14 jul

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O MÍSSIL FASHALL (5ª Parte da Saga)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Tudo o que Deus pôs no mundo estava bem ali na frente. O entardecer vinha, com a sua mania de arremedar o dia primordial. Um céu meio trevas, meio luz. O lado obscuro, borrado de farinha de estrela. O lado coral de tangerina, sangrado de dor mortalmente ferido morria, não sem incendiar a parte finita do infinito. O almofadado azul cândido de ruge e chamas não tinha mais nada pra dizer, além do que já havia dito. A estrada, as fachadas das casas magnificamente se amando, e se odiando na mesma proporção e intensidade.Tudo costurado de angústias, delírios, calafrios e neon. O menino que ia caminhando pela calçada da praça da vila parecia visivelmente perturbado. Talvez não acreditasse que ao fim do dia pudesse recuperar a paz interior. A grande estrela inflamada, como uma imensa lágrima incandescente, calma e lentamente ia caindo. Pra detrás da montanha de esconder esperanças, frustações e o rabo dos dias. Tudo havia sido terrivelmente rápido, incrivelmente aterrador. E era tudo tão sobrenatural. Estava-se, pelo menos, a uns três trilhões de anos-luz distante do que se podia considerar real.

TagorFashall, mil vezes por segundo, rememorava o que acabara de suceder. A cada vez que lembrava um novo detalhe se destacava. O por do sol, as crianças brincando no parque, nada daquilo cabia na sua cabeça. No momento sua mente totalmente se ocupava com o que acabara de suceder na casa de Dário. Aquele gato enorme, agigantado diante de si, ainda mais ao pegá-lo em flagrante. Seus imensos olhos acusadores lhe encarando, teve que agir, e agiu. Com a astúcia de uma cobra, cuidadosamente colocou o medalhão no chão. E como um lince partiu no encalço do felino que acabara de se tornar seu alvo e sua presa. O ódio, só ele é capaz de dotar um animal ameaçado, de qualquer espécie, de poderes estupendos. E aquele menino teve agilidade, astúcia e força nunca antes experimentada, pra alcançarnum salto descomunal o pobre e indefeso bichano. Assim que o teve entre as mãos torceu-lhe o pescoço. O estalo de vértebras se rompendo daria ainda pra se ouvir um pequeno grunhido e só, estava morto. Teve ainda sangue frio suficiente para pendurá-lo pela coleira, num galho dum pé de manga próximo ao muro que havia no fundo do quintal. Para dar ideia de que o infeliz tivesse acidentalmente se enforcado.

Os homens-répteis do espaço ainda não haviam conseguido o seu intento, de angariar todo ouro do subsolo da ilha, e que pretendiam levar pro seu planeta Urano. Resolveram então preencher o tempo fazendo um estudo aprofundado de como era a vida na terra. De modo particular na ilha. Começaram a catalogar os seres vivos ali existentes. Mais de mil espécies de pássaros foram registrados. Os tentilhões eram maioria. Cada um com suas características e particularidades: bico, plumagem, tipo de alimentação, reprodução. Acabaram descobrindo alguns que não eram da ilha, mas que migravam de muito longe até ali somente para se reproduzirem. Como a ilha possuía muitos rochedos nas encostas, os extraterrestres se divertiam com suas armas fantásticas produzindo esculturas gigantes de suas próprias cabeças. E os totens colossais na pedra lapidados eram levitados e colocados enfileirados na encosta da praia, como guardiões da ilha olhando pro alto mar. Os nativos reverenciavam um deus chamado de Tangata Manu que na língua local quer dizer “homem-pássaro”. Rezava uma lenda que num ano muito distante, houve uma grande erupção vulcânica do temido vulcão RanuKau. Uma profetiza por nome de Moto Nui, no mês de setembro daquele ano, foi até a praia, fazer orações para pedir aos deuses que se apiedasse do seu povo, e parasse de vomitar fogo sobre suas plantações, que providenciasse peixes pras armadilhas dos pescadores. E eis que naquele instante no céu apareceu um homem dotado de asas seguido de uma nuvem de pássaros. A um sinal do homem-pássaro as aves puseram centenas de ovos numa ilhota próxima, e foram embora. Isso foi a redenção dos nativos, tiveram muitos dias de alimento nutritivo com fartura. Desde então todos os anos os pássaros vinhama ilhota que passou a se chamar de Moto Nui.O chefe Zulu criou a festa do Tangata Manu que passaria a acontecer todo ano, no mês de setembro que culminava com uma competição. Sempre no início da primavera quando as andorinhas do mar vinham depositar seus ovos na ilhota de Moto Nui e voavam de volta para o continente. A competição era marcada por uma grande festa que tinha início na Vila Orongo, que ficava na beira da cratera do vulcão RanoKau. Cada clã selecionava um representante, um bravo guerreiro, que devia nadar até a ilhota de Moto Nui distando da ilha cerca de mil pés náuticos. Deviam encontrar e capturar um ovo de Andorinha do mar, nadar de volta, pelo lado sul da ilha,escalar o penhasco, e retornar a aldeia. O primeiro que chegasse trazendoum ovo de Andorinha do mar e o entregasse intacto ao rei Zulu, seria então nomeado “Tangata Manu”. Comdireito a escolher uma virgem pra se casar. E passaria a chefiar os guerreiros da tribo por um ano, até que houvesse a próxima competição. O vencedor recebia as graças e bênçãos de Iva-Atua a profetisa.

A briga do Tiranossauro rex e oCoendouprehensilis abalouas estruturas da caverna. Estrondos horrorosos davam pra se ouvir a quilômetros de distância. Pra piorar a situação, o míssil com a inscrição FASHALL, estava na iminência de explodir, caso as paredes do portal que ruíam caísse sobre ele. Tudo era possível naquele momento. Os amotinados se mobilizaram para colocar o artefato bélico longe do perigo. Tarefa nada fácil, pois mal conseguiam se firmarem em pé. Afinal dois seres ferozes travando uma luta mortal fazia toda a ilha tremer. E os tremores sacolejavam tudo, de um lado para o outro. TagorFashall e Antonieta chegaram ao portal. Marcos e Derick do alto de uma elevação observavam os acontecimentos.

Antonieta abriu o “Livro do Reinado de Azeroth” na página 364 continha as instruções de como montar um míssil, e nas páginas seguintes como desmontar. Incrível como um livro milenar contivesse instruções de como fazer e um foguete de guerra tão recentemente criado. Os escritos estavam em aramaico.Além do que se utilizava de vasta simbologia dando margem a interpretações dúbias.Faltava ainda esclarecer informações como o que era ou quem era o menino-gato? E quem seria o homem-pássaro? Seguindo as instruções do livro TagorFashall conseguiu decifrar parte do texto o que o levaria a esta conclusão:“Este é um míssil do tipo exocet, versão MM40 block I; Alcance 70km de distância, a uma velocidade de 1.100 km/h; possui ogiva a base de nêutons de 365 megatons de potência, pesando 165 kg só a ogiva; seu peso total é de 855kg; Comprimento 5,8m; Diâmetro: 0,35m; O sistema de guiamento e radar ativo.”

Pondo uma das mãos sobre o artefato TagorFashal fechou os olhos, e teve uma visão de como aquele míssil fora parar na ilha. Exatamente no dia 17 de maio de 1987, durante a guerra entre o Irã e o Iraque. O exército iraquiano no início do conflito em 1984, lançava mísseis de helicópteros modelo SuperFrelon. Tempos depois, do exército francês, arrendou cinco SuperÉtendard muito mais velozes e eficazes, com maior capacidade de ataque. Aquele fora um dos 1.350 mísseis lançados naquela guerra. Exatamente um dos que fora disparado contra a fragata USS Stark da Marinha dos Estados Unidos. Por um problema no sistema de acionamento não detonou. Não até aquele exato momento.

Fabio Campos 23 de junho de 2015 (Continua…)

Aviso do Autor: Daremos uma pausa nesta Saga TagorFashall (5ª Parte) voltaremos com a brevidade oportuna.

26 jun

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“EPIDEMIA” 4ª Parte Da Saga deTagorFashall

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Lá estava Antonieta, sentada a um tronco decoqueiro, caído na preamar. Nas mãos um livro velho, de capa dura, revestida de pano. Cuja gravura ao centrotrazia o desenho duma ilha, com algumas construções suntuosas, cercada de floresta. Tudolimitado por um mar que cabia inteiro num imenso tacho,sustentado por três baleias. Enquanto dois elefantes, um de cada lado, atados por cordas as alças do tacho, puxavam em sentido contrário.Era o “The Book oftheAzerothReign”

Aquele livro continha a história da ilha e do tesouro perdido. De alguma forma TagorFashall e Marcos tinham que se encontrar. Era preciso. O menino que sempre aparecia no seu sonho, era provável que ele tivesse, mesmo sem saber, poder para descobrir o dispositivo que acessaria a sala do tesouro perdido da caverna. Ao ouvir os rumores que vinha do lado oposto da ilha, teve certeza que outra catástrofe se avizinhava. Com nitidez em relampejosvinham acontecimentos de mil anos antes. Viua formação da ilha quando ocorreu o cataclismo chamado de “O Grande Rompimento”, que provocaria a destruição da Fonte da Eternidade. O que acabaria dividindo a terra em quatro continentes. Separados pelo imenso oceano em cujo meio se situava a ilha de Kalimandor. A vinda dos estranhos seres do espaço, em suas carroças de aço. Cavalgando o ar sem tração de camelo ou elefantes. Apenas empurradas pelo hálito de Zeus. Tudo aquilo já havia sido previsto, pelo grande mago Fronzen do reino de Warcraft, escrevera no livro secreto, aquelas aparições que finalmente se tornaramreais. A grande peste negratambém profetizada constava do livro do rei. Dizia que o contato dos nativos com os estrangeiros que levitavam nas carruagens de lata causaria o surgimento de uma praga, uma peste que ceifaria a vida de todos os habitantes da ilha. Todos que tivessem qualquer tipo de contato com os alienígenas contrairiam a doença. E todo aquele que fossem por eles tocadosse transformavam em mortos-vivos. Zumbisdos aliens, totalmente dependentes, física e mentalmente.

Os homens mausfrequentavam a sociedade da corte, os salões dos palácios reais. Sem nunca se misturarem com gente da classe baixa,a plebe. Os únicos pobres que ainda mantinha contato com a nobrezaera a criadagem. Mesmo contra a vontadeporque precisavam dos serviços deles. Acreditavam que isolados do contato com a gente dos burgos e feudos jamais contrairiam a peste negra. Estavam,infelizmente, enganados. O objeto de maior desejo de uma criança de outros tempos era uma bicicleta. As mulheres com seus filhos e suas amas iam pros jardins de delícias do palácio. Ali havia enormes pomares, labirintos gigantes. Parques ornados de plantasde magnífica beleza, trazida de diversas partes do mundo. Aves exóticas de cantos maviosos, encerradas em gaiolas de fino requinte. Fontes de águas dançantes, cascatas de águas de cores diversas, diáfanas. Arco-íris que remedava o jardim do éden. Carroceis dotados de cavalos de verdade. Cavalos árabes, noruegueses,escandinavos, cujas patas maravilhosamentecoroadas de longos pelos negros. De crinas lustrosas, sensuais, femininas, sibilantes ao vento. A medida que o lastro redondo rodava, uma música de realejo suavemente deixava-se ouvir ese ouvia. Meninas com seus rostinhos ingênuos, rechonchudos. O excesso de guloseimas consumidassobrecarregavam seus lindos vestidos. E era como se estivessem sendo levadas para serem batizadas, tendo as amas que fazer de tudo pra mantê-las impecavelmente limpas. E como gostavam de passearem de gôndolas no imenso lago azul. Onde enormes cisnes e garças, que mais pareciam feitos de gesso, como de propósito,faziam poses para que o fotógrafo lambe-lambe pudesse compor melhor, a solene foto da família. Tudo seguindo rigidamente o tradicional modelo patriarcal. O pai ao centro, sentado convenientemente numa cadeira de vime pintada de branco com apoio pros braços, rodeado da sisuda prole. A matrona trazia o primogênitoao colo. Olhava com seu olhar sereno, de mulher que cumprira fielmente a função dada por Deus de procriar. Solícita posava, pelo marido, pelos filhos, pelo mundo, pra posteridade. Aquele olhar que disfarçava como podia a tristeza da difícil tarefa de ser o que era. Sem conseguir completamente esconder por cima das sobrancelhas arqueadas, um possível sorriso de Gioconda.

Naquele tempo, já os homens facínoras maquinavam contra o bem comum, contra suas próprias mulheres, contra si mesmos. Muitos foram os que foram dizimados pela peste negra. Uma doença misteriosa que bestializava as pessoas. Iniciava com uma febre persistente, avançava pra convulsões, alucinações, ataques de fúria. Os portadores acabavam de forma horrenda, apresentando pústulas. Por todo o corpo,feridas que secretavam líquido purulento e mal cheiroso. As carnes se diluindo como se o corpo estivesse derretendo. Dissolvendo sem que nada pudesse ser feito para reverter tal situação. Como se os doentes por um ácido terrivelmente destruidor estivessem sendo corroídos. Muitos, foram os quenão tiveram essa sorte, acabaram destroçados a dente, ou esmagados debaixo dos pés do terrível monstro surgido das profundas da terra. O grandedinossauro, o devastador, o tirano,“O sauro, o rex”.

Os homens malévolos descobriram que a disseminação de doenças era um achado. Todos saiam lucrando: donos de funerária, donos de boticários, alquimistas, vendedores de xaropes. De tudo fazia o governo para manter imunes, livres da moléstiaos que detinham título de poder,os da nobreza. Nas santas escrituras se amparava a igreja dizendo que os sinais dos fins dos tempos haviam chegado. Nessa época surgiram os remédios manipulados pelos curandeiros e magos. Oxarope Coca-Cola foi um deles, criado pelos ameríndios no sopé da cordilheira andina, em terras bolivianas. A América o receberia como um excelente tônico contra todos os tipos de males, a baixo custo. O placebo se popularizou, mundo afora se espalhou. Somente muitos anos depois assumiria ser o que sempre fora, um refrigerante. Mas sustentaria até os dias da atualidade o termo xarope. Aqueles acabaram descobrindo que inventar novas doenças era um bom negócio.

Um importante médico do Reino Unido Dr.Shadwell, em extenso artigo publicado no periódico “News London” declararia sobre o perigo das mulheres andarem de bicicleta. A matéria correu mundo causando grande polêmica. O médico advertia que “o ciclismo era um modismo que não devia ser incentivado, e principalmente evitado pelo sexo feminino, sob o risco de se tornar uma grave doença.” O sintoma era bem claro: a mulher que adquirisse o hábito de andar de bicicleta ficaria com a “Cara de bicicleta”. Outros médicos mundo afora sustentaram a tese do esculápio britânico. Outros sintomas da moléstia da bicicleta foram sendo acrescentados. Diziam que gerava insônia, cansaço, palpitações, dores de cabeça e problemas de depressão. O que de verdade havia nisso? Tudo não passava de jogo de poder entre sexos. De sentir o status social ameaçado. Preconceito machista contra mais uma conquista das mulheres. A bicicleta passaria a ser considerada mais uma arma contra a supremacia masculina. Fundamentada no patriarcado, de séculos de domínio. Sendo ameaçado agora por um brinquedo bobo de criança.

Derick, o gato siamês do país dos sonhos e da fantasia, disse a Marcos que já era tempo dele saber a verdade. Antes que o dia amanhecesse, antes que ele acordasse precisava contar. E contou:“Antes de vir parar na ilha do tesouro,TagorFashall vivia no mundo real, de onde você veio. Lá, ele ainda não havia sido árabe, nem tinha os poderes da longevidade, e da ciências ocultas queagoratem. Naquele tempo, não passava deum menino, chamado Reginaldo,e tinha um amigo chamado Dário. Nascidos e criados no sertão nordestino. Por toda infância foram muito amigos. O destino cuidaria de separá-los. Dário foi pro sul, fez um teste num time renomado, tornou-se jogador de futebol profissional. Ganhou muito dinheiro ficou famoso. Quanto a Reginaldo jamais saiu da cidade que nasceu e vivera. Toda uma vida de dificuldades viveu. Acabou se casando e continuou a viver, vidinha mansa de cidade de interior. Tornou-se vigilante de uma escola e criava galos de briga. Quanto a mim, nunca fui humano, sempre fui gato. Lá no mundo real, eu era o bicho de estimação de Dário. Foi na infância deles que o crime de TagorFashallocorreu. Os meninos estavam na casa de Dário. Eu vivia a última das minhas sete vidas. Dário pela mãe foi levado pra tomar banho, enquanto Reginaldo sozinho ficou brincando numa área coberta do quintal. Entre os brinquedos do amigoReginaldo acabou encontrando um medalhão dourado. Era um belo amuleto reluzente que o deixou fascinado. Resolveu apropriar-se do objeto. Quando ia meter a medalha no bolso, percebeu-me lhe encarando firmemente.”

Fabio Campos 16 de junho de 2015 (Continua…)

22 jun

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O Crime de TagorFashall – A Redenção (3ª Parte)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Um ser incrivelmente grande,e perigosamente destruidor, vinha vindo naquela direção. Eo menino Marcos, do nada surgido, no meio da floresta. De repente, um gato siamês passou correndo. Aquele gatoera Derick! Tinha certeza! Pela tonalidade do peloo reconheceu. A ponta das patas o focinho queimado. Debaixo do solàquela hora do dia. Ainda mais bela eacinzentada ficava sua pelagem. Gatos que já havia morrido, a sair correndo do meio da selva. Fugindo de algo que trazia medo. Normalmente isso só aconteciaem sonho. Certeza teve que sonhava.

A vila, e suas casas caiadas de branco. Aqui acolá, uma casa de outra cor. Azuis azulejados. Amarelos alaranjados, duramente de sol azougados. As ruaslargueadas, tão espaçosas a ponto de tornar nanico tudo que ficava do outro lado. E acabavam levando tudo pra outros tempos. Um tempo em que o estilo de vida era chamado de colonial, e os modos do povo, feudal. Homens carreando carros de boi. Deles que açoitavam tão violentamente os pobres animais que os patrulheirosda guarda florestal intervinham, e coibiam severamente os excessos. A roda de pau e ferro, cantadeira, ia carimbando o barro batido. Enfeitando o chão com o par de fitasmacarroneando a estrada. Entremeadas de conchinhas dos cascos bipartidos. E se esticando, esticando, pra onde só-quem-sabe-é-deus. Charretes puxadas à mula levavam e traziam senhores edamas belamente trajados. Elas,em vestidos de muitos laços, anáguas e babados. Eles, de ternos, gravatas borboletas, cartolas cobrindo longas madeixas. Lenços em tons pastéis, no bolso do peito. Bengalas nas mãos de luvas, e as pedras dos broches na lapelaflamejanteferiamos olhos dos passantes, as lentes dos óculos do barão. O brasão em latão, no alto do prédio do governo municipal. Os estribos da carruagem apoio pras botas lustrosas, dos sapatinhos forrados de fitilhos e sianinhas. Aodescer corriam a se proteger da poeira, da lama,e do sol. Sombreiros atrozmente sérios, armados com gestual excessivamente túrgido de polidez. As montanhas foram pra tão longe que os olhos marejavam de tristeza só de olhar. Pra onde levaram o rio? Lembrou do rio que passava por detrás das casas. Por que o sol mudara o lugar aonde ia se por? Rio temporárionaquele tempo não estava seco porque era inverno. Areal aboletado de cansanção, mancambira, facheiro, maniçoba. Os verdes vistosos mandacarus sabiavam Sabiás Laranjeiras. Colibris borboleteavam doidos pra se deleitar nos peitos cor púrpura. Espinhos longos, pontudos, sangrariam sem nenhum remorso a garganta, de qualquer tiziu, que se aventurasse sugar o néctar dos seus mamilos.

Um condado mexicano, de tanta brancura nas coisas que estavam no chão, ou pairando no ar, no céu azul, nas nuvens. Na taberna que TagorFashall bebeu vinho. No mundo dos sonhos ninguém tinha a menor ideia do que iria acontecer no momento seguinte. Derick era cinza, pertode meio dia ficava azulado, e totalmente negro de noite. Um apartamento cor de rosas vermelhas, encimado num primeiro andar. Em baixo ficava a garagem. Lamparinas pendidas do teto, em silêncio, àquela hora da matina, pra não acordar os pirilampos. Uma escada tão perpendicular, e tantos degraus, que se não tivesse cuidado levava Marcos até o portal que dava acesso a ilha. Para tanto,bastava chegar da escola dormindo. Já havia esquecido porem, ao ver novamente acabava lembrando. Aquela estrada que ninguém sabia de onde vinha, nem até onde ia dar. Aquela estrada que todo dia passava e levava um velho puxando uma mula, igualmente velha. Tinha agora mesmo que recomeçar. Mas por onde mesmo começar? Pelo livro que Antonieta lhe dera. Ele não demoraria a descobrir que aquele não era apenas um livro. Era um livro mágico.A mãe de Derick aproveitou quando Rafael Bertrand montado na sua motocicleta barulhenta entrou na garagem esorrateiramente entrou também. Ninguém sabia mas ela estava prenha e acabou tendo ali sete gatinhos acontece que deixou ali somente dois.

Chiclete e Bola de gude foi os nomes que Marcos colocou nos dos dois gatos naquela manhã antes de partir para a ilha do tesouro. Naquele exato momento Marcoscorreu e alcançou Derick e agora os dois conversavam na entrada da gruta do Santuário. Falavam do trovão e da parede que o grande dinossauro derrubou quando passou. Semelhante a destruição de um rio quando dava uma enchente. Destruiu todo o acampamento dos amotinados. MorionLucindo voltou pra vila, ÉmilePassion ao vê-lo desmaiou, seu velho pai voltara da terra dos mortos. Os aldeões iam na oficina só pra ver com seus próprios olhos. Morion somente na aparência parecia o mesmo, porque no agir era totalmente outra pessoa. Sobre o mundo dos mortos contou uma história:

O Grande Dinossauro atendendo um chamado dos alienígenas foi pras profundas da gruta para abrir com sua força um buraco até a sala do tesouro. Pra chegar até lá Arrastou o acampamento, destruiu tudo que via pela frente. Acontece que o dinossauro acabou encontrando um Quandú gigante hibernando dentro de sua toca. O Quandú acordou furioso e os dois se atracaram foi uma briga feia.

10 jun

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O CRIME DE TAGOR FASHALL – A Ilha(2ª Parte)

Ilustração (Fábio Campos)

Ilustração (Fábio Campos)

Tagor, e a praia. Tanto tinham pra descobrir um do outro. A faixa de terra, aos confins da terra indo. O cabelo de Antonieta gritava ao vento, almejando mesmo infindo mundo de areia. Os olhos, porem jamais alcançariam. Coqueiral feito pingente espetando o céu de longos palitos, marrons. Ostentação de buques, exuberância de palmas verdes. Cachos frutíferos de alvas polpas, dente de leite, de caldo salubre. Embora não parecesse, havia civilidade, havia vestes de bordados, vestes de muito esmero. Seu perfume tinha um quê de selvagem. Fio de fina poeira, batizando de sal, e de sol, o dia. O mar declamando poesia ao vento de barcos e jangadas, que nunca atracavam. O mar, recitando versos, de marinheiros que jamais pisaram terra firme. O mar, de piratas e corsários que viviam buscando tesouros perdidos. Tesouros guardados por espíritos de gente morrida de morte atormentada. E não satisfeitas, nem conformadas com a partida adiantada, jamais aceitariam que viessem buscar o que sempre lhes pertencera.

Os meninos das bicicletas. Do nada, se perceberam que velhos estariam ficando. Cinco, sete e nove anos tinham, quando se deram conta disso. E quedaram de tristeza, ao descobrirem que os velhos eram pessoas tristes. E desejaram do fundo de suas almas jamais ficarem grandes, e velhos. E ter que assumir destinos que fizesse com que ficassem distantes uns dos outros. E nunca mais se veriam, não como antes. Por ocasião das festas do padroeiro da vila, quando tivessem oportunidade, ao se verem, disfarçariam, baixariam a cabeça, olhariam pro lado contrário. E tristemente seguiriam seus pobres caminhos. Sem o menor escrúpulo a sepultarem meninos vivos. Por asfixia morreriam seus pobres coraçõezinhos. Aqueles meninos precisavam conhecer TagorFashall. Com ele buscariam o que mais queriam, o segredo para chegar a ilha da eternidade. Onde eternamente meninos brincavam na praça. Onde eternamente seria o para sempre de suas vidas. Marcos, João e Lucas iam pra escola. Lucas estudava em duas escolas. Uma na vila, e outra que ficava num lugar além do que permitia seu entendimento. Nenhuma ficava perto de sua casa. Tão distante que ele pensava que talvez não existisse, porque tinha que acordar muito cedo e saía de casa praticamente dormindo. Escovava os dentes dormindo, tomava café dormindo, entrava no ônibus dormindo. E sonhava que estava indo. Por isso considerava que uma escola era de verdade e a outra só existia em um mundo onde não havia homens, nem velhos. Somente meninos sagazes como TagorFashall.

Um bando de facínoras avançava pela praia. Não viam os meninos, os meninos no entanto os viam, dentro dos seus sonhos. Naquele entardecer da cor de sangue, de olhares aflitos, com vigor avançavam os homens ferozes. TagorFashall também os via. Dispostos a lutar, até a mortelutariam. Ainda que pela sétima morte consecutiva, lutariam. Contra os espíritos guardiões de segredos, de ricos tesouros, de sonhos de aventureiros, escondidos. Sonhos possuidores de forma e luz, não muito bem definidas. E era tanto brilho que punham-nos cegos, cegos de furor e ambição. Tagor e Antonieta estavam lá. E porque se ocultaram não foram vistos. Muito perto de descobrir o mistério do terrível monumento. A estátua de MutunoTutuno. Para não se tornar prisioneiro eterno da caverna, o segredo era não encarar o tontem talhado na pedra, no interior da caverna. Ele estava lá no meio da floresta, da ilha que abrigava suntuosa riqueza em ouro puro! Ao ficar de frente a estátua do bisão de bronze empinando as patas dianteiras o pênis ereto. Nenhuma mulher devia fixar os olhos, nos olhos de pedras de jaspe do deus MutunoTutuno pra não ser por ele enfeitiçadas. As virgens que pretendiam se casar, naquele ano, tinham que passar pelo ritual pré-nupcial. Sob uma espécie de transe, eram obrigadas a serem desvirginadas fazendo sexo com a estátua de MutunoTutuno.

Tagor sabia que em algum lugar daquele altar de sacrifícios, havia um dispositivo escondido. E que ao ser tocado abriria o portal que daria acesso à sala do tesouro milenar. Ele viu em sonho, era uma montanha de peças em ouro fundido. Pertences reais, de toda dinastia de imperadores Inca. Urnas mortuárias guardavam cabeças de nativos mumificadas, ossos de animais selvagens, carcaças de javalis, entre os caninos exibiam ossos humanos. Estendidos feito varais um hieróglifo feito de cordéis enlaçados, narrava uma epopeia de luta entre desbravadores e nativos, acontecido a dois mil anos antes daqueles dias. A gênesis de tudo, dos povos andinos. A narração em versos encerrava porem um código de acesso. Era preciso traduzir a narrativa escrita num dialeto Inca, depois juntar as quintas letras de cada palavra, uma mensagem seria decodificada, que revelaria onde se encontrava o tesouro encantado. Uma maldição porem, cairia sobre aquele que na tentativa de decifrar, falhasse um sinal sequer que fosse. Imediatamente entraria num processo de decomposição, e mumificação. Maldito tesouro encantado! Não fora a civilização que escondera o mistério como muitos acreditavam que fosse. Tagor temia apenas uma coisa, que os alienígenas encontrassem primeiro que ele o precioso relicário, do vil metal.

O bando acabou chegando à entrada da caverna. Não sabiam, mas a trilha que seguiam levaria a um imenso vão que parecia uma espécie de estaleiro, e laboratório. Aonde seres alienígenas realizavam pesquisas. Tagor a beira dum regaço, viu o interior da caverna se refletindo no espelho d’água. Viu MorionLucindo trabalhando junto com os alienígenas. Entendeu que os homens do espaço o trouxera da terra dos mortos, porque tinha conhecimentos sobre metais. Além do que leram em sua mente a história do tesouro. Nem todos os motinados haviam entrado na caverna. Deles que ficara montando vigília num acampamento próximo a entrada da gruta. Os que haviam entrado, secretamente espiavam os extraterrestres, que realizavam estudos em cadáveres de nativos. O calor, o mau cheiro dos seus corpos, acabaria denunciando a presença dos intrusos. Não teve como não haver luta. Uma luta desigual, desumana. Pobres amotinados atacaram com o que tinham espadas, adagas, porretes. Enquanto que seus adversários, possuíam armas poderosíssimas, capazes de desintegrar um homem em milésimo de segundos.

O primeiro encontro de Tagor e Antonieta foi a coisa mais linda que o mundo um dia pode presenciar. Por um bom tempo permaneceram calados, enlaçados. Como se dois corpos fosse um só. Pareceu o momento da Criação. Primeiro homem, primeira mulher, por Deus, na areia da praia moldados. A pele granulada de quartzo e frio, ainda guardava o cheiro, como de sabonete Alma de Flores depois do banho. O perfume passeando sobre as unhas, de dedos longos exploravam vastos e perfeitos montes dos seus corpos. Narinas e pupilas dilatadas. Nada, nada daquilo tinha de comum. Suas roupas largadas, pacientemente esperavam. Os cílios intumescidos, molhados de amor. Olhavam pro alto mar, sem precisar de resposta alguma. Até porque não queriam, nada mais interessava. A bela moça não era mais menina, não era mais criança. Nunca, jamais fora.

A grande máquina dos homúnculos do espaço, através do ouro como matéria prima, produziria um elemento químico que seria útil no planeta Urano donde vieram. Pelo menos dois mil anos-luz distando da terra. Tinham que levar pra seu planeta todo ouro que encontrassem no subsolo da terra. Os Uranianos tinham a aparência, um misto de gente e de répteis gigantes. Mediam cerca de dois metros de altura, e suas mãos e braços se alongavam feito línguas de sapo, sempre que quisessem. A máquina de fabricar Megano ficava bem no centro da gruta. Dotada de centenas de painéis com luzes piscando, braços mecânicos, piças biônicas, roldanas cibernéticas, e coroas dentadas. Uma luz de cor verde emitida como um raio quase invisível subia até o firmamento. Um elo de ligação com uma nave-mãe, suspensa muito acima da extratosfera. O bando que ficara na entrada da gruta, nada sabia do combate em que seus companheiros se envolvera, e que foram praticamente dizimados. Sob a luz da lua realizava o ritual do milho, uma dança de agradecimento ao deus Zea May, faziam uso de plantas alucinógena. Também mastigavam a folha cujo sumo provocava uma dormência na boca e tinham visões fantasmagóricas.

O menino Marcos, o que tinha cinco anos, de repente estava lá. Bem no meio da selva, sozinho. Como tinha ido parar lá sinceramente não sabia. Certeza não tinha se era tudo real, ou se se tratava de sonho, a caminho da escola, no banco do ônibus escolar dormia. Marcos, já conseguia ler as primeiras palavras, e leu: “F.A.S.HALL” no bojo metálico do míssil que jazia no início da escadaria do templo. Na verdade uma sigla, que significava: “Tudo pela Força Aérea da Sérvia” O míssil, o templo, a ilha, o que de real havia naquilo tudo, além dele? Uma coisa entendia precisava encontrar Tagor. Pensou que o melhor que fazia era fechar os olhos, e voltar pra dentro do seu sonho de verdade. E claro, torcer pra não mais acordar naquele lugar. Algo gigantesco que provocava tremores compassados no chão se aproximava. Monstruosos o suficiente para destroçar árvores enormes com facilidade espantosa. A muito, encontrar um dinossauro, era tudo o que mais queria. Jamais considerando, no entanto, aquele, lugar, nem momento, pra que isso acontecesse. É sempre assim, quanto mais uma coisa negamos, mais o universo conspira pra que aconteça.

Fabio Campos 02 de Junho de 2015. (Aguarde, Continua…)

01 jun

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Tagor Fashall “O Crime” (1ª Parte)

Na rua que um dia existiu,meninos brincavam. Corriam em suas bicicletas. Na praça brincavam, e pressa não tinha. O céu de nuvens chuvosas, dizendo cinza, e vinham. O que do alto estava prometido pra vir,decerto viria. E, os sonhostodos dos homens. Muitos deles, jamais se concretizariam.E quando as coisas não davam certo como haviam sido planejadas, outras metas eram traçadas. Debaixo do calçamento das ruas, nos recônditos dos becos escuros. Alegrias que um dia alguém sonhouse escondiam. Brincadeiras de crianças, que bem fundo o mundo sepultou. Muito baixo dos paralelepípedos jaziam. Lá aonde as cigarras dormiam seus sonos letárgicos, a esperarema outra estação, e só então cantariam.

A Taberna ficava de esquina. Pelo menos dois séculos de distância separava a aldeia dos meninos das bicicletas. O balcão de madeira escura, com o tempo daquele jeito,ainda mais escura se fazia. Afaca e o queijo branco no prato. Uma taça de vinho tinto, não deixava dúvida, tudo estava lá. O candelabro pendido do teto. Um par de olhos verdes conseguia sentir aquele cheiro. O estampido da rolha tirado do gargalo tinha solene importância. Pulmões inalando, cérebro incendiando, com a chegadado líquido de cor púrpuraao estômago. Na primeira porta que dá pra rua, o homem com vestes de alguém que viera das arábias, se havia. Um turbante escondia a cabeleira valorizando ainda mais o vasto bigode. Uma adaga na faixa de pano da cintura.TagorFashall tinha um cavalo chamado Pompadour. O havia deixado com um cuidador, no estaleiro do cais do porto. Olhava fixo. Fosse o que fosse, olhava fixo.Aquele era olhar, de quem procurava. A aldeia de ÉtoleChavalier amanhecera com um habitante vivo, a menos. O pai de Emile Passiono ferreiro da aldeia, tinha sido morto. Uma semana antes MorionLucindorecebera a visita de seu sobrinho Rafael Bertrand, que teria ido buscar um elmo, a muito encomendado. Conversaram sobre uma herança de família. O jovem como tio confabulou sobre os papeis de um lote de terraspertencente a seus pais já falecidos. Porem não teve resposta a contento. O tio apenas contou-lhe uma história,na verdade uma fábula. O rapaz teria ido embora, e no outro dia o ferreiro estava morto. A presença de Tagor na aldeia por ser estrangeiro, levantou suspeita. Ainda mais porque também ele tinha estado na estribaria de MorionLucindo.

A fábula que o velho ferrageiro contou foi esta:“Meu querido sobrinho, de longe tenho acompanhado a vida que tu tens levado desde nascido até agora. Muito triste fiquei ao saber que ao adquirir a juventude abandonastes a vida do campo, em que vivia com seus pais, e teus outros dois irmãos. Fostes habitar um principado onde o luxo, as posses e a riqueza acima dos valores morais sempre foram colocados. Ali nunca se dera o valor que um homem realmente tem, ainda mais se somente virtudespor possetivesse. O que tenho a dizer-te sobre as terras pertencentes a teu pai, é o que um nômade árabe certo dia contou-me bem aqui sentado nesse banco, disse-me: Um velho lavrador tinha três filhos. Após ficar gravemente enfermo e sentindo que iria morrer, chamou os dois filhos que nunca o abandonara a cabeceira de sua cama, assim lhes falou: -Meus queridos filhos, sinto a morte rondando os meus dias. Teu irmão vaidoso que um dia partiu, nunca voltou. Jamais mandou notícia alguma,nem sei do seu paradeiro. Quero dizer que toda fortuna que possuo e que deixarei por herança a ser repartida em parte iguais, são estas terras que herdei dos meus pais,e que, espero continuem a cultivá-las. Quando vocês eram pequenos de muito longe, veio a mim, um mago que atendia pelo nome de TagorFashall disse-me quecom essas terrasteve um sonho. No seu sonho via, a dois pés de profundidade, em algum lugar que não soube determinar onde, havia um tesouro enterrado. Desde então pus-me a procurar. Não tive a sorte de encontra-lo, porem espero que vocês continuem cultivando porque o tesouro é encantado. E poderá surgir num lugar onde eu mesmo já devo até ter cavado, sem lograr êxito.”

TagorFashall queria muito entender porque o fato de olhar pra aquela senhora da sombrinha causava-lhe certa comoção. Talvez lhe trouxesse muito fortes recordações. Issosentia que lhes vinha. Aquela mulher de vestido longo, passeando na praça. Um penteado suntuoso que lembrava Pompadur. Debaixo duma sobrinha branca de belos bordados, tão graciosa. Enquanto ia o calendário andando pelo menos dois séculos para trás. E aquela tarde que até então parecia desarmada de graça, vindoa moça da sombrinha, mudou tudo. Três meninosiam andando de bicicleta. JoanaAntonieta nascera menina pobre, num bairro afastado da cidade, perto da igreja de Santo Eustáquio. Vivia-se uma das maiores crise de recessão, os governos indo a banca rota. Quebrados literalmente aumentavam os impostos. Os campos rurais também enfrentava uma de suas maiores crises climáticas e de desabastecimento. Senhora Luiza Madalena mãe de Antonieta viuvara, pra não morrer de fome,fugira do campo indo viver de bicos na periferia da cidade. A língua da rua falava de sua modesta casa, que virara casa de prostituição. Muitos homens, alguns influentes outros nem tanto, estariam ligados ao seu nome. O estilo de vida da madame não condizia com a presença duma criança carecendo de ser criada e educada nos princípios da fé cristã. E Joana Antonieta foi mandada para um ambiente mais saudável. Foi enviada para um Internato das Irmãs Ursulinas, a pouco mais de seis quilômetros da capital tida e conhecida como “Terra das Águas”. A menina por toda sua infância permaneceu lá. Devido a doenças a que tivera na primeira infância, também o fato de não ter sido amamentada tinha saúde que inspirava cuidados. Quando completou quinze anos de idade teve uma pneumonia que quase lhe tirou a vida, passou seis semanas de cama. Quando se recuperou, por direito, foi visitar sua mãe. Sua mãe ficou encantada ao ver em que havia se transformada sua pequena Antonieta. Uma moça de muito encanto, dotada de beleza incomum para as moças de sua época. O olhar sagaz, inteligente de quem entendia a vida, de quem já sofrera. Alguém de coragem e ambição não se deixar abater com qualquer derrota,inteligente o suficiente pra não se deixar enganar facilmente. Alguém que entendia e encarava o mundo como algo imprevisível, e perigoso.

Três meninos de bonés bufante, em sóbrias bicicletas negras, pedalavam na praça. Sobre selins de couro, suplantados em molas. Enormes guidões niquelados, abruptamente arqueados, pneumáticos de aros enormes. TagorFashallnoutra dimensãobuscava uma propriedade pertencente a seu tio, na verdade uma ilha. Estivera na vila para adquirir mantimento, conversar com pessoas quem sabe fazer amizades. Joane Antonieta sobre si,sentia o olhar daquele homem, e indo graciosamente ia. O intendente deu ordem a um guarda que levou intimação para que o árabe imediatamente comparecesse a cadeia pública. Depois de interrogatório acabou preso, acusado de suspeito de matar o ferreiro. Fashall até entendia que o fato de ser estrangeiro, e ter estado na estrebaria do ferreiro mesmo à muito tempo, colocava-o na condição de suspeito de assassinato. Não achava justo, no entanto, ser acusado de matar um homem a quem jamais vira, além do que, motivo algum teria para cometer tal crime. Acontece que Rafael Bertrand teve a ideia dum álibi perfeito,ao perceber o quanto o forasteiro tinha de semelhança física com ele. Algumas pessoas viram quando entrou na estrebaria. Horas depois, o ferreiro fora encontrado morto. ÉmilePassion a filha do ferreiro foi chamada para depor, e no seu depoimento confirmou que seu pai tinha, no dia do sinistro, recebido a visita de um rapaz com as características daquele homem. Tudo estava levando para a incriminação do árabe.

Eis que chegou o dia de seu julgamento. Em praça pública ocorriam julgamentos, e em caso de condenação,execução na mesma hora por enforcamento. Nesse dia compareceram o juiz da comarca, o sacerdote, e o intendente. O algoz com sua carapuça. E os meninos brincavamalheios aquele acontecimento até mesmo porque distavamdaquela época. Joane Antonietapediu a palavra. Inquiriu ao juiz se olhando para a praça conseguia vertrês meninos de veste engraçadas, andando em suas geringonças de ferro. Como resposta ouviu uma negativa. Acontece que Antonieta sabia que o juiz, assim como todo o público ali presente tinha aquela visão. O magistradomantinha um caso com a mulher do intendente. Os meninos mesmos, certa vez, viram quando o juiz entrara pela janela do jardim na calada da noite. Cuja sacada era guarnecida por um parreiral.E Joanequestionou ao magistrado: -Àqueles meninos a quem o meritíssimo doutor juiz de Direito, diz não estar enxergando, podem eles serem acusados de roubar uvas do parreiral do jardim do intendente? Se alguém não tiver visto tal crime ser cometido? Todos os presentes ficaram admirados do que viam e ouviam. O juiz entendeu que acabara de cair numa cilada. E não viu alternativa outra a não ser inocentar TagorFashall.

Fabio Campos 26 de maio de 2014 (Na próxima semana continua…)

27 Maio

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FENIX TELÚRICAS

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Três meninas se haviam na praça da igrejinha. Amanda, Jéssica e Veridiana. A um só tempo falavam, falas de meninas tenras. Dos poucos mais de dois lustros de vida confabulavam. De como umas as outras, achavam que estavam ficando, feias, deformadas. E que logo, logo, de tanto caírem-lhes os cabelos ficariam carecas. Do ódio às espinhas que mesmo sem terem sido chamadas se lhes vinham. Dos esmaltes da mamãe que roídos descascavam. Do devotado amor ao chocolate. E de meninos chatos que só queriam saber de futebol. Tudo que emitisse algum reflexo, às suas voltas, acabava virando espelho. E o que mais entendiam era que todas as coisas do mundo deviam render graças as suas existências.

“Eu fui no Itororó beber água e não achei

Achei bela morena que no Itororó deixei”

Amanda tinha medo de borboletas. Melhor dizendo, verdadeira fobia a todo e qualquer isento alado. Outro dia, quer dizer, outra noite, em que faltou energia elétrica, quase provocou um incêndio em casa. Atraída pela luz duma vela, uma Betularia negra, uma bela duma mariposa, enfiou-se quarto à dentro. Foi um deus-nos-acuda. Ficou tudo revirado, lençol e colchão chamuscado, e o cheiro de pano queimado permaneceu por um bom tempo. Tinha mania de colecionar coisas, chaveiros, grampos de cabelo, fitinhas de pulso. No último aniversário ganhara um par de pantufas que imitava o rosto duma tartaruga, o que já rendera bela discussão com Jéssica que teimava que era o rosto dum sapo. Num diário escrevia coisas, que a ninguém mais além dela própria era capaz de revelar. De como queria que seu quarto tivesse uma janela enorme, que desse pra ver a rua. E quando viesse o inverno pudesse ver as nuvens despencando do céu. E como queria correr na chuva, só de calcinha. De como às vezes desejaria ser um daqueles meninos pobres, que ficavam o dia todo na rua, e quando chovia como naquele maio, ficavam brincando na sarjeta. Acompanhando a fantástica viajem de seus barquinhos de papel, vencendo o aguaceiro até a bueira no fim da ladeira. E doidos desembocavam no rio, dando adeus a seus donos. Pra debaixo das bicas corriam, a receberem o forte jato que lhes feriam a cabeça, quase a despi-los dos seus trapos. Ficava pensando quem cuidaria deles depois dali. Quem lhes enxugariam os corpinhos magros. Quem lhes envolveriam em lençóis, e lhes serviriam biscoito e uma xícara de leite quentinho. E já bastante fatigados deitariam numa cama conciliariam o sono e sonhariam sonhos onde podiam voar sobre um mar bonito. Voando rumo ao horizonte, a encontrar Peter Pan, na terra do nunca. Suas mães a beira do fogo de certo cantariam cantigas antigas, que falava de bois da cara preta, de pavão em cima do telhado, de ir à Espanha. Enquanto o bule fumegante deitaria um líquido aromático, numa xícara branquinha de dar dó.

“Fui à Espanha buscar meu Chapéu

Azul e branco da cor daquele Céu

Olha palma, palma, palma. Olha pé, pé, pé

Olha roda, roda, roda caranguejo Peixe é.”

Ana Jéssica gostava mesmo de ouvir música de rock’n roll. De ouvir coisas do passado, de fotos antigas. Influência do pai, que era fã dos Beatles, tinha uma guitarra e uma réplica duma Halley Davison. Nos finais de semana, ia a encontros de motoqueiros muito, muito longe, e nunca a levava. Sempre deixada na chácara do tio Armando, ou no sítio de vô Rosalvo e vó Isabel. Preferia a guarda dos avós, ali os abusos eram mais tolerados. Sempre voltava de lá com uma relíquia, tirada dum velho baú de maçaranduba, enlaçado por dois cintos de couro curtido e ensebado. Da última vez ganhou um broche dourado pertencente ao seu bisavô, condecorado por ocasião do sesquicentenário da independência em Brasília. Trazia as efígies, dum lado Bento Gonçalves do outro Anita Garibaldi. Com muito orgulho exibiria entre os colegas da escola, a honra ao mérito do pai de seu avô coronel Idelbrando Costa Rêgo que havia lutado na revolução Farroupilha. De tardinha dava sempre um jeito de assaltar a dispensa, com direito a rapadura batida, mel de mandaçaia, frutas cristalizadas. E tinham os passeios a cavalo quase sempre sem hora pra acabar. Dentre as três meninas, era ela a que mais se preocupava com a aparência. Ainda mais por ser rechonchuda. Brigava com a balança, com os meninos que lhe apelidavam, e com as roupas que iam cada vez mais ficando apertadas. Esse incômodo compensava sendo ainda mais extravagante. Caprichava na maquiagem, no uso de bolsas, colares, pulseiras, cílios postiços e penteados estrambólicos. Gostava do jeito escrachado de Elis Regina. Outro dia, ao sair da escola se inventou de passear na garupa da lambreta de seu primo Plínio, em plena rua acabaram caindo os dois. O que lhes renderia um braço quebrado uma perna luxada. Duas semanas encima duma cama, sem sair de casa. Vieram visitá-la os primos, tias, e a turma da escola. Todos assinariam os nomes no cano de gesso.

“Passarás passarás um delas a de ficar

Se não for a da frente a de ser a de detrás

De detrás de detrás

Tenho dois filhos pequeninos

Não posso mais demorar, demorar, demorar”

Veridiana queria ser guerrilheira das tropas Somozista na Nicarágua. Um dia ainda conheceria aquele mundo mostrado na revista National Geographic. Desbravaria sertões, florestas. Escalaria montanhas, encontraria uma cachoeira, ou quem sabe uma caverna, nunca dantes visitada pela civilização, a qual daria seu nome. Apaixonada por tudo que lembrava natureza. A irmã mais velha Suzy Morgana sua fonte de inspiração era bióloga. Imitava-a nos modos de vestir e pentear-se. Até nos trejeitos das mãos, da entonação da voz. Vez outra levava uns sopapos, por pegar, sem autorização, coisas emprestado, sutiãs, batons, perfumes, aos quais jamais devolveria. Pela fresta da fechadura da porta contígua a sala de estar gostava de espionar o namoro da irmã. No espelho do toucador borrava todo de baton a ensaiar beijos que um dia daria no namorado que um dia teria. Várias vezes viu os namorados trocando carícias viu quando fumavam escondido, e abanavam a fumaça pra rua. Enchiam a boca de chicletes se percebiam que vinha alguém. As guimbas enfiavam na caqueira de samambaias e avencas. Veridiana guardaria ainda um trunfo que usaria para chantagear a irmã, viu-a livrar-se dum monte de comprimidos anticoncepcional enterrando-os no estrume dum pé de Crote. Dias depois sua mãe, elogiava de como vistosa e revigorada estava a planta.

“Minha gatinha parda

Com certeza que sumiu

Onde está minha gatinha

Você, sabe? Você sabe? Você viu?”

Três meninas, sentadas nas poltronas de veludo azul do salão paroquial. Cochilavam umas encostadas nas outras. A noite, haviam passado em claro. No velório do vô Rosalvo. Porque tivera que morrer justo na semana dos ensaios das apresentações, pelo dia das mães na escola. Amanda e Veridiana viram Jéssica voltar do banheiro chorando. Buscou o colo da mãe. Pensaram que era ainda comoção pelo avô, na verdade naquela manhã foi pro banheiro menina e voltou moça. As mãos alvas de sua mãe seguravam um buquê de flores, os dedos longos as unhas pareciam pétalas afagaram os cabelos da menina-moça. Arqueou a boca que dali a pouco beijaria o rosto gélido do pai. Boca com gosto de café requentado. Boca de toda manhãzinha mastigar pão de queijo antes de levar Jéssica a escola. Boca de gritar que meio dia não era hora de tomar sorvete, pois não teria fome pro almoço. Boca de rezar Ave-Marias apressadas para a filha e as amigas da sua filha. Nunca conseguindo terminar. As últimas palavras vindo morrer nos lábios quando já estava deitada. Antes de dormir Veridiana olhava fixo pra bailarina de porcelana sobre o criado mudo, sob a luz do abajur. Jéssica abraçada seu gatinho de pelúcia se sentia tão mais protegida. Amanda deitada, ainda de olhos aberto, olhava através de sua imensa janela imaginária e via um céu de maio. Repleto de nuvens carregadas, dali a pouco ia chover. E no meio da praça três meninos, andando de bicicleta.

Fabio Campos 18 de maio de 2015

20 Maio

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O ROUXINOL,A COTOVIA

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Três pés de coqueiros lá longe. Meio caminho andado do horizonte. Um cachorro beirando a estrada, vindo. Um cavalo comendo capim, tão próximo dava pra ouvir a respiração. “-Vô, cavalo é menino ou menina?” “-Este de cá é menino. Aquele é menina.” Um homem de chapéu de palha uma corda na mão. Alto, esguio,de tudo se apossou, da estrada, da história, do cavalo que comia.

No alto do morro um castelo todo branco,abrigava sonhos. A entrada ficava do outro lado. De cá dava somente pra ver as janelinhas, que olhavam. Um caminho velho de terra, antigachegava chorar de tristeza. Outro homem triste de longa barba e olhos de por medo, vinha. A muito tempo vinha, e ia. Já perdera a conta das vezes que vinha e ia. Uma vida inteira indo e vindo. Uma morte inteira, indo e vindo. Onde estaria Justino? Também um dia tornara-se dono daquela estrada, sendo parte da história daquele bairro afastado. Ninguém mais entre os viventes sabia disso. Muito tempo se passara.Meu Deus, e Firmino? Onde estaria? Os novos moradores jamais buscaram conhecer o que havia ocorrido, no passado. Sabiam apenas que Firmino era pai de Maria de Lourdes, que tinha vitiligo. E esta, era mãe de André, Andreia e Melissa que não tinham a doença. Noutro dia dois moleques acuaram Firmino no ermo da estrada, e roubaram-lhe os pertences, uma velha carteira de couro um canivete, cabo de madrepérola,de tanta estima. Carteira e documentos, jogados à beira da estradanoutro dia a neta Andreia encontraria.O canivete nunca mais. Tinha ido ao banco sacar o dinheiro mensal da aposentadoria. Venceram-se as contas de água e luz. Nada pode dar no mercado. Meu Deus que mês difícil de varar! Na rua dos homens,viera um que estava embriagado. Era sábado e vinha da feira, nada nas mãos. Ficou paradono meio da rua. Feito estátua balançando, preste a desabar, gesticulava,ao vento dizia. Como quem conversava a um interlocutor invisível, inexistente para quem apreciava. Na verdade um velho amigo. O vigilante noturno em plena tardeapareceu, na porta da casa do irmão. Chegou numa motocicleta vermelho cromada, afrontou o azul do céu, de nuvens brancas sucumbidas por outras cinzastúrgidas de água.A casa do irmão também vigilante.Havia sido morto num outro dia de sábado. Era noite, e vigiava o posto de gasolina. Recebeu dois tiros pelas costas. O sangue no calçamento da cor da luz da ambulância ainda que muda, gritava em vermelho. Nem tudo que estava lá era mentira. E se fosse, seria uma mentira diferente. Assim disse Thomas.

Pelo menos três crimes haviam ocorrido naquele mesmo lugar. O vigilante noturno, odono do posto de gasolina, um motorista de carro de aluguel. Infelizmente, nenhum dos três jamais fora justiçado. Na época, a lua ensanguentada disse lágrimas. Ficou querendo se esconder atrás dumaspoucasmanchas escuras, quando viu que não tinha jeito, se obrigou a assumir toda formosura.E vieram outras tardes. O homem da motocicleta ficou na varanda da casa do irmão, esperando que aparecesse alguém pra conversar. Toda tarde ia lá, desde quando ainda estava nesse mundo. Continuou indo depois do ocorrido. Queixo apoiado sobre os braços cruzados sobre o balaústre da casinha singela, esmeradamente pintada de verde. O próprio dono a pintara. Casa de uma única janela, como nos contos de conto de fadas. Pra varrer a poeira e as folhas secas trazidas pelo vento,aparecia a cunhada. Lenço amarrado na cabeça. Com a vassoura tangeu ciscos, e o espírito.

E tinha a louca. A mulher que perdera a lucidez. Em idade avançada à sensatez perdera. Alguns diziam que eram males de família, outros que estaria possuída. Na verdade talvez se sentisse perseguida, odiada, injustiçada. Por todos e por tudo era onde residia o incomum. Imprecações ditadas ao vento contra todos.O próprio vento inimigo mortal se tornaria. Tratamento a base de psicotrópicos, pouco adiantaria. Ao contrário piorara até. As cenas do rio com muita nitidezviriam, não sendo nada bom rever. O rio havia se tornandoameaça. Afilha do rio ameaça ainda mais forte se tornara. Eliminá-los tarefa nada fácil. A mãe, pobre mãe,sofria sem nada poder fazer, a não ser morrer.O que aos lunáticos estaria de bom tamanho. Os irmãos se vivos estivessem jamais podiam admitir aquilo. Nada, nem ninguém jamais poderia ser empecilho na vida de quem quer que fosse. Ninguém precisava morrer pra que todos fossem felizes. Que outros planos não revelados totalmente, ainda mais escusos haveriam por trás de tudo aquilo? Naqueles outros planos talvez não se admitisseretrocesso. Voltar a viver na casa paterna era retrocesso. O mundo crudelíssimo carecendo o tempo todo de significados plausíveis. Viver infelizmente era algo que necessitava de significados. Com mil diabos! Nada fazia sentido naquele momento! Deus devia ser um cara de muito péssimo humor. Era o que pensava naquele instante. Primeiro fazia as pessoas avançarem e depois tinham que recuar. Depois de tantos avanços! Voltar séculos de suas miseráveis vidas em torno de um alguém que evidentemente não mais fazia o menor sentido. Preciosíssimos momentos infelizmente seriamperdidos.

O anjo negro sempre presente. Não aparecia, ninguém via, mas estava lá. Aconselhando sempre pro mal, como se fosse pro bem. E os dias molhadostanta falta fazia. O outro avô de Thomas chamava-se Tomaz. Todo dia ia pra roça, um homem pacato, feliz pela vida que sempre vivera. Realizado pelo que construíra. Filhos, roça, a barbearia,a gaita no cair da tarde. Um cigarro pitadodepois das refeições. O que mais poderia almejar. A outra vó na sua altivez nunca se escusava de dizer o que não lhe agradava. Sempre sublinhava: “-Pra mim, isso não se cria.”também “-Não vejo graça nisso.”Tantas vezes ouvira dizê-las. Não concordava com o jogo de baralho detodas as noites que vô Tomaz inventava. Mais ainda nos finais de semana. Sempre na casa das meninas. Das bandas de Pernambuco vindas. Na língua da ruatão faladas coitadas. Final de rua, donde a lua sorridente, no começo da noite vinha. Alta madrugada retornava a casa. Por outro lado, não concordava elecom o compadre, que toda noite pra cozinha da comadreindo, prosear até altas horas.Pouco se importando com a ausência do compadre.Naturalmente discutiriam a respeito. No calor da discussão foi chamado de idiota. Questionou que ninguém merecia por tal nome ser chamado. A própriabíblia condenava. Quando isso acontecia ia dormir numa camarinha de vara, coberta com um tecido de linho que pegara seu cheiro. Outro ia deitar alipra sentir sua presença. Coisas de muitos anos passados, vindo. Ditados que nunca mais ouvira repetir: “-Meu Deus do céu, quem morre deixa o chapéu.” E realmente deixou. De massa, era preto. Todo domingo levava pra missa. As enormes pilastras laterais da nave central,coalhadas ficavam de chapéus. Todos já se foram. Os chapéus ficaram.

A Cotovia. A avó que Thomas jamais conhecera todas as manhãs lhes vinha. Do mesmo jeito que ia pra roça, na estrada que era dela. Estrada que ia construindo todo dia. Cantando cantiga de lembrar passado. No limiar de cada manhã vinha. Ainda Thomas se preparava pra ir pra escola. E lhes vinha a Cotovia. Através da janela Thomas via a ave cantando, sobre um dos fios de telefone cantando. Juliana lhe dando banho, perfumando, colocando-lhe a farda.Ao descer as escadas do apartamento dizia: “-Mãe aquela passarinha gosta muito de mim.” Juliana concordava “-Está bem Thomas ele gosta.” “-Não é ele mãe é ela! Éum passarinho menina!”

O Rouxinol. O avô que Thomas nuncaconhecera, embora todas as noites lheviessem. Na antiga fotografia jubilada, que pena alguns daqueles se tornarammaus. Do mesmo jeito que ia, no meio da rua dos homens vinha. Pra casa de jogo das meninas,vindas das bandas de Pernambuco. E punha a cantar seu canto que ia até a janela do seu quarto. E era um canto que desejava que ele fosse muito feliz. Não era pra ser um canto triste, mas acabava sendo.Três pés de coqueiros que de noite dava pra ver só a silhueta. Estavam lá ornando o imenso jardim da universidade. Até vir o raiar do dia e o canto da cotovia permaneceria lá.

Fabio Campos, 11 de maio de 2015

08 Maio

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A CORUJA, O CONDOR

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

As coisas todas do mundorevolveram a maio de 1976. Em recordações viera quase tudo daquele tempo. Ainda que já houvesseDeus concedido às cores as coisas todas. Relembrar o passado, mecanicamente, só se podia em preto e branco. Apenas a natureza,e os olhos, conseguiam perceber tudo como realmente era. Sonhar, as noivas podiam. Inclusive com buquês de flores, de rosas vermelhas que levariam consigo. Talvez com os dias contados estivesse otão esperado dia de casar. Feijão e milho na roça, se acordando. Debaixo do sol, se espreguiçando. Se preparando pra abençoada colheita. Aos trabalhadores, o primeiro dia daquele mêsdedicado garantindo-lhes o sábado de descanso. Também os negros, no décimo terceiro dia, uma quinta-feira, outra vez eram libertos. As mães, no domingo, ganhariam presentes. O calendário sorria. A folhinha do coração de Jesus falaria de sabiás, de beija-flores,de bem-ti-vis, da Santíssima Virgem e a aparição de Fátima. Dúvida não havia, era maio. Mesmo que tudo estivesse em preto e branco, era maio de 76.

“Ao ver passar no céu as andorinhas

Eu sinto saudade do meu bem

Que talvez me espera

E também desespera”

A manhãzinha vinha que vinha, rodeada de mato. Permeada de veredas, e estrada,enquanto aguardava o sol, que ao chegar tudo expondo a se esquentar. Bem devagarinhoafastaria o terral, e o céu noturno. Fazendo ir-se embora negro frio,da cor de escuro. Tonico era apenas um menino, ao pé da estrada. Se tivesseno que pensar pensaria num céuazul e branco,da cor de sua farda. E no seu céu particular poria umpomar, uma jaqueira, pião, estilingue, passarinho voando pro mato, açude com água por cima. Eo campinho da propriedade de Seu Doroteu, onde mais tarde se encontraria com os amigos, jogaria bola. Roncando na estrada de barro, a camioneta de Seu Antônio vinha que era vindo. Do sítio pra Vila todo dia, ia e vinha. Mansamente desencostando-se da estaca Tonico esticava o braço. Solícito o automóvel parava. A carona detodos os dias, na idapra escola rural do Sítio Santo Amaro, de manhã. Manhãs de estudo. Mais tarde, tarde de trabalho os campos lhe aguardavam. Seolhasse pra casa de Rute, encontraria Seu Irineu sentado no alpendre, olhando com olhar de quem pensa, bem lá no ponto exato onde o mundo aqui do chão, se encontrava com as nuvens lá do céu.E o canto de estalo do pintassilgo, iaque ia longe. Vadiando pelo oitão da tapera, indo amarelar o gomoso cheiro do fruto da carambola, admoestados pelas melipondias. Aquela altura Seu Irineujá havia trazido água pros cochos do curral. Água sofrida, água chorada, água de canto, de carro de boi cantador. Benfazeja colhidados tanques do lajedo chamados de caldeirões. Cedo ainda ia o dia, e tudo já estava quente pegando fogo. O gado, cabisbaixomansamente catando verde verdinhomato, relva de maio. A menina na janela, da casinha velha encostada ao pé do lajedo, era Elisabete. Olhava o que já estava enfastiada de ver, céu bonito, mato, roça e serra. Farta daquela voz fazia de conta que não ouvia dona Gersina lá na cozinha. Falando do que as meninas de sua época brincavam antigamente. A dizerque seu pai costumava, ir lá nomato, tirava uns galhos de catingueira. E fazia móveis pra ela brincar, cadeirinhas, mesinha, uma caminha. Os pratinhos, os talheres e a chaleira, de barro de louça. Essesela mesma fazia. A boneca uma calunga de pano. E sempre ao cair da tarde, depois de lavado os pratos, estendidaasroupas no varal e varrida a casa. Com as amigas, ia pra debaixo duma baraúna,brincar de boneca. Hoje em dia o que pensam essas meninas, em namorar e se formar nas escolas da cidade.

“Passarás passarás/ uma delas há de ficar

Se não for a da frente/ há de ser a de detrás

De detrás, de detrás.

Tenho meus filhos pequeninos/ não posso mais demorar

Demorar, demorar”

Eo que parecianormal, já não o era tanto assim. Talvez maio já não fosse mais. O estado de guerra vivido no Vietnã em nada, ou quase nadainterferia paraos que viviam no sertão. Em nada influindo para que se tornasse nem mais, nem menos triste. Continuava a mesma vida, entre os de cá, ou ao menos uma perspicaz tentativapela permanência do que havia. Enquanto isso o agricultor pensava: “-Quem será que inventoua ‘tá’Festa do Feijão?”E lá do outro lado do mundo a OPEP, a OLP de Yasser Arafat, o estado islâmico de Aiatollah Khomeini,longe estavam de por fim a crise noOriente Médio. E o sertão ainda era o mesmo,silencioso, macambúzio. De que modo coisas outras que ocorriam mundo a fora poderia nos afetar? Explicar isso era tarefa para o professor lá na sala de aula. Papa Pio VI, semblante sereno no jornalestampado, de lá da janela do Vaticano pedindo paz ao mundo! Na cozinha dona Boninha, com um lenço amarado na cabeça, a beira do fogo, punha vigília ao bule que dali a poucoliquidamente verteria seu conteúdo negro no oco branquinho duma xícara em cima da mesa, forrada com forro de xadrez e franja verde esmeradamente bordada. A porção Gaseificada da infusão indo,a excitar narinas e cérebros, evocar outros desejos. E dona Quitéria, irmã de dona Boninha escutava o rádio de móvel. Emesmo sem olhar pro louro atrepado no poleiro perguntava: “-Tu sabe o que é bomba atômica “meu” louro?”Esticandoe encolhendo o pescoço várias vezes, o papagaio respondia: “-Avé, Avé, Avé Maria!” E os meninos instigavam “meu” louro a dizer a reza inteirinha e sorriam dele. Depois corriam lá pro terreiro a brincar. E pediam pra Seu Severino destampar o enorme tacho de fazer sabão, fervendo, fumegante. E queriam saber porque de vez em quandoera destampado e mexido com uma enorme colher de pau, que mais parecia um remo. Dona Berenice a vizinha chegava trazendo massa puba e nostalgia. E dizia que não lhe perguntassem porque, mas toda vez que comia tapioca com coco bem quentinha, se lembrava do presidente Jango,de sua morte inesperada. E repartia a dúvida: Como teria sido o enterro? Certeza que teria sido muito bonito. Dona Quitéria emendaria que a ela, era o cuscuz amarelinho, cheirando no cuscuzeiro que lembrava-lhe Juscelino Kubstchek. Ó tãotrágico acidente que lhe tirara a vida!Teria sido um atentado? Quem porventura desejaria ver morto um homem tão bom? O acender ocachimbo lembrava a Seu Severino, Getúlio Vargas. E jamais esqueceria que durante o estado novo mandara queimar sacas e mais sacas de café, somente pro “pretinhoabençoado”, das mesas do povo brasileiro, subisse de preço.

“Como poderei viver/ como poderei viver

Como pode um peixe vivo/ viver fora d’água fria

Como poderei viver/ como poderei viver

Sem a sua sem a sua/ sem a sua companhia

Dona Tereza a mãe de Tonico dizia em tom de seriedade que aqueles meninos não tinham ideia do valor que era abrir a torneira e ver a água jorrando da mangueira no capim verdinho do jardim. E o sol brincado com as gotas flutuantes daria de fazer um arco-íris particular pros netos de Seu Libônio. Algumas vezes era vista chorando realizando o simples gesto de lavar as mãos. Seu Fernando já morrera, na verdade todas as pessoas daquele maio já morreram. Ainda que vivessem eram outras pessoas agora. Com outros pensamentos, valorando outras coisas que nem existiam mais naquele maio. Bom seria se tivessem vivido o suficiente pra dizer como era. Quem sabe onde estaria o ator daquele velho filme, tão jovem na trama? Já envelhecido em 76. Os filhos se envolveram com drogas, casaram e agora eram avós. Usara tanta LSD porque na Califórnia era liberado até 1977. O vô de Tonico Seu Guilherme, era de maio. No seu aniversário gostava de tomar um bom uísque ouvindo Elvis, e fazia o Long Play repetir várias vezes a música “It’sNoworNever”. Ao cair da tarde, Tonico e Elizabete no domingo iam à matinê. O filme estava tão sem graça que acabaria adormecendo. Depois iam tomar sorvete na sorveteria Maringá. Punha um pouco de guaraná no creme e ficava olhando a taça quase com a sublimação transbordar. Cadeiras e mesas de fórmica com madeira e ferro, o piso num mosaico estampado formado figuras geométricas, na propaganda de Coca-Cola a garotinha loira sorria um sorriso efusivamente americano.

“It’s now or never

Come hold me tight

Kiss me my Darling

Be mine tonight

Tomorrow will be too late,

It’s now or never

My love won’t wait”

Era uma vez uma coruja, e um condor. Não simples aves, como já as concebemos. Muito menos protagonistas de fábula de Cristian Hansen. A coruja de que falamos veio vindo sorrateira pousar sobre a bandeira dos “Iluminados”. Uma ordem fundada em Baviera,no dia primeiro de maio de 1776. Isso aconteceu na famosa noite de Santa Valburga. Um grupo de jovens de idade semelhante a de Tonico e Elisabete inflamados por um ideal revolucionário pretenderam mostrar ao mundo que pela forçaduma ideologia poderiam mudar o destino da humanidade. Dois séculos depoisTal sociedade secreta aportouno Brasil. Nestas paragens seria representado pela figura doutro pássaro, o Condor. As asas do tempo recrudesceram. Jango, J.K. eCarlos Lacerda, três ferrenhos oposicionista ao regime militar intrigantemente em menos de um anomorreriam de forma trágica. Sendo o último, justo no mês de maio. Em 21 de maio de 1977 para ser mais exato.

Fabio Campos 05 de maio de 2015

28 abr

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Juvenal e Soberano

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Juvenal era assim, um homem montado a cavalo. Porque tem pessoas, que nos vem. E lembramos pelo que faziam no mais da vida. Deles que nem sabemos se entre os viventes ainda habita. Outras coisas mais acabam vindo, de como se trajava, os ambientes que gostava de frequentar. Chegam-nos por fim, o caráter, a personalidade, os trejeitos. Se a muito não vemos, remetemo-nos irremediável, a uma imagem concebida. Nosso personagem era assim por se dizer, uma pessoa difícil. Nesse lastro de mundo, que Deus fez pra ajuntar miséria, chamado de sertão, quando se falava duma pessoa feito Juvenal, não raro, as pessoas se benziam. E com os nós dos dedos batiam na madeira, volvendo ao santo de devoção, um pedido, para que longe de si mantivesse o que tinha vindo em pensamento.

Quando isso, porém não era possível, então diriam: “Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece.” E lá estava Juvenal montado no seu cavalo. Certeza tinham os que viam, não se tratava de nenhuma visão do outro mundo. Cavalo e cavaleiro, tudo muito real. Aliás, real demais. O bodum exalado, a capa de poeira volvida sobre si, o toque-toque dos cascos do equino, arrancando lascas do terreno de cascalho. Por mais que nunca tenham consciência disso, o que estar montado exerce empatia de imponência, de respeito, sobre os que não montam. Sendo que animais e seus donos possuem certa simbiose. Como se um ao outro entendessem o pensamento. Rastros de identidade no caráter e mesmo de semelhanças físicas se percebia. Nas crinas longa e negra, nas canelas finas, ao tempo, rijos músculos, bronzeados de sol. Suor e urina acidificando o couro, os pelos, os apetrechos de um, as vestimentas do outro. Num trote preguiçoso porque não havia necessidade de marcha mais desarnada, não naquele momento. Se lhes perguntasse não saberia dizer, de certeza, porque seguia. Acompanhava o cortejo da via sacra, em plena sexta-feira santa. A encenação da paixão de Cristo. Numa frieza quase desumana, como um ser doutro planeta. Como se os passos sofrido de Jesus, ainda que numa encenação, causasse a menor estranheza. Um dos centuriões de Pilatos que ia de largo, evitando que o cavalo pisasse alguém da multidão sequer lembrava. Aqueles ao menos demonstravam ira, escarneciam. Não era apenas a certeza de que tudo era de mentira, que um nada de sentimento esboçava. Interessava-lhe entender porque as pessoas faziam caras de pena, diante daquelas cenas sabidamente simuladas. Se não sofria de verdade, não entendia. Uma coisa ninguém sabia, Juvenal tinha visões.

Dom Quixote de La Mancha. Era isso! Talvez estivéssemos ali, em pleno sertão nordestino, diante do herói, anti-herói de Cervantes. Dom Quixote e seu cavalo Rocinante, vivendo suas peripécias em plena selva branca. Seu fiel escudeiro Sancho Pança, não sendo de carne e osso, um fantasma, com quem conversava a todo tempo. O homúnculo do burrico, na verdade seu subconsciente, a que suas atitudes, ora aconselhava, ora recriminava. Não saber ler Juvenal, compensava com uma memória prodigiosa. Se ia pra feira da Vila, ficava horas a ouvir os vendedores de livretos de cordel, e as incríveis narrativas das aventuras, de Davi e Golias, Sansão e Dalila. Do príncipe Romuldo, a loba Rosadina, e a princesa Teodora. Ouvia e memorizava verso por verso, uma vez retornado pra sua casinha nuns cafundós onde Judas esquecera as botas. Ao cair da noite, hora de namorar a lua, de tomar banho de estrelas, coroava tais momentos repetindo com precisão fidedigna para os seus, as histórias ouvida dos mercadores de palavras cantadas. Aragão e Catalunha, pra nós, eram os povoados de Piau e Caboclo. As incursões do nosso personagem tinham por cenário o vaso da Catarina, as margens do “velho Chico” na parte cheia de “Canyos”. Juvenal dedicava particular atenção aos modos das pessoas, interessava-lhe o comportamento humano. Fascinava entender particularmente, a raiva, o rancor, o ódio. Que dor doía mais, a dor física ou a do coração? Curiava saber por que ele nunca sentira tais coisas? Não porque não quisesse, queria até mesmo um dia sentir. Já se envolvera em brigas. Acabaria tornando-se assassino por conta de uma. Num dia de feira que tirou pra beber, dentro do cabaré de Zuleide e Gracinha. Se encontrou com Mauro que tinha o apelido de Lobinho, e um fez companhia ao outro. Exaltados os ânimos começaram a se estranhar. De verdade estavam com o cão no couro, perdeu as estribeiras Lobinho e atacou com uma faca o companheiro de mesa de bar. Defendendo-se Juvenal, com a mesma faca matou o cabra. Mas esse nem fora o primeiro, nem seu último crime.

Napoleão e seu cavalo Le Visir! De fato era com quem Juvenal e Soberano pareciam. Além de gostar de cavalos, outras semelhanças mais, vamos encontrar entre o imperador Francês e nosso camponês. Na estatura, na cor da pele, no cabelo revolto. De certo que o de cá, não nascera em família nobre, no entanto como aquele, fora o segundo dentre os oito filhos que seus pais, José Maria e dona Otília da Conceição teria posto no mundo. Com muito sacrifício criaram: José, Juvenal, Luciene, Elisa, Luiz, Pauliano, Carolina e Jerônimo. O caráter rebelde e indisciplinado rendeu-lhes castigos severos, Por desobediência a ordens paternas, amargaria noites e dias trancado num quarto sem comer. Assim como o monarca, nascera no dia 21 de julho, duzentos anos apenas separava os nascedouros 1971. Mania tinha de andar com a mão sobre o abdômen, sem com isso tivesse, como aquele, problemas de úlcera estomacal, mas unicamente para manter contato com seu segundo maior amigo, o revólver calibre 38, carregado de balas. Com a máquina de fazer buraco em gente, mandou uns tantos de almas sebosas pra “Terra dos Pés juntos”. Encabeçou esse rosário macabro um preto velho, metido a curador. Foi assim, um dia dona Otília foi tirar barro de louça pra fazer umas panelas e acabou mordida por uma cobra venenosa. O tornozelo inchou na mesma hora, ficou preto da cor de carvão. Uma vez em casa, colocou encima do ferimento seiva das folhas de barbatimão e a gosma da Babosa. Tonta e muito fraca, prostrada ficou numa cama. Deram-lhe de beber um chá de jalapa, que de nada adiantou. Se queimando em febre, trouxeram um rezador que atendia na feira do povoado Caboclo. O preto velho aprontou um remédio que incluía óleo de baleia, pó da canela seca de Siriema, espinhas do peixe Cará, pena de papagaio novo que nunca falou. Tudo isso tinha o benzedor. Já fedida estava a ferida, deu gangrena. Então colocou raspa do entre casca do mulungu e enrolou com um pedaço de pano branco contendo maniva da mandioca brava. Depois de três dias delirando dona Otília morreu. Juvenal simplesmente esperou o sábado. Assim que o negro chegou pra começar o dia, nem bem armou a barraca, recebeu inteirinha a descarga do revólver. Seis tiros na caixa dos peitos. Juvenal tranquilamente saiu caminhando, montou Soberano e se foi. O que sentia era satisfação do dever cumprido. Certo de ter praticado justiça.

Alexandre “O Grande”, mais que a uma mulher formosa, amava Bucéfalo seu cavalo. Igual sentimento devotava Juvenal por Soberano. Eram reflexos um do outro, simplesmente extensão e reflexos. Dizem que Alexandre tanta paixão sentiu ao ver o cavalo pela primeira vez, ainda selvagem cavalgando nos prados no meio de um tropel, que passou três dias seguindo-o e apenas observando-o. Uma vez capturado preferiu ele mesmo domar. Sofreu ao tentar montá-lo descobriria tempos depois que se assustava com a própria sombra. Entre Juvenal e Soberano ocorreu exatamente o contrário, o cavalo que era de outro dono ao vê-lo cismou de segui-lo. Juvenal era desses matutos arredios que se espantava com qualquer coisa. Achou que aquele cavalo estava possuído e que tivesse parte com o tinhoso.

Um dia estava tudo muito tranquilo, uma paz que aqueles que já cometeram coisas graves ficam assim muito ressabiados, preparado pro pior. E sempre acaba acontecendo. Mataram Seu Adonias pai de Juvenal. Pensou logo nos seus desafetos. Mas havia sido por questões de demarcação de terras, Juvenal ficou muito triste. Durante o sepultamento jurou vingança. Antes de descer o caixão à sepultura colocou uma moeda na boca do finado Malaquias. O próprio demônio lhe contara, numa das vezes que se viram, que antes das portas do inferno e do purgatório existia o rio do Limbo. As margens haviam dois barqueiros, irmãos gêmeos, Caronte e Corante esperando os espíritos desencarnados pra fazer a travessia. Juvenal recomendou: “-Vai meu pai na frente. Não tarda irei eu também.” Uma rabeca gemeu em duas notas que lamentava a morte e convidava ao choro. E concluiu: “-Peço que quando eu morrer matem meu cavalo. Pras terras dos mortos, pra onde irei, quero ir montado em Soberano.”

Fabio Campos 16 de Abril de 2015

21 abr

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SOL E LUA DE BETÂNIA

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Lá estava o aglomerado de casas, quase rústicas. Vistas de longe assim, falava duma nesga de cores pálidas. Os tons de branco destacavam-se formidavelmente. Nas fachadas de tijolos rebocados e caiados. Donde alguns quantos se destacavam. A torre da igrejinha. O balaústre do mirante do açude. O muro do cemitério. Ecomo querendo também compor excepcional quadrante, flutuantes nuvens destacavam-se lá no céu azul de anil de Betânia.

O tudo que se via, o olho do condor era que via. E os que lá embaixoviviam,ainda estes, e àqueles pormenores não viam. Talvez soubessem, ou tivessem ideia ao menos,que existiam. Duas mil e poucas almas habitavam corpos, que habitavam casas, que compunham paisagens. Sem se darem conta que o eram mesmo sendo. Obcecados na tarefa de gastarem vidas viviam. Laboriosos na mais relevante das ocupações, a de viver viviam. O carreiro carreava o carro. O menino brincava de ser ele mesmo. O mercador mercantilizando palavras. O cachorro deu com o rabo no ar, vã tentativa de espantar o tédio, de ser cachorro. Todos protagonistas de si mesmos. Mas se encenavam suas próprias histórias, aquele eratempo de viver outra encenação. A da Paixão. Teve início num pedregulho que tinha ao lado do campo de futebol. Abandonado naquele momento porque era sábado de aleluia. E como era semana santa ninguém queria jogar bola pra não ser taxado de Judas. O lajedo excelente lugar para a cena do sermão da montanha. O que recebeu o nome de Jesus seguiu andando, acompanhado dos doze. Na casa de Seu Zacarias o burrico atado, que foi requisitado por dois discípulos para que se cumprisse a palavra. “Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte Jerusalém! Eis que o rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. Zacarias -9.”

Uma pequena multidão seguia. O público quis também participava de cada cena. Na hora de acenar com os ramos de palmeira acenaram. Acompanhavam e gritavam junto com os atores: “-Salve o filho de Davi! Hosana! Hosana!” A Betânia verdadeira ficava a milhares de quilômetros dali, do outro lado do Atlântico. Tão distante do sertão e da caatinga. Betânia ficava só a três quilômetros da cidade velha de Jerusalém e do Monte das Oliveiras. Bethania em grego, Bét-nyyah em hebraico, “casa de Ananias”, “casa dos figos verdes”. A cena da última ceia do Senhor ocorreu no patamar defronte a igreja. O Jesus adolescente de barba rala, cabelos revoltos, e pele morenada pelo sol do sertão, partiu o pão e distribuiu entre os doze. Elevou o cálice a cima da cabeça e compartilhou. Seu Luizão sapateiro quis fazer o papel de Judas. Uma cena das mais difíceis, o pobre discípulo condenado a ser o traidor, em desespero perfeito na arte do fingimento. Com força atirou contra os paralelepípedos,o saquinho com as moedas que barganhou com Caifás pela traição do mestre. Quem terá sido os que pegaram as moedas? Haveria quem dissesse que cada um dos que pegou sofreu um mau presságio. As moedas que custou o sangue precioso de Cristo encerrariam maus desígnios para quem delas se apossaram. Um pastor de ovelhas depois de se apossar de uma daquelas moedas de ouro, numa tempestade repentina teria perdido parte das ovelhas do seu rebanho. Um agricultor, dizem que porque pegou uma daquelas moedas, amargou a ruina de ver sua lavoura toda perdidacom uma enchente que destruiu tudo.

“Mazurca velha mazurca/Dança grossa do meu sertão/ Quando toca uma mazurca véio macho cai no salão/ Dança duro batendo o pé balança a casa, balança o chão.” Assim dizia no rádio a canção de Luiz Gonzaga. Na vilaCandunda havia a tradição de se dançar mazurca. Por ocasião dos festejos juninos se dançava mazurca na praça. Desde a quaresma começavam os ensaios. Um grupo de meninos e meninas, outro de jovens: moças e rapazes. E outro de adultos e idosos. Todos participavam do folguedo. Trajados em vestes de poloneses os homens, de polacas as mulheres. Representavam agricultores da região de Cracóvia. A tradição chegou a vila trazida por um padre polonês. O padre chegou a vila no tempo da segunda Guerra Mundial, quando Hitler quis dizimar da face da terra, o povo Judeu.A igreja do povoado desenhada pelo padre tinha os traços arquitetônicos do Santuário da Divina Misericórdia, da capital polonesa, conhecido devido às aparições e revelações de Jesus, reconhecidas pela Igreja Católica, a Santa Faustina Kowalska. Os homens com seus chapéus verdes com uma faixa branca e preta ornada com uma pena vermelha. As mulheres tinham aventais com franjas e lenços coloridos na cabeça, toda vestimenta predominava as cores vermelho e branco da bandeira da Polônia. Era engraçado,pra quem jamais vira, os passos da dança. Uma fila de homens, outra de mulheres, realizava bela coreografia. Inicialmente soltos, cujos passos, cujo ponto forteera o bater dos pés, como um sapateado. Depois as duas filas se aproximavam e dançavam aos pares. A um toque diferenciado dos músicos e todos largavam seus pares e trocavam de parceiros. O fole, e a zabumba eram os instrumentos predominantes, o triangulo, o pandeiro e o pífano eram alternativos.

Betânia não vingou no sertão. O nome sugerido pelo padre polonês, foi aceito e bem acolhido somente pelos habitantes mais jovens. Entre os antigos moradores porém, Betânia jamais deixaria de ser Candunda. Os mais antigos, jamais se acostumaram com o novo nome sugerido pelo pároco. Canduda era espécie de peixe de pequenas dimensões, alimentavam-se basicamente de microrganismo disperso na água, que filtram à medida que sugam a água pelas minúsculas guelras, com a ajuda de branquispinhas, que são excrescências ósseas dos arcos branquiais (a estrutura que segura às brânquias ou guelras).O peixe candunda não vive em cardume e se reproduzem pouco com alternância da fase da lua entre a minguante e crescente. Faz do fundo dos açudes seu nicho, tem preferência pela profundidade onde possam estar livre dos predadores, os peixes maiores as tarrafas e as puçás dos pescadores. Ao atingirem a idade adulta não passam de 3 a 6 centímetros de envergadura. Na quaresma devido a época favorável a pesca, tornava-se presa do homem.Candunda dava uma prato típico do povoado a fritada.

Existia uma lenda sobre a chegada do peixecandunda na região. Dizia que os colonizadores desbravando os sertões chegaram à região montado em mulas e jumentos. Cansados de tanto andar debaixo do sol quente, a caravana resolveu descansar. Ao se aproximarem dum pé de uma clareira perceberam um grupo de mulheres morenas lavando roupa as margens dum lago no sopé duma montanha. Aproximaram e perguntaram se podiam pegar um pouco de água, as mulheres permitiram, desde que algo lhes fosse dado em troca. Com uma exigência especial: tinha que ser algo vivo que nunca tivessem visto. Não aceitavam as mulas pois já conheciam, nem carneiro pelo mesmo motivo. Entre os colonizadores havia um negro escravo com uma moringa de couro de carneiro, na qual disse que trazia uns peixinhos que pegara no rio Jordão. Pois diziam que quem carregasse daqueles peixinhos na moringa jamais morreriam de sede, nem nunca lhes faltaria água. Eles colocaram alguns dos peixes no lago depois se abasteceram da água de que necessitavam. O escravo disse as mulheres que era da aldeia de Candundo em Angola na África. O povo do sertão aportuguesou Candudo, pracandunda. Pondo estenome no peixe, por soar melhor. O negro se estabeleceu naquela aldeia. Constituiu família com uma daquelas mulheres. Teve um sonho em que seus antepassados teriam dito que se trocaram candudo pra candunda três outras palavras o povo devia também substituir dali por diante: Aldeia chamariam de Povoado, Lago seria Açude e Montanha sempre chamariam de Serra.

Sol e Lua eram duas meninas. Nascidas gêmeas. Filhas de Maria Lúcia e José Francisco. As meninas não eram idênticas. Uma tinha a pele morena como o pôr-do-sol. A outra tinha a pele alva como uma lua cheia à meia noite.Sol era franzina e de cabelo castanho encaracolado. Lua de mais estatura tinha cabelo preto escorrido. Sol, como o astro que lhe inspirou o nome era extrovertida, pra não dizer supervitada, que o matuto apelidara de “esprevitada”. Lua era a personificação da palavra recatada, tímida.

Um dia, as duas meninas juntamente com Júlio irmão mais velho se inventaram desubir a serra do Candunda. Naquele dia voltaram da escola mais cedo porque houvera festa pelo dia das crianças. Quando os pais descobriram o desaparecimento ficaram desesperados. Todo o povoado se mobilizou na busca. Logo a noite caiu. O céu negro-azul chuviscado de estrelas piscou-piscou pra o sertão se regozijar de encanto. Os aldeões vasculharam pelas cercanias em bandos, abriram picadas na mata com fações e tochas, e nada.De repente alguém notou um imenso clarão vindo do alto da serra. Todos se dirigiram para lá. E qual não foi o espanto de todos, encontraram as três crianças de joelhos adoravam a virgem Maria aparecida sobre uma rocha. De um lado da virgem santa era dia, do outro era noite.O padre polonês ao ver a aparição entendeu sua missão e disse aos que ali se encontravam de hoje em diante, a padroeira de nossa aldeia será Nossa Senhora da Conceição porque apareceu aquelas três crianças. E era o dia delas.

Fabio Campos 10 de Abril de 2015.


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