do ex-marido. Sério, talvez incomodado pelos trajes minúsculos a todos se expondo. Incomum a um homem rude, do campo feito ele tal situação. Valdemar segurava firme a cintura da ex-esposa. Os dois filhos pequenos sentados na areia sorriam felizes. A pele alva que tão poucas vezes haviam exposto ao sol, daquela forma quase ofuscava.

O relógio na parede da sala de janta, uma lua cheia, de números. Três da madrugada diziam as setas pretas. De costas pro quintal, sabia do pé de manga, lá traz, falando de escuro, e mangas de vez, esperando desfrute e vento. O chão uma pracinha cimentada. O terreno com seu considerável declive. De repente um baque surdo. Oh! Alguém saltara o muro, com certeza um ladrão! A porta buscada com aflição e angústia. A chave tinha que girar a chave! Alívio, conseguira trancar-se do malfeitor que passou correndo, no oitão da casa. Oh longa noite insone, de desespero. Medonha noite que não trazia o dia. Mas quando viesse, e com certeza viria, a frondosa mangueira a sorrir pro sol, amanheceria com menos algumas mangas na copa.

Fabio Campos

04 fev

0 Comments

SEDUÇÃO (Party 3)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

As horas, diziam muita coisa, porque cada uma delas sempre tinha algo a dizer. Uma mulher pode parecer quem realmente nunca foi. Assim como o homem, quem realmente sempre fora pode aparentar. Tudo depende do lugar, do momento, especialmente da hora. Aquela mulher que atravessava a rua – que pena – não era Maria Rita. Naquele instante Ulisses experimentava tal situação, evocara a lembrança de seus irmãos. E pra qualquer lugar que olhasse – traído era pelos próprios sentidos – via a cada um deles.

Os meninos não estavam mais na praça. O azul do mundo não estava mais lá. Ainda assim pra Ulisses, tudo permanecia retido em suas pupilas. O calor na calçada refratário aos poucos se dissipando junto com a tarde. Zelosa a mãe cuidaria pra que o menino não sentasse naquele chão. “- Por que mãe?” “-Porque dá dor de barriga!” Cheiro de café torrado, de invadir narinas, pulmões e mentes. A se embrenhar pelos pomares das cercanias, a misturar-se ao perfume das mangas, limões, frutas do conde, no sertão chamadas de pinhas. Ao sabor duma ou outra suave brisa adoçada pelo cítrico aroma.

“-Rapadura batida!” Ainda pelos becos ecoavam os gritos dos meninos, xingando o redemoinho. E o carrossel de cisco e poeira partia doido no encalço deles. Novamente Ulisses e suas lembranças fazendo-se prostrado, maravilhado. Um gato preto, não conseguindo ficar camuflado, fora visto. E deu-se início um encalço ao pobre bichano. A luta pela vida, contra a morte. Meninos e gatos: dois seres neste mundo de meu Deus que nunca se entenderam. Haveria de ter uma explicação pra desavença entre tais criaturas. Haveria de ser algo do outro mundo. Já os cães, eles os respeitavam. Gatos pretos, rasga-mortalhas, urubus, morcegos, mariposa negra presságio de má sorte. Messias e Lucas, não eram irmãos, mas vivam sempre juntos, tinham a fama de exterminadores de todo e qualquer animal, de igual ou menor porte que eles. Ódio aos gatos, porque comiam passarinhos de gaiolas, o peixe da mãe estendido pra secar, amolavam suas malditas unhas, no forro do sofá, pra marcarem território urinavam nas coisas. Outro dia, no oitão do grupo escolar Messias e Lucas armaram uma arapuca pra urubu e conseguiram pegar um. Todo amarrado o pobre foi arrastado pra dentro da sala de aula, a professora Carmem obrigou-os a soltar. Algazarra. O instinto de defesa fez o bicho regurgitar um líquido nojento, fedido, na sala. Naquele dia não teve mais como continuar a aula.

Maria Vitória, uma moça bonita, educada. Resumir assim, em apenas duas palavras a gazela seria uma desfeita imperdoável. Bonita sim, de possuir longo cabelo negro, de seda, a moldar-lhe o rosto moreno. Bonita de belos olhos castanhos, amendoados. Encimados por sobrancelhas sinuosas, o ponto chamativo do rosto. A boca de lábios carnudos, a evocar-lhe as origens nativa, aborígene. Orelhas de lóbulos pingentes. O pescoço gracioso, bem implantado, espáduas de deusa titânica. Os braços estendidos ao longo do corpo emolduravam seu busto firme. Os seios duas fontes de vigor, de vida, de pecado. Impossível a qualquer um que olhasse pra eles não pecar. Seu ventre mesmo coberto pelo vestido vaporoso – dava saber – fonte de prazer indizível. A acender, adormecidos desejos, a um varão que pusesse ali sua imaginação. Ao que haveria de encontrar se se aventurasse sob aquele tecido de algodão, se evaporariam os brios. Pelos caminhos alucinantes dos pelos, sobre pele cuidada. Donde emanava do próprio corpo, perfume de fêmea, lancinante. E eriçariam se tocado com a leveza da paixão, a sutileza do desejo, e brotaria volúpia, tão da carne. O cheiro de mulher permanecido sob os pelos do montículo de Vênus. Gruta ardente, esconderijo da flor de Lácio. Intumescência de paixão velada, contida. Graças aos céus, haveria de se ter – o poder, sempre – o controle de pensamentos e atos. Bem velado, no íntimo do ser. Sob as cobertas escuras da mente, no mar da libido navegavam, os escrúpulos do homem navegam. E – em vigor de virilidade – fatalmente naufragariam, se falassem mais alto, os mais secretos e vis extintos. Maria Vitória aquela tão linda menina-moça, era filha de Maria Rita. A benção do tio, um beijo na mão. Um abraço, um afago na cabeça, selado estava o encontro.

Um pedaço de jornal bolando pela calçada esbarrou num pé do banco da praça onde se haviam sentado. A primeira página de “O Globo” trazia uma manchete estampada: “Morre o Ex-Presidente Epitácio Pessoa” O fragmento do periódico carioca, era de uma semana anterior aquela. Dizia que naquele 13 de fevereiro de 1942, por problemas cardíacos agravados viera a falecer no Sítio Nova Betânia em Petropólis – Rio de Janeiro, o estadista Epitácio Pessoa. Daí por diante uma extensa biografia da vida pública do ex-presidente que governara o país de 1919 a 1922. Entre outras obras que realizara: “A construção de 200 açudes no nordeste; criação da Universidade do Rio de Janeiro; a substituição da Libra pelo dólar como padrão monetário brasileiro; inauguração da primeira estação de rádio do Brasil, no dia 07 de setembro de 1922 centenário da independência, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro pela primeira vez ia ao ar.” Dizia ainda que seu governo ficaria marcado para sempre, primeiro porque fora o único presidente até então, eleito estando fora do país, quando ocorrera as eleições se encontrava na Conferência de Versalhes. Teve como opositor nada menos que o jurista Rui Barbosa. Outro fato marcante “A Semana de Arte Moderna” em fevereiro de 22, que teve a participação de nomes como: Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Anita Malfatti. No verso da página o Carnaval Carioca, foto da Escola de Samba Portela que sagrara-se bicampeã, desfilando no domingo, 15 de fevereiro, na Praça 11, com o enredo “A Vida no Samba” de Alvaiade e Chantim que falava justo de pessoas como Maria Vitória.

“Samba foi uma festa dos índios

Nós o aperfeiçoamos mais

É uma realidade

Quando ele desce do morro

Para viver na cidade”

Ulisses disse do quanto a sobrinha tinha da mãe. Contou que Maria Rita era tão calada. E que sua mãe – avó de Maria Vitória – temeu que a menina fosse ficar surda-muda pois demorou tanto a falar. Dona Mãezinha a ama de leite, era uma espécie de curandeira. Na falta do médico era buscada para socorrer nos “incômodos” tanto da mulher, quanto de suas crias recentes. Pro caso da demora a falar, aconselhava colocar um pinto em baixo duma bacia, e bater no tampo com algo que fizesse bastante barulho, próximo aos ouvidos da criança. Só assim foi como Vitória desarnou a falar. Pra andar também nada fácil. E outra benzedura teve que ser feita: com os pés da menina, batiam várias vezes dentro dum pilão, como se fosse à mão daquele. Dona mãezinha recomendaria ainda uns chás, e a mãe da criança tinha que fazer uma penitência pra alcançar a graça. Poderia ser – uma romaria – ir a Juazeiro do padrinho Ciço Romão Batista de pé; durante um ano ir a missas da primeira sexta-feira de cada mês; guardar as sextas-feiras por um ano sem comer carne de criação. Era considerada carne de criação, todo bicho que mamasse, tivesse sido caçado ou pescado, e claro, criado no terreiro de casa.

Certeza de uma coisa Ulisses tinha agora, queria voltar pra casa. A velha casa do sertão, do fogão a lenha, do abano de palha de coqueiro, do pote d’água fria num canto da cozinha. A camarinha no quarto. Na sala, o retrato a lápis, o pai de paletó e gravata, que jamais tivera na vida. Com os irmãos, a correr de pés descalço pelo terreiro. Zelosa a mãe ordenaria que desemborcassem as chinelas porque filho que deixava calçados emborcados, xingava os pais, além de agourar pra morte cedo. Cheiro de café torrado, de invadir narinas, pulmões, cheiro que nunca mente. A se dissipar pelo pomar das cercas minhas, a misturar-se ao perfumo, doce caldo das mangas, limões. Frutas do conde, no sertão é chamada de pinha.

Fabio Campos

29 jan

0 Comments

SEDUÇÃO (Party 2)

Foto: Fábio Campos

Foto: Fábio Campos

Aproximava um magnífico crepúsculo. O verão ditava suas ordens. A igrejinha, de muito grado, aceitou um último afago do sol. A coruja cruzando o céu emprestou-lhe um capucho de branco. Com seu grito de aguçar sentidos rasgou o ar dum canto a outro. Estilhaçado, semi entorpecido por alguns segundo, assim ficou o guache negro. Por um instante, muito acima de todas as cabeças, o céu experimentou o desmantelo. Cabeças de pensar, se punham a volver coisas do passado. Quão longe estavam os pensamentos, e o passado. Muito longe estavam.

Eram duras as ordens ditadas pelo verão. De rude beleza, ia revestindo o sertão, sua casa. As montanhas tal qual imensas senhoras gordas, desnudas, adormecidas. Tendo o colo alvibranco dos lagedos, o ventre de catingueira, e os pelos pubianos, verdejado de umbuzeiros e juazeiros. Deitadas languidamente em seus divãs posavam a um excêntrico artista, louco, incansável, senhor tempo. Tempo de velame e macambira, sedutores nubentes se amando. Pequenos lábios em flor se despetalando, hastes dilacerantes, desvirginando. O vento uivando, lascivamente a lamber as asas das poríferas mariposas, aturdidas de paixão. Não indo claro, além da aflição das almas. E se tudo nunca fora tão claro como parecia, por conta disso, algumas coisas eram dignas de existirem. O obséquio de ser no mundo – as coisas e os seres todos – com sofreguidão de existir e viver, viviam. O esforço desprendido pelos viventes para se manterem vivos, isso era uma das coisas dignas. E ia tudo se tornando tão obscuro, mas somente superficialmente. As nuvens que alaranjaram o alvorecer, já não eram as mesmas que avermelhavam o sol poente.

Felizmente a paz ainda era o que se almejava. Gafanhotos, grilos, aranhas, mosquitos, vaga-lumes e sapos. Nanos-habitantes suburbanos da sub-urbe. Civilização das quinas e esquinas, dos cantos de parede. Indo suas preocupações de cada dia. A dispensarem cuidados: será que vingariam o dia que ainda viria? Ora, seus futuros, só a Deus pertenciam. Não tinha como não lembrar de Mateus (6,24-33) “Por isso vos digo: Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Porventura não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado a duração de sua vida? Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai os lírios do campo; mão trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: Nem Salomão em toda sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. O vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.”

Meninos brincavam no Largo. Ulisses lembrou de outros tempos. Coberto de barro vermelho, o largo nem sonhava com calçamento. Os fundilhos das calças ganhavam manchas avermelhadas. Lamparinas – a esguias estacas de madeira – faziam vezes de postes. Espaçados, abrigavam chumaços de estopa embebidos em gás óleo. Pipas coloridas lá em cima – cuidavam de enfeitar com outras cores, negra paisagem celestial – a se enroscarem aos próprios fios, os únicos existentes. As meninas com seus vestidos coloridos de mangas bufantes, de muitas anáguas. Tiaras e tranças, nos cabelos bem cuidados, sentadas nos bancos, sacudiam os pés de sapatinhos. Ostentavam bonecas de porcelana ricamente ornadas, tão assemelhadas a miniaturas de si. Um dos moleques que os colegas chamavam de Elias, em troca de bolas de gude, revistas e figurinhas, descia plantando bananeira, os degraus da igreja. Batista tinha os dois incisivos da frente escuros, careados. Usava o cabelo lambido no cocuruto – muito provável aquilo fosse brilhantina – vã tentativa de assentar a carapinha. Um cinto fino, gasto, sustinha suas calças folgadas, sapatos velhos nos pés. Batista sonhava um dia tornar-se artista de circo, malabarista ou quem sabe mágico. Manoel Filho o mais alto de todos, assim como a maioria deles, era menino do mato que viera pra cidade. Negro de lábios carnudos, os incisivos separados, olhos de grandes pupilas e as pálpebras caídas davam-lhe a impressão de estar sempre grogue, sonolento. Tinha orgulho de dizer que sabia carrear, aos seis anos conduzira o primeiro carro de boi. Como nenhum daqueles sabia das coisas do campo. E tinha ainda “Berruguinha” que por mais que Ulisses se esforçasse, não deu pra lembrar o verdadeiro nome do danado. Sua fisionomia, no entanto, vinha nítida, por completa, inclusive com a verruga no queixo que atribuíra o apelido, a muito custo aceito. Só os mais velhos podiam apelidar. “Berruguinha” era menino arteiro, cabra bom na arte de aprontar presepadas. Ele e Ciço de Tereza, daria uma parelha boa de cães, capazes de botar o diabo a correr do inferno.

Lembrou-se dum dia que iam pelo caminho do sítio – na volta da escola – danaram-se a correr. Começaram uma brincadeira do “pega”. Adentraram uma vereda. Ulisses que ia a dianteira não viu um colchete fechado – acabou se jogando contra os arames – cortou o rosto em três cantos. Ganhou uma cicatriz atrás da orelha. E quando estava muito pensativo – como agora – ficava passando o polegar com força a sentir o sulco. Lembrou-se da tia Iracema que quando era pequena também ganhou um latanho bem grande na barriga, porque teve que passar as pressas por baixo dum arame. No caso dela porem, teria sido quando seus avós fugiam de Lampião, isso foi lá pelos idos de 36, assim contavam os tios mais velhos. O pai de Manoel Filho,o negro Quincas era mascate, no meio da feira vendia pião de goiabeira, ponteira, faca peixeira, patuá, pedra-ume, cartucheira, apito de imitar “Fogo-apagô”. Aconselhava ter muito cuidado quando entrasse no mato. Cuidado com a sucuri quando fossem tomar banho no açude. Dizia: “-Elas costumam ficar pastorando e atacam justo na hora que sua caça vai beber água!… Uma vez uma Corre-Campo duma carreira que me deu, veio botar eu bem aqui no terreiro de casa!” A cobra Cipó facilmente é confundida com um galho, por isso, ao entrar na mata fechada, cuidado dobrado onde por a mão. Ciço jurava de mãos juntas que um dia viu um calango virando cobra. “-O bicho foi se esticando, esticando, daí caiu as mãozinhas, depois os pés, e pronto!” Negro Messias aproveitou o embalo pra contar que outro dia quando estava caçando rolinha, viu perto da beira do barreiro de Seu Manoel, “-Uma cobra cascavel que veio bem devagarinho, chegou assim numa moita, lançou o veneno numa folha e foi tomar água. Depois voltou e engoliu o veneno novamente.”

Negro Rosalvo tinha – assim como a maioria daqueles – na cara e no jeito, fortes evidências da descendência africana. Toda segunda-feira tinha a obrigação, de levar uma boiada do seu patrão, pro sítio Pai Mané, o gado ficava pastando por lá, até a quarta-feira quando era levado pra vender na feira. Quando chegava as margens do imenso açude, iam tomar água. Teve uma vez que uma jibóia enorme atacou um garrote. Rosalvo no seu instinto bravio, e de coragem, salvou o filhote de boi, matando a danada com uma faca. Tirou o couro, e da carne fez churrasco. Nesse dia a cachaça dos boiadeiros além do jabá teve mais um tira-gosto diferenciado. Uma cruz feita com dois pedaços de catingueira, na beira da estrada rodeada de pedras, assinalava o local onde o corpo do nosso amigo – vitimado por mãos assassinas – tombaria sem vida. Era uma quase noite quando ele vinha com o gado. Chovia uma dessas chuvas que encharcavam até os ossos, enquanto ribombavam trovões, chicoteavam relâmpagos. Era um gado pouco, mas eram cabeças selecionadas, os que vieram com ele naquele dia eram maus feitores, ladrões. Ainda encima do cavalo mesmo recebeu o tiro que varou-lhe o peito caiu na lama. E o mundo que já estava escuro foi ficando ainda mais treva. A última coisa que levou foi o cheiro bom de esterco nas ventas, a quentura do seu próprio sangue aquecendo suas mãos, e o mugido do gado assustado com o disparo, que foi ficando longe. Cada vez mais longe.

A moça continuava se aproximando. Ulisses fez com que seu olhar subisse pelas suas pernas, enquanto vinha caminhando. E subiu pelo ventre, pelo colo. Por fim chegou suas vistas ao rosto. Fixou os seus olhos nos olhos dela. Não era possível! Aquela que vinha bem ali em sua direção era sua irmã, Ritinha! Santa Luzia alumiadora dos olhos era testemunha do que o que ele via era verdade! Valei-me meu Deuzinho do céu! E as meninas dos olhos de Ulisses – tristes meninas – emprestaram-lhe ao rosto um arroio de lágrimas. Porque era tempo de chorar.

Fabio Campos

15 jan

0 Comments

SEDUÇÃO ( Party One)

Um dia, pouco interessava qual, vinha vindo. Um homem, tampouco se sabia quem era, vinha vindo. Um outro – que não precisava mais vir pois já estava – contava de dias que vinham vindo, de homens, de céus bem afeiçoados, ou mal promissores que sempre vinham vindo. O que vinha, parou na esquina. E ficou bem assim. Ficar bem assim – era estar-se de pé, estático – assuntando as coisas. Por um bom tempo ficou esquinando. Isso mesmo. Esquinar era – ficar afrontando o que se tinha pra desfazer, ou dependendo do caso – refazer. Àquele, não se sabia se tinha ciência que se encontrava perante uma das quatro (es)quinas do mundo. Assim estava o homem.

Era muito provável que o outro se dispusesse a descrever o que via. Talvez não tivesse muito que contar. Por aquela ser uma cena tão comum, corriqueira, atemporal. Um lugar qualquer no mundo. Muita gente passando. Pra lá e pra cá passando. Cada um carregando – como bem podia e entendia – aos seus fardos-destinos. E ia um que levava às costas, um porco abatido já desviscerado. A marcha de calça coronha, e canos de botas sanguineos. Orelhas a balançar pingantes – alegremente a caminho do mercado – olhos fechados, suinamente sorriam. Um negro com um caçuá na cabeça – ia, sem nada dizer – falava de cachos de banana da terra. Nanica, e Prata somente na semana que viria, diria se alguém perguntasse. O balaio-fubá com seus dedinhos morenos, finos, entrançados, abraçava um saco branquinho como as vestes de Jesus na transfiguração! Num misto de melancólico e curioso o balaio olhou pro caçuá. Nos bolsos da calça de ir pro cassino do homem branco, carteira, dinheiro, documentos, a algibeira-relógio com almofadinha azul-marinho no forro interno da tampa. Numa carroça puxada por uma burra, seis ancoretas enjoadas iam, e de tantos solavancos, vomitavam água do sobejo. O promotor público com seu bigodinho fino. Os picinês no rosto recém-escanhoado – desfilava na rua do comércio – dentro do seu carrinho feio, que mais parecia uma baratinha! Não era feio não, era a inveja que era muita! E iam, e vinham, tantos destinos. Doidamente, milagrosamente, numa alucinada sincronia. Corpos a tirarem fino, uns nos outros. Enquanto as almas não tendo a mesma sorte esbarravam-se. Inexplicavelmente aquele homem resolvera parar. Era isso que intrigava. Por que parara? A ficar sem mais nem menos, margeava a vida? O livro, não dava pra ver. No entanto ele estava lá, com certeza, estaria guardado em uma de suas bagagens. Porque trazia mais do que necessário. Uma inquietude mal disfarçada a dizer que se quisesse consultar o livro, ali não se sentiria muito à vontade pra isso.

E aquele que observava, achou por bem – e propiciava a hora – descrever o sujeito. Gostava de começar pelo figurino, porque achava que toda indumentária tinha poder impactante. E que era o cartão de apresentação de qualquer um. Achava que até um mendigo – como tal – devia vestir-se condignamente. Porque pra ele, era bastante dizer o que vestia, pra dizer quem era. Vestia um paletó azul – pobremente desmaiado – escuro. Uma calça de tecido também muito gasta. A ponto do entorno dos bolsos a negar o blue marinho que um dia tivera. Tinha umas coisas ali que não combinava – porque nesse mundo de meu Deus tem coisas que não fazem o menor sentido – o chapéu de salgueiro, lixado a esmero. Com faixa negra na base da copa, clamava uma cor neutra, mas o sol não colaborava. Entre os lábios e os dedos da mão direita um cachimbo, feito de álamo cru. A piteira metálica reluzia ao sol das dez, dando a impressão que o homem tinha dentes de ouro. Um par de sofredores nos pés. Três ou quatro volumes de bagagem jaziam no chão. Faltando pouco pra se apoiarem no poste. O chapéu, pendido pro lado, e o sol continuava não colaborando. Os traços marcantes, os fios de cabelo branco, as linhas da idade, tudo sequestrado pela luz. A impressão que dava era que Getúlio Vargas resolvera sair do Palácio do Catete indo bater na praia de Copabacana – em plena segunda-feira pela manhã – surpreendendo até os periquitos que arribavam araucárias, ananás e palmeiras – trazidas de além-mar por D. Pedro II para enfeitar – a Avenida Atlântica.

E o livro? Se era que o tal livro realmente existisse – o que já não duvidávamos – descobrimos onde o escondia. Estaria dentro daquele bolso que fica na tampa da mala pelo lado de dentro. Muito parecido com um embornal de caçar rolinha e preá no sertão do Cariri. Donde aquele miserável nunca, jamais deveria ter saído. Dentro da mala de couro quadrada, dotada de cinto de couro cru, com quatro cantoneiras de lata nos quatro cantos. Na bolsa de pano da tampa pelo lado de dentro se encontrava o tal livro de capa vermelha. A capa trazia a suástica nazista dentro de um círculo preto. Em letras sóbrias – na parte de cima – talvez dissesse “Mein Kampf”. Por causa desse maldito livro há vinte e tantos anos passados, ainda estudante fora preso e torturado. Seus pais e irmãos jamais entenderam o que significava a palavra ‘comunista’ com que alguns vagabundos – na calada duma madrugada de sábado – picharam no oitão da casinha de taipa. Pra eles tudo aquilo só podia ser uma espécie de doença muito séria, um castigo de Deus por ter rezado pouco. Naquela redondeza, só eles foram agraciados com aquele atraso de vida.

Quando iam pra feira, os homens da cidade olhavam-nos com desprezo. Jamais esqueceriam no dia que o jipe da polícia chegou ao terreiro da sua humilde casinha. A tapera de taipa no Sítio Mocó dos Vieiras nunca tinha visto um carro na vida. O comandante e uma guarnição de cinco homens Com seus enormes fuzis munidos de baionetas espetavam o céu. Seis pra dar voz de prisão a um frangote – que nem gala tinha direito – um menino, um matuto da roça. As vistosas fardas de lona camuflada e o chapéu de cuia “brilhou no céu da Pátria neste instante” E fez raiar o sol da desliberdade. Mesmo não demonstrando a menor reação, despiram o rapaz da cintura pra cima. Amarrado de corda, arrastado pelo terreiro no entorno da tapera, as vistas de pais e irmãos humilhado. Socos e pontapés, e deitou sangue subversivo, dum nariz dissidente, maculando o terreiro que sua mãe todo dia varria. Sua cabeça foi raspada, seu cabelo foi juntar-se ao cabelo de milho do alpendre, no aceiro da roça. Levaram-no para o manicômio judicial. Lá as torturas se intensificaram, choques elétricos, medicamentos psicotrópicos, alucinações e o diagnóstico: esquizofrenia. Vinte e tantos anos ficaram pra traz, as lembranças não.

O livro que Ulisses guardava a sete chaves desde menino, ganhara de tio Afonso. E o escondia de todos porque era um livro proibido. O padre Bento mesmo, num de seus sermões, teria excomungado e tornado herege todo aquele que o lesse. O livro falava de muitas coisas que os homens do seu tempo negavam. De que inicialmente todas as coisas tinham o aspecto do caos, e o que hoje cogitamos chamar de mundo se dava o nome de Caos. “E havia uma densa escuridão e um imenso vazio sem começo nem fim. Dali surgiu Gaia, a Terra, que deu a luz Urano. E Gaia e Urano se amaram, e desse coito incestuoso nasceram os titãs: seis homens e seis mulheres. Sendo Cronos e Reia os mais taludos dentre eles. Urano sabendo do poder e da astúcia de seus filhos, com medo que os derrotasse não permitiu que saíssem do interior de Gaia. Pensando que assim se manteriam obedientes ao pai. Com a ajuda da mãe, com uma foice, Cronos cortou as genitais do pai e lançou-os ao mar, o esperma que caiu produziu Afrodite, o sangue da ferida gerou Ninfas. Após libertar seus irmãos Cronos seduziu e desposou Reia sua irmã. Com ela procriou os deuses do Olimpo entre eles Hera, Poseidon e Zeus mais conhecido por Júpiter. Através de artimanhas Zeus conseguiu tornar-se rei dos titãs do Olimpo, de lá governava, os céus e as tempestades.”

O mundo agora mesmo, não sabia mais o que fazer com Ulisses. Depois de vinte e tantos anos, um universo inteiro de gente que vivera com ele já morrera. Pais, avós, tios, irmãos. Talvez se houvesse ainda algum, não o reconheceria, do jeito como se encontrava, não o reconheceria mais. Além do que tantos males causara a família, melhor seria não voltar a vê-los. E as asas de Cronos puseram sobre ele sua sombra. E voando nelas foi até a casinha do sítio Mocó. Sua mãe na cozinha, a ficar de cócoras pra lavar as louças numa bacia. O tecido da saia ajuntava todo no meio das pernas, os joelhos iam aos seios, murchos. Um lenço na cabeça escondia sua imensa cabeleira raiada de fios brancos. Pucumãs mantidas nos caibros negros de fumo, pro caso duma ferida braba a estancar o sangue. O pedaço de couro de veado preso a cumieira era pra mordida de cobras. O galho de arruda num jarro pra afastar mal olhado. Mas quem nesse mundo de meu Deus, iria lançar olho gordo pra tanta miséria em cima da terra! Uma tapera caindo aos pedaços, galinhas, bacurinhos, uma velha mula, a vaquinha Princesa, a cachorra Cruvina. A lavoura na roça, um açude quase seco. Era o rico patrimônio dos Vieiras, que Ulisses tanto gostaria de reencontrar.

Como gostaria de estar lá novamente. Ah! Se tivesse o poder de Cronos. Enquanto pensava nisso, Ulisses viu uma moça atravessando a rua. E vinha em sua direção. Stephanie de Mônaco, bela deusa grega em plena manhã. Por um instante na terra do condor, de um olho o brilho, um raio (incan)indecente. Sedução.

Fabio Campos

31 dez

0 Comments

QUANDO CRESCER…

Os dias eram os que preludiavam o final do ano. Havia ternas lembranças de histórias de tempos idos nas mentes dos que já haviam amadurecido. Sendo fim de ano, com muita propriedade vinham. As casas, as lojas, as ruas cheias de gente. No limiar de mais uma mudança de ciclo, o que mais havia era efusão de sentimentos, de modo especial nos que detinham mais idade. O que estivera por muito guardado, nessa época aflorava, dizendo o quanto as pessoas mesmo amando tão pouco, como gostariam de serem amadas. Despejadas dos postes, das fachadas das lojas, das árvores da praça, cascatas de luzes a se derramar, inundava as calçadas. Gente alegre ia e vinha portando pacotes coloridos, vozes exaltadas. Dilúvio de cores dizia de fortes sentimentos a serem revividos. E tudo, tinha tudo para ser muito bom.

A igreja, a farmácia, a loja de brinquedos. Os bares com suas toldas coloridas, lembrava Paris “A cidade Luz” da Belle Époque. Mesas nas calçadas, homens de terno e gravata, chapéus de massa, vastos bigodes, bebiam cerveja em tulipas douradas esfumaçadas de gelo. Belas damas com seus vestidos longos recompensavam as vistas masculinas com generosos decotes de colo. Cigarros finos, entre os dedos bem cuidados, ornados de jóias, finas piteiras, e a fumaça ia desenhando serpentes que levemente subiam e sumiam, espalhando aroma de tabaco no ar. Polidamente misturando-se a perfumes cítricos e suaves. Liberados das peles dos casacos, das ricas vestes e colares brilhantes. Diríamos que daria pra tirar dali magníficas aquarelas de T. Lautrec. Orvalhado céu de estrelas jamais intencionaria competir com esfuziantes chuva de luzes dos brinquedos na praça onde crianças alegremente faziam a festa.

Pedro era garçon no Bar “A Lira dos Vinte Anos” olhava pra porta da igreja, os degraus cheios de gente. Era o branco a cor predominante nas vestes. Ainda mais esfuziante que as frugais luzes das lanternas hasteadas nas mãos dos coroinhas. Dali a pouco o padre iria celebrar a última missa do ano. As luzes da nave apagadas, tornando ainda mais solene a triunfal entrada do cortejo. Somente as seis velas que representavam os dias da semana, tendo a cruz de Cristo ao meio, iluminavam o altar. E o presépio montado ao lado do sacrário recebia unicamente a tênue luzinha vermelha duma lamparina. Permanentemente acesa para lembrar que Cristo sempre presente estava. Numa tradição trazida do longínquo período medieval. Naquele tempo eram alimentadas com azeite puro de oliva, ou cera de abelha. E o coral composto por meninos celibatários que deveriam seguir a ordem no tempo determinado. Enchiam a igreja com suas vozes agudas que lembravam querubins e serafins. Apesar do barulho e do intenso movimento das ruas Pedro conseguia pensar. Pensava que quando saísse dali iria pra casa de sua avó Júlia com quem morava. De certo a encontraria ainda acordada a olhar o velho álbum de fotografias. Perguntaria se ele já havia jantado, ele diria que sim, e a aconselharia que fosse dormir. Porém ela só iria quando ele estivesse deitado. Uma das fotos permanecia debaixo do abajur no criado-mudo. Era a foto de um homem vestido de terno de linho com um chapéu na mão. Era do seu avô Francisco, a muito já havia falecido.

Jarbas o pai de Pedro, naquela manhã do primeiro dia do ano, lembrava do filho. Fazia dois anos que não se via, a trabalho fora morar noutra cidade. Tinha por tradição pagar uma promessa de todo fim de ano. Inventava uma caridade, uma penitência. Isso porque havia alcançado uma graça. Certa vez vinha pelo meio da feira, e começou a passar mal. Trôpego veio vindo pela rua Rotary. Algumas pessoas conhecidas observou que daquele jeito parecia estar bêbado. Cambaleante foi ajudado a chegar a casa. Não era efeito de bebida alcoólica, tinha acabado de sofrer um acidente vascular cerebral. Ficou prostrado na cama somente o tempo que dona Olga, a mãe de Pedro, conseguiu uma ambulância que o levaria para a Santa Casa de Misericórdia em Maceió. Passou mais de quinze dias na UTI e conseguiu se recuperar ficando algumas sequelas. Um braço esquecido, o maxilar dormente, mas a fisioterapia e sua fé em Deus, fez com que recuperasse parte dos movimentos. A promessa daquele ano era ir novamente a pé, até a pedra do urubu. Encimada da capelinha do padre Cícero. Ainda escuro sairia de casa. Levaria consigo mantimentos, porque outra vez, quando chegasse a determinado lugar deixaria estrada. Embrenharia na caatinga por mais de meia hora. Pra chegar num lugar deserto donde avistaria o casebre de Jaconias, um octogenário ermitão. Ficaria horas esperando que ele saísse pra fazer o papel dum papai Noel do sertão. Jaconias já se acostumara com aquela situação, a cada fim de ano. O dia amanhecia e poria os pés descalços dentro da mata, ia orar ao pé da cruz no alto da serra. E ao voltar encontraria sua choupana totalmente remodelada. As vasilhas lavadas, águas no pote, tudo varrido e limpo. Novos forros de cama, roupas limpas, uma quantidade de mantimentos que lhe garantiria vários dias de fartura. Até fumo picado e fósforo aquele homem que jamais conhecera deixaria. Quando descesse da serra tudo isso encontraria no seu casebre. A única coisa que podia fazer em troca, era uma oração pra aquele que considerava um anjo da guarda. Nunca se encontraram, nunca conversaram. No entanto se conheciam tão bem. Melhor assim. Era o que ambos achavam. Melhor assim.

No oceano celeste andorinhas, uma aqui, outra acolá dali a pouco, nadavam solitárias. Em negrito desenhavam graves notas de “si’ no ar, cortando com as tesouras de longas caldas. Enquanto cardumes de garças, militarmente atravessavam, dum lugar pra outro, levando som nenhum. Porem dava pra vir de muito longe um som de castanholas quebrando. E como vinha de muito longe também doutra dimensão vinham. E quão antigo era, antiguíssimo! E diziam dum menino de calças curtas, que ia a bodega de seu Benício, comprar cigarro pro avô, e ia tão feliz porque ganharia o troco. E compraria bengalas de açúcar raiadas de corante vermelho. Isso lá pela quarta hora da tarde, quando passava o carrinho de Seu Antonio doceiro tilintando sua campainha. Dando a lembrar um papai Noel fora de época, que só daria doces mediante um escambo de moedas.

Nas novenas de natal três Marias iriam: Das Dores, Das Virgens e Do Carmo. Cada uma com sua especialidade, a primeira pra cuidar de doente, a segunda a arranjar casamento pra moças encalhadas, menos pra ela mesma; e a terceira coitada, pegou a fama de “papa-defunto”. Eram as três filhas de Seu Lipercino, o mecânico chefe, da usina de algodão, que tanta vontade tinha de ter um filho homem, mas da “usina” de dona Umbelinda só mulher fêmea saiu. Maria das Dores conhecia todo tipo de meizinha pra aliviar os males que afligiam os pobres, que não podiam comprar remédios de farmácia. Sabia da utilidade ou dos males que causavam cada mato existente na caatinga do sertão. A serventia da carqueja, do pau d’arco, da aroeira, do Samba Caitá, dos benefícios da gosma da Babosa. Maria das Virgens sabia duma ruma de oração. Oração pra livrar as pessoas de mau-olhado. E mesmo pra arranjar casamento. Aconselhava: era só ter uma conversa de pé de ouvido com Santo Antonio! Tinha uma pequena imagem do santinho que era pra emprestar, recomendando que no mês de junho colocasse dentro duma vasilha com água. Pra só tirar, se até o fim do mês arranjasse um noivo. Maria do Carmo muito religiosa ia a todo velório, e os doentes em leito de morte pediam aos parentes: “-Pelo amor de Deus! Não deixem Do Carmo vir me visitar!” Sua presença, era certeza de morte breve.

Pedro lembrou, que com seu avô montou a lapinha e a árvore de natal de vó Júlia. Tinha só cinco anos e saiu com uma pergunta desconcertante: -Vô o que você quer ser quando crescer? A pergunta pegou o velho Francisco de surpresa. E olhando pro menino: -Quando Deus crescer e for bem grande, vou pedir pra ele que nunca deixe faltar vô pra ninguém, o ano inteiro.

Fabio Campos

21 dez

0 Comments

E O QUE VOCÊ FEZ? (And what have you done?)

Eis que vinha vindo o dia de natal. Num tempo em que os cartões de felicitações, de mão em mão iam indo, correr mundo. De tudo fazendo pra chegarem a tempo a seus destinos. E encheriam de graça e luz, os olhos quando chegassem aos seus destinos. De bicicleta, na bolsa do carteiro, a passearem pelas ruas e praças. E palpitariam os corações dos remetentes, premeditando o semblante dos que receberiam. Haveriam de amanhecerem junto de garrafa de leite no batente da porta. Dentro da agenda do gerente da loja. Junto ao diário de classe da professora. Ao pires da xícara de chá da dona da pensão. Pra finalmente irem repousar junto a latas de bombons, buquê de flores e caixas de pães da Itália. A alegrarem as mesas forradas com toalhas de motivos natalinos, com cheiro de vinho do ano passado.

Árvores urbanas se espreguiçavam mansamente nos seus mais altos galhos, a dizerem que era tempo de as enfeitarem. Tempo de se voltar a ser criança. Tempo de se ser menino. Tempo de ter menino-Jesus, vindo brincar de bola com a molecada no campinho. Verdes, verdinhos de jardim, nas asas de Betularias enviariam seus acenos pra um casal de namorados no banco da praça largados. Alegres, vistosas samambaias a discutir quem angariaria mais olhares. De bolas coloridas se enfeitando, de cristais olhares. E os piscas-piscas camuflados na folhagem do jardim, tiravam o dia pra dormir, e aguardariam a noite pra acordarem velhos sonhos.

Havia uma, duas, três casas, solitárias. E a rua, sem calçamento, sem iluminação, sem rua. Sem alegria de meninos brincando de bola. De rua mesmo, apenas o nome. Rua do Colombo. Sendo aquela à hora terceira, os meninos teriam ido pro campinho, lá embaixo. Encoberto pela algazarra de vegetação ficavam. O mundo tinha uma vontade imensa de se mostrar solidário ao tempo do advento. E pra isso revestia seu teto, de um rebanho de nuvenzinhas pequenas! Tão engraçadas. E os meninos do cabelo de fogo, punham-se a chamá-las de carneirinhos, Deus nem ligava. E suas avós, no alpendre da casa de dona Marinete, se lembrariam, que aquela era a hora da misericórdia. E por-se-iam a recitar um rosário, apressado, cheio de angústia e solidão. E as velhas senhoras se lembrariam de quando eram meninas. E ficariam tão sonolentas, e durante a reza cochilariam tanto. E acabariam sonhando com suas mães. Enquanto os gritos coloridos da molecada a grudarem-se nas camisetas, listradas numeradas, de fazer gol. Esbaforidas acabavam fazendo o que devia ser feito. E corria e corria por entre o verde.

Rua do Colombo guardava nenhuma comédia, mas pelo menos três tragédias. O homem da última casa que nunca falava com ninguém. Quando saía era somente pra ir ao mercado. Um terreno baldio, onde um cavalo pastava. A penúltima casa era duma velha que sofria de doença celíaca. Outro terreno vazio que tinha um pé de Acássia solitário, plantado no meio da grama. Findava a rua com a primeira casa, da menina triste da janela. Na cozinha, da casa do meio, uma cadeira de balanço aproveitava o silêncio da manhã, e a despeito dos pardais pipilando diziam assim mesmo: ren-ren… O teto havia se chegado, pintado de um verde claro se valia da luz diurna pra definir a geladeira, o fogão de estanho, o guarda-louça antigo. Junto das xícaras e taças de cristal, um descanso de cachimbo de porcelana com duas piteiras nodoadas de fumo, um dia pertencera a Seu Firmino, o marido barbeiro que fora embora, fazia anos.

Eis que vinha vindo, o dia de natal. A menina da casa do meio permanecia na janela de grades de ferro, fechada. Deixando ainda mais triste seu rosto triste. Sendo porém tempo de natal, era tristeza boa, sincera. Um cavalo pastava no terreno baldio. Por que sentia tanto medo? Tinha medo, do olho negro do cavalo. No que pensava o cavalo? Aquele olho lhe ia tão dentro de si. Nos recônditos porões da sua existência a tentar desvendar profusos segredos. De beijos forçados, beijos proibidos. Coisas que sua mãe, nunca deveria saber, jamais. Tinha medo. O professor de música um dia abusara dela. Preferia morrer a ver algo tão abominável exposto. E odiava-se por isso, sentia-se culpada. As pessoas têm o costume de julgar a partir de um lado apenas das verdades. Sabia disso pelos comentários. -Por que Adelaide era uma menina tão arredia? Na escola, na igreja, no parque da praça. Chegava a evitar o contato com as coleguinhas. Não dava pra entender porque não queria participar de nada. A professora tocou-lhe enquanto estava distraída e instintivamente ela a repudiou, foi traumático. Uma vez, dentro da biblioteca municipal, se atracou com Dulce sua melhor amiga. Só porque tomou de sua mão um livro que pegara primeiro. Na aula de catecismo irmã Flora conversou com ela. Adelaide voltaria pra casa ainda mais triste. A bolsa dos livros fortemente apertada contra o peito. A mãe reclamava pela demora no banheiro. Mal sabia que se trancava ali, quando queria chorar. Despia-se e ficava num canto abraçando a si mesmo. Sentia-se suja. O chuveiro prolongado, e esfregava-se com tanta força que chegava a machucar a pele. Odioso contato do professor, odiosos beijos.

Lá longe, muito além donde as vistas podiam alcançar. Eis que vinha vindo, o dia de natal. Talvez para além do fim do mundo, estivesse chovendo. E o vento na sua intrépida altivez viesse perguntar: -Tá sentindo? E a menina devolveria a pergunta: -Sentindo o quê? Cheiro de natal? E natal tem cheiro? E ouviria o vento a dizer que: -Lá longe, muito além donde as vistas podiam alcançar, também o natal era triste. A mãe da menina, chata como toda mãe devia ser, lembrou de suas obrigações. No silêncio da janela, acabou mal-dizendo das mães que achavam que filhas eram suas propriedades, das quais podiam usar a seu bel-prazer. Revisou mentalmente o que tinha pra fazer. Recolher os panos no varal, porque Deus prometia chuva. E quando Deus prometia dificilmente esquecia de seus compromissos. Mas como era natal talvez ele estivesse muito ocupado devido a quantidade de pedidos aumentada. Em papai Noel deixara de acreditar fazia três anos, desde o ano que seu pai falecera. Quando ela tinha só nove anos de idade. O vento frio soprando forte na vidraça aberta, veio lembrar-lhe de ir colocar as galinhas e os pintinhos no grajau. Recolher os ovos da poedeira. O chiqueiro dos cágados carecendo de reforma, mas só quando tio Jonas viesse somente ele pra ajudar nos reparos. Numa casa onde só duas mulheres viviam tanta falta fazia o esteio da casa. Sua vó dizia: -Minha “filha” nunca queira ficar velha nem viúva! Será o fim… E não concluía a frase. Fim de que vó? Fim da vida? Fim do sonho? Fim do mundo? Talvez fosse isso. A Rua do Colombo, talvez fosse o fim do mundo.

Era tempo de cajus no cajueiro de Seu Antonio. E os galhos escalando os muros do quintal. O crime pelos meninos premeditado nunca consumado. Dariam as Melipondias vazão pra fartarem-se até se embriagarem do doce néctar do pomar de Seu Antonio pedreiro. Ainda tontas, indo desdenhar das pobres flores da Acácia solitária do terreno ermo. O pedreiro perdera o único filho num acidente de moto. O rapaz morava em São Paulo. O corpo viera com a esposa de avião. Triste tarde de sepultamento. E o pedreiro nunca mais sentou um tijolo. Ficou doente se encostou pelo seguro social. Adquiriu a doença da tristeza, do isolamento do mundo. Assim era a Rua do Colombo, rua triste, de três casas de três moradores triste.

So this Christmas

And what have you done

Another year over

And a new one just begun

And so this is Christmas

Eis que vinha vindo o natal. Era tempo de cajus. Pra onde foram os meninos? O campinho agora era só céu, mato, e um vento frio, escurecedor. Grossos pingos de chuva fizeram o cavalo ir pra debaixo do pé de Acácia Ferrigínea. Sentada no chão Adelaide fitava a árvore de natal da sala de estar. Cartões feitos com pedaços de folha de caderno, frases tão sinceras. E Deus se inclinando por cima do seu ombro lia junto com ela e sorria. O pisca-pisca dizia verde, vermelho, verde… Dona Belinha sentada na cadeira de balanço, não sabia se dormia ou morria. Seu Antonio no sofá, um lençol vermelho enxadrezado lhe ia até o pescoço se queimando de febre. Lá longe, muito além donde as vistas podiam alcançar, uma vitrola tocava a música daquele Beatles assassinado, que dizia: Então é natal! E o que você fez?

Fabio Campos

23 nov

0 Comments

ENTRE A SERPENTE E A ESTRELA (Parte Dois)

O céu escureceu, e como seria bom se fosse apenas ilusão. O mundo vertiginosamente rodopiava. Quem dera fosse redemoinho de vento. Alucinadamente girava de lembranças vendavais. E tudo era dura constatação. Certas coisas deviam nunca acontecer, melhor nunca terem acontecido. Infelizmente nunca se sabe qual vai ser a reação diante do inesperado. O susto, a arma branca, não era aquele o momento. Uma longa história precisava ser revelada. Arriscar a vida em defesa dum grotão ameaçado. Em missão estava. Era praticamente uma obrigação sua. Morrer de golpes de faca. Se tivesse que ser assim morreria. Aquele medo não era da morte, era da faca. Com seu inexorável poder. Diante da fraqueza de José Ivan, o rapaz do departamento Seu Pedro esmoreceu. Tocado de terna dó do moço. Disposto a abrir a guarda, desarmar-se ainda que espiritualmente. A faca na cintura do camponês. Zé Ivan paralisado. A folha de metal exercendo sua ação maléfica sobre sua alma. Entender o porquê era preciso. Tinha certeza, aquilo vinha de longe. De lá trás pra onde agora mesmo ele acabara de ir.

“Há um brilho de faca

Onde o amor vier

E ninguém tem o mapa

Da alma da mulher

Ninguém sai sem o coração sem sangrar

Ao tentar revelar

Um ser maravilhoso

Entre a serpente e a estrela”

Vinte e poucos anos e Zé Ivan parecia ser bem mais jovem. Rosto alvo, espinhas avermelhando-lhe as faces. Cabelos revoltos, dum jeito de que tomava banho, e não via pente. Proeminente dentição incisiva sob lábios finos. Os óculos, de aros arredondados dando-lhe cara dum John Lennon, sertanejo. Calça jeans, tênis de cadarços brancos, desalinhados, descomportados. Bolsa de couro a tiracolo, camiseta com uma estampa maneira, o que o tornava ainda mais esguio. Tinha, a um só tempo, cara de anjo – decaído, mas anjo – e universitário calouro. Não era fácil captar – muito embora houvesse – bem lá no fundo do olhar, uma rebeldia doce, quase ingênua. De um menino que curtiu Kurt Cobain, chorou e chorou quando ele morreu de overdose. Passaria três dias, trancado dentro do quarto, sem querer ver ninguém. As portas do guarda-roupa – pelo lado de dentro, o espelho – cheio de adesivos do Iron Maiden, Sepultura, Nirvana, Charles Brown Jr e Renato Russo. Quando estava de bem com a vida, pegava o violão, num domingo bem cedinho, se afastava da cidade. Ia sozinho curtir a natureza, cantar Sting para os lírios orvalhados dos campos. Tinha saudade das conversas que não teve com seu pai. Quem sabe perguntar como fora pra ele viver duas gerações antes de ser seu pai. Ele que vira nascer o rock’in roll comportado de Elvis Presley. Esbarrado nos anos oitenta, tempos da eletrizante geração Coca-Cola, de Rita Lee e Cazuza.

“Um grande amor do passado

Se transforma em aversão

E os dois lado a lado

Corroem o coração

Não existe saudade mais cortante

Que a de um grande amor ausente

Dura feito diamante

Corta a ilusão da gente”

Zé Ivan morava numa República com mais três amigos, na Rua Nossa Senhora de Fátima, num primeiro andar. Estudava Geografia em Belo Jardim. Nas noites quentes de verão ia pra Pracinha Dom Fernando Medeiros tomar cerveja com os amigos. Foi naquela praça que conhecera Dayane. Não sabiam, mas viveria os dois, um amor intenso. Como uma maçã cortada que encontra a outra metade. “Apple” a marca do seu headphone era também nome da Banda da qual seu pai era fã. Guardara dele, um disco compacto, que tinha na capa metade da fruta cortada. Com caneta a nankim alguém havia escrito na capa: “Were a British psychedelic rock band. The band was founded in Cardiff in 1968 by Rob Ingram on Guitar and Jaff Harradon bass. They released single LP in 1969, titled “An Apple a Day” E vinham as lembranças, com nitidez de por gosto de sangue na boca. De sua infância, da casa onde morava, próximo a Praça do Pirulito, em Maceió. Com impressionante nitidez a ouvir o barulho do trem. A abalar os alicerces, a tremerem as panelas, no tripé lá na cozinha. O barulho enorme, de dar a sensação que tudo ia desabar. Essa rotina repetida mais de quatro vezes por dia. E o braço da radiola que sequer terminava uma faixa do Long Play que seu pai colocava pra tocar retornava pro início e começava tudo de novo. Ainda menino deitado na cama, Zé Ivan cansou de imaginar o trem, como um gigantesco imbuá de ferro, doidamente derrubando as casas e que a invadir seu quarto. Tantas foram as vezes que adormecera e sonhara esse sonho. A noite caída, uma vermelhidão vinda do tabuleiro, se misturava com o negro do firmamento, trazia o cheiro de tiborna. E a fuligem da palha de cana-de-açúcar queimada enchia os móveis, os quadros da parede duma camada fina e preta. De agosto a dezembro, na entre safra, era sempre assim crianças adoeciam com frequência de constipações e o ambulatório do Sanatório, ficava abarrotado de criança e idosos com problemas respiratórios. Zé Ivan era levado por sua mãe primeiramente no Posto de Saúde ali do bairro, próximo a sua casa. Um médico com cara de alemão nazista. Como que saído daquelas velhas revista Seleções, ou da revista o Cruzeiro, duma matéria do jornalista de guerra Davi Nasser que cobria os conflitos no golfo pérsico, no Vietnã, e estivera na Itália na segunda guerra mundial. Talvez dali se tivesse materializado. Saído duma página de jornal, guardado por seu pai lá no sótão. O médico bastante irritado punha a culpa nos pais pelas doenças dos filhos. E esbravejava, dizia imprecações contra o governo, o descaso com a saúde pública. Num daqueles domingos em que levava a família à praia. Lembrou-se de sua mãe preparando sanduíches e bolinhos de arroz pra levar. Iam à praia de Pajuçara, e tiravam fotos com uma geringonça chamada de Polaroid que produzia fotografias instantâneas. A roupinha de marinheiro, o calção listrado, o maiô comportado os sorrisos de gente feliz. Uma delas flagrou o velho Gogó da Ema, o famoso coqueiro com esse formato.

“Toco a vida pra frente

Fingindo não sofrer

Mas o peito dormente

Espera um bem querer

E sei que não será surpresa

Se o futuro me trouxer

O passado de volta

Num semblante de mulher

Olegário Martins o pai de Zé Ivan, fora funcionário do DNER nos anos sessenta. Um belo dia acabaria transferido pro sertão. Recrutado pra fazer parte da equipe que iria construir a ponte General Tubino, em Santana do Ipanema, obra sobre o rio intermitente do sertão. A redenção para melhorar o fluxo de acesso a Bacia Leiteira de Batalha e Major Isidoro. Aos sábados Seu Olegário levava o menino pro Mercado da Produção. Ia comprar verdura e carne. Um dia, vinham os dois voltando pra casa. Como sempre passavam na feira do passarinho, na banca de revista comprava o jornal. Na tabacaria cigarrilhas. Pro menino, churros um caminhão de madeira branquinha pintado com corante azul e vermelho. Ao embrenharem-se por aqueles corredores escuros e mal-cheirosos um negro mal encarado vindo ao encontro deles empurrou Seu Olegário pra um canto, e anunciou o assalto. Como um raio uma faca peixeira brilhou em sua mão. Seu pai sequer demonstrou qualquer reação, porém recebeu: uma, duas, três vezes… a lâmina cravou-se em seu abdômen. Rapidamente o ladrão rebuscou-lhe os bolsos, e saiu correndo. O menino, estático, em choque. Vendo o pai cair lentamente ao chão, logo uma poça de sangue contornando-lhe o corpo. Cada vez mais aumentando de tamanho. E o mundo rodopiou. E o céu ficou vermelho. Pra onde foi a luz? O céu escureceu. Por que estava acontecendo aquilo? Seria bom se fosse apenas ilusão. O mundo vertiginosamente rodopiando. Quem dera fosse redemoinho de vendavais que dava, no caminho de volta da escola. Alucinadamente o céu não parava de girar. E a realidade era uma dura constatação. Certas coisas deviam nunca acontecer. Deus. Melhor nunca terem acontecido.

Fabio Campos